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Queer Lisboa e Porto: o festival em que o cinema tem tanto de artístico como de político

Dois mil e vinte e um foi o ano em que o Queer Lisboa celebrou o seu 25.º aniversário, sendo o festival de cinema mais antigo em Lisboa. Assim, este aniversário é também um símbolo de resistência e sobrevivência, o reflexo de 25 anos de conquistas em que assistimos a alguns dos momentos mais importantes da história do ativismo LGBTQI+, em Portugal. No entanto, ainda há um longo caminho por percorrer no que diz respeito à defesa dos direitos das pessoas LGBTQI+ e as conquistas não podem ser tomadas como garantidas, tendo em conta as ameaças políticas e sociais que temos vindo a assistir por todo o mundo e que metem em risco os direitos e liberdades da comunidade.

Começámos por falar com João Ferreira, diretor artístico do Festival Queer, para percebermos a importância deste aniversário, assim como a evolução do cinema queer durante este quarto de século. João começa por partilhar que, devido à pandemia, nesta edição do festival ainda não foi possível tê-lo em funcionamento pleno no que diz respeito à lotação de sala e convidades internacionais. Por isso, optaram por organizar uma “​​grande retrospetiva do cinema queer que o festival foi mostrando ao longo destas duas décadas e meia”, concebendo um “programa que chamasse a atenção para o ativismo queer.” “Achámos que o momento que vivemos merecia essa atenção. Não só estamos a assistir, na Europa, à ascensão de movimentos de extrema-direita, como a pandemia veio trazer-nos problemas e realçar outros tantos que têm vindo a afetar as comunidades queer”, completa João. Por isso, aliaram-se à ILGA-Portugal, que também celebra, este ano, o seu 25.º aniversário, compondo o programa Queer Focus, em que os filmes eram seguidos de conversas com váries convidades, sobre temas como a saúde mental, o feminismo, as migrações e problemas dos refugiados, o VIH/sida, entre outros temas urgentes.

João Ferreira, diretor artístico do Festival Queer ©Mariana Mateus

No momento de conceber a programação do festival, João revela a preocupação com a inclusão de conteúdos diversificados que não categorizem a comunidade LGBTQI+ de acordo com noções estigmatizantes de identidade, género ou sexualidade. “Uma das nossas preocupações enquanto programadores tem sido, sempre, a de desafiar e questionar uma série de preconceitos e estereótipos ligados à identidade, género e sexualidade. E o problema é que esses preconceitos existem dentro da própria comunidade queer e em algum cinema queer. Por um lado, existe essa preocupação mais política, e até pedagógica, de procurar mostrar um conjunto de realidades e modos de estar no mundo de indivíduos e comunidades queer, e que levem es espectadorus a questionar, a questionarem-se, a descobrirem algo mais sobre elus mesmes e talvez até a descobrirem, em si, um outro leque de possibilidades na forma como se expressam e procuram viver. Por outro, temos de aliar esta perspetiva com a expressão artística, ou seja, como es realizadores materializam num objeto cinematográfico aquilo que nos querem contar. Procuramos sempre este equilíbrio entre a arte e a política”, partilha.

25 anos de Festival Queer: o que mudou?

Perante um festival com esta longevidade é inevitável perceber que o mesmo carrega a memória de uma evolução social histórica. Foi com essa consciência que quisemos ouvir, nas palavras de João Ferreira, quais as linhas gerais que compuseram as várias evoluções que se observaram durante estes 25 anos de festival:

