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Rio de Onor: “os nossos antepassados eram sustentáveis sem conhecer o palavrão”

Hoje, é vista quase como uma realidade alternativa. Mas há 40 anos, Rio de Onor foi uma aldeia comunitária na fronteira nordeste de Portugal. A entreajuda era uma lei. Porém, esta comunidade está a desaparecer, vítima do despovoamento do Interior e da modernização da sociedade.

©Diana Neves

Depois das muralhas do castelo de Bragança, quando os montes transmontanos começam a esconder a cidade e a revelar uma paisagem agreste, que combina os tons esverdeados das árvores com o amarelo da vegetação rasteira, nasce uma aldeia num vale, atravessada pelo rio que lhe dá nome. Rio de Onor é uma aldeia fronteiriça na ponta nordeste de Portugal. Partilha com Rihonor de Castilla, aldeia espanhola, as gentes, o rio e os campos.

Perdeu o dialeto próprio, o touro da aldeia e as gentes mais novas com força para cultivar a terra. Mas a memória de tempos antigos – quando o moinho e as hortas eram trabalhados por todos, o rebanho era pastoreado à vez pelos vizinhos, e os mordomos guardavam varas da justiça – permanece viva nas 50 pessoas que hoje ainda lá vivem.

São 50; todos idosos. Os jovens partiram. Desde os anos 90 que Rio de Onor foi perdendo as gerações que lhe prolongavam os costumes. Os filhos dos moradores moram longe, onde a oferta de trabalho é maior e o modo de vida já é diferente. Esses filhos tiveram filhos e fizeram da cidade sua casa. E não parecem querer regressar a Rio de Onor, lamenta Domingos António Fernandes, de 77 anos, morador da aldeia. Tem um filho em Bragança, a 25 quilómetros, e uma filha no Porto.

Tal como outras aldeias e outras tradições, Rio de Onor foi vítima da modernização da sociedade, do passar do tempo. Enfrenta, hoje, graves problemas de envelhecimento e despovoamento e, de acordo com Mário Gomes, presidente da Junta de União de Freguesias de Aveleda e Rio de Onor, só serão resolvidos quando houver “vontade política” do Governo.

Mário Gomes, presidente da Junta de União de Freguesias de Aveleda e Rio de Onor ©Diana Neves

Xisto com História

Nas ruas de calçada viam-se as viúvas de preto, os homens de boina com enxadas ou ceifas velhas na mão, e um ou outro turista, de outras partes de Portugal ou Espanha.

As casas construídas em xisto, tipicamente transmontanas, definem a cor à aldeia. Com dois pisos (o de baixo para os animais que faziam chegar calor à parte de cima - para as famílias), esta construção com paredes “de oitenta centímetros de largura” arrefecia as casas no verão e aquecia-as no inverno.

Nos portões de madeira, bengalas do tempo, o carabelho sobressaía aos olhares atentos: é um tipo de fechadura rudimentar fácil de abrir, típica de Trás-os-Montes, muito usada antigamente, em aldeias como esta, onde a confiança entre as gentes era maior.

Era dia de excursão. O silêncio da aldeia era substituído por vozes de crianças que visitavam a Casa do Touro, um espaço de memória à aldeia, inaugurado em 2018, que há décadas alojava o touro comunitário. Um guia contava-lhes os tempos passados de outra forma de viver. Rio de Onor é um exemplo daquilo que é viver em comunidade.

A entrada da Casa do Touro, inaugurada em 2018. Foi criada para homenagear e imortalizar, em material escrito e fotográfico, a comunidade de Rio de Onor. ©Diana Neves

Domingos António Fernandes cresceu aqui. Já fez parte da mocidade da aldeia (os rapazes que entravam na vida adulta). Nesse tempo, celebrava-se a Festa dos Rapazes. Acontecia todos os anos, no dia 6 de janeiro “quando era a matança do porco”. Dois rapazes “vestidos a rigor” com os caretos realizavam um peditório de casa em casa, acompanhados pela Filandorra – uma rapariga que dançava. Ninguém sabia quem eram, mas “ninguém negava o abrir da porta”. “Cada família dava um chouriço daqueles grandes. Ao final do dia, chegavam com uma saca grande de chouriços, quem não quisesse comer carne do porco comia os chouriços”, recorda com um sorriso.

Ainda trabalhou na Câmara Municipal de Bragança, mas após um acidente que lhe atingiu a cervical, reformou-se e voltou à aldeia natal, onde vive com a esposa, Maria Alice Fernandes.

