A 25 de dezembro de 2020, foi lançado, pela Disney e Pixar, Soul, um filme de animação em que um homem negro, Joe Gardner — a personagem principal, é um professor de música do ensino básico que sonha ascender na carreira como pianista de jazz. Entre questionamentos sobre a experiência humana durante e após a morte, retira-se também uma forte presença das vivências da comunidade negra sobre uma manifestação artístico-musical originária da cultura africana, e que foi estudada rigorosamente, desde 2016, pela equipa de realização, de forma a que a obra fosse o mais representativa possível. Com isto, todos os elementos para a construção da história foram escolhidos a dedo, desde os intérpretes ao grupo de consultoria constituído pela antropóloga e doutora Johnnetta Cole, o cineasta Bradford Young, os músicos Herbie Hancock, Terri Lyne Carrington, Questlove, Daveed Diggs, Jon Batiste e vários funcionários da Pixar. 

A adaptação do filme ao público português gerou uma onda de insatisfação, principalmente por parte de artistas da área das artes performativas, sendo um dos primeiros o ator Marco Mendonça, que refere, a 27 de dezembro, num post de Instagram, o seu desagrado por depois de ver a versão original de Soul “comovido e surpreendido com o final do filme”,  pesquisar qual seria o elenco da dobragem em português e constatar que “todas as personagens do filme, incluindo as personagens negras, foram dobradas por atores e atrizes brancos e brancas”. “Bem sei que se trata de um filme de animação, e que as vozes nem sempre têm de corresponder às caras, mas fiquei a pensar: quando as personagens são brancas, também acontece serem atores e atrizes negras a dobrar? Não”, acrescenta. 

Entre mais de oito mil likes ao post, partilhas e retratações de atores como Cleo Tavares, Isabel Zuaa, Mário Herminio, Igor Regalla e Sílvio Nascimento, o músico Dino D´Santiago avança, a 29 de dezembro, com uma declaração de repúdio ao tratamento dado à adaptação, trazendo o questionamento: “Façamos de conta que a Pixar decide fazer um filme sobre a história do FADO e todos os atores que farão as dobragens e cantarão aquele que é o Património imaterial da Humanidade pela Unesco são NEGROS! Qual seria a Manifestação?”. 

A 2 de janeiro, realiza-se uma petição pública, assinada por Ana Sofia Martins, Dino D´Santiago, Mamadou Ba, Mayra Andrade, Nástio Mosquito, Pedro Coquenão e Sara Tavares, onde se reclama por uma nova versão portuguesa do filme, “respeitando a intenção original e reconhecendo a importância histórica deste momento”. Entre alegações sobre o tratamento dado à sensibilidade do filme, no contexto português, ressalta-se o facto da Disney em Portugal ter tratado o filme como “mais um”, ignorando o cuidado que se teve nas especificidades dos atores que interpretariam as personagens. 

Pedro Coquenão revela que o silêncio da Disney não foi total: “Houve uma reação anterior à Petição, em que a Disney assumiu que há um caminho a percorrer, mas não se manifestou minimamente interessada em corrigir. Daí ter surgido a Petição. Em vez de Silêncio, constato que a incapacidade de fazer melhor foi total”.

Em menos de 24h, a petição espalhou-se pelas redes sociais e alcançou mais de 6000 subscrições, revela Mamadou Bah na sua página do Facebook.

Surge a pergunta de se existem atores para ocupar os papeis que o filme obriga e, “resgata-se” uma lista de mais de 50 atores negros, anteriormente criada por Matamba Joaquim, durante os protestos de 7 de junho e agora espalhada novamente pelo Instagram e Facebook.

As partilhas vêm, cada vez mais, acompanhadas pelo debate da representatividade. O segundo post do ativista Mamadou Bah, informa-nos que, em 48h, a petição alcançou as 13.799 assinaturas: “É continuar a divulgar para que a dupla Disney/Pixar não se furte à sua responsabilidade”. 

O debate sobre o significado e importância da representatividade é, muitas vezes, realizado através de exemplos – da mesma forma vê-se aplicado o conceito. De acordo com o Priberam define-se como:

  1. Carácter do que é representativo.
  2. Qualidade reconhecida a uma pessoa, a um grupo, a uma entidade ou a um organismo, mandatado oficialmente por um grupo de pessoas para defender ou representar os seus interesses ou exprimir-se em seu nome.

Lolo Arziki, realizadora de “Relatos de uma rapariga nada púdica”, formada em Cinema, Estética e Estudos Artísticos, aponta que, no cinema, as representações sobre o negro desde cedo que são realizadas por pessoas brancas, como se não existissem pessoas negras para as representar. Como lembra numa entrevista recente dada ao Gerador, um exemplo é o “Nascimento de Uma Nação” de D.W. Griffith - uma das primeiras obras cinematográficas existentes no mundo - , numa altura em que não se contratava pessoas negras e, portanto, a personagem era encenada por um homem branco a fazer blackface. O blackface surge de representações como a de um filme que fala sobre uma mulher branca que é violada por um homem negro e depois a sociedade branca vem atrás do homem negro para o matar. A encenação é realizada por um homem branco com a cara pintada.

A cineasta não se deixou ficar pelas opiniões partilhadas nas redes sociais e foi conversar com Jorge Mourato, o ator português que deu voz a Joe Gardner, na versão portuguesa. A realizadora demonstra-se indignada pela escolha do elenco português e refere que o que acontece é uma desvalorização pelo que a comunidade negra, através de muita luta pela representatividade, conquistou e conquista, e que quando chega a Portugal, o país faz um desserviço, anula e desvaloriza completamente uma história. 

A 5 de janeiro, às 22h06, Mamadou Bah comunica que, em menos de 72 horas, faltam 244 pessoas para o alcance das 15 mil assinaturas. “Continuaremos a mobilização para obrigar a Disney/Pixar a cumprir com a sua obrigação” – termina.  

