Na verdade, não existe uma solução milagrosa para o Planeta.

Existem tantas soluções para o Planeta quantas pessoas existirem na Terra.

Cada um de nós tem de se constituir solução. Há milhentos problemas, tem de haver milhentas soluções. Todas elas podem ser válidas. Podem não constituir, por si próprias, soluções significativas mas são contribuições que, no cômputo geral, serão um resultado significativo.

Por isso é tão importante poder contar com todos, por isso é tão importante que todos contribuam. Porque o resultado significativo obtém-se pela soma de todos os resultados ditos “insignificantes”.

Normalmente, a complicada teoria do caos costuma ser explicada através do exemplo da borboleta que bate as asas no Japão e causa uma sucessão de ocorrências que termina num furacão no Atlântico.

O mesmo se pode dizer das pequenas ações concertadas que podem alterar o estado das coisas, para pior ou para melhor, consoante a escolha que fizermos.

Infelizmente, a nossa escolha está muitas vezes condicionada pelas vozes dominantes que insistem num conceito cristalizado de uma lógica produtivista de permanente crescimento.

A defesa do planeta precisa de uma teoria global integrada, distinta da habitual dicotomia de esquerda e de direita tão século XX, completamente afastada da realidade, porque apenas uma coesão total, focalizada e inclusiva, conseguirá assegurar a nossa sobrevivência.

A evolução das várias culturas humanas foi determinada pela localização, pelo clima, pela orografia, pelas crenças, pela língua, pela vegetação, pela vida selvagem e o seu comportamento evoluiu de modo diferente, mas a base é sempre a mesma – a necessidade de sobreviver e perpetuar a espécie.

Claramente, a globalização trazida pela evolução tecnológica uniformizou muitos comportamentos ao nível do consumo, mas extremou muitos outros, próprios da individualidade cultural trazida pelo sentimento de nacionalidade, crença ou etnia.

Com o advir das alterações climáticas, esses sentimentos irão desvanecer-se em função de uma rápida adaptação ao novo mundo natural que acabará por ser um caminho afunilado de sentido único, se quisermos sobreviver.

A revolução tecnológica verde já está a acontecer em muitas áreas e há muito tempo, mas não há tempo suficiente nem decerto à velocidade suficiente. Por isso, tem de ser o comum dos mortais a dar o seu pequeno contributo, diminuindo o seu apetite consumista, vivendo com menos, dando mais valor ao que tem ao seu dispor em vez de desejar o que não precisa, fazendo escolhas conscientes, informadas, trocando em vez de comprar, vendendo ou dando em vez de deitar fora, reparando e consertando em vez de comprar novo, oferecendo memórias e experiências em vez de coisas, preferindo investir nos serviços de proximidade do que comprar produtos de origens longínquas, escolhendo o nacional e o local, a loja da esquina em vez do hipermercado, estabelecendo relações de proximidade e confiança com as pessoas  da sua comunidade.

Há que RECUSAR o excesso, o desperdício, o inútil, o não reciclável, o uso único, os materiais não reutilizáveis, e sobretudo REPENSAR no objetivo e na utilidade da compra, no local e na origem do produto, se compra um produto ou um serviço, se pode investir na qualidade para durar mais. Depois, REDUZIR torna-se simples, basta comprar apenas aquilo de que precisa, na quantidade certa. Com o tempo e alguma organização conseguimos começar a REUTILIZAR. Passamos a escolher os materiais que compramos em função da sua futura reutilização, pensamos no uso alternativo que podemos dar às coisas antes de as deitarmos fora. E porque há coisas que nos são queridas, porque constituem memórias ou porque simplesmente gostamos delas, passamos a REAPROVEITAR essas peças para outros usos, nem que seja para decoração. E se temos objetos que passaram de moda ou que são muito pesados ou desadequados e não nos queremos desfazer deles porque têm uma história antiga e foram pertença de alguém querido, é possível RECICLAR e mudar a cor, a finalidade e tornar um objeto ultrapassado num objeto de moda e até de arte. E quando temos uma peça que parece velha, manca e pronta para o lixo, podemos REPARAR e de velha passa a vintage.

Porque é efetivamente a soma das nossas soluções individuais que consubstanciará a solução para o planeta. Somos nós que compramos, somos nós que decidimos o que comprar, como tal, somos nós que determinamos o que é produzido e lançado no mercado. Está nas nossas mãos controlar o impacto das nossas opções, são elas que já estão a definir novos modelos de consumo.

-Sobre Francisco Ferreira-

Francisco Ferreira é Professor Associado no Departamento de Ciências e Engenharia do Ambiente da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (FCT-NOVA) e investigador do CENSE (Centro de Investigação em Ambiente e Sustentabilidade). É licenciado em Engenharia do Ambiente pela FCT-NOVA, mestre por Virginia Tech nos EUA e doutorado pela Universidade Nova de Lisboa. Tem um significativo conjunto de publicações nas áreas da qualidade do ar, alterações climáticas e desenvolvimento sustentável. Foi Presidente da Quercus de 1996 a 2001 e Vice-Presidente entre 2007 e 2011. Foi membro do Conselho Nacional da Água e do Conselho Nacional de Ambiente e Desenvolvimento Sustentável. Atualmente é o Presidente da “ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável”, uma organização não-governamental de ambiente com atividade nacional.

Texto de Francisco Ferreira e Ana Serrão | Zero – Associação Sistema Terrestre Sustentável
Fotografia da cortesia de Francisco Ferreira
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