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Puta da Silva: “Preciso ver as pessoas imigrantes e transvestigéneres emancipadas e em ascendência”

Nome de destaque no cartaz do festival MIL, que volta a decorrer em Lisboa, entre os dias 28 e 30 de setembro, Puta da Silva canta os desafios e as personagens do processo de imigração do Brasil para Portugal. Em conversa sobre as suas lutas e criações, a artista deu-nos uma prévia do que apresenta em concerto.

Fotografia da cortesia de MIL Lisboa

Durante três dias, o Hub Criativo do Beato e o Cais do Sodré acolhem a convenção e a programação artística do MIL Lisboa. O evento deste ano parte do mote “descobre enquanto é segredo” para, segundo a organização, promover e internacionalizar a música popular. O produtor francês Lewis OfMan e a cantora espanhola Bikôkô são algumas das atuações confirmadas, além dos portugueses Sónia Trópicos e Filipe Sambado.

Juntando a carreira no teatro brasileiro às vivências da imigração, Puta da Silva passa a divulgar os singles que apresenta no B.Leza, no dia 29 de setembro, assim como outros temas que compõem o seu futuro álbum de estreia, EPI TRAVESTI. Numa videochamada, a cantora falou ao Gerador das suas inspirações e da necessidade de reconhecimento, pelos portugueses, da relevância das comunidades imigrantes.

Gerador (G.) – A tua biografia diz que Puta da Silva é mais do que um nome, é um estado. O que isso quer dizer?

Puta da Silva (P. S.) – Foi um estado que eu encontrei no processo de imigração. Eu cheguei na cidade vivendo maus momentos. Sou artista, travesti, preta, imigrante. Infelizmente, a sociabilização e emancipação ainda chegam a passos lentos para nós, então, eu passei por vários processos de morte na cidade, sem acesso a itens básicos para uma sobrevivência plena, até ser salva pela prostituição. A prostituição ensinou-me a ser a Puta da Silva que eu sou.

Em alguns lugares do Brasil, geralmente, quando estamos muito bravas ou insatisfeitas com alguma coisa, falamos que estamos “puta da vida” ou “puta da silva”. Foi esse o nome que mais coube no meu momento de urgência. Depois de emancipada na noite, quis trazer a figura da Puta à luz do dia e fazer com que toda a cidade refletisse e dialogasse sobre o trabalho sexual, que nem sempre é uma escolha, mas que pode ser uma profissão extremamente emancipatória. Assumi com orgulho que eu sou a Puta da Silva.

G. – Entre a tua chegada em Portugal e o primeiro lançamento da Puta da Silva, em 2020, há um intervalo de quatro anos. O que aprendeste durante esse tempo de distanciamento da arte?

P. S. – Tive contacto com uma parte da história do meu povo que não conhecemos nos livros. Quando me encontro com a comunidade africana, por exemplo, e as várias outras comunidades imigrantes em Lisboa, começo, a partir da oralidade, a perceber quais os caminhos e encruzilhadas que percorremos para chegar aqui e o que nos une.

Uma das grandes coisas que aprendi com a comunidade imigrante é que nós somos potentes e capazes. Muitas vezes não temos o reconhecimento merecido do que produzimos, não temos a oportunidade ou a informação para chegar nos lugares que queremos, mas somos fortes, grandes e podemos, de alguma forma, materializar os sonhos que vieram nas nossas malas. Para mim, é entender que nós não estamos em casa, mas que, ao mesmo tempo, tudo isso também é nosso e faz parte da nossa história e cultura. Foi a partir desses lugares familiarizados que eu consegui ter força para subir os degraus. Meu primeiro concerto em Lisboa foi como artista de rua, sem equipamento, sem licença, sem segurança. O meu último concerto até aqui foi na casa do primeiro-ministro, partilhando a minha trajetória com as autarquias portuguesas. De lá para cá, da noite para o dia, depois de vários anos, aprendi a confiar cada vez mais na potência que temos e somos.

G. – Consideras-te uma pioneira na indústria da música em Portugal?

P. S. – Minha formação é no teatro. Eu sempre cantei e sempre gostei de cantar, mas nunca imaginei que iria trabalhar com música. Quando eu cheguei em Lisboa, tentei conseguir trabalho na minha área, mas essas portas estavam fechadas para mim, e eu me vi numa situação em que eu ia ter de fazer por mim e ser a minha própria empresa. Muitas das músicas que a Puta escreveu foram em momentos de vulnerabilidade, na rua, na madrugada. Eu registava e gravava conforme as coisas aconteciam. Essa vontade de cantar também vem da motivação que aprendi nas religiões afro-brasileiras e com a figura de Exu, que ensina a cantar e batucar quando estamos com a barriga vazia e não temos nada para comer, quando as coisas na nossa vida estão difíceis. Fazer música embalou-me a ultrapassar e combater as violências que eu enfrentei. Não me considero pioneira na música, mas trago comigo diversas linguagens para contar uma narrativa que ainda foi pouco explorada na música ou no audiovisual.

G. – Achas que há uma romantização do processo de imigração?

P. S. – Há muita romantização. Para muitas pessoas no Brasil, estar na Europa é visto como algo chique. Contudo, a realidade é que mudar de país é recomeçar toda uma emancipação, infelizmente tendo de driblar a todo o custo as estruturas patriarcais e os fortes traços da colonização ainda muito presentes no dia a dia das cidades. Pessoas racializadas, tranvestigéneres, migrantes e fora do padrão europeu ainda vão passar por duras penas para se emancipar.