Paralelamente, acontecem eventos online em que as temáticas se cruzam, mas a criação não se prende ao último acontecimento. O Fórum “Representatividade Negra nas Artes Performativas” mediado e coordenado, a 16 de janeiro, por Raquel Lima, reuniu 14 artistas, o Diretor-Geral das Artes, Américo Rodrigues, Ana Magalhães e Mafalda Sebastião da Câmara Municipal de Lisboa, numa conversa sobre a representatividade de pessoas negras nas várias esferas da sociedade portuguesa. Na sinopse do evento lia-se que, mesmo fazendo parte do tecido social, tendo como um dos exemplos, o pagamento de impostos, pessoas racializadas continuam a não ter acesso a estruturas financiadas pelo Governo, ao exercício de funções públicas e programações culturais de espaços públicos e privados, exigindo-se a criação de políticas públicas, como substituição das “participações pontuais, iniciativas avulsas ou aplausos inconsequentes ao ‘mérito’ e à ‘excelência’ negra”.

Segundo Raquel Lima, do evento, recolhem-se “três frutos". O reconhecimento dos artistas da necessidade de uma Plataforma Negra das Artes, que “defenda os interesses dos profissionais negros na cultura, participe na formulação de políticas públicas de ação afirmativa no setor cultural e organize iniciativas que promovam as suas causas e expressões”. O segundo fruto prende-se ao agendamento de reuniões com instituições governamentais “de forma a garantir que a preocupação com a representatividade negra seja contemplada no âmbito dos decretos, portarias e programas de apoio às artes”. 

O principal fruto foi evidenciarmos, juntes, que o combate ao racismo e a busca pela igualdade e justiça sociais não podem ser apenas formalidades retóricas, mas devem manifestar-se através de políticas de ação afirmativas concretas que evitem os sistemáticos processos de tokenização, assimilação, apropriação e destituição cultural da população negra em Portugal”, finaliza Raquel Lima. 

No dia 19 de janeiro, encerrou-se a petição e encaminhou-se as 17.512 assinaturas para a Disney Portugal porque, como se lia na mesma, “as vozes podem não ter cores, mas há cores que precisam ter mais voz”. Importava não se descurar o facto de nunca ter estado em causa “o habitual bom trabalho em dobragens feitas em Portugal, a qualidade ou a índole dos atores da versão portuguesa ou sequer a necessidade de ser literal em cada tradução”. 

Em cada voz singular, encontram-se pontos comuns que dão a ver a complexidade do problema de Soul. Raquel Lima, Lara Mesquita, Teatro Griot, Soraia Tavares, Paulo Pascoal e Hoji Fortuna são algumas dessas vozes singulares que dão a ver que tudo está ligado e que, na verdade, há um problema maior que tem que ver com a falta de representatividade nas artes performativas em Portugal. 

Onde estão e do que se alimentam — narrativas singulares unidas por contextos comuns

2019 - Raquel Lima na Biblioteca Mário Andrade (São Paulo, Brasil)

“Acredito que essa disparidade se deve ao não-reconhecimento das continuidades históricas que permeiam a escassez de pessoas negras no espaço público, ou seja, ao não reconhecimento do racismo enquanto mecanismo de opressão estrutural, institucional e histórica que impede, na prática, que minorias sociais sejam representadas na política, na televisão, em novelas, filmes, no jornalismo, nos cargos de maior poder e prestígio social” – Raquel Lima 

Raquel Lima, poeta, arte-educadora, performer, é, neste momento, doutoranda do Programa Pós-Colonialismos e Cidadania Global do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. A sua investigação centra-se em Oratura, Escravatura e movimentos afrodiaspóricos. Licenciada em Estudos Artísticos, com especialização em Artes Performativas, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (2008), colabora com o projeto de investigação Post-Archive: Politics of Memory, Place and Identity, coordenado pela Mónica de Miranda. No setor da cultura, em Portugal, formou-se e trabalhou em produção executiva, comunicação e assessoria de imprensa de diversas estruturas de teatro, cinema e dança contemporânea, nomeadamente em estruturas como a Comuna — Teatro de Pesquisa, o Fórum Dança, a Companhia de Dança de Almada e do Doclisboa. Em 2011, co-fundou a associação cultural Pantalassa, foi Diretora Artística e Coordenadora Geral das três primeiras edições do PortugalSLAM — Festival Internacional de Poesia e Performance. 

Já publicou os seus poemas em diversas línguas e tem vindo a realizar performances e workshops “em torno da poesia oral a nível nacional e internacional, destacando os workshops de poesia, raça e género: para uma escrita poética interseccional”, como realça em entrevista ao Gerador. Outubro de 2019 foi um mês importante para si: publicou o seu primeiro livro e audiolivro de poemas, intitulado Ingenuidade Inocência Ignorância, pelas editoras BOCA e Animal Sentimental”. No final do ano passado, participou no Clube dos Poetas Vivos, iniciativa da também poeta Teresa Coutinho, no Teatro Nacional D. Maria II. 

Quando questionada pelas maiores dificuldades de se viver da arte responde que, durante os dez anos em que viveu da arte, fê-lo com base em salários baixos, a recibos verdes. Acrescenta que “não existir um estatuto que proteja os profissionais da cultura de maneira a garantir-lhes proteção social é, sem dúvida, um dos maiores constrangimentos deste setor, porque não há fôlego criativo e artístico que faça frente à precariedade que se vive nessa área específica da sociedade”. 

“Essa precariedade, quando aliada às assimetrias sociais que afastam grupos específicos do meio artístico dominante — já que este privilegia historicamente uma abordagem branca, elitista e meritocrata na atribuição de verbas públicas para a cultura — torna-se ainda mais gritante e desigual. O que faz com que a população negra sofra constrangimentos maiores quando tenta viver da arte, face às dificuldades de profissionalização e consequente condenação a uma condição programática de ‘amadorismo’ não-financiável”.

“Eu quero sempre mais e quero sempre melhor. Se há uma maneira boa de se viver e passar pela vida, eu só quero essa e jamais aceitarei qualquer outra” – Lara Mesquita 

Quando apareceu A Princesa e o Sapo, Lara Mesquita, já tinha 20 anos. Nasceu em Lisboa, em 1986. A mãe é moçambicana e o pai é açoriano. Durante muito tempo andou a esquivar-se do “teatro” porque o exemplo que tinha em casa fazia-a entender que o teatro não era uma carreira possível. 

