Na noite de inverno do dia 19 de janeiro, Cláudia Simões, uma mulher negra de 42 anos foi agredida em frente à filha de 8, após ter tido um desentendimento com um motorista do autocarro em que viajavam juntas. Poucos dias depois, Rita Cássia, antropóloga, artista e arte educadora brasileira, radicada em Portugal há já 20 anos, escreveu um artigo de opinião para o jornal Público no qual falava da situação. “Na Amadora, uma mulher/mãe/vítima negra foi algemada, sofrendo, sangrando, sendo torturada, como no passado. Oxalá tais imagens fossem apenas fruto de uma ficção”, lê-se na entrada. 

Rita Cássia tem trabalhado com associações e coletivos civis, portugueses e brasileiros, enquanto ativista pelos direitos humanos de mulheres/mães e crianças há já quatro anos. Está atenta não só para os episódios de racismo estrutural, mas também para as situações que envolvem mães e crianças. Para si, a situação de Cláudia Simões foi o epítome das vivências de muitas mulheres negras que sofrem nas mãos de um sistema branco. “Quando uma mulher negra é torturada por homens brancos que representam, ou não, a Lei, seu corpo torna-se corpo de todas as mulheres negras coexistentes no tempo presente”, disse no mesmo artigo de opinião. 

Agora, Rita, que é também uma mulher negra, reúne histórias que partem do seu trabalho com mulheres/mães e crianças ao longo dos últimos quatro anos em cinco obras performativas radiofónicas. “Epifanias Artes: Audioblogue com e para pessoas que sonham igualdade” é o nome da sua mais recente criação, da qual já disponibilizou dois episódios: “Posse” e “A Alienadora”, que podem ser encontrados no YouTube. No dia 26, às 21h30, estreia o terceiro, “Mãe África”, no site das Epifanias Artes

A igualdade não devia ser um sonho

Este projeto cruza as disciplinas das artes e antropologia, com recurso à autoetnografia, ação participativa e o método biográfico. “Aqui, as pessoas que por algum motivo foram tornadas vítimas de violências no âmbito privado e de violências institucionais, além de colaborarem para o desenvolvimento de criação artística das obras radiofónicas, através de seus relatos de histórias de vidas, detêm o espaço à manifestação de suas existências”, começa por explicar Rita ao Gerador. É a reivindicação de um lugar de fala. “É de suma importância que as mulheres vítimas de violências - sejam elas quais forem, quando estiverem fortes o suficiente para expor as violências pelas quais passaram ou ainda passam - tenham o direito à autodeterminação, tendo seus respectivos lugares de fala. Direito este que, em Portugal, não temos ainda como hábito. Ainda vivemos tempos em que corroboramos para que as mulheres acreditem que precisam de calar-se sobre as violências desferidas contra elas e/ou contra os seus filhos e filhas; de esconderem-se de seus algozes ou, ainda, de salvaguardar uma ‘honra’ perante a sociedade”, continua.

Rita Cássia diz que “não podemos continuar a corroborar com a revitimização institucional contínua”, que “não podemos continuar a fechar os olhos para a prática do racismo e da xenofobia contra mulheres e crianças que integram grupos de pessoas que foram racializados, historicamente”. Neste projeto, aponta-lhes a luz. “É fundamental que possamos compreender os mecanismos por detrás da violência de género e das violências contra as crianças, no nosso território, mas não somente. No sentido de criarmos transformações efetivas nas vidas das pessoas adultas, mas principalmente nas vidas das crianças, que necessitam de crescer holisticamente, sem que lhes roubem as suas infâncias.”

O nome do projeto indica, desde logo, que a desigualdade é um tema transversal a todas estas histórias. Mas a igualdade não devia ser um sonho. A transversalidade das histórias é, também, uma das características mais evidentes de “Epifanias Artes: Audioblogue com e para pessoas que sonham igualdade”. “As histórias, embora sejam individuais, reverberam histórias de muitas outras mulheres, justamente porque vivemos, atualmente, num tempo do retorno à ‘caça às bruxas’. Crianças estão a ser retiradas de suas mães em diversas localidades. Estes procedimentos não pararam durante a pandemia da COVID-19”, aponta. Durante a pandemia, surgiram várias imagens de despejos, entre as quais de mães com os seus filhos pela mão, a abandonar forçosamente a sua casa depois de terem sido despejadas de madrugada. Muitas, sem ter um lugar para onde ir.  Mas importa lembrar que esta agressão acontece também com vítimas de violência doméstica, que se vêem obrigadas a fugir de casa. 

“Tais violências de género decorrem ou porque as mulheres sendo vítimas de violências domésticas querem lutar pela sua autodeterminação e salvaguardar as suas crianças, sem continuar a aceitar as violências machistas dentro dos seus lares, ou porque as mulheres, ao descobrir que suas crianças estão a ser abusadas sexualmente pelos próprios progenitores, lutam para proteger seus filhos, ou ainda porque as mulheres ao se encontrarem em situações de outras vulnerabilidades sociais (desemprego, perda de habitação, ...) encontraram em seus caminhos pessoas profissionais anti-éticas, discriminatórias, sem conhecimentos com perspectivas de género, desprovidas de uma formação humanista, que é necessária para o desenvolvimento da empatia e da boa prática de apoio a quem delas necessitam”, explica Rita Cássia.  

As vozes que importa ouvir

Numa das últimas performances estreadas, “A Alienadora”, Rita convoca a história de uma adolescente “a quem o mundo adultocêntrico silenciou, quando vivia a sua infânica (eixo Portugal/Brasil)”. “Trazer ao de cima as vozes das crianças, que vivem em situações conflituosas familiares ou que ainda são vítimas de diferentes violências institucionais, levanta questões éticas, do ponto de vista da autonomia das crianças para o efeito, bem como sobre as exposições das mesmas. Podemos constatar empiricamente que os seres humanos "crianças" ainda não são interpretados socialmente enquanto pessoas humanas dignas de autodeterminação. Inúmeras crianças têm sido desrespeitadas aquando das suas manifestações sobre as violências desferidas contra elas. Considero ser fundamental o desenvolvimento de pesquisas qualitativas no âmbito da antropologia, da sociologia, dos estudos africanos, junto às crianças e aos adolescentes vítimas de violências.” 

A verdade é que raramