Agora que já passaram uns bons dias desde 6 de janeiro, sem estarmos perseguidos pelo fervor da urgência, parece-me oportuno voltar a abordar a relação entre redes sociais e liberdade de expressão.

Aquela foi a data da infame insurreição do capitólio norte-americano, acicatada pelo invulgar e assustador Presidente Donald Trump, para sempre assinalada em calendários futuros como um momento de embaraço para a maior democracia terreste.

Para além das extraordinárias consequências políticas e das imorais repercussões na vida, e morte, das pessoas envolvidas, este dia resultou numa aparente alteração substancial na forma com as lideranças das principais redes sociais encaram o seu papel na sociedade.

Facebook e Twitter deixaram de se apresentar como passivos, apenas dispondo de canais agnósticos por onde mensagens viajam, para se afirmarem como activos, impedindo que determinados conteúdos, independentemente do poder do seu emissor, possam circular. E assim determinaram o fim das contas de Trump.

Mais tarde a Amazon, através do seu serviço de armazenamento virtual, Apple e Google, através das suas lojas de aplicações, reforçaram este modelo mais interventivo das tecnológicas, varrendo a única rede social de reserva da extrema direita para debaixo do tapete.

Ora, bem feita, ajuizaram muitos. Diziam que estas eram medidas que deveriam ter sido implementadas há mais tempo e que, pela sua inexistência anterior, tornavam as redes sociais cúmplices dos males que agora nos infetavam.

Outros, no entanto, da direita à esquerda, manifestaram-se contra esta decisão do Facebook e Twitter. Até líderes políticos internacionais de grande prestígio mostraram o seu descontentamento com esta sentença, como que protegendo o último folego do direito à liberdade de expressão.

Percebo, obviamente, este alvoroço, mas sinto que vem com uns anos de atraso.

Comecemos por reflectir sobre o que é a liberdade de expressão. É o direito de qualquer pessoa exteriorizar, livremente, ideias e opiniões sem receio de censura ou retaliação por parte de governo, pessoas ou entidades. Muito bem. E censura? Também dá jeito entender no que consiste. É qualquer tentativa de suprimir informação, ideias e opiniões.

A pergunta que devemos colocar a seguir é esta: será que as redes sociais fizeram alguma vez tentativas de suprimir informação, ideias e opiniões? E a resposta é só uma: Sim, todos os dias o fazem. Pelo menos desde 2007.

2007 foi o ano em que o botão Like surgiu pela primeira vez no Facebook. Sim, já parece que foi há três gerações atrás… Com a sua chegada, no entanto, iniciaram-se as experimentações com os algoritmos que, hoje em dia, determinam as informações, ideias e opiniões que cada um de nós tem acesso.

O Facebook, como literalmente todas as restantes redes sociais, censura certas informações, ideias e opiniões para maximizar o nosso potencial de permanência e de interação dentro da rede. Aproxima-nos de pessoas que pensam como nós para que nos sintamos bem com as nossas visões e pensamentos.

Foi, aliás, a partir deste momento que as tensões originadas nas redes sociais despertaram para o espaço público. Quando julgamos que as nossas opiniões, as ideias que partilhamos ou a informação que consumimos são as únicas que existem no universo que nos rodeia, é provável que a nossa paciência e tolerância para outros diminua ou desapareça.

É curioso citar o wikipedia na sua definição de censura: “O propósito da censura está na manutenção do status quo, evitando alterações de pensamento num determinado grupo social e a consequente disposição de mudança de paradigmas políticos ou de comportamento.” Esta é, na verdade, a conduta diária das redes sociais. Uma censura parcial em função do lucro total.

Estou mesmo convicto que a existência de algoritmos nas redes sociais que todos usamos é, de longe, a principal razão para a aceitação dos extremismos. E para a situação política pouco esperançosa que nos cerca cada vez mais.