Estudou ciências no ensino secundário, frequentou o curso de Psicologia no ISPA durante um semestre, esteve três anos em Direito na Universidade Lusíada e, em 2009, entrou para a In Impetus, uma escola de formação de atores, e nunca mais olhou para trás. Foi movida por aquilo que sempre fez parte da sua vida — já que com 11/12 anos, ao “bater texto com o irmão”, o ator Júlio Mesquita, aprendeu muito sobre dicção, articulação, leitura e interpretação. Viam muitos filmes juntos e mesmo sem perceber, “se ele se ria, eu também me ria”. Um desses filmes que via com o irmão, o “Léon, o profissional” do Luc Besson, foi decisivo para aquilo que viria a ser o seu futuro. Como a Matilda, a personagem principal interpretada por Natalie Portman, decidiu que queria ser atriz.

Estreou-se como atriz em 2010, no dia 27 de março, o Dia Mundial de Teatro, e sentiu que aquele era o seu habitat natural.  Formou um coletivo onde dirigiu uma leitura encenada, fez a cenografia e a dramaturgia, mas, entretanto, o dinheiro acabou, “voltou à vida real” e foi trabalhar a full time para uma loja. 

Depois do terceiro contrato de um ano e meio, foi mandada embora. Com 27 anos e com o dinheiro do subsídio de desemprego, entrou e pagou o primeiro ano na Escola Superior de Teatro e Cinema. 

Em 2014, fez o espetáculo A Geração da Utopia com o Teatro Griot. Passados alguns meses, Matamba Joaquim, um dos elementos do Teatro, começou a fazer dobragens e deu o nome da atriz. Lara passou a fazer dobragens. Diz que é assim que se conseguem oportunidades nessa vertente, e conseguiu-o numa altura em que estavam a ser produzidos muitos conteúdos de ficção para serem consumidos em países africanos. Os filmes eram feitos na África do Sul. Angola comprava-os e contratava estúdios portugueses para fazerem a dobragem desses mesmos filmes. 

“O que me foi dito é que o cliente angolano exigia que os atores que dobrassem fossem atores negros, porque as personagens eram todas negras, e durante dois ou três anos houve muito trabalho de dobragens por esse motivo”.

A primeira vez que dobrou perguntaram se Lara não podia fazer sotaque. Ficou triste, porque achava que estava a ter uma “oportunidade real”, mas afinal só tinha sido chamada “pela cor da pele e pelo que isso representava”. “Estava muito adormecida em relação a este tema porque já tinha ferramentas para estar acordada, mas não estava. O que eu queria, na altura, era só sobreviver no meio e ser vista como igual”, conta.

Foi esse trabalho que sustentou as suas necessidades básicas e para se matricular no segundo ano teve de pedir dinheiro a um amigo. Até hoje, está a pagar esse empréstimo.

“O meio das dobragens, efetivamente, é muito pequeno e os dobradores são sempre os mesmos. Esses dobradores chamam sempre os amigos, mas isso é o que acontece, em geral, no meio artístico em Portugal, daquilo que vejo. Se fores à instância mais alta do teatro a nível nacional, é possível observar-se que as pessoas chamam os amigos. O meio é muito pequeno, não há oportunidades e as pessoas que estão no sítio de privilégio querem agarrá-las para si, e o que resta, dar aos amigos. Agora, igualdade de oportunidades é uma utopia”.

Depois de terminar a licenciatura, voltou a trabalhar em loja, enquanto fazia trabalhos pontuais na área de formação e dava aulas nas Atividades de Enriquecimento Curricular (AECs), em escolas de Lisboa. Hoje, está prestes a estrear o seu espetáculo Sempre que Acordo, uma peça que irá abordar as suas vivências e interpretações do racismo estrutural com o objetivo de “informar e consciencializar as pessoas para comportamentos racistas ‘involuntários’ e/ou ‘inconscientes’ e pretende, sobretudo, demonstrar  o quanto o racismo estrutural pode condicionar o desenvolvimento de crianças e adolescentes negros em Portugal” – como refere na sinopse da obra.

“Quando me apresento e digo que sou atriz, não estou a falar da minha profissão, eu estou a falar daquilo que sinto que sou. É uma característica minha, não é a minha profissão e nunca fui feliz a fazer nenhuma outra coisa senão isto”. Pretende, no futuro, fazer um mestrado em Gestão Cultural para que consiga, cada vez mais, manter-se na área de formação, mas já entendeu que nunca irá conseguir viver só da arte.

“Há uma coisa que é preciso ressaltar. No nosso meio artístico, particularmente na área da representação e porque somos muitos, não há assim tantas companhias que consigam albergar tantos atores. Porque é que a maior parte dos atores eram desempregados? Porque quando se pensa num espetáculo em Portugal, seja de que texto for, não se pensa no ator negro como sendo ator. Os atores negros vinham para servir os interesses das companhias no relato das suas histórias coloniais ou que implicavam escravatura. Por isso é que na primeira fase da formação da Associação Griot, os atores não tinham trabalho. Dificilmente tinham convites para espetáculos, visto que, os espetáculos que se faziam, na ótica dos encenadores, não tinham papéis para atores negros” – Miguel Sermão (Teatro Griot)

Miguel Sermão, membro do Teatro Griot, acrescenta que nos anos 90, no Teatro da Comuna, fez de loiro. Foi uma exceção. “Nos anos 80 a Comuna já tinha essa política. O Rui Matamouros é um dos primeiros atores negros a fazer parte de uma companhia dita normal, ou seja, uma companhia onde maioritariamente os atores eram brancos”.

Há 11 anos, foi este e outros motivos — como a necessidade de se criar um espaço onde atores negros que nasceram em Portugal, Angola, São Tomé, Cabo-Verde e Guiné-Bissau, fossem o elemento da ação e não da reação — que motivaram a criação do agora Teatro Griot, uma iniciativa do ator Ângelo Torres, depois de uma visita que fez a Angola. No começo,eram 10 elementos, mas agora são 9: Matamba Joaquim, Daniel Martinho, Miguel Sermão, Zia Soares, Gio Lourenço, Chullage, Rogério de Carvalho, Sofia Berberan e Neusa Trovoada.

