De 12 a 16 de outubro, o Queer Porto volta para uma 7ª edição em vários espaços da cidade invicta. A Reitoria da Universidade do Porto é um dos palcos escolhidos para abordar várias temáticas ligadas ao percurso do ativismo LGBTQI+, o seu impacto nas diferentes sociedades e o seu efeito transformador nas mentalidades, na ação política e na própria ciência.

Recuando ao início da história do cinema queer em Portugal, há 24 anos tinha início a primeira edição do então dominado Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa. A noite de 13 de setembro de 1997 fez-se na Cinemateca Portuguesa com a exibição de um objeto singular, a curta-metragem Un chant d'amour, de 1950, ato isolado na realização, do novelista e dramaturgo francês, Jean Genet. Com este mote, a organização lançou, de 17 a 25 de setembro, o Queer Lisboa 25. O festival, estende-se agora ao Porto, recuperando uma das premissas que fundaram o Festival: a de trabalhar com vários espaços da cidade.

O Teatro Tivoli, a Reitoria da Universidade do Porto, a Faculdade de Belas Artes, o Maus Hábitos e a Mala Voadora são palco do Queer Porto 7, com uma programação cheia de novidades – desde masterclasses e performances, a novos prémios.

Este ano, a sessão de abertura, no dia 12 de outubro, no Pequeno Auditório pelas 22h, ficará a cargo de Bo McGuire, com a sua mais recente longa-metragem Socks on Fire, uma carta de amor cinematográfica de um neto para uma avó, que tem como pano de fundo uma luta por uma propriedade, entre uma tia homofóbica e um tio drag queen. Na noite de encerramento, também pelas 22h no Pequeno Auditório, Au coeur du bois, de Claux Drexel, leva-nos até Bois de Boulogne, para nos falar das “trabalhadoras de sexo que compõem a mitologia desse espaço”.

Na sétima edição, um dos destaques é para a realizadora alemã, Monika Treut que, para além de uma masterclass, também terá o seu documentário Gernauts, no ecrã da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto no dia 14, pelas 17h. O nome incontornável do novo cinema queer na Europa desde os anos 80, traz-nos um olhar esclarecedor e terno sobre o mundo da identidade transgénero, através do retrato de alguns protagonistas de uma comunidade na cidade de São Francisco.

Monika Treut

Tal como o festival já nos habituou, existirá uma componente de debates. O Queer Focus leva-nos a pensar, trazendo para a Reitoria da Universidade do Porto, The City Was Ours. Radical Feminism in the Seventies, seguido de conversa com Ana Luísa Amaral, poeta, professora jubilada, pioneira dos estudos feministas e dos estudos queer na FLUP. O documentário Cured, junta o psicólogo clínico e docente da FPCEUP, Jorge Gato e a representate da Rede Ex-Aequo Porto, Mia de Seixas. Famille tu me hais, de Gaël Morel, que já havia sido apresentado no Dia Internacional da Luta contra a Homofobia, Bifobia e Transfobia, em maio, apresenta-nos um retrato de um conjunto de jovens expulsos de casa devido à sua orientação sexual, e acolhidos pela associação Le Refuge. O documentário é seguido de uma conversa com Telmo Fernandes, sociólogo, representante da ILGA Portugal, e Paula Allen, psicóloga e diretora técnica do Centro Gis.

O Queer Porto 7 tem uma nova competição dedicada ao cinema Português: Prémio Casa Comum. Esta nova competição vem abri espaço a um olhar mais atento à forma como cinema português tem abordado a questão queer nos últimos anos, sem esquecer uma (necessária) releitura da história. É esse o trabalho que Tiago Resende faz em Películas (15 de outubro no Pequeno Auditório), ao ler uma carta a Luís Miguel Nava, o poeta de Viseu, terra de onde é natural. Também André Murraças resgata a história, ao recuperar um conto de António José da Silva Pinto, em O Berloque Vermelho (13 de outubro, no Pequeno Auditório). Já Paulo Patrício lembra-nos essa outra figura, a de Gisberta, justamente evocada em cinema, teatro e literatura, a que este O Teu Nome É (15 de outubro, no Pequeno Auditório) acrescenta algo de muito novo. O programa completa-se com mais seis curtas-metragens: Errar a Noite, de Flávio Gonçalves; Tracing Utopia, de Catarina de Sousa e Nick Tyson; A Mordida, de Pedro Neves Marques; Geografia do Amor: Vol.1, de Diego Bragà; Naufrágio, de Sebastião Varela e Monólogo para um Monstro, de Pedro Barateiro.

A Mordida, de Pedro Neves Marques

Como sempre, o Queer Porto 7 agrega ficção e documentário, num ano em que a competição é substancialmente marcada pelo cinema feito por mulheres.  Na Competição Oficial destaque para Tiempos de Deseo, documentário da portuense Raquel Marques, quem, num exigente e subtil treino de intimidade, acompanha a gravidez da ex-companheira; La mif, de Fred Baillif, Melhor Filme na Generation da última Berlinale, uma incursão a uma casa de acolhimento de raparigas menores que expõe as feridas de um sistema de tutela no limite; e Deus tem AIDS, de Gustavo Vinagre e Fábio Leal, composto por um mosaico de gestos, provocações e testemunhos de artistas soropositivos brasileiros O júri desta competição será composto pela cineasta e programadora Amarante Abramovici, pelo encenador e programador da RTP Daniel Gorjão e pelx artista larose s. larose – que também serão os júris da Competição In My Shorts.

O Berloque Vermelho, de António José da Silva Pinto

O Queer Porto tem vindo a ganhar cada vez mais fãs e a prova disso é a crescente submissão de filmes portugueses de escola na Competição In My Shorts, com sorte presença da Escola Superior de Teatro e Cinema (ESTC) e da Universidade da Beira Interior (UBI). Da ESTC saiu Buganvílias, de Diana Filipa, filme que liberta ansiedades através de metáforas fluorescentes, enquanto a UBI se encontra representada por Rúben Sevivas com Sobrevoo, meta-comentário e conquista de um outro filme que estava condenado a não ser feito, e por Sibelle Lobo com Mais que Sangue, exercício poético que nos transporta para o universo dos rituais.

Sobrevoo, de Rúben Sevivas

Paralelamente, irá ter lugar na Mala Voadora a 14 e 15 de outubro uma performance de Dinis Machado - Yellow Puzzle Horse - , enquanto o coletivo PROMETEU volta a estar presente nesta 7ª edição, habitando o espaço dos Maus Hábitos, com uma programação que procura novas formas de voltar a humanizar o encontro.

O festival completa-se no online, com uma seleção de objetos artísticos interativos. Este programa procura refletir sobre a emergência de novas narrativas digitais que confrontam a expressão queer com as particularidades de diferentes formatos, em trabalhos como H.O.R.I.Z.O.N; o portátil Bottoms Up;o transfigurativo The Zizi Show; a viagem no browser de Pest to Power; Queering the Map; We Dwell in Possibility; e Festinha 360.

Programa completo disponível, aqui.

Texto de Patrícia Nogueira
Still do documentário Gernauts
Queer Porto 7 é parceiro do Gerador

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