Quem acompanha o meu percurso, tem conhecimento que sou da opinião de que a mudança é um processo difícil. Ainda que seja para algo que se considere melhor, há pequenos detalhes que nos marcam e ficam em nós, como cicatrizes que marcam a pele, deixando-a tingida de uma impressão digital única. Trata-se de um processo que reúne todas as condições para correr mal e evocar emoções negativas. No entanto, tem também tudo para ser perfeito e despertar o melhor que há em ti.

Em qualquer mudança, seja pequena ou grande, existem vozes que nos fazem vibrar e repensar nas nossas ações. São vozes que falam, sussurram, mas quanto mais repetem o que não queremos ouvir, mais força, tom e timbre ganham. Obrigam-nos a questionar o certo e o errado, a perceber que, onde nos encontramos, de alguma forma, precisa de ser alterado. Este exercício implica que a mente seja ágil e perspicaz, não só para conseguirmos ter clareza de pensamento, mas também para não nos deixarmos levar pela frustração e tristeza que uma mudança acarreta.

Recomeçar pode, por alguns, ser entendido como sinónimo de desistir. Por isso, ouvimos inúmeras vezes afirmações como “não desistas do teu caminho”, “não faças isso”, “não erres, continua”, ou que a força e a perseverança são características da maturidade. Manter um determinado caminho é ainda entendido como sinal de força, tal como procurar um novo rumo é percebido como desistência de todos os outros, como se fosse um desperdício não reciclado de competências, que não vamos mais usar. Simplesmente abandonar.

Para mim, os recomeços são como uma planta: pode sempre ser podada, mas outros nascerão. A seu tempo, uns mais rapidamente que outros, todos irão renascer.

Ainda que o que deixas para trás tenha tido até algum sucesso, nem sempre é o suficiente para compensar tudo aquilo que irás ganhar no momento em que começas um novo caminho.

Este novo caminho, pode levar-nos a pensar que somos inexperientes, que ficámos para trás enquanto o mundo continuou. Mas, é quando nos afastamos do mundo, do caos que nos rodeia e das crenças dos outros e da sociedade, que nos aproximamos da nossa essência. Quando recomeçamos, é um passo que damos em direção à felicidade. Uma afirmação comum, mas verdadeira. Em nenhum momento, recomeçar é um atraso ou tão pouco um obstáculo. É um desafio, muitas vezes duro, difícil, mas com um valor inestimável: o crescimento pessoal.

Mais uma vez, como uma planta ou uma árvore, depois de podada, regada e nutrida, dá uma flor repleta de cores vibrantes ou um fruto saboroso e saudável.

Dos livros técnicos aos grandes romances literários, muito já se escreveu sobre recomeços, mas da mesma forma que não há certo ou errado, também não existe uma receita infalível ou um manual de instruções para lidar com a imensidão de um recomeço.

Mudar é uma enchente de emoções contraditórias, com uma única certeza: ainda que o percurso e o desfecho sejam um mistério, aquele caminho foi o que escolheste para ti. Nem sempre será uma aventura feliz e bem-sucedida, quem sabe poderás até ter de começar de novo, mais uma vez. Mas o lado positivo, é que estás novamente num caminho cheio de possibilidades e oportunidades para ser feliz.

Pode ser um percurso desesperante com uma sensação de desamparo, afinal mudar é sair da zona de conforto, do conhecido e do expetável. Mas ao mesmo tempo, é também possível sentir a alegria e o sorriso no rosto a cada passo, a cada nova vitória e obstáculo ultrapassado.

Existem várias formas de encarar os recomeços. Dependendo das experiências e lições que vamos adquirindo ao longo do nosso percurso, temos visões e sentimentos diferentes quanto aos recomeços e à mudança.

Recomeçar significa quebrar estereótipos e contrariar opiniões. Levar-te-á a perceberes quem realmente apoia genuinamente e acompanha com entusiasmo o novo caminho por ti escolhido. Significa, também, estar novamente disponível para a desilusão e os julgamentos indiscretos, disponível para enfrentar as vozes desassossegadas da inveja e, ainda assim, continuar calmamente, passo a passo.

Atreve-te a mudar, e sobretudo a recomeçar. (Re)começar uma nova vida não significa estar perdido. Significa que continuas em busca do caminho certo para ti. Não significa abandono. Significa estar, finalmente, em companhia. A companhia do sonho que faz mover a tua vontade.

Habitualmente, é no fim do mês de dezembro que fazemos uma retrospetiva do que aconteceu ao longo do ano, o que correu bem, o que correu mal, que objetivos conseguimos alcançar e o que ficou ainda por conquistar. Revisitamos os nossos sonhos e definimos objetivos para o ano seguinte, alguns mais humildes, outros mais ambiciosos. Esta retrospetiva deve ser feita despojada de julgamento e carregada de força para mudar.

Encontrar o ponto de viragem e a coragem para o abraçar, não é fácil ou tão pouco uma decisão simples, são as escolhas que fazemos nestes momentos que alteram e reescrevem o rumo da nossa história. Por isso, termino com uma pergunta para reflexão: o que gostarias de mudar na tua vida e ainda não tiveste coragem?

Desejo-te um 2022 feliz, repleto de nova aventuras e desafios.

-Sobre Sofia Dinis-

Sofia Dinis é tatuadora, fotógrafa, designer, ilustradora, criadora de conteúdos e muito mais. Sofia Dinis é artista.
Nasceu e cresceu em Albufeira, mas foi em Lisboa que floresceu. Mudou-se para a capital para tirar a licenciatura em design de comunicação, no IADE, e foi nesta cidade que construiu todos os seus projetos. Teve um espaço de estética e deu formação na área, trabalhou como fotógrafa e designer e abraçou a tatuagem como hobby.
Em 2017, viu-se obrigada a repensar o seu percurso profissional quando fechou o seu espaço de estética e design e regressou a Albufeira. No meio do caos, decidiu que queria ser tatuadora a tempo inteiro e a 15 de fevereiro de 2018 regressou a Lisboa. Dava assim o primeiro passo para se tornar a tatuadora que toda a gente conhece.
O projeto SHE IS ART nasceu em pleno coração de Lisboa, numa casa de Air BnB de uma amiga. Durante duas semanas, Sofia tatuou 2 amigos e fotografou os trabalhos de forma a parecer que tinha um extenso portfólio. Desenhou o seu Instagram, desenvolveu a marca e, duas semanas depois, começou a receber vários pedidos para tatuar, não tendo parado desde então. Em menos de um ano, tinha mais de 50 mil seguidores no Instagram e uma lista de espera de 8 meses.
A marca SHE IS ART não parou de crescer ao longo destes 3 anos. Neste momento, é muito mais do que um projeto de tatuagens, é um projeto artístico. O ano passado, Sofia lançou o seu primeiro produto, o Diário 2021. Este ano, tem já planeados novos projetos para apresentar ao público. Afinal, criar faz parte da sua essência.

Texto de Sofia Dinis
Fotografia cortesia de Sofia Dinis
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
gerador-gargantas-soltas-sofia-dinis