Nasceu da Associação Cultural Griot, visto que todos os elementos são atores e é o procedente de outras iniciativas como o Museu do Pau Preto, o Grupo Serpente, o Chão de Nós — que desde os anos 80 tentaram criar esse espaço comum “por opção e não por espectativa”.

O nome parte da necessidade de trazerem/conservarem a herança da ancestralidade africana. Griot é uma palavra francesa que significa celeiro, um sítio onde se guarda saberes, vivências e se amealham sementes para um provir de novos saberes. “É o nosso comprometimento de se contar uma história” – afirma Matamba Joaquim.  

Depois de algumas mutações, dedicam-se à exploração de temáticas “relevantes para a construção e problematização da Europa contemporânea e o seu reflexo no seu discurso e na estética teatral. O trabalho que a companhia desenvolve surge da tensão entre corpo e território, entre memória coletiva e memória individual, entre imaginário coletivo e imaginário individual. O Teatro Griot opera neste espaço de intersecção de territórios geográficos e simbólicos como ponto nevrálgico de um movimento artístico de contramemória.” 

​Artisticamente, o teatro utiliza-se de textos “não muito conhecidos em Portugal”, de forma a “dar vozes de outros autores, tanto lusófono, francófonos, de origem africana ou de vivência africana” como as adaptações para o teatro de Pepetela, Jean Genet,  Wole Soyincae e Breyten  Breytenbach.

No que diz respeito a Soul, não culpam os atores, dizem que Portugal, uma vez mais, perdeu a oportunidade de acompanhar o que tem sido a mudança cultural. “Só Portugal e a Dinamarca é que não acompanharam a tendência mundial de dar voz ao personagem do Soul. Se fosse o caso de não existir atores suficientemente bons para dobrarem esse personagem, existem cantores. Não é sobre os atores, mas sim sobre as instituições responsáveis pela inclusão desses atores na versão portuguesa. Não esqueçamos que somos atores e o pouco que há é o que se quer”, dizem em grupo. “Nenhum ator negro que conheço foi contratado para fazer esse trabalho”, acrescenta Matamba Joaquim.  

Quando questionados sobre a importância da representatividade, para além da idealização sobre o que seria uma sociedade representativa, que se olha, se identifica com ela mesma e que não divide os seus cidadãos em prateleiras”,  são dados exemplos como o facto de aparecerem em novelas e pessoas reverem-se, de implementarem atividades artísticas em escolas, prisões, bairros para que se sinta a integração, a cidadania. 

A representatividade leva Daniel Martinho à questão das quotas e Miguel Sermão à implementação de uma medida, em que as companhias teriam de ceder cinco lugares e os restantes angariados por castings abertos,  as produtoras que quisessem fazer filmes deveriam ter 2% do elenco eleito pela editora e o restante através de casting aberto, terminado a dizer que os castings deviam ser a primeira premissa de qualquer companhia e produtora. 

Os Griots dizem ver-se acuados porque são muitos os atores negros recém-licenciados que lutam por um lugar ao sol e recorrem à companhia, mas de acordo com o programa e as agências, muitos não cabem. 

“Eu respeito quando não me colocam numa produção de Portugal no tempo dos reis porque não faz jus à minha presença. O Soul é uma questão histórica e também gostaria de ver respeitadas as características que são inerentes neste trabalho, ainda mais, porque não somos chamados, tidos nem achados para outros trabalhos. Que aqui fôssemos achados”, diz Daniel Martinho.

Neste momento, realizam a peça O Riso dos Necrófagos sobre o massacre de Batepá em São Tomé e Príncipe, que aborda o confronto do colono e do colonizador. Os corpos que sofrem e os corpos que impõem sofrimento sobre outros. 

“Há sempre o contraponto de sermos atores e podermos fazer tudo, mas não havendo representatividade negra, isso é uma questão. Se nós vivêssemos num mundo em que sentíssemos que somos representados, aí eu diria que sim, não é uma questão. Como isso não acontece, sempre que há uma oportunidade de pôr uma pessoa que, muito provavelmente irá fazer melhor porque está no sangue, é cultural e cresceu com aquilo, acho que o certo é colocá-la. Para mim, é importante que se faça um exercício de humildade, para se compreender que não existem oportunidades iguais. Quando se perde uma oportunidade de se fazer uma pessoa, uma criança, sentir-se representada, é, mais uma vez, frustrante para todos nós, negros” — Soraia Tavares.

Nasceu em Portugal, os pais são cabo-verdianos vizinhos da ilha de Santiago, em São João Batista. Começou o percurso na Escola Profissional de Teatro em Cascais, aos 16 anos. Como sempre cantou, enquanto frequentava o curso, foi convidada para fazer um espetáculo amador de teatro musical. Foi aí que começou o percurso no teatro. Esteve um ano na Escola Superior de Teatro e Cinema, mas não conseguiu conciliar porque começou a fazer outros trabalhos na área do teatro musical. Foi entre a música e a representação que foi “furando” a área do mundo artístico. 

“A minha sorte, que vem com muito empenho e trabalho, é ter qualidade para fazer várias coisas que me vão mantendo sempre no meio”. Participou em espetáculos como As Aventuras do João Sem Medo, Terra dos Sonhos, Sonho de uma Noite de Verão, Simone, o Musical e agora Chicago de Fred Ebb e Bob Fosse, no Teatro da Trindade. Concorreu na terceira edição do programa da RTP The Voice Portugal (2015), e no Festival da Canção (2019). Em televisão fez a novela A Única Mulher (2017), Paixão e Valor da Vida (2019) na TVI. Entre o canto e a representação, não deixou de explorar a área das dobragens dando voz à versão portuguesa de Nala do filme O Rei Leão (2019), Peg do filme A Dama e o Vagabundo (2019), Mimmi da série Ilha do maio, Marshall da Patrulha Pata e outras produções que incluem curtas-metragens, genéricos e canções.

“Eu tenho uma agente de atores que me propõe castings que vão aparecendo ou então surgem pedidos para eu ir a castings diretamente com ela. Até então ia ao Coffeepaste e enviava currículos. Muito do meu trabalho surgiu de outros trabalhos, ou seja, as pessoas viam-me a cantar e convidavam-me para cantar noutro projeto e o mesmo com as outras áreas”.