“O festival é hoje muito diferente daquele que nasceu em 1997. O país é também muito diferente. Politicamente, passámos pela aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo, em 2010, ou, mais recentemente, em 2018, pela aprovação da lei da identidade de género, entre outras importantes conquistas. Nós nascemos no mesmo ano da ILGA-Portugal, ou seja, nascemos com a criação de uma forma mais estruturada e organizada de ativismo queer. Fomos também o primeiro festival de cinema a ser criado em Lisboa. Este último fator, e o facto de termos tido a nossa primeira edição a acontecer na Cinemateca Portuguesa, deu um importante contributo ao festival, no sentido de uma espécie de dupla ‘legitimação’: fomos, desde logo, acolhidos institucionalmente como uma mostra importante de cinema, e, ao mesmo tempo, como um evento central na comunidade queer. E essa génese sente-se ainda hoje, na diversidade de públicos. Já a relação com os patrocinadores, quer públicos, quer privados, foi inconstante, particularmente nos primeiros 15 anos do festival. Passámos por diversas orientações políticas no governo e nas autarquias. O momento mais marcante, negativamente, foi, sem dúvida, em 2002 e 2003, quando o festival perdeu o apoio da Câmara Municipal de Lisboa, então sob a liderança de Pedro Santana Lopes, e foi-nos retirado o espaço do Fórum Lisboa. Quando, em 2004, começámos a fazer o festival no Cinema Quarteto, foi quase como começar de novo. Aquilo que o festival é hoje, em termos da estrutura da sua programação, começa a ser desenhado nesses anos. Digamos que, numa primeira fase do festival, entre 1997 e 2003, a par da exibição de filmes queer recentes, a programação do festival centrou-se, sobretudo, na recuperação de títulos mais antigos e na organização de retrospetivas. Foi um modo também de se traçar uma história e, de alguma forma, legitimar o que é designado como cinema queer. A partir de 2004, a programação vai centrar-se sobretudo em produções queer recentes, criam-se as secções competitivas, mas sem esquecer também essa memória do cinema queer.”

A celebração faz-se entre memória e atualidade

Cumprindo duas décadas e meia de existência, o Festival Queer cruza já as vidas de duas a três gerações. “Se, por um lado, temos de saber ainda cativar um público mais jovem, saber usar a sua linguagem, perceber as suas preocupações e interesses, por outro, temos também uma responsabilidade para com o público que nos acompanha desde a primeira edição, e que tem também os seus interesses e problemas particulares”, destaca João.

Por isso, a proposta é a de proporcionar uma programação que permita pôr as diferentes gerações em diálogo: “Dar a ver a uns a realidade dos outros e vice-versa. E isto consegue-se fazer através do cinema. Este é mesmo um tema importante para nós, porque sentimos, muitas vezes, que há um desconhecimento por parte das pessoas mais jovens sobre o que foi a vida e o que foram as lutas dos mais velhos e, de igual modo, há, muitas vezes, uma incompreensão e desconhecimento dos mais velhos em relação à forma como as novas gerações comunicam, como lidam com as problemáticas queer.”

Queer Lisboa, no Cinema São Jorge ©Mariana Mateus

Por estas razões, o contexto em que surge cada filme é fundamental: “Cada filme deve ser olhado individualmente e contextualizado num determinado programa, numa determinada secção, ou mesmo numa sala ou espaço de exibição específicos. Às vezes, tentamos mesmo orientá-lo a um público específico. É também nesse sentido que sentimos sempre a necessidade de pensar os filmes e de oferecer, ao público, o máximo de recursos à volta dos filmes. É uma forma de gerar não apenas pensamento crítico, mas de fomentar o diálogo e o aprofundamento sobre cada obra e tema.”

Nesse sentido, podemos destacar a retrospetiva do cineasta Gus Van Sant, na Cinemateca Portuguesa, integrada na programação do Queer Lisboa. Ao contar com a presença de Gus Van Sant no festival, foi possível conhecer, de forma próxima, um dos cineastas pioneiros do New Queer Cinema, revendo, ainda, a sua obra em cópias de 35mm. O cineasta é visto como o precursor do New Queer Cinema por, em 1985, ter estreado o filme Mala Noche. Note-se que, em 1985, os EUA e o mundo atravessavam a eclosão do VIH/sida, com um estigma associado às comunidades queer, e este filme veio celebrar os corpos queer e a sua sexualidade, então percecionados como doentes e agentes de práticas sexuais vítimas de um discurso moralizador.

Outra das formas de promover o diálogo e conhecimento, em que o festival aposta, é a disponibilização de textos e livros. “Os textos ou os livros têm também uma outra componente muito importante para nós: servem de memória futura. Os festivais e as exibições são efémeros, os filmes são mais ou menos marcantes ou transformadores para cada espectadorx, e esses suportes servem para perpetuar, de alguma forma, esse momento”, explica João.

