Numa sociedade onde a cultura e as artes fazem parte da vida, os valores da democracia tornam-se mais evidentes. Igualdade, equidade, diversidade, inclusão, compromisso... são condições estruturantes para a cidadania cultural que se exerce no ato de fruir, de participar, decidir e produzir cultura; a cada dia e por cada comunidade; nas ruas, nas escolas, nas instituições; nos gestos quotidianos ou em atos públicos.

Para que a cidadania cultural seja verdadeiramente interiorizada e consentida é essencial dar acesso aos meios de produção cultural e democratizar os processos de decisão, prover as pessoas (independentemente da idade, género, origem, raça ou papel social), as comunidades, os coletivos, as organizações, das condições que lhes permitam conhecer os seus direitos e deveres, emancipar-se como sujeitos/ entidades culturais ativas, que decidem e participam na defesa das liberdades, implementam a mudança e que defendem a cultura que os representa e lhes permite projetarem-se no futuro.

Na Carta do Porto Santo[i] afirma-se:

“a democracia é uma metodologia social dinâmica, uma forma de funcionamento e de partilha do poder. Nela valorizam-se os interesses e as necessidades de todos os cidadãos; dá-se-lhes voz e possibilidade de escolha; respeita-se a diversidade e valoriza-se a dissensão. O estilo próprio da democracia é o confiar na inteligência cooperativa da comunidade.” (...) Sobre Democracia Cultural refere-se que é um modelo cultural que “(...) advoga a criação de condições para uma participação mais ativa e o reconhecimento das práticas culturais dos diferentes grupos sociais. A «Democracia cultural» implica um novo modo de relações entre as instituições e as comunidades: a cultura como um espaço aberto onde cada cidadão pode participar e ser responsável. Este paradigma implica uma mudança de atitude e um deslocamento da relação de consumo para a do comprometimento.

 (...)

No modelo de democracia cultural as instituições culturais, os seus processos e modos de organização, o que valorizam e propõem, tem consequências na saúde democrática de uma sociedade.

(...)

Como consolidar a democracia na esfera cultural? Que relações de poder se estabelecem nas instituições e nas práticas culturais e educativas? Como pode a participação cultural ajudar a emancipar os cidadãos? ”[ii]

Ao refletir sobre estas questões revisito o que passámos, e o que estamos ainda a viver, e penso no papel que a imaginação e a esperança assumem como possibilidades de recriação de sentido. 

Nunca é demais repetir que a democracia precisa de esperança; que a esperança precisa de imaginação; e que a cultura é essencial para que ambas se concretizem. Esperança, imaginação e cultura são a tríade de elementos que nos permite escrever a história que gostaríamos de contar.

Em 2017, Deborah Cullinam, diretora do Yerba Buena Center for the Arts, escreveu uma crónica para o Stanford Social Innovation Review, que mantenho “aberta” nos meus arquivos. O título: Civic Engagement: Why Cultural Institutions Must Lead the Way[iii] é já uma provocação para a mudança. Cullinam sublinha que a democracia depende da participação e do compromisso dos cidadãos com a vida pública... antevendo a importância de sermos capazes de projetar novos futuros através da concretização de ações e aspirações comuns, expressas publicamente, e assim realizando a melhor versão de sociedade que juntos pudermos imaginar.

Deborah Cullinan tem sido uma voz de liderança positiva e de inspiração coletiva. A sua voz defende a centralidade da cultura na sociedade e no que pode vir a ser o futuro deste setor, considerando o seu contributo para a coesão social e para a resiliência democrática.

Sem certezas sobre o que o futuro nos trará, mas assumindo a premissa da liberdade e da imaginação como pilares para a criação de uma nova história, questiono novamente o posicionamento das organizações culturais face à sua relevância social e proponho um reposicionamento das missões institucionais para que se tornem mais humanas, justas e inclusivas, das pessoas para as pessoas. Particularmente atendendo neste quadro ao contributo das artes e da cultura paras as áreas da saúde mental, dos patrimónios e territórios, da sustentabilidade ambiental e dos direitos humanos; expresso e manifesto nas suas programações, na comunicação, na gestão dos recursos, na avaliação de processos e resultados e sobretudo nas lideranças e nas relações humanas.

Importa continuar a insistir sobre o que significa, hoje, ser uma instituição cultural: Que contributos trazem estas organizações para o bem-estar das comunidades? Estarão preparadas para cuidar, para além de servir? Estarão capacitadas para responder às questões difíceis que o planeta lhes exige, sabendo manter-se próximas das pessoas e provendo as suas necessidades, integrando-as nas suas comunidades?

I believe this radical reinvention of our institutions is the necessary and defining work of the remainder of this century, and our cultural institutions must lead the way. Arts and culture organizations of all shapes and sizes across the United States were created to nurture creativity and imagination, and remind us of our potential as human beings. And as such, these organizations have the power to drive the cultural movement we need to make remake the systems that deliver our democracy—to drive a shift in the values, stories, and traditions to which we hold our institutions and ourselves accountable. To do this, arts and culture organizations must understand themselves not as arbiters of taste, but as creative homes for the people.[iv] 

Ao reler Cullinam quero imaginar as instituições culturais como locais onde as emoções terão um lugar preponderante na criação dos vínculos que sustentarão as relações humanas e não humanas, com o ambiente e com o território. Imaginá-las como lugares onde esses vínculos suportam o ecossistema de redes, colaborações e de partilha, essenciais para que o seu projeto comunitário seja realizado de forma participada, endémica e solidária. Como espaços democráticos que preservam a diversidade cultural e que resistem à globalização económica e cultural.


[i] Acessível em file:///Users/sbb/Downloads/CartaDoPortoSanto%20(1).pdf

[ii] Carta do Porto Santo: 2021

[iii] Acessível em https://ssir.org/articles/entry/civic_engagement_why_cultural_institutions_must_lead_the_way#

[iv] Cullinam: 2017

– Sobre Sara Barriga Brighenti –

Museóloga, formadora e programadora nas áreas da educação e mediação cultural. É subcomissária do Plano Nacional das Artes, uma iniciativa conjunta do Ministério da Cultura e do Ministério da Educação. Coordenou o Museu do Dinheiro do Banco de Portugal e geriu o programa de instalação deste museu. Colaborou na elaboração de planos de ação educativa para instituições culturais. É autora de publicações nas áreas da educação e mediação cultural.

Texto de Sara Barriga Brighenti
Fotografia de Ana Carvalho