A mãe era espanhola. Desde sempre que os vizinhos de nacionalidades diferentes partilharam a convivência. “Nunca houve fronteiras entre os dois povos, até porque havia portugueses que tinham terrenos no lado espanhol e espanhóis que tinham terrenos no lado português”, afirma Mário Gomes, “as famílias iam-se misturando, portanto, essa barreira física que existia para o povo em comum, para eles não existia”, acrescenta.

Porém, são diferentes as leis numa aldeia que partilha duas nacionalidades. E o sistema comunitário coordenado por dois mordomos, mas para o qual todos eram iguais, acontecia só no lado português.

Até aos anos 80 e 90, o sistema comunitário da aldeia estava bem oleado. Havia dois mordomos, eleitos todos os anos, no dia 1 de janeiro, e eram sempre diferentes daqueles do ano anterior. Realizavam-se reuniões de concelho, como lhes chamavam, onde estavam presentes todos os chefes de família. Cada mordomo tinha uma vara da justiça onde se marcavam as multas e as faltas de cada família. Consoante a decisão dos mordomos, as multas eram pagas em medidas de vinho. O almude (quando o corte dava a volta à vara) era a multa mais pesada e significa o “pagamento” de dois cântaros de vinho.

Domingos Fernandes com uma vara da justiça. ©Diana Neves

Cada dia um vizinho pastoreava o rebanho nos pastos do leito do rio que pertencem ao povo. Mas todos os anos, calhava apenas a um morador cuidar e tratar do touro comunitário. Iam trocá-lo ou comprar outro a Miranda do Douro, num posto zootécnico onde havia a “raça mirandesa” que criam preservar.

Semeavam centeio nos campos à volta da aldeia, entre montes e subidas íngremes. Só quando todos os vizinhos tivessem ceifado o seu centeio é que começavam, todos ao mesmo tempo, a ceifar o trigo. E quando uns se atrasavam, os outros iam ajudar a concluir o trabalho.

”Era um calor que malhava na gente… E depois eram aquelas triganas do cereal que se espetavam… E, às vezes, uma palha que picava entre as unhas… Era uma vida muito trabalhosa”, lembra Domingos. “Mas mais trabalhosa era para as mulheres”, admite. As mulheres não podiam ser mordomos, mas “de manhã, regavam aí um bocadito de feijão ou qualquer coisa, tratavam da casa, e depois iam ter connosco”. Caminhavam quatro quilómetros a subir o monte, “com uma panela de sopa numa mão, um cesto de comida boa na outra, e ainda com mais coisas às costas. Depois ainda nos ajudavam com o centeio. Não era fácil.”

Era também “para trás do monte” que iam com as vacas e os rebanhos. Aquando da volta, os rebanhos de cada família “dividiam-se, iam cada um para o seu curral, já sabiam onde era”. Cada dia calhava a dois vizinhos levar o gado, conforme ditava o sistema rotativo, que permitia que todos dividissem tarefas, fosse com o gado ou na terra.

Cada família tinha parcelas iguais de terreno onde plantavam diferentes culturas, mas o que saía da terra pertencia a todos. Era uma comunidade.

Até aos anos 60, não chegava nenhuma estrada à aldeia se não um caminho em terra. Domingos recorda dias difíceis, quando faziam 25 quilómetros a pé até à vila, para vender um porco, ou uma ovelha ou uma vaca. Faziam essa distância de volta, às vezes com os animais por não os conseguirem trocar com nada. “Era uma chatice”, diz, mesmo a sorrir.

Domingos relembra aquela que era, para ele, a maior vantagem de haver dois mordomos. Por vezes, quando havia desentendimentos entre os moradores, os mordomos partiam duas pedras de argila; cada habitante da aldeia ficava com um pedaço da pedra partida e desenhava uma cruz (na pedra inteira) do lado do morador que defendia. A posição que tivesse mais “votos” era aquela que se faria.

Esta forma direta de resolução dos problemas da aldeia, completamente independente da Junta de Freguesia, era um modo de vida que se perdeu nos tempos atuais.

Uma comunidade envelhecida e a modernidade que lhe roubou a essência

Perdeu-se o comunitarismo. Pela aldeia espalham-se casas abandonadas e em ruínas. E até o rio perdeu caudal. Domingos diz que nunca viu o tempo assim. “Antes eram nevões de quinze dias, a neve chegava a ter assim um metro de altura, e agora nada”, relata, quando ainda ia para a escola com a neve até aos joelhos.

