Dezembro

Está quente no Brasil, onde ele nasceu, enquanto aqui tudo esfria. O tempo passou outra vez sem medida. Dia 25 é o seu aniversário - ele é o que se pode chamar de verdadeiro milagre de Natal. Na sua recente pequena chapinha dourada diz Victor, com c - o que permite que o seu nome possa ser lido com vários sotaques, do russo ao francês. Tutu, tutinho, tuteco, pipico, sr. Vitor, Vitinho, o velho, o pequeno - todos nomes que lhe são possíveis e todos completamente encaixáveis à sua personalidade. O pequeno Victor é absolutamente único. Silencioso e minimalista na sua forma de ser, dorme muito e muito bem, sabe receber carinho como ninguém, e se colocado num sítio confortável e quente, deixa-se ficar até alguém o obrigar a agir. Numa brincadeira com as irmãs mais velhas perdeu um dos olhos, o outro agora já nada vê, embora às vezes pareça que nos olha com compreensão. Vai fazer 14 anos e é um velho-novo, um bebé querido e resmungão. Sabe pedir para subir para o sofá com toda a insistência, tem mão pesada a bater em portas que lhe são fechadas, e aprendeu a saltar em direcção ao céu, para cima, em vez de o fazer em frente e para baixo (não vá o precipício ser maior do que julga ter calculado). Não gosta nada de se sentir sozinho, fica a suar de nervos. Aprendeu a defender-se agora de bater com força nos móveis que as humanas insistem em mudar de lugar. Um abraço nele é como agarrar um macio algodão que se deixa ficar. Não tem um pingo de maldade ou desconfiança em si, acredita que ninguém nunca lhe irá fazer mal. É um sobrevivente - já se safou várias vezes de ser atropelado, raptado, ferido mortalmente. Embora seja um Shih-tzu acha-se um Golden e é isso que lhe dá um charme irresistível, uma altivez rara e uma indiferença perante a má educação dos demais. Não ladra, não reclama, e se for preciso não come, não bebe água nem faz xixi desde que se sinta acompanhado, protegido, entre aqueles que ama. É como ter em casa um misto de E.T., Gizmo, Ewok e o peluche do filme “Inteligência Artificial”. Um sonho.

Novembro

Há qualquer coisa de romântico neste mês. Sempre achei. Ou pode ser o nome: Novembro. Qualquer coisa no gerúndio acontecendo. Podia ser um verbo. Um verbo sobre amor. Ela nasceu no mês anterior ao Victor e é 7 anos mais nova do que ele, embora aparente ser sua mãe. A Aiyra só me conhece há dois anos e escolheu-me. E isso às vezes embaraça-me. Aquele olhar que me segue a qualquer gesto, que procura aprovação, carinho sem fim, colo. Aiyra quer dizer filha em tupi-guarani. Ela também veio do calor, do Sol, das ancas que dançam. E muito dançam as suas ancas, de cauda estendida para cima em sinal de luxuria e felicidade, sempre que anda sem trela ao pé de nós nos seus passeios. Faz sons quando lhe damos carinhos, sons que fazia pelo vistos desde que era bebé, pequenos grunhidos de Chewbacca, graves e roucos, como quem fala em troca do nosso falar. Tem mil expressões que nos lança para nos desarmar - a minha preferida é quando está muito atenta a prestar atenção com força em alguma coisa que não pode perder de vista. Rói as suas próprias patas e tem problemas de pele de cada vez que fica mais nervosa. É protectora, criança, distraída, esperta, incapaz de se concentrar em algo durante muito tempo. Acha que é do tamanho do Victor e que cabe em qualquer lado - esmaga-se a si mesma nos mais mínimos espaços impossíveis da casa, desde que seja perto de nós. Come a sua comida e de toda a gente mais. Sofre de calor crónico (embora seja brasileira) e só quer ser abraçada para sempre.

Outubro

A Sophie eu não conheci. Consigo pressentir a sua falta, o vazio que deixa com a sua ausência. Sei que era lindíssima e altiva, uma princesa sempre fugindo de seja o que for que a sujasse ou perturbasse. Era inteligentíssima, sentia tudo, sabia tudo, e tudo organizada só com a energia com que habitava o espaço à sua volta e com o desenho que faziam as suas sobrancelhas mais-que-expressivas. Foi no Inverno que ela se deixou embalar lá para aquele sítio que queremos acreditar que existe, onde não há dor e onde estão todos os bichos que alguma vez amámos. Vou colocá-la aqui, neste calendário reverso, no Outono - aquele momento em que durante uns instantes a cor das folhas muda. A sábia Sophie é a imagem do carinho imenso, aquele ser que torna nublada a fina ténue linha que o ser humana insiste em colocar como baia a separá-lo dos animais. Tenho saudades dela sem nunca lhe ter dado uma festa. Ela é indubitavelmente parte para sempre da família, da casa, do futuro de todas as festas que iremos dar aos nossos filhos-bicho.

Setembro

Os gatos sempre me deram medo. A Marie ganhou-me por insistência. Sentia-a por trás de mim estudando-me com o olhar, toda ela cinzentinha, doce, ronronando só de sentir a possibilidade do toque. Atirando-se para o chão de barriga para cima. Plok! “Dá-me carinho!” E roçando-se ao sol, roçando-se no ecrã do computador, roçando-se nas pernas, nas loiças. Languidamente. Gosta de ver o funcionamento de tudo, de saber para tentar dominar. Muitos pássaros, muitos ratos, muitas osgas à porta do quarto deixou ela, como oferendas de ternura, prendas, tesouros que custaram a caçar.

A Marie, provavelmente, vai sobreviver aos irmãos, vai ser testemunha das suas vidas todas até ao fim. E vai continuar a vir discretamente ter connosco quando estivermos a chorar ou com dor de menstruação ou aflitas com alguma coisa que ainda não sabemos que sentimos e que ela sabe prever antes de nós. Um dia, Marie, vamos voltar a ter uma casinha com terreno para voltares a ser livre com alegria e podes trazer todos os bichos que quiseres e voltar só para comer e para ver televisão no sofá. Prometo.

Agosto

Viana do Castelo. As férias em Afife e na casa do Cachimbo. Não sei se esta será uma das minhas primeiras memórias mas como eu consigo ainda ver tudo tão bem! O momento do terror: dois cães gémeos imensos de preto a luzir a virem na minha direcção, eu a andar de marcha atrás, recuando até à parede que rodeava a casa por fora. À esquerda o vidro das grandes janelas da sala, à direita relva verde intensa do sol, por trás branco-cal-cimento, para cima o céu azul longe e eles de cara bicuda, maiores que eu, encarando-me. Vou ser engolida, mastigada al fresco! Na realidade pouco se devem ter aproximado da minha cara, tudo aquilo deve ter sido só um olá que habitou anos dentro de mim e me provocou a maior fobia a coisas de quatro patas. Já morreram, entretanto. Já muito morreu. E o trauma passou, foi curado à força pela Petra - de quem já falarei.

Julho

Ele tem os olhos mais incríveis de se encontrar - verdadeiras esferas-berlinde de cores indecifráveis. É gato-tigre. Felino de impor respeito. Um grupo grande de amigos ofereceu-o de prenda, pequenino que era, esperando que fosse o gato perfeito. Sou completamente contra comprar animais. Foi a única vez que fiz parte de tal acto. O Casanova rapidamente passou a chamar-se Fofinho. Há momentos em que um adjectivo pode ganhar ao nome. Faz de filho, de marido, de almofada nos pés, de porteiro, e de estátua para admirar. É daqueles seres que se orgulha de viver dentro de uma casa sem grandes perigos de se sujar, de se perder, ou correr perigos de maior. Foi feito para habitar palácios. E, como todos os queridos bichos, ficou igual à sua humana, ou ela ficou igual a ele (nunca sabemos bem que género de osmose acontece). É um gato cão - gosto muito dele por isso - vai buscar brinquedos, senta-se calmamente a perscrutar o que se passa e sabe co-habitar, conversar connosco, fazer parte do convívio. Também já o vi ser mãe e oferecer os seus mamilos secos a mamar. Nos jantares com muita gente reclama o seu lugar à mesa, e eu acho que sim, que lhe devíamos dar uma cadeira de onde ele possa continuar a ver-nos e a olhar-nos com escárnio disfarçado.

Junho

Abro a porta de casa e vejo um braço estendido e uma bolinha - uma pequena coisinha que ainda mal abria os olhos-cor-de-leite, enroladíssimo na palma da mão. A sua mãe tinha recusado os filhos, e este estava a ser-me oferecido de prenda de anos. Lembro-me que chorava de noite, punha a língua nas fichas das paredes, queria calor, leite, cheiros que lhe fossem casa. Cresceu connosco da forma mais doce possível. Errámos muitas vezes na sua educação. Foi criando manias, fobias, tiques inexplicáveis. Prognata, saltitante, de cor ruiva, reclama de cada vez que toca o telemóvel ou a campainha da porta - se não é para lhe darmos atenção, o que estamos nós a fazer? A sua pata reclama, calca-a em cima dos nossos pés, os olhos a olhar direto nos nossos. Eu acho que ele se acha pessoa. Não sabe brincar com os outros animais nem nunca na vida soube ir buscar a trazer um boneco. O Mel é uma personagem, um companheiraço, e sabe tudo o que se está a passar. Sofre com isso também. Sobreviveu a um grave acidente que o deixou prostrado no chão, sem sentidos e sem corpo. Foi um valente. Re-aprendeu tudo. Está crescido, está mais sábio, e mais calmo. O focinho mudou, tem agora umas manchas adoráveis e está a ficar mais parecido consigo mesmo quando era pequenino e chorava de noite. Tratamos deles bebés e depois tratamos deles velhinhos. E passa depressa, não é? Quantos anos já passaram?

Maio

O Buda afastou a morte lá de casa e adiou a sua vinda. Veio-nos buscar a cada parte da casa, a meio da noite, e chamou insistentemente por toda a gente até nos conseguir levar consigo até ao quarto onde estava a minha avó já muito doente. Quando nos conseguiu juntar sentou-se de costas para a porta do quarto virado para a parede onde estava encostada a lateral da cama e ladrou a plenos pulmões até se cansar, vendo qualquer coisa que nós não víamos mas que quisemos respeitar. Tenho a certeza que era a morte e que ele conseguiu assustá-la. Era verdade afinal o sagrado que lhe pertencia ao nome. E era também um aviso, o que ele nos tentava dizer. Dias depois teríamos de nos despedir para sempre da minha avó, mas o Buda soube preparar-nos para isso.

Não me pude despedir dele. A sensação foi por demais dolorosa. É como se não pudéssemos nunca acreditar por completo que aquela parte da nossa família (que eu vi nascer à minha frente) já não está aqui…

Abril

“Myra” foi o último livro publicado pela génia Maria Velho da Costa. A história da menina e do seu cão resgatado (ou foi ele que a resgatou?). Ela agarrada a ele com força, os dois abraçados atirando-se, no fim, pela janela, em fuga da vida hedionda. E ela que quer que o seu corpo embata primeiro no chão, recebendo o dele, para que não haja dor, só fusão eterna.

Março

Estava uma fotografia dela no Facebook. Sujinha, pequenina e débil, abandonada algures no Algarve. Era ela mesmo a que queríamos adoptar. Pedimos que a viessem trazer a Lisboa para a levarmos depois para o Porto. Fiquei com ela a primeira noite. Tremia de frio e de medo, escondia-se por tudo o que era cantinho e andava à volta de si mesma sem parar - a querida cadela do circo, como nós a chamamos. Passou a ser a protegida, e até hoje tem medo de ser abandonada, mal-amada, substituída. Ponho-a aqui na Primavera, com o seu nariz pequenino, a sua vontade de beijar, o seu constante pedido de amor. Passou a chamar-se Molly, de “Molly Sweeney” - peça extraordinária de Brian Friel. A mulher que perdeu a visão e que, embora a possa recuperar, escolhe o seu primeiro mundo, onde tem de adivinhar o que cheira, o que toca, o que sente.

Fevereiro

Mês que nunca se consegue abarcar - irregular, diferente, indomável.