Já em relação à presença de realizadorus e outres convidades, permite oferecer a “oportunidade de conhecer os filmes da perspetiva do seu criador ou criadora e pôr essa perspetiva em confronto com aquele que foi o nosso filme”, uma vez que “cada espectadorx constrói o filme que vê.”

Em relação à escolha dos espaços que acolhem o festival, que visa proporcionar uma experiência comunitária e presencial, João conta que, em edições passadas, passaram por “espaços que eram hostis, que não eram convidativos, nem para nós equipa, nem para es espectadorus”. Por isso, a escolha dos espaços em que trabalham é fundamental por defenderem ter “a obrigação de estar e criar um espaço que seja acolhedor e que seja seguro, no sentido de sentirmos que todxs, ali, temos liberdade completa. O festival deve fomentar esse sentido de comunidade, de pertença e de partilha. Deve ser uma celebração. O espaço do festival é pensado para as diferentes comunidades e expressões queer, ao mesmo tempo em que é um espaço aberto a todes, daí a enorme diversidade de gente que o frequenta”, declara João.

Entre os dias 17 e 25 de setembro, depois de o festival de cinema Queer Lisboa celebrar a sua 25.ª edição na capital portuguesa, no Cinema São Jorge e na Cinemateca Portuguesa, entre os dias 17 e 25 de setembro, o festival passou pela cidade do Porto entre os dias 16 a 20 de outubro (Queer Porto).

No Queer Porto, falar de cinema é (também) pensar a cidade

Na rua, os dias já se notam mais curtos. Anoiteceu cedo, apesar de ser uma tarde de calor. Na porta da Reitoria da Universidade do Porto, não é óbvio que dali a momentos começa uma sessão do primeiro dia da sétima edição do festival de cinema Queer Porto. No Auditório Ruy Luís Gomes, a sala enche e dá-se início à projeção de Cured, um filme de Patrick Sammon & Bennett Singer sobre a despatologização da homossexualidade. “Com necessidade urgente de cura” era o diagnóstico feito a homens gays e mulheres lésbicas entre as décadas de 50 e 70 por psiquiatras americanos – e não só. Na projeção mostram-se histórias de pessoas cujas vidas foram interrompidas para tratamentos ditos de conversão da orientação sexual, entre os quais a lobotomia, que valeu a Egas Moniz o Nobel da Medicina em 1949. Do lado de cá, nos bancos corridos ao estilo das universidades do antigamente, vão-se ouvindo reações.

O que se vê em Cured parece estar num passado longínquo, num lugar igualmente longínquo. Mas ainda que o caminho pela despatologização já tenha começado há uns quantos anos, há rastos que ficaram desses tempos, inclusive em Portugal. Foi apenas em maio de 1990 que a Organização Mundial da Saúde (OMS) retirou a homossexualidade da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID), apesar de a Associação Americana de Psiquiatria (APA) o ter feito em 1973. Ainda assim, continuam a existir centros que prometem supostas conversões, em Portugal.

Em Lisboa, a transmissão do filme foi seguida por um debate que contou com a presença da psiquiatra e sexóloga Zélia Figueiredo e do psicólogo Henrique Pereira, que focaram as questões específicas da saúde mental na população LGBTQI+. “Eu tive a oportunidade de moderar esta conversa e foi muito impactante ver uma sala esgotada para o filme e conversa e o interesse dxs espectadorxs por este tema. É um daqueles momentos em que sentimos a real pertinência e relevância de, através deste festival, criarmos um espaço seguro onde as pessoas possam ter acesso e intervir em questões que lhes são importantes”, aponta João Ferreira.

A dado momento, em Cured, uma das pessoas sujeitas a estes tratamentos menciona uma sensação de confusão e uma perda de memórias que nunca conseguiu recuperar. Em Coisas de Loucos – O que eles deixaram no manicómio, livro editado pela Tinta da China que parte de uma série de reportagens do Jornal Público, a jornalista Catarina Gomes traz a história de Valentim de Barros, um bailarino internado no Hospital Miguel Bombarda – na altura, Manicómio Bombarda – nos idos anos 40, que por lá ficou para o resto da vida. As semelhanças são muitas. Numa carta escrita por Valentim a 2 de novembro de 1965, dirigida a um médico do hospital, menciona as marcas que tem na cabeça desde que o haviam levado para o Hospital Júlio de Matos. “Foi operado a 10 de junho de 1948. Ninguém lhe terá perguntado se queria a operação, nem para que servia. O consentimento informado e as regras da experimentação humana não tinham sido ainda criados”, escreve Catarina Gomes.