“Os trabalhos das sementeiras na faceira, que é uma pequena parcela de terra do povo, cada vizinho tinha um lote pequeno de terreno que era cultivado no mesmo dia, hoje já não se fazem. O touro já não existe. Já não existe gado. Esses trabalhos foram-se perdendo, porque as pessoas também foram sendo cada vez em menor número”, explica o presidente da União da Junta de Freguesias. “Aqueles concelhos do povo, então dirigidos pelos mordomos, já não existem. Existe um ou dois por ano só para relembrar e manter viva a tradição e para fazer alguns trabalhos simples. E é só isso. Já não se pratica o comunitarismo que sempre se praticou”, continua.

Domingos diz que as pessoas se tornaram egoístas. A partir da última década do século passado, cada família semeava e ceifava o trigo quando queria, “já ninguém esperava ninguém, era tudo à balda”. Agora já não semeiam. Não têm mãos para esse trabalho árduo, e o peso da idade já não os leva a subir os montes. O morador lamenta que agora as pessoas não se ajudem. “Não sei se é o dinheiro que faz isso… mas é assim.”

Nesta altura do ano, em setembro e outubro, começam a ouvir a brama dos veados entre os montes, na época de acasalamento. Agora, mesmo que tentem semear centeio e trigo numa determinada zona, dizem que não adianta porque a presença dos animais selvagens lhes destrói o cultivo. Mas estão bem com isso, desvenda o sorriso indiscreto de Domingos.

Rio de Onor ganhou a designação de 7.ª Maravilha de Portugal, na categoria de Aldeia em Áreas Protegidas, em 2017, por se situar no Parque Natural de Montesinho. Desde então que o turismo na zona tem crescido. “Anteriormente já havia algum turismo, mas, após 2017, foi uma explosão total. Todos os dias da semana, em todas as épocas do ano, há turistas que passam e alguns que voltam”, exalta Mário Gomes.

Vassoura rústica. ©Diana Neves

Com um parque de campismo “à porta”, Rio de Onor é todos os dias visitada por turistas. Os habitantes já estão habituados e até agradecem a companhia. É também, assim, de certo modo, que conseguem transmitir os antigos costumes desta aldeia peculiar.

Ornamentam as varandas com flores vaidosas como que se exibindo orgulhosas para os olhos dos turistas. Cumprimentam sempre com um sorriso as caras desconhecidas e as locais já as sabem de cor.

Maria Júlia Rodrigues, 85 anos, sempre aceitou que lhe tirassem fotografias, tal hábito às lentes dos turistas curiosos e dos jornalistas ousados. “Todo o mundo já deve ter a minha fotografia. Nunca neguei nada a ninguém”, afirma com um sorriso, à medida que levanta a bengala em círculo. Maria e Vitória Prudência, 87 anos, sempre viveram em Rio de Onor. Os filhos já cá não moram, mas vêm vê-las ao fim de semana.

Manuel António Nunes, 84 anos, esteve quatro anos na Alemanha. Hoje, é um olhar atento aos que aparecem na aldeia. Não lhe escapa nada.

É devido a este movimento turístico e pela “facilidade em se deslocarem quer em viaturas próprias, quer em transporte público" que o presidente da Junta considera que Rio de Onor não está de todo isolado.

Mas apesar de não se sentirem sozinhos, as evidências do despovoamento são nítidas.

“Nós estamos numa freguesia que tem quatro aldeias: Aveleda, Varge, Rio de Onor e Guadramil. Nos anos 60, eram 700 pessoas. Hoje, são cerca de 200, sendo que 50 estão em Rio de Onor”, explica Mário Gomes.

O presidente da Junta assume que o Interior de Portugal atravessa um grave problema de envelhecimento e despovoamento. E para que essa situação se reverta é preciso um plano do Estado. “Esse plano parte do Governo, com medidas sérias e, digamos, de difícil execução. Até agora, tanto quanto sei, nenhuma medida, das que eventualmente terão sido implantadas, terá tido resultado”, comenta. “Primeiro, porque há falta de comunicações móveis. Depois, porque a distância à cidade ainda é alguma. E porque não há espaços para as pessoas se instalarem. Ou seja, se quisermos comprar um terreno ou uma casa para ir morar para Rio de Onor, é extremamente difícil porque não há quem venda; e os poucos que vendem são a preços exorbitantes.”