G. – Dizes, numa entrevista, que a tua arte diz muito do teu tempo, das tuas vivências e que é uma arte de enfrentamento, pelo que não consegues construir utopias. Esse enfrentamento seria o expor a tua realidade?

P. S. – Sim, acho que as pessoas precisam de um diálogo, no qual se expõe uma vivência, uma experiência ou uma escrevivência, como diz Conceição Evaristo, que elas ainda não conhecem. É uma arte de enfrentamento por isso. Estamos o tempo inteiro em contacto com pessoas que não fazem a menor ideia de como é a nossa realidade. Por causa do preconceito, do ódio racial e de gênero, temos de estar num lugar de fuga e, ao mesmo tempo, num lugar de enfrentamento, para falar sobre a nossa existência e necessidades.

G. – É essa insistência de expor as vivências que te impede de criar utopias?

P. S. – Sim, eu preciso ver as pessoas imigrantes e transvestigêneres emancipadas e em ascendência, saindo dos lugares de subalternização em que somos colocadas todos os dias, só aí eu posso começar a mudar a minha dramaturgia. Eu posso até criar um imaginário que não existe, mas não é por isso que eu estou a fazer a minha arte agora. É uma arte de intervenção, do aqui e do agora, que entra nos espaços para relembrar um passado e um presente ainda muito cruel para nós. É preciso ver muito mais de nós em todas as parcelas da sociedade para realmente vislumbrar uma mudança no país. Eu sinto que, cada vez mais, estamos conseguindo ver novas pessoas em outros cenários, mas ainda é muito pouco, se pensarmos em tudo que nós temos para dizer e tudo que nós passamos.

G. – Mencionaste que foste à casa do primeiro-ministro. Como te sentes por levar esses enfrentamentos a lugares dessa dimensão?

P. S. – Isso aconteceu na celebração do bicentenário da independência do Brasil, realizada na residência oficial do primeiro-ministro, no dia 10 de setembro. O evento contou com a presença da comunidade brasileira e uma programação com diálogos, oficinas e intervenções artísticas com a curadoria da Casa do Brasil. Foi uma experiência incrível entrar nessa casa grande pela porta da frente, como convidada, tendo um crachá da República Portuguesa escrito Puta da Silva para compartilhar a minha história e minha arte com o nome que eu escolhi – que é uma afronta, mas para se fazer pensar.

Lá eu perguntei: “Portugueses, o que vocês estão a fazer pela nossa emancipação?” A casa é de vocês, vocês é que têm a chave, abram as portas. Queremos estar em movimento, mas de ascensão, não de fuga. Precisamos encontrar cada vez mais portugueses realmente comprometidos em entender a dívida que têm connosco e que fazemos parte dessa família. O povo brasileiro sempre esteve com a mão na roda para fazer Portugal andar. É preciso que essas pessoas se desloquem desse lugar extremamente privilegiado e comecem a perceber o que tem para além delas nesse país.

G. – Falaste também da tua presença de palco e da tua dramaturgia. Os teus concertos são descritos na tua biografia como uma obra musical, performática e multimédia. O que podemos esperar da tua apresentação no MIL, por exemplo?

P. S. – Quem vai realmente atento ao concerto percebe que as músicas dialogam sobre experiências reais traduzidas para uma narrativa artística e que os temas que trazemos são atuais e urgentes. Apresentamos os conflitos que vivemos e apontamos para resoluções, para o que seria a nossa emancipação e os lugares onde nós gostaríamos de estar, a fim de que o nosso público reflita e leve essas boas informações e estímulos para casa. Sinto que estamos a trazer algo novo para a cidade e desejo que, de alguma forma, esse diálogo comece a entrar ainda mais nos espaços.

G. – E como descreves a receção do público? Corresponde às vossas expetativas?

P. S. – A receção tem sido muito linda e a favor da transformação. Penso que as pessoas vão para o concerto da Puta da Silva com uma ideia, mas há sempre uma surpresa, porque ultrapassamos o lugar que as pessoas esperam. Apontamos para outros lugares e manifestamos a cantar, dançar e batucar, manifestamos com festa. Confesso que não esperava tudo isso, mas também acredito que existe uma grande parcela da comunidade portuguesa que se está a mobilizar para repensar os seus lugares de privilégio, os seus limites e como tem de se mover. Mais do que a movida imigrante, a movida portuguesa, de abrir as portas para entrarmos, de nos pagar, de nos dar um contrato de trabalho, contribuir com a nossa documentação, é, nesse momento, muito importante.

G. – Como estão os preparativos para o álbum? O que pretendes trazer com esse próximo passo?

P. S. – A grande virada do processo da Puta da Silva é quando ela sai da noite e vai para o dia, o que ela vê, com quem que ela encontra e o que ela vai fazer. Então, basicamente, o que vai vir daí para a frente no álbum são os enfrentamentos dela no dia e essa busca pela emancipação dessa e de outras várias putas da silva que conhecemos. É uma história um pouco diferente da que já foi contada, mas que vai continuar a tocar como toca nos concertos, vai emocionar, trazer vida e devolver sonhos. Eu tive as minhas manas, as minhas inspirações, que olhei e falei, elas conseguiram, eu também posso. Eu também quero ser a pessoa que vão olhar e falar se ela conseguiu, eu também posso.

O Gerador é parceiro do MIL Lisboa

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