No final da transmissão do filme, no Porto, Jorge Gato, psicólogo clínico e docente da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP), juntou-se a Mia de Seixas, representante da Rede Ex-Aequo Porto para uma conversa que durou até à hora de jantar, com uma sala ainda cheia. “Quando vejo estas imagens fico muito envergonhado”, disse Jorge Gato. No final da semana, encontrámo-nos no Rivoli e percebemos porquê.

Um festival de cinema numa cidade que (ainda) precisa de se abrir

Uma sensação que existe no Queer Porto é a de que o lugar onde os filmes são mostrados, comunica, de alguma forma, com as narrativas que passam na tela. Se Cured era exibido num pequeno auditório da Reitoria em que se sentia o peso da idade e da institucionalidade do edifício, Gendernauts, filme de Monika Treut rodado em San Francisco nos anos 90, era mostrado na Aula Magna da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. A plateia cheia de estudantes e, na fila da frente, Monika a ver o seu filme. Gendernauts acompanha protagonistas da comunidade queer de San Francisco, sobretudo pessoas trans, com um olhar bastante progressista em torno das questões da identidade de género. Baralham os conceitos binários de feminino e masculino, e mostram, desde logo, que não lhes interessa lugares comuns. Foi à procura das suas vozes e da eternização de um momento muito específico para esta comunidade que Monika Treut viajou para San Francisco.

A proximidade que Monika Treut tem com as suas protagonistas dá a entender que existe uma proximidade de quem mantém uma relação de amizade – confirma, mais tarde, numa conversa após a sessão, que não estamos erradas. Entre as protagonistas está Susan Stryker, que na altura já trabalhava na academia a pensar as questões de género. Cerca de 10 anos depois da estreia do filme, Stryker publicou Transgender History, um livro que acompanha a história das pessoas trans nos Estados Unidos da América, de meados do século XIX até aos anos 2000. Surge também Sandy Stone, performer e académica que aparece como primeiro rosto do filme, e que, juntamente com Stryker, se tornou numa das referências nas reflexões em torno dos conceitos de género.

Depois da projeção de Gendernauts, Monika Treut deu uma masterclass na Faculdade de Belas-Artes. Do seu lado direito, Catarina Martins © Ana Carolina Mora

No final do filme, Monika Treut sobe ao palco para uma masterclass moderada por Catarina Martins, docente da universidade, e onde, desde logo, se mostra disponível para tirar as dúvidas da plateia que continua cheia. Em conversa com o Gerador, Catarina não esconde a importância de Gendernauts entre as suas referências: “Olhar para São Francisco, no final dos anos noventa e para as formas de vida daquele grupo de pessoas é superinspirador.” “Sobretudo porque o clima que então se vivia, naquele lugar, para a população LGBTQI+ era um clima de experimentação e de experienciação de formas de vida, de liberdade num contexto onde, aparentemente, haveria também uma reverberação destas questões nas políticas de cidade. E olhar, então, para esse contexto e para a minha história, tendo crescido numa pequena cidade portuguesa, a cerca de 30 quilómetros do Porto, onde nada disto acontecia, ou acontece ainda hoje, leva-me a pensar sobre as diferenças, desigualdades, contextos, etc. Hoje, em Portugal, a presença e a visibilidade de pessoas trans e não-binárias nos lugares políticos, de decisão, etc., ainda não se faz sentir”, explica.

Para si, “a questão mais instigante” neste filme de 1999 é a “procura, ainda sem grandes definições ou cristalizações, de definições” que se nota existir nesta comunidade. Catarina aponta o facto de o filme se passar numa altura “em que, de um ponto de vista político e ativista, muitas coisas haviam acontecido e, em termos da academia, também se assistia a uma efervescência”. “Vemos essa procura, por exemplo, ao nível da utilização de pronomes”, refere.

