Uma imensa minoria encontra, nestes últimos tempos e finalmente, espaço para uma vida melhor. Face ao monotemático das notícias, aos confinamentos – que não são sinónimo de isolamento – aqueles que se sentiram a viver em burnout ou de olhos postos num mundo obsessivo e compulsivo – vivem finalmente uma estranha paz. Afinal, não é preciso tanto, tanta coisa, tanta aflição, tanta correria diária, tanto desentendimento, tanto “viver sem olhar” para, grosso modo, viver.

Mormente seja uma visão muito pouco politicamente correcta face às enxurradas de opiniões sobre sobre o “animal social” e os “coitados dos adolescentes que vivem em tribo”, a verdade é que existe também este outro lado, esta outra face da humanidade e, pasme-se, em todas as idades. E sobre esta calmaria que tantos vivem, ninguém fala ou escreve.

Há uma cultura que é agora aberta e acessível, porque, querendo, há mais tempo para algumas coisas para que não se tinha tempo.

O tempo perdido em corridas e transportes públicos, reuniões de ”serrar presunto”, almoços multiplicados e infindáveis “de trabalho”, e tantas vezes, em verdadeiro esforço, “jantares sociais” em sacrifício para tantos, despareceram. É ou não um alívio?

Existe agora tempo para substituir esses sofrimentos sociais, que eram compulsivos, por um bom livro, um bom filme ou série, ouvir música ou simplesmente não fazer absolutamente nada, o que também é tangível.

E conseguir, enfim, não ter de “marcar presença” nesta sociedade fútil e cheia de encontros sociais obrigatórios e que começam logo com os mais novos e as festas e saídas que tantos abominam mas se vêm, como tribo, obrigados a ir, a estar, enquanto preferem estar sozinhos e, finalmente, encontrar um pouco de paz para conseguir respirar. Afinal, até existem as redes sociais para marcar presença mesmo que não física.

E, ao contrário do credo social, não são raros os que vivem estes dias de mansinho, quase esperando que algo se mantenha desta fase, que pouco mais do que o exclusivamente necessário que é regressar ao tal “normal”.

Sim, o normal das festarolas, almoçaradas, cafés e restantes motivos de encontro. E todas as psicologias que se limitam ao homem-social falham ao não ouvir ou empatizar com essas pessoas que não são iguais às outras.

Ao homem social chamamos “gente”. Mas depois, há pessoas. Pessoas que caminhavam num sentido de ruptura consigo próprias, num vazio cheio de ruído onde já nem se escutavam a si próprias, quanto mais aos restantes. Viviam ou sobreviviam num vazio absoluto emocional onde o silêncio tinha simplesmente desaparecido.

E quanto se ouve no silêncio! Quanto se encontra na empatia, no escutar os outros sem se ser obrigado a responder. Nem que seja por um bocadinho. O saber estar, novamente consigo, um reencontro íntimo, um abraço às coisas que nos fazem sentir bem. O revisitar aquele livro, o rever o filme ou, sem tempo e pressas, ouvir em loop a música preferida de outros tempos e de que nos tínhamos esquecido.

Todo o mundo é construído por perspectivas. E em quase nada existe apenas uma.

Para o céu menos poluído, para o ruído que está mais baixo, para a calma que obriga ao reencontro, para os que se sentem tranquilos agora que puderam e tiveram que mudar para uma nova realidade.

Para os silenciosos e cheios de vida e para os que olham para o Mundo Novo de frente.

É para vós tod@s que dedico este artigo, porque merecem ser entendidos e abraçados!

A Recuperação já chegou e não está no voltar atrás. Como tantas vezes se diz e muitas sem realmente entender, é para a frente que é o caminho. A olhar olhos nos olhos. É na pausa. E na tentativa de que o melhor disto tudo se mantenha, sem ganâncias, correrias, futilidades sociais que afinal desaparecem no seu vazio.

Estamos tod@s a crescer. E bem.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Ana Pinto Coelho-

É a directora e curadora do Festival Mental – Cinema, Artes e Informação, também conselheira e terapeuta em dependências químicas e comportamentais com diploma da Universidade de Oxford nessa área. Anteriormente, a sua vida foi dedicada à comunicação, assessoria de imprensa, e criação de vários projectos na área cultural e empresarial. Começou a trabalhar muito cedo enquanto estudava ao mesmo tempo, licenciou-se em Marketing e Publicidade no IADE após deixar o curso de Direito que frequentou durante dois anos. Foi autora e coordenadora de uma série infanto-juvenil para televisão. É editora de livros e pesquisadora.  Aposta em ajudar os seus pacientes e famílias num consultório em Lisboa, local a que chama Safe Place.

Texto de Ana Pinto Coelho
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