Na perspetiva de Mário Gomes, “isto não se trata só de repovoar Rio de Onor, mas todo o Interior”. “E parece-me que, até agora, não houve vontade política séria.”

Viver em comunidade: a partilha e entreajuda enquanto lição para as cidades e para o futuro

Já se fazia tarde. Os últimos raios de Sol coloriam de verde claro as folhas das castanheiras, das cerejeiras e dos pinheiros que se fundem com a arquitetura. O crepúsculo põe em perspetiva as vidas passadas com o tempo presente.

“Talvez tenha sido o afastamento à capital de distrito, à sede do concelho, que terá aguçado o engenho destas pessoas em tentar resolver os problemas em comunidade”, crê Mário Gomes. “Os nossos antepassados eram sustentáveis sem conhecer o palavrão. Porque eles só conseguiam resolver os seus problemas em comunidade, eles não eram [individualmente] autónomos, dependiam sempre do vizinho”, reconhece o presidente da Junta. O braço era a ferramenta de trabalho “e quantos mais braços, mais rápido se fazia o trabalho”. “Hoje, com a força das máquinas, cada pessoa é quase autónoma a nível do seu trabalho e, portanto, sem nos apercebermos, o comunitarismo vai-se perdendo lentamente no tempo”, lamenta.

Embora a essência primária desta forma comunitária de vida e trabalho esteja a desaparecer, surgem outras formas de comunidade, em sítios mais improváveis e menos isolados: nas cidades.

Domingos lisonjeia o trabalho que tem sido feito. O desenvolvimento de hortas urbanas permite unir bairros, reaproveitar terrenos vazios das câmaras e fazer face à inflação no setor alimentar.

Têm-se notado, ao longo dos últimos anos, um crescimento de pequenas hortas comunitárias e privadas nas cidades, que nascem em varandas e terraços ou terrenos abandonados, onde grupos de pessoas se unem e investem do seu tempo.

Este fenómeno tem surgido não apenas da moda, com cada vez mais pessoas atentas ao ato de cuidar (sobretudo, da terra), e acima de tudo, com um olhar em direção à sustentabilidade, alimentar e económica, dentro das localidades.

Deste modo, reaproveitam-se espaços que antes se encontravam desocupados ou degradados e há uma fonte de entreajuda e capacitação entre os moradores. Esta prática de agricultura biológica urbana pode beneficiar a saúde mental dos seus agricultores e promover a economia local. Além disso, a coesão social, a redução do desperdício e a revitalização de espaços urbanos tornam as hortas urbanas uma prática sustentável.

As Hortas do Ingote, em Coimbra; a Horta Pedagógica de Guimarães; o programa Horta à Porta, no Porto; e os 21 parques hortícolas, em Lisboa são alguns exemplos nacionais da prática de hortas urbanas.

Nestes quintais urbanos, surgem sistemas circulares de partilha que fomentam a comunidade. Por exemplo, na Penha de França, em Lisboa, uma horta comunitária, desenvolvida pela associação Regador, vai ter um sistema coletivo em que todos decidem o que se planta e o que se colhe, e se divide por todos. O 4Crescente, um grupo comunitário de Marvila, está a criar um site que visa promover o uso e recurso partilhado de bens entre os moradores dos bairros das zonas. A cooperativa multissetorial Rizoma, nos Anjos, vencedora de uma candidatura ao programa Bairros Saudáveis é exemplo do movimento crescente de pessoas aderentes a formas de vida mais comunitárias e sustentáveis dentro das cidades. Nasceu em 2020, em plena pandemia, com o cunho particular de relacionar consumidores, produtores e vendedores numa estrutura horizontal e seguem com o ideal de, um dia, os seus cooperantes poderem suprir todas as suas necessidades de consumo na cooperativa. Hoje, configura-se numa loja de produtos biológicos, com perspetivas de albergar e acolher outros projetos, e passou de ter 30 para 300 cooperantes.

Criar laços entre a comunidade e entre gerações pode ser um privilégio das hortas urbanas e das cooperativas. Mas em Rio de Onor não há jovens. Como prevalecerá a tradição desta aldeia sem o renovar de gerações que a transportam no tempo?

Esta é uma realidade do Interior de Portugal. Reflete-se nos olhares dos moradores, e Mário Gomes é o primeiro a admiti-la. “Para além do que está escrito e gravado em memória, a questão do despovoamento é extremamente difícil de inverter. E, sendo assim, as tradições irão morrer juntamente com o povo, a menos que a situação se reverta”.

Texto de Diana Neves

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