Esta parceria entre o Queer Porto e a FBAUP foi “muito importante” para Catarina, por ter tido a possibilidade de mostrar Gendernauts, “um filme marcante na história do cinema queer, particularmente na documentação de um período histórico e um contexto muito particular (São Francisco, Estados Unidos), para a população trans”, mas também por ter a própria Monika Treut a falar sobre o seu filme para os muitos estudantes que se dirigiram à Aula Magna para ver o seu filme e ouvir a sua masterclass.

“Apesar de a FBAUP ser um espaço em que a presença de pessoas queer é uma realidade, não há muitos debates sobre isso. De um ponto de vista institucional, há várias questões a pensar, a discutir, a resolver, de vários tipos de representatividade e de visibilidade. Por exemplo, enquanto pessoa não-binária, a questão de utilização de uma linguagem neutra é cada vez mais importante, e as nossas instituições e escolas ainda não estão preparadas para isso. Continuamos marcadamente num sistema binário, marcado por universais masculinos, e nem pensamos o quanto isso pode ser excludente e invalidar existências. Nesse sentido, ter passado o Gendernauts na FBAUP parece-me ter sido um primeiro gatilho”, analisa Catarina.

Ainda que, nesta sessão particular, Catarina tenha tido um papel ativo na preparação e na moderação, é uma espectadora assídua do Queer Porto há dois anos, “de forma intensiva”. Interessam-lhe as sessões de curtas “em que, habitualmente, estão presentes nas sessões de competição jovens realizadories, muitas vezes ainda estudantes” – mas tenta ver o maior número possível de filmes. Na sua perspetiva, “o Queer Porto cumpre diferentes funções na cidade e no panorama de acontecimentos queer”: “a existência de um festival dedicado ao cinema queer, numa cidade como o Porto, em que a existência de redes, de grupos, de estruturas de apoio e de visibilidade da população LGBTQI+ ainda é escassa quando comparada com outras cidades europeias, ou, a nível nacional, com Lisboa”, o que se intensifica em cidades, vilas, pequenos lugares em Portugal, onde a existência de atividades, apoio, representação é ainda mais rara”.

Um dos espaços ocupados pelo Queer Porto foi os Maus Hábitos, pelas mãos do Coletivo Prometeu

Mas Catarina sente que a cidade não celebra “assim tanto o Queer Porto”. Convida-nos a olhar para a fachada do Teatro Municipal Rivoli, este ano, no decorrer do festival – “quem passava na rua e não estava informade sobre o Festival, não poderia fazer a mínima ideia de que estava a acontecer”, denota. “Por outro lado, outros eventos estavam notoriamente anunciados nas suas fachadas, como o Festival de Marionetas, por exemplo. O que quero dizer é que, a questão da representação, da celebração, da luta por igualdade, do ativismo, da visibilidade, precisa, e muito, da rua, e se a rua for entendida como um espaço verdadeiramente público, então, o Queer Porto teria de ter aí lugar, deveria fazer-se ver, celebrar-se. Acontecer é maravilhoso, mas também afirmar-se, dar-se a ver. Claro que estas questões não podem ser imputadas ao festival, mas a uma forma de pensar a cidade, a cultura, o que interessa dar a ver, o que não interessa tanto, o que é politicamente correto acolher, mas de forma condicional.”

A invisibilidade que nota na fachada de um dos principais espaços culturais da cidade acaba por ser compensada nos restantes espaços que o Queer Porto ocupa, como a própria Faculdade de Belas-Artes. Esta expansão do festival pode representar um alargamento de públicos que, para si, é importante: “Chegar a outros públicos, a estudantes, ou seja, sendo um Festival de cinema Queer, chegar não apenas à comunidade LGBTQI+, mas também a outras pessoas interessadas em cinema, aliadas das questões queer e das lutas de grupos historicamente menorizados, patologizados, violentados.” Cada edição deve ser entendida, portanto, “no sentido da afirmação e da celebração, mas também da informação e da discussão”. A troca de ideias que surge no programa paralelo que regressou este ano é tão fundamental quanto os filmes que são projetados.