As dobragens surgiram na fase em que a atriz Lara Mesquita referiu anteriormente, em que existia muita oferta de produções angolanas e se requisitava atores negros para as dobragens. Na altura, Soraia sabia que fazer o sotaque requisitado, era a única forma de ter oportunidade na vertente em que queria estar. Acabou por entrar noutras produções de desenhos animados e foi fazendo até se profissionalizar nas dobragens.

“Aquilo era um trabalho muito específico para aquele país. Segundo o que eles diziam, em Angola estavam muito habituados a ter as dobragens em português do Brasil e queriam começar a pôr em português de Portugal. Não sei se a questão do sotaque foi uma forma para que os espectadores não deixassem de ver e criar uma relação. Mas hoje, penso que o sotaque define a cultura e aproxima-nos, portanto, consigo perceber a intenção, mas ao mesmo tempo, acho que é um trabalho que vem separar, porque no final do dia nós falamos todos português”.

Não acha que os brancos tenham de fazer apenas de brancos, nem que os negros tenham apenas de fazer de negros. Para Soraia Tavares o que é válido é que o filme Soul, em particular, tinha o objetivo de dar mais oportunidades à comunidade negra. “Chegar a Portugal e isso ser completamente ignorado, enquanto negra, deixa-me revoltada, mesmo sabendo que são meus colegas e queriam só fazer um bom trabalho. De repente, veres a tua história a ser representada por outros e a maioria serem todos brancos, é uma coisa que revolta porque aquelas pessoas não vivem o mesmo que tu, não vivem o facto de não serem representadas” – acrescenta.   

Revela que as dobragens são um meio fechado para qualquer ator e que normalmente há um email – que nunca soube qual era, em que se manda um registo de voz ou vais aos estúdios e entregas o teu currículo para seres considerado a casting

“É importante dizer também que, estas pessoas que estão em poder de decisão, vivem sob pressão e têm de se certificar que quem vai realizar aquele trabalho, tem de o fazer com alguma rapidez e não tens acesso aos textos sem ser no momento em que vais gravar. Ter pessoas que possam atrasar esse processo, é um grande risco por causa das entregas, mas faz-me confusão não haver castings”. 

Diz também que há pessoas que vivem da dobragem e que viver da dobragem não é muito fácil. Não sendo fácil monetariamente, acha que é normal e aí compreende que se chame “aquele ator que vive de dobragens” e que faz muito bem, para fazer novas séries. “A questão é que vai a um exagero. Eu faço dobragens em seis estúdios diferentes e, nos seis, as pessoas que estão lá são as mesmas. Mudam-se os técnicos, mas os meus colegas que fazem as vozes são os mesmos”, conta.

“Na Disney, a convocatória são 50 euros, depois vai-se acrescentando valor dependendo do número de falas, isto no caso das séries. Nos filmes ganha-se muito mais por fala. Quando fazes a voz falada e a voz cantada consegues sempre ser melhor remunerada”.

Quando começou a ser um exemplo para outras pessoas é que percebeu que era aquela pessoa que sempre quis ter, e não teve. “Isso leva-me a um lugar de responsabilidade”, partilha. A primeira vez que começou a falar publicamente sobre “esta questão da pele” e de sentir que não tinha as mesmas oportunidades, foi há dois/três anos. 

“Lembro-me de que, na altura, eu disse que olhava apenas para mim. De repente, olhei para trás e vi pessoas com cartazes na mão. Isso colocou-me num sítio de insegurança porque, de repente, consegui furar — e tens de representar imensa gente quando também és um indivíduo com características próprias. Senti o peso de sermos poucos a ter de representar uma comunidade que é gigante e muito diversificada”.

Fotografia de Stefano Padoan

“O maior constrangimento de se estar dentro do setor é achar-se que nas artes performativas as pessoas são livres, vividas e têm a mente aberta. Isso até pode ser a verdade, mas é uma verdade dentro do privilégio branco. O ser negro é primordial para nós e um impedimento muito grande porque só é permitido ser-se negro quando és branqueado e estás a cumprir com aquilo que é expectável” — Paulo Pascoal

Paulo Pascoal, nasceu em Lisboa e faz parte do grupo de pessoas que nasceram em Portugal e não têm documentos porque os pais não são portugueses, mesmo depois de ter saído uma nova lei da nacionalidade. Uma lei que não é retroativa e que só vai passar a ser vigente a partir de 2023. Mestre em Estudos Culturais Africanos e licenciado em Artes Cénicas em Nova Iorque, na The Juilliard School, onde entrou porque queria ser bailarino, mas depois percebeu que o teatro musical seria uma “ótima ferramenta”. Trabalha desde os 15 anos em televisão, teatro e cinema.  Em Portugal, estreou-se nas telas com a série Morangos com Açúcar, no teatro musical estreou-se com a peça Jesus Cristo Superstar. Viveu entre os Estados Unidos e Portugal apenas para trabalhos pontuais como o Voo Direto (2010) na RTP1 e, em 2014, mudou-se efetivamente para Portugal. Ser artista era uma ideia romantizada que tinha de poder ter a liberdade de ser quem era. Um homem africano, negro, LGBT e com vinte anos no setor das artes performativas. 

“Dentro da minha experiência as coisas não aconteceram com lóbi, mas algumas aqui em Portugal tinham a premissa de se tratar de uma personagem negra. Há um lóbi e há muito a questão de se usar a prata da casa e de se colocar a pessoa que conheces bem, com quem vais jantar e dar trabalho aos amigos. Isto é um pouco a indústria em Portugal. A meritocracia é um mito”.

Acrescenta que a maior parte das pessoas que estão a fazer projetos em Portugal vêm de uma situação privilegiada qualquer e que, certamente, existem pessoas que conseguem seguir uma carreira sem essas influências, mas são poucas. Todo esse meio que diz ser racista, xenófobo, misógino tornou-se “agressivo” para o artista e foi por esse motivo, e porque sentiu que já não estava a crescer, que deixou de fazer projetos de ficção para a televisão. “Cansei-me de estar a ser chamado para interpretar o preto”.

