“Nunca mais chega a parte prática” — é uma frase que se ouve frequentemente em conversas entre estudantes de jornalismo. Para que seja possível formar com qualidade, ao longo de três anos de licenciatura em Ciências da Comunicação, nem sempre é possível começar tão cedo quanto se imaginava a praticar. Nesse percurso, há quem se junte a projetos de jornalismo académico, que tão bem estimulam a vontade de querer fazer mais, e alertam, desde logo, para as responsabilidades no jornalismo. Mas há, desde 2018, um projeto que une várias instituições de ensino e que pretende fazê-lo em rede, com o apoio de profissionais que já estão há décadas na área: chama-se Repórteres em Construção (REC).

O REC é um projeto colaborativo que pretende ser um complemento ao que se faz em contexto letivo, em que a colaboração entre professores de Jornalismo, estudantes e jornalistas acontece de forma natural e consequente, na criação de projetos de reportagem e investigação jornalística. Através das parcerias pré-existentes com as instituições de ensino, e pela mão de um professor responsável pelo projeto, faz-se uma chamada aberta de trabalhos jornalísticos no início de cada semestre, para temas específicos propostos pelo REC. É assim que começa o caminho de aprendizagem através da prática, mas também numa sessão de formação organizada em colaboração com o CENJOR.

Pensado e concretizado após o 4º Congresso de Jornalismo, que decorreu em janeiro de 2017 no Cinema São Jorge, em Lisboa, e onde se ouviram os desafios e dificuldades do exercício do jornalismo para diversas gerações, em vários meios, o REC aliou-se, desde o começo, ao CENJOR.  Desde julho de 2018, existe também a Associação REC, presidida por Sandra Marinho. É com os diferentes membros da direção, bem como com os restantes associados, que os estudantes pensam e concretizam os seus projetos de reportagem e investigação, ficando mais perto da experiência profissional.

Todos os meses, programas de rádio desenvolvidos por alunos, que são publicados no podcast do REC, vão para o ar na Rádio Renascença. Já no site do REC, encontram-se reportagens e outro género de artigos com diversidade temática e, grande parte, intemporais. A presença do REC na Academia tem tido sucesso – são os próprios estudantes que o garantem – e a prova disso é a distinção do trabalho “Silêncio – parte I” nos Prémios de Ciberjornalismo, na categoria de Ciberjornalismo Académico, na última edição.  

Até agora, o REC já conta com parceiros como o Instituto Politécnico de Lisboa – ESCS, o Instituto Politécnico de Coimbra – ESEC, o Instituto Politécnico de Leiria, o Instituto Politécnico de Portalegre, o
Instituto Politécnico de Tomar, o Instituto Politécnico de Viseu, a Universidade Autónoma de Lisboa, a Universidade da Beira Interior, a
Universidade de Coimbra, a Universidade de Lisboa – ISCSP, a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, a Universidade do Algarve, a Universidade do Minho, a Universidade do Porto, a Universidade Europeia, a Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias (Lisboa) e a Universidade Nova de Lisboa.

Do disco rígido para a Internet

Maria Rodrigues, aluna da NOVA FCSH e estagiária na SIC, está, neste momento, juntamente com Rita Murtinho, a desenvolver uma grande reportagem que conta com o apoio do REC. Esta reportagem vem no seguimento de um projeto de investigação conduzido por Pedro Coelho, professor na NOVA FCSH e membro do REC, que apresentou recentemente uma reportagem que “mergulha nos meandros do Chega”, partido fundado por André Ventura em 2019, “A Grande Ilusão”.

Maria conta que o primeiro contacto com o REC se deu “em cadeiras da Licenciatura [de Ciências da Comunicação]”. “Os professores de jornalismo desafiavam-nos a adaptar os trabalhos finais da cadeira aos temas propostos pelo REC, de forma a que, uns meses depois, pudessem ser publicados. Assim, os trabalhos não ficavam ‘guardados na gaveta’, ou melhor, no disco rígido”, explica. Desde então, o contacto com o REC não se perdeu.

“O longo formato REC surgiu apenas o ano passado, este é o segundo a ser trabalhado. O primeiro foi até distinguido com um prémio de Ciberjornalismo Académico. Uma vez que estamos num projeto de investigação com o professor Pedro, a ideia de prosseguir com a reportagem sobre a comunidade cigana sempre foi discutida entre os três como um tema a aprofundar. Assim, surgiu a oportunidade de recorrermos ao REC para a trabalhar e publicar. Acaba por ser uma forma de, já licenciadas, nos apresentarmos no mercado de trabalho com uma grande reportagem”, partilha.

A primeira reportagem de longo formato mencionada por Maria é “Silêncio – parte I”, uma reflexão em torno do silêncio, como o próprio título indica, que contou com o apoio de profissionais como Miguel van der Kellen e Catarina Neves, e com a participação de estudantes de jornalismo de diferentes instituições de ensino. A distinção nos Prémios de Ciberjornalismo acaba por ser, também, um incentivo a continuar.

Uma motivação extra para acreditar

Para quem está a estudar Ciências da Comunicação, sobretudo jornalismo, a entrada no mercado de trabalho pode parecer distante. Nem todas as licenciaturas têm um estágio integrado, como tem a Universidade do Porto, e, por isso, experiências como as que o REC proporciona ganham ainda mais peso. Se o “contacto com a realidade” não é feito no estágio, pode sê-lo neste tipo de projetos que decorrem como complemento ao ensino.

Para Maria Rodrigues, o acompanhamento por parte de “jornalistas experientes” dá “outra confiança”, permite “aprender e desenvolver competências técnicas”. “No REC todos temos valor e esse valor é potenciado por cada formador que nos orienta. Com o REC estreei o nervosinho que todos sentimos antes da nossa peça sair. Dar a oportunidade aos alunos de Jornalismo de partilhar as suas peças é motivador para continuarmos no ramo”, sublinha.

A estudante da FCSH, que se licenciou em Ciências da Comunicação, sente que a formação por que passou “é já bastante completa para o tipo de licenciatura que é”. Ainda assim, acredita que “o bom da experiência com o REC é podermos sair do registo académico e passar para um nível de exigência e profissionalismo ainda maior”. As reportagens deixam de ser mostradas apenas a professores, colegas e, quem sabe, amigos ou familiares, e é publicada num espaço onde qualquer desconhecido lhe pode aceder. É aí, quando se começa a perder o rasto, que a responsabilidade também acresce.

“O REC oferece aos alunos, que estão a produzir trabalhos, formações com os professores orientadores, que são oportunidades para trabalharmos e aprendermos com professores e alunos de outras faculdades e partilharmos experiências e métodos de trabalho. Deixamos de brincar aos jornalistas e passamos a trabalhar como verdadeiros profissionais – e melhor, passamos a trabalhar com profissionais”, partilha Maria em jeito de conclusão.

Se é um facto que o jornalismo tem atravessado uma crise ao longo dos últimos anos, é também cada vez mais notório que existem jovens com vontade de dar a volta e de fazer mais. De sair para a rua, ouvir e contar as histórias que acreditam que mais gente precisa de conhecer. Esses jovens são Repórteres em Construção, cientes de que o futuro do jornalismo também está nas suas mãos. 

Texto de Carolina Franco
Fotografia via Unsplash

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