“Para mim, o Queer claro que tem importância, enquanto pessoa queer e não-binária, é um momento de pertença e de comunidade. Mas, enquanto educadore, na área da educação artística, não posso deixar de referir que o festival tem ainda várias frentes de trabalho, em que avance para lá de uma programação e possa incorporar outras dimensões educativas, relacionais, eventualmente mais parcerias e, sobretudo, enquanto um festival que não pode deixar de manifestar o seu sentido político e, quanto a mim, com preocupações que deveriam ser cada vez mais interseccionais, quer na programação, quer na organização, quer em termos de pessoas convidadas”, acrescenta.

Na Aula Magna da Faculdade de Belas-Artes, as perguntas sobre o que aconteceu às pessoas que protagonizam Gendernauts foram as mais frequentes. Catarina, inclusive, perguntou por Hida Viloria, a única pessoa que levanta questões relacionadas com as vivências intersexo no filme. “Terão de ir ver Genderation amanhã para descobrirem”, responde Monika Treut.

De Gendernauts a Genderation: vinte anos depois

Encontrámo-nos com Jorge Gato no Café Rivoli, na tarde em que o pequeno auditório receberia Genderation, o filme que Monika Treut fez com as mesmas personagens da vida real que entram em Gendernauts. Jorge Gato, que integra o júri desta edição do festival, começa desde logo por partilhar que, apesar de o Porto ser uma cidade onde já existe uma Marcha do Orgulho, “existem forças conservadoras muito grandes” e que, sempre que vai ao Queer Porto, não só gosta de ver os filmes, mas também de reparar nos públicos.

“Vês uma massa que não faz parte do corpo da cidade; quando vou ao Queer Porto tenho a sensação de que isto é que é comunidade. Eles existem, estão aqui, e, no Porto, a menos que vás a determinados sítios na noite ou ao dia da marcha, aí percebes, de facto, que existem pessoas queer no Porto. Sempre que há oportunidade de ver esta comunidade fico muito contente, porque, depois, no resto do ano não se fala muito destas questões e não é uma comunidade muito presente na sociedade, fora dos meios artísticos”, observa o psicólogo e professor universitário, especialista em questões LGBTQI+. Recuperamos o filme através do qual travámos conhecimento, Cured, e Jorge Gato explica o que queria dizer quando mencionou que ficava envergonhado com o que via no filme: “quando eu falei, na nossa conversa, sobre uma certa vergonha, está ligada a uma questão identitária, como é que conjugo esta minha identidade LGBTQ+ com uma profissão que durante tanto tempo discriminou as pessoas LGBTQ+”. “Felizmente, já existem muitas pessoas, muitas escolas, muito trabalho feito que é profundamente afirmativo destas identidades, e é, claro, aí que eu me encaixo”, continua. Cured foi, para si, um filme importante para se conhecer melhor o processo de despatologização, ainda que gostasse que o foco estivesse “menos nos psiquiatras e mais nas pessoas”. Se tivesse de destacar um filme na programação deste ano, seria Tracing Utopia, de Catarina de Sousa & Nick Tyson, “um trabalho feito por uma cineasta portuguesa que foi com uma bolsa para Nova Iorque e que, como não pode haver muitas interações por causa da pandemia, fez conversas com uma comunidade jovem queer – mais pessoas não binárias e trans – sobre a criação de espaços seguros”, tendo o jogo Minecraft como meio. Tracing Utopia acaboupor vencer uma menção honrosa do Prémio Casa Comum. Na competição oficial, Gendernation ganharia uma Menção Especial.

Jorge Gato entregou o Prémio Casa Comum © Ana Carolina Mora

Na sala em que Genderation será projetado, percebemos que as pessoas que protagonizam Gendernauts se reencontram numa altura em que San Francisco pertence às gigantes da tecnologia, e em que a América está nas mãos de Donald Trump. Já nada é como antes, e a vida encarregou-se de encaminhar as vidas desta comunidade para lugares mais ou menos distantes dos que projetavam há 20 anos. As pontes que se criam entre Genderation e Gendernauts, fora da tela, ampliam uma reflexão que ultrapassa os 88 minutos do segundo filme: “olhar para este filme, hoje, depois dos Estados Unidos terem passado por uma presidência Trump, políticas de direita, de intolerância, de violência, de exclusão, de anulação de laços sociais e de solidariedade, em que as populações LGBTQI+, pessoas negras e pessoas de cor são diariamente alvo de violência, de racismo estrutural, provoca uma sensação de um passado que anunciava possibilidades de futuro ainda-por-vir”, diz Catarina.

Genderation, para mim, mostra muito isso. A gentrificação a que também São Francisco foi submetida, levou a que muitas das pessoas que vimos em Gendernauts fossem expelidas da cidade. Expelir comunidades, dispersá-las, isolá-las, faz parte de mecanismos de poder (seja o capitalismo, seja a extrema direita, seja o neoliberalismo, como se queira chamar, ou a intersecção de tudo isso) que procuram retirar força. Genderation mostra, infelizmente, um pouco como isso aconteceu com algumas das pessoas de Gendernauts. Algumas entraram no ritmo de um quotidiano marcado pela sobrevivência e foi como se a sua mobilização política, que era tão viva nas suas formas de vida em finais dos anos 90, tivessem sido acalmadas e absorvidas. Senti, em algumas das pessoas, uma certa captura pela normatividade. Mas obviamente que essa é uma perceção minha, talvez até uma projeção que pode resultar de um medo de captura, de apagamento, de invisibilização pelas forças de poder. Mas também há outras forças interessantes no filme. O envelhecimento deste grupo de pessoas trans, também leva à sua reinvenção”, analisa.

No final de Genderation, Monika Treut sobe ao palco do pequeno auditório para responder a questões do público. “Porque é que não existem pessoas negras no elenco?”, pergunta alguém na plateia. A resposta que Monika Treut dá é a mesma que já havia dado no dia anterior, quando alguém lhe fazia a mesma pergunta na Aula Magna da Faculdade de Belas Artes: “porque filmei o meu grupo de amigos, que eram estas pessoas”. Para Catarina, “não podemos ficar indiferentes” a esta questão, embora “a Monika tenha afirmado que o seu propósito não era um propósito da representatividade”. “Penso que aqui a pergunta era mesmo no sentido de saber se, naquela altura, em São Francisco, não havia também uma população trans negra e de cor. As respostas da Monika foram mais no sentido de afirmar a sua posição enquanto realizadora e as suas intenções com o filme, que, como disse antes, não tinham que ver com representação. Mas, para mim, estes filmes inscrevem-se num tipo de ativismo, e hoje, esse ativismo deve ser plural e interseccional, porque se não o for, está a reproduzir exatamente as mesmas lógicas de poder e de violência que se abatem sobre qualquer grupo alvo de discriminação”, reflete. E esse pensamento interseccional passa também por olhar para as narrativas mais invisibilizadas na comunidade LGBTQI+.

No pequeno auditório do Rivoli, Monika Treut conversou sobre Genderation com Constança Carvalho Homem

Depois de Catarina ter perguntado a Monika qual o caminho que Hida, que não aparece em Genderation e era uma das poucas pessoas latinas, seguiu, começou a ler Born Both. An Intersex Life, o seu livro autobiográfico. “Hida muda-se de Nova Iorque para São Francisco poucos anos antes da filmagem de Gendernauts, precisamente pelo ambiente que então se vivia em São Francisco em termos das questões LGBTIQ+, mas é muito interessante perceber, na sua história, a forma como as questões da intersexualidade, nessa altura, mesmo naqueles lugares, estavam ainda discursivamente envoltas na patologização que na década de cinquenta e sessenta havia formado uma classe médica. Há um momento no livro em que Hida fala do seu primeiro encontro com um grupo de pessoas intersexo e aquilo que elu escreve eu acho que se enquadra muito bem, também, no espírito de Gendernauts: ‘Enquanto tiro estas notas, reparo que estou a assistir ao nascimento de um movimento. Nós estamos a fazer história, aqui mesmo, agora mesmo’.”

Nesta sétima edição do Queer Porto, vigésima quinta do Queer Lisboa, marcou-se mais um ano na história queer das cidades. Sabe-se que, no próximo ano, o Queer Porto terá lugar no renovado Cinema Batalha. Quem sabe, com uma grande faixa na parte exterior.

Texto de Andreia Monteiro e Carolina Franco
Fotografia de destaque de Mariana Mateus
O Gerador é parceiro do festival Queer
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