A passagem da representação para a apresentação aconteceu numa fase em que começou a questionar o facto de ser o único negro. Começou a ir à procura desses profissionais negros para perceber porque é que não estavam nos mesmos espaços que ele. Desistiu de ser ator e procurou uma área dentro da formação em Estudos Culturais Africanos, em que pudesse encontrar mais estabilidade. Entretanto, entrou na Fox Mundo, o canal português da Fox, dedicado à África Lusófona, produzido em Portugal. Num primeiro momento enquanto apresentador no programa A Sentada, um programa no formato de 24 Kitchen com Sandra Nobre, entre outros.

“Eu estava em todo o lado e, quando se tratava de encontrarem algum preto porque queriam fazer alguma produção para Angola, porque querem informação de como chegar a algum lado ou o que podem ou não usar no guião, o que é ou não ofensivo, eu era essa pessoa contactada. Estava na área de readaptação de guiões”.

Nessa época começou a trabalhar em conteúdos para a RTP África, na rubrica “Luzes, Câmara, Ação” (LCA) para o programa Bem-Vindos, a qual já faz há cinco anos, também porque sentiu que a forma mais fácil de combater a iniquidade é através da passagem de informação às pessoas.

Neste momento, trabalho em rádio, televisão e na criação de conteúdos como “Avenida Marginal”, o programa de Fernanda Almeida com Yara Monteiro, todas as quintas-feiras, às 15h, na RDP África.

Foram vários os momentos em que sentiu a importância da representatividade. Desde o momento em que esteve desesperado, a chorar e olhar à volta e só ter pessoas brancas que não percebiam as suas dores, até não se conseguir identificar com ninguém. 

“No meu caso, não é só a questão do ser negro, também é a questão de ser LGBT. Enquanto que com a branquitude tenho de me debruçar sobre o racismo, com a negritude tenho de me debruçar com a homofobia. É uma estrada muito solitária. Tinha colegas de trabalho que não queriam ser vistos comigo porque ficavam com medo de serem associadas ao facto de serem gays. As relações interpessoais são muito vãs, só agora é que começaram a melhorar bastante”.

Acrescenta que, sobre o Soul, o racismo está na base de todas as atitudes. Mesmo com o ano do George Floyd, cheio de manifestações, com o Black Lives Matter, um dos maiores movimentos sociais de todo o sempre, em que muitas das pessoas que estão nesses estúdios estiveram lá, participaram nas manifestações e mesmo assim quando tiveram a oportunidade de mudar o cenário, não o fizeram. “Não é só o George Floyd, tivemos um ano de Dino D’Santiago, Kalaf Epalanga, Igor Regalla, Bruno Huca, podia dizer centenas. Carreiras que não podem continuar a ser invisibilizadas, contudo Portugal finge demência, como diz Sílvio Nascimento”.

Fotografia de Joanna Correia

“Quando as críticas surgem, aparecem os pedidos de desculpas, afirmações de que estão preocupados com a questão, mas não se compensa pela maldade que foi cometida. Quer tenha sido negligente ou estrutural, não é a primeira vez que acontece. Há uns anos tivemos o casting do filme O Gangue dos Tubarões, em que Rui Unas fez a personagem principal. Nós já estávamos no mercado nessa altura. A forma como a interpretação foi entregue, aí sim, configura mesmo um caso de blackface, ou neste caso blackvoice. Essas coisas aconteceram no passado, e agora aconteceu com o Soul e era completamente desnecessário acontecer.” – Hoji Fortuna. 

Hoji Fortuna sempre teve uma consciência muito forte da sua dignidade. Perdeu o pai aos dois anos e meio pelo fraccionismo. Não foi ensinado a ser submisso e a mãe sempre o ensinou a stand up for yourself.  Estudou Direito, mas não terminou, porque decidiu “seguir um novo rumo” traçado por ele.  Começou por ser modelo artístico, posava em escolas de artes, faculdades de belas-artes e design, mas de uma forma diferenciada, porque sempre tentou fazer das aulas um evento. Não se resumia a ficar parado para que fosse desenhado. Levava personagens, às vezes era um caçador, um iogue, outras um esgrimista, até chegou a levar um enforcado. Um trabalho tão desafiante quanto o que viria, por estar exposto em toda a nudez com que veio ao mundo e ia contra os valores que lhe foram ensinados.

“Eu fui educado de uma forma um bocadinho conservadora. Eu queria, de facto, romper um bocadinho com todas aquelas coisas que até aí me estavam a guiar. Não todas, porque há sempre princípios básicos que nós continuamos a manter, mas pelo menos a nível profissional, eu estava a precisar de uma abaladela”.

Era interessante porque o permitia exercitar inconscientemente, uma coisa que, na época, não sabia que seria uma paixão e que se começava a manifestar em pequenos “traços embrionários”.

Convencido pelos amigos, entra no reality show “Bar da Tv”, em 2001. “Hoji, meu! Tu tens de ir fazer essa cena, pá! Porque não temos lá blacks, nunca tivemos lá blacks nessa cena. Precisamos de um black lá a representar a malta, meu, tu és o gajo indicado e tal — e eu lá fui”. A possibilidade de encarar o mundo do espetáculo profissionalmente, começou a partir desse momento. 

“Depois de acabar o programa era uma pessoa muito popular. Tinha cidadania angolana, e não portuguesa, e, na altura, quase não existiam negros a fazer algo na televisão. Sabia que era preciso ser mesmo popular entre o público para ter sucesso enquanto negro na representação. Entretanto, arranjei uma agente e foi-me dito para ter expetativas baixas. Como disse, era muito difícil ser contratado pelas produções sendo negro, mas não deixei que isso me impedisse de ir atrás do sucesso. Muitas vezes, o realizador não sabe do que está à procura até ver. Muitas pessoas que acabam por representar grandes papéis, não era suposto fazerem-nos inicialmente”. 

Diz também que em Portugal tem-se “a mania de se gabar dos tempos ditos gloriosos das descobertas, romantizando a situação e ocultando o aspeto desumano do que foi o tráfico de escravos”, mas que, no fundo, e a partir desta ideia de que somos pioneiros de muita coisa, continuamos ainda muito atrasados em relação ao que se passa lá fora. 

Dois anos a seguir ao programa, fez presenças em discotecas, mas não conseguiu outros trabalhos na área. Então, decidiu ir atrás das coisas pelos seus próprios meios. “Tive a sorte de ter apoio de pessoas que gostaram da minha prestação no programa e fiz uma proposta aos gerentes do bar “Convento Clube” de ter um programa stand-up, em particular da comunidade africana. Criei então o programa “Humor Negro” para dar oportunidades a pessoas negras de falarem e, talvez, até serem descobertos. O programa era, contudo, aberto a todas as pessoas, não só à comunidade negra”.

Foi essa visibilidade que o levou cinco vezes ao programa de humor português “Levanta-te e Ri”, seguindo-se os “Malucos do Riso” estreando-se profissionalmente nas artes performativas. Esteve em palcos como o Teatro Nacional Dona Maria ll, com A Mais Bela Profissão, uma das peças vencedoras do Globo de Ouro em 2005, e Filha Rebelde. O espetáculo Brothers Size, uma peça escrita por Tarell Alvin McCraney, vencedor do Óscar de Melhor Roteiro Adaptado por Moonlight, foi o responsável pela temporada que passou nos Estados Unidos. Para além disso, está inserido no mercado brasileiro, britânico e angolano. “As oportunidades lá fora surgiram por causa da questão da transparência. Faço parte de várias plataformas de casting internacionais, entre elas a Spotlight (Reino Unido), a Actors Access e a Backstage (Estados Unidos). De vez em quando, recebo e-mails e notificações de projetos nos quais o meu perfil se pode enquadrar. Candidato-me a eles e tenho tido sorte em 80% dos casos”.

Diz que a diferença entre Portugal e outros países é que, querendo ou não, esses países já reconheceram o racismo. “Até o Brasil, que tem um presidente com as características que conhecemos, tem vindo a fazer esforços a nível da estruturação do Estado”. Complementa que a nível de plataformas, a Netflix tem sido pioneira em relação ao “levantar da bandeira do racismo”, pois introduz projetos que outros não se atrevem a pôr.

No Reino Unido, participou numa longa metragem de animação, baseada na obra do jornalista polaco Ryszard Kapuściński, cujo livro foi adaptado no cinema, que se chama Another day of life, baseado na guerra civil de Angola. Deu voz a duas personagens desse projeto, que concorreu para os óscares, mas não foi aceite. Another day of life foi transmitido em Portugal, no Cinema Ideal. Hoji revela que a dobragem original não foi uma dobragem autêntica. Podia-se notar que havia sotaques de pessoas que não eram necessariamente angolanas, mas como os produtores do filme queriam levar o filme aos óscares, decidiram fazer um recasting das vozes. Este recasting teve como propósito ir buscar vozes mais autênticas. Foi aí que entrou. 

Neste momento, está selecionado para dar voz a uma personagem numa curta metragem de animação em Nova York que tem que ver com inteligência artificial e a forma como esta e a sua gestão, impacta a vida de pessoas, baseado naqueles que são os preconceitos criados sobre etnias. 

“Agora existe uma polémica em relação ao casting do filme Soul. O filme foi criado com preocupação extrema na questão da representatividade. No entanto, em Portugal, tivemos dois atores negros a dar voz a personagens nesse filme, inclusive em papéis pequeníssimos”. 

Quando a polémica surgiu, Hoji Fortuna perguntou ao agente se soube desse casting, até porque não sabia do que se tratava. Nunca tinha ouvido falar de um possível casting para o filme. A agência não foi informada desse casting. “Não quero ofender, mas isto funciona um bocado como uma máfia. Não nos foi dada, a mim e a outros negros, a oportunidade de provar se éramos efetivamente as pessoas certas para fazer as personagens”, diz Hoji. 

Nas redes sociais partilha questões em relação à sua vida e indignações. Chegou a partilhar algo sobre aquilo a que chama de “casting racista”, independentemente das intenções das pessoas que fizeram os castings

Publicou uma versão de uma das músicas do filme Soul e num tom irónico diz que não sabe se fez uma versão e que, se cantou, “foi por acidente [risos]”. “Não sei se terei cantado outra qualquer e começaram a comentar que, se calhar, temos voz e podíamos ter feito isso no Soul. A verdade é que eu gosto de cantar, mas tenho noção das minhas limitações. Em relação à minha voz, tenho recebido vários cumprimentos de profissionais que dizem que tenho uma voz fantástica”.

Diz estar em reuniões com alguns atores negros, a estudar, em conjunto, alternativas para exercitar o acesso ao trabalho. “Nós temos de deixar de ser só atores e ser produtores, realizadores, diretores, etc., portanto nós temos de nos capacitar nas mais variadas áreas que exigem para podermos criar conteúdos e aceder às plataformas que já existem não necessariamente em Portugal. Organizarmo-nos coletivamente, criarmos nós próprios as nossas produtoras, porque aquilo que tem acontecido é serem chamados para interpretar um papel e normalmente quem nos chama é uma produtora cujo proprietário é uma pessoa branca que teve acesso a fundos destinados a pessoas negras, porque a época passada era a década das Nações Unidas, da promoção das pessoas de etnia africana. Existem fundos comunitários que ajudam a financiar esse produto, mas o que se passa na maior parte dos casos é que nós não temos acesso a esses produtos. Não se trata de ter meia dúzia de gatos pingados a fazer o trabalho. Tem que ver com ter pessoas nas posições de poder. Pessoas que decidem, supervisionam conteúdos. Infelizmente, ainda não temos isso e não sei quando teremos. Em Portugal as pessoas nas instituições não reconhecem este problema e as coisas andam a passo de camaleão”.

Não acredita que seja uma luta possível de vender só com força de vontade porque “quem continua a atribuir esses fundos são essencialmente pessoas que se norteiam por cânones antigos”, mas reconhece o esforço de muitos artistas como Ciomara Morais, que fez uma série de televisão chamada Querida preciosa, que foi transmitida pela RTP África duas vezes. 

