O meu corpo não é propriedade pública!

Esta minha posição, neste texto, nada tem a ver com o facto de ser mulher e de muitas vezes ser vista como um corpo que circula, se mostra e deve ser comentado e avaliado. Poderia até ser, porque acontece, não é um assunto simples e, naturalmente, o reflito e discuto. Mas faço esta asserção para sublinhar a importância e o direito de nos mostrarmos e de partilharmos a nossa imagem como marca da nossa existência. Na realidade, existimos individualmente, mas o nosso reconhecimento enquanto indivíduo acontece porque nos relacionamos com outras pessoas e o corpo é veículo para tal.

A nossa imagem, concreta e fisicamente falando, permite-nos criar representações de nós próprios e dos outros. Essas representações/construções de identidades pessoais e colectivas fazem-se pela observação, acção e também suposição através do que nos é permitido observar.

Ora hoje, com mais de 1 ano de máscara(s) no rosto, sinto que perco a faculdade de me dar a conhecer e de conhecer os outros, fomentando uma maior probabilidade de criar imagens e de fazer crer o que não sou.

Não mostrar o meu rosto é uma forma de individualmente me sentir isolada e de não me posicionar em certas situações. Simultaneamente, ver o rosto dos outros dá-me segurança em diferentes níveis, porque ao identificar visualmente indivíduos e grupos permite-me posicionar e perceber onde e com quem estou.

A identidade passa pela nossa representação física e o rosto é, para mim, a parte desse todo que melhor nos apresenta e representa. Através desta parte do corpo manifestamos emoções e sensações e identificamo-las nos outros. Esta sensibilidade de observar o que outro nos diz pela sua expressão facial torna as relações interpessoais mais humanas e sinceras. 

Na verdade, e do meu rosto falo, ganho muito com o uso da máscara… A minha cara desmascara-me em tantas situações, que já me senti frustrada por ser expressiva, dou por mim a dizer uma coisa e a expressar-me facialmente de outra, como se o meu rosto fosse um corpo independente que me quisesse sabotar. Nem sempre é fácil para mim.

Mas esta questão ultrapassa o meu rosto. A ocultação do rosto permite que em situações públicas tomemos posições que não faríamos se estivéssemos expostos. Há assim uma anulação do indivíduo e do colectivo na sociedade. A nossa representação afirma-se sistematicamente para que seja cada vez mais numérica sendo a individualidade e a identidade mais suprimida.

A nossa imagem ganha importância no espaço virtual e perde no espaço real. Perde-se assim a espontaneidade e acabamos por conhecer sorrisos e expressões de ira que são formatados e criados para figurarem em perfis e opiniões que são constantemente alterados nas redes sociais, não nos permitindo perceber as reais posições e emoções de cada um. O ecrã acaba por ser outro tipo de máscara, que não tapa mas que esconde ou camufla identidades.

A importância de falarmos e de agirmos olhos nos olhos parece que se esbatem, e que deixam de ser fundamentais para um bom relacionamento e comunicação. O que para mim é fracturante na relação com o outro e na sociedade. Sinto-me afastada e isolada, enquanto outros defendem que uma máscara e um ecrã podem libertar e permitir que possamos ser mais nós e de uma forma menos controlada socialmente. Diz que somos mais livres.

Na simplicidade das coisas está o ganho, e eu perco, assim, uma das minhas práticas que eram correntes, parar e observar outros. Tantos eram os momentos em que me desligava dos meus pensamentos e até, em determinadas situações, da conversa em que estava a participar, e ficava presa em conversas alheias ou em almoços de outros. E ali ficava. Em muitas destas situações não me chegava ao ouvido o que falavam, mas a possibilidade de observar as suas expressões faciais e gestos dava lugar a construir, para mim, histórias que não eram minhas mas que mesmo assim me fascinavam e prendiam. Agora já não vejo caras, pelo menos desconhecidas, a não ser em ecrãs e já com a sua história construída através de auto-retratos super “maquilhados”. O 'novo' normal que se tornou não ver caras e suas expressões, tornou-se estranho e afasta-me desta minha prática, e ao mesmo tempo, da boa perspectiva de também eu ser observada e de me posicionar na sociedade. 

Faz-me falta mostrar a cara pelas causas e ideias! E de perceber as reacções imediatas de quem vou tendo a felicidade de me ir cruzando.

Nota: Este texto não foi redigido como uma tomada de posição de oposição às medidas de combate à situação pandémica que vivemos, são temas e opiniões que se cruzam e que me habitam o pensamento.

*Texto escrito com o antigo acordo ortográfico

-Sobre Marta Guerreiro-

Nasceu em Setúbal de pais com naturalidade nos concelhos de Almodôvar e Castro Verde e cresce numa aldeia perto de Palmela. Aos 19 anos muda-se para o Alentejo, território que não imaginava que um dia poderia ser a sua casa, e agora já não sabe como será viver fora desta imensa planície. Licenciou-se em Animação Sociocultural, vertente de Património Imaterial, onde desenvolveu competências sobre investigação e salvaguarda de tradições culturais e neste percurso descobre as danças tradicionais e a PédeXumbo, dando assim continuidade à sua formação na dança. Ao recomeçar a dançar não consegue parar de o fazer e hoje acredita que esta é, para si, uma das formas mais sinceras e completas de comunicar. A dança tradicional liga-a ao trabalho desenvolvido pela PédeXumbo, onde desenvolve o seu projeto de final de curso com o tema “Bailes Cantados” e a partir desse momento o envolvimento nos projetos da associação intensifica-se. Atualmente coordena a PédeXumbo onde desenvolve projetos ligados à dança e música tradicional.

Texto de Marta Guerreiro
Fotografia de Catarina Silva