Foi a primeira. Escolheu-nos para a acolhermos. Coisa mais querida de sempre, pequenina, preta, a fazer lembrar um cão de água. Um dia fugiu no meio do Alentejo e foi atacada por muitos cães ao mesmo tempo, de madrugada, e nós de lanternas na mão tentando salvá-la. Ficou grávida. Uma noite foi pegar os brinquedos todos da casa e pô-los na sua cama e sentou-se por cima deles. Pouco depois começou a dar à luz os seus bebés. Um, dois, três. Segurou-os pela boca e levou-os até ao meu beliche (os veterinários avisaram que ela iria escolher o sítio que sentia ser o mais protegido da casa). Tentámos ainda convencê-la a voltar para a sala, sem sucesso. Ela foi a mãe mais incrível, protegeu-os a todos, mal queria ir à rua, para não os perder de vista. Contava-os a toda a hora e estava exausta. Tivemos de os dar, um a um. Foi tudo terrível. Ficámos com o Buda - o que ladrou para a morte. Seu filho.

Janeiro

Uma caixa de cartão com 6 cãezinhos lá dentro foi abandonada à nossa porta. Lá dentro a Caju, a Pepita, o Xico, o Yoko e a Jackie. A nossa Jackie. Ela é o mês primeiro, o dia primeiro da nossa nova vida, da nossa nova casa, do nosso novo ciclo quase (quando é?) a começar.

Ensiná-mo-la a deixar-se amolecer, derreter, moldar e ela adora. Não sei ainda bem falar sobre ela, de tão recente que é a nossa paixão. Ela derrete-nos, manipula-nos, olha-nos com os seus olhos-pepitas de 4 meses de vida e desarma-nos. Veio mexer em tudo, mastigar tudo, revolver tudo, baralhar tudo - acorda-nos todos os dias demasiado cedo, dá-nos pontapés involuntários todas as noites, raramente nos respeita e, no entanto, que amor imenso, que lição, que-tudo-de-novo nos trouxe ela. É só olhar para ela e tudo se vê.

Os astros andam em pressão em cima das nossas cabeças. Ou será o ano a terminar? Um cansaço que nos acompanha desde sempre aqui em cima do planeta terra. Uma sensação de vida por viver que não é já recuperável. E uma falha atrás da outra.

Não tenho receitas para o desastre, para os pensamentos sem consequências, a falta de sentido, a imaginação aos pedaços.

Só soube falar sobre eles que tudo têm vivido ao nosso lado.

Não consigo perceber porque os abandonam.

Somos nós o desastre então.

-Sobre Sara Carinhas-

Nasceu em Lisboa, em 1987. Estuda com a Professora Polina Klimovitskaya, desde 2009, entre Lisboa, Nova Iorque e Paris. É licenciada em Estudos Artísticos pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Estreando-se como actriz em 2003 trabalhou em Teatro com Adriano Luz, Ana Tamen, Beatriz Batarda, Cristina Carvalhal, Fernanda Lapa, Isabel Medina, João Mota, Luís Castro, Marco Martins, Nuno Cardoso, Nuno M. Cardoso, Nuno Carinhas, Olga Roriz, Ricardo Aibéo, e Ricardo Pais. Em 2015 é premiada pela Sociedade Portuguesa de Autores de melhor actriz de teatro, recebe a Menção Honrosa da Associação Portuguesa de Críticos de teatro e o Globo de Ouro de melhor actriz pela sua interpretação em A farsa de Luís Castro (2015). Em cinema trabalhou com os realizados Alberto Seixas Santos, Manoel de Oliveira, Pedro Marques, Rui Simões, Tiago Guedes e Frederico Serra, Valeria Sarmiento, Manuel Mozos, Patrícia Sequeira, João Mário Grilo, entre outros. Foi responsável pela dramaturgia, direcção de casting e direcção de actores do filme Snu de Patrícia Sequeira. Foi distinguida com o prémio Jovem Talento L’Oreal Paris, do Estoril Film Festival, pela sua interpretação no filme Coisa Ruim (2008). Em televisão participou em séries como Mulheres AssimMadre Paula e 3 Mulheres, tendo sido directora de actores, junto com Cristina Carvalhal, de Terapia, realizada por Patrícia Sequeira. Como encenadora destaca “As Ondas” (2013) a partir da obra homónima de Virginia Woolf, autora a que regressa em “Orlando” (2015), uma co-criação com Victor Hugo Pontes. Em 2019 estreia “Limbo” com sua encenação, espectáculo ainda em digressão pelo país, tendo sido recentemente apresentado em Londres. Assina pela segunda vez o “Ciclo de Leituras Encenadas” no Jardim de Inverno do São Luiz Teatro Municipal.

Texto de Sara Carinhas
Fotografia de João Silveira Ramos
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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