“É cómica e feita quase sem meios, com artistas que acreditaram no projeto e quiseram ajudar com a sua mão de obra. Mas aqui há outro problema. A RTP África é o guetto da televisão portuguesa. Aqui estão centralizados a maior parte dos conteúdos negros e não sei se por isso, ou por mera coincidência entre aspas, os fundos para esses programas consequentemente são inferiores aos que aparecem nos outros canais. Para mim, isso tem tudo que ver com racismo estrutural”.Hoji, um contador de histórias inigualável, deixou muito mais por contar ao Gerador daquilo que diz ser uma situação trágica e ao mesmo tempo cómica, tendo muitas vezes rido para não chorar.  Tem de haver um esforço por parte das instituições em assumir a existência dum problema, assumir que existe tratamento desigual, apesar da lei dizer que todos são iguais”, termina.

Sobre Fazer a Diferença a Partir de Dentro

“Quem nos governa, muitas vezes, está tão distanciado daquela que é a realidade. O meu papel aqui é enlaçar os mundos, aproximar as pessoas que estão em situações desfavoráveis daquelas que têm o poder de alterar a narrativa” – Myriam Taylor

Myram Taylor nasceu no Algarve, licenciada em European Theater Arts na Rosa Rufferd em Londres e especialização em teatro político com Augusto Bual, ex-bailarina de ballet clássico é agora, lobista. 

Neste momento, foca-se mais no combate antirracista porque é algo que limita a comunidade e pretende criar mais oportunidade para todos sendo que pessoas negras estão na base da pirâmide e não têm oportunidades iguais. Deixou de ser atriz e criou a Muxima, uma estrutura de três empresas – uma sediada em Portugal e duas na Holanda, com uma visão artística que tenta mudar o mundo. As três linhas vetoriais da empresa são a autodeterminação e identidade, a representatividade negra e a representatividade feminina. Trabalha de forma interseccional operando em diferentes esferas para que a mudança de narrativa se realize de forma eficaz.  Na esfera científica, opera com biotecnologia em parceria com a Universidade de Aveiro onde fazem investigação avançada por fontes alternativas de proteína, e são uma empresa de cosmética vocacionada na produção de produtos para cabelo afro. Na esfera política aplica-se uma estratégia de lóbi, uma mudança de sistemas que requer diálogos com pessoas em posição de poder. Políticos, jornalistas e outras personalidades com o objetivo de influenciar a agenda humanista. “É um lóbi focado em questões de equidade, justiça social e igualdade”. 

Na esfera educacional realizam-se palestras, debates, colóquios e atribuem-se bolsas de estudo de mestrado na área da biotecnologia. Por último, na esfera artística fazem a curadoria e comissariam exposições que têm que ver com opressões ou com as três linhas vetoriais. Recentemente, começaram a produzir conteúdos de media como o “Black Excellence Talk Series”.

Em 2019, promoveram o Colóquio Nós, no ISEG no Lisbon School of economics,  o primeiro colóquio organizado maioritariamente por mulheres negras em espaço académico.  Este colóquio na capacitação diversidade e inclusão social chamou para diálogos, ativistas, acadêmicos, ministros, deputados, empresários etc. Foram quatro dias de colóquio onde se abordaram questões desde a violência policial, a falta de representatividade negra na política, a falta de representatividade negra nas lideranças, até a feminização da pobreza. Paralelamente aos debates, existia cinema com direito a conversa, exposições e o workshop de cocriação da sociedade civil que partiu dos problemas existentes, um painel sobre a “Falta de Diversidade e Inclusão na Tecnologia” e os perigos que isso acarreta, um workshop de três dias com pessoas LGBTQIA+, pessoas negras, ciganas, portadoras de deficiência física e outros grupos denominados minoritários partindo de problemas reais e co-criou-se soluções. Reuniram as demandas sociais e têm tentado apresentar como proposta à ministra da justiça, Francisca Van-Dúnem, à ministra Mariana Vieira da Silva, a secretária de estado Rosa Monteiro e à RTP.

“Reunimo-nos com o conselho de administração da RTP duas vezes porque interpelámos sobre a falta de representatividade negra nos canais 1 e 2”. É um lóbi que é feito consubstanciado numa agenda que não foi só pensada pela Myriam ou pela Muxima “houve uma auscultação social”.

“O grande problema da nossa comunidade em particular é o facto de não nos ser permitido sonhar e, portanto, acho que o sonho acaba por ser um impulsionador para a mudança. É fundamental”. 

“No painel sobre a ‘Falta de Diversidade e Inclusão na Tecnologia’, há uma série de exemplos em que a vida das pessoas é colocada em perigo, por exemplo, quando os primeiros carros de condução autónoma saíram, eles não paravam perante pessoas negras. Esta questão de estarem a usar ferramentas que têm viés na programação e targets muito específicos, que são aqueles que facilmente vão ser mortos e aviltados, só acontece porque existe falta de representatividade também nessas equipas que programam”. 

A Disney Portugal nada disse sobre a petição. Foram contactados meios de comunicação vocacionados para a população afro-americana, de forma a que o acontecimento fosse ampliado, trazendo o tópico para a discussão pública.  Ao longo do mês de janeiro, meios de comunicação como The New York Times, IndieWire, o Le Figaro e o Hugo Gloss noticiaram o contínuo silêncio da Disney Portugal descrito por Dino D´Santiago como a “Alma Silenciosa”. Para além disso, pediram ajuda à embaixada dos Estados Unidos: “Uma grande parceira da causa antirracista em Portugal” diz Myriam Taylor, no sentido de estabelecerem um diálogo com o CEO da Disney. As assinaturas foram entregues junto à carta redigida por Myriam Tylor, Hoji Fortuna, Paula Cardoso e Juliana Wahigren. Até agora, a Disney Portugal manteve-se em silêncio.Isabel Antunes respondeu ao Gerador que as informações sobre o filme Soul são feitas através do cliente “The Walt Disney”. O Gerador tentou entrar em contacto com Margarida Morais, a Relações Públicas da Walt Disney, mas não obteve resposta. Jorge Mourato também foi contactado, mas o email e as mensagens nas redes oficiais do autor foram recusadas de forma automática.

Carta dirigida ao CEO da Disney nos Estados Unidos
Texto por Filipa Bossuet
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