A companhia de teatro Estrutura e o Teatro Municipal do Porto juntaram-se para trazer uma formação diferenciadora, que junta a teoria à prática e mostra que o teatro “tem muitas possibilidades”.

Foi em 2018 que a primeira edição do Recurso veio para agitar a perceção do que é teatro e trazer aquilo que os seus criadores, e profissionais que foram conhecendo no seu percurso, achavam que faltava: um equilíbrio entre a teoria e a prática.

Criado pela Estrutura, companhia de teatro co fundada por Cátia Pinheiro e José Nunes, o programa Recurso 2021 assumiu, desde a sua primeira edição, uma posição diferenciadora no setor das artes performativas por estar orientado para a criação e não para a interpretação, incluindo componentes de reflexão teórica, pensamento crítico, experimentação dramatúrgica/cénica e produção (esta última só presente na segunda edição) – “O diagnóstico que fizemos quando começámos a pensar o projeto, mais ou menos em 2017, foi de que a formação convencional das escolas era muito virada para a interpretação, não existia um contexto de ferramentas de criação tanto na encenação como na escrita, ou até noutras componentes, como a conceção plástica do espetáculo. Também havia o feedback de que, normalmente, a parte teórica dos cursos de teatro e a parte reflexiva, são um bocadinho a “parte coxa dos cursos”, e falta muitas vezes um grau de exigência nessas matérias. Por exemplo, dávamos um conjunto de referências que eram importantes para o nosso trabalho, e muitas vezes as pessoas não estavam enquadradas com o que partilhávamos.  Por isso não pretendemos ser um curso de teatro, mas algo complementar aos cursos e complementar de forma alternativa.”, conta José Nunes.

O Recurso veio assim para “destruir a ideia de teoria e prática como se fossem duas ideias opostas e tentar fundi-las”, por mais que, por vezes, seja importante “separá-las para criar bases de entendimento”, explica José, que diz ainda que, para a coordenação do curso, “faz todo o sentido que toda a prática artística e também de produção, esteja sempre associada a práticas de reflexão”.

Por isso, o Recurso 2021, juntou formadores como André e. Teodósio, Cão Solteiro (Mariana Sá Nogueira e Paula Sá Nogueira), Cláudia Jardim, Dori Nigro, Estrutura (Cátia Pinheiro & José Nunes), José Maria Vieira Mendes, Maria João Garcia, Maria Sequeira Mendes, Maria Vlachou, Melissa Rodrigues, Pedro Nabais, Pedro Penim, Rita Natálio, Rogério Nuno Costa, Sónia Baptista, Tânia Dinis e Vânia Rodrigues, para durante três meses e meio – de setembro a dezembro – guiarem, numa espécie de laboratório, os dez formandos desta edição, com o objetivo de criar um projeto final.  

Este ano, a novidade foi a temática da produção porque, segundo José, “os participantes não são produtores, são criadores, mas para nós faz todo o sentido que a produção seja pensada sempre desde o início e que os criadores tenham um conjunto de noções sobre produção para, de algum modo, tentar destruir uma tensão existente em criação e produção”.

Entre laboratórios, aprendizagem e muito espaço para a criação, ao longo das três semanas finais do projeto, os participantes desenvolveram o projeto final, alguns aproveitaram para melhorar projetos anteriores, uns começaram a trabalhá-los logo no início e outros apenas durante estas três semanas para, para além da exposição final, surjam “objetos artísticos livres para voar”.

Trazendo temáticas como ecologia, género, práticas queer e feminismo, Carolina Garfo (Predição Despassarada) , David Almeida, Diogo Sottomayor, Inês Costa e Jonas Rocha (23h30),  Eduardo Batata (Devolver ao Fogo), Maria Teresa Barbosa (Rediscurso), Miguel Amorim (Espelho-sofá), Natasha Bulha Costa (Happy Hour) e Orlando Gilberto-Castro (Em Vidro), são os artistas que deram asas a performances, instalações de vídeo ou sonoras, documentação de processo que vão ser apresentadas (para assinalar o dia final do curo) no CAMPUS Paulo Cunha e Silva, no Porto.

“É um curso de teatro com interceções à performance e artes visuais. Nós gostamos de chamar curso de teatro por statement, porque, para nós, o teatro tem muitas possibilidades, não tem de ser um espetáculo convencional, por isso, quanto mais nos dizem que não fazemos teatro, mais dizemos que fazemos. O que quisemos sempre dar foi um espaço de total liberdade, porque é um lugar de risco e é isso que fomentamos no Recurso”, afirma José que não promete um Recurso 2022, mas desvenda a atribuição de duas bolsas de criação aos participantes desta edição.

Texto de Patrícia Nogueira
Fotografia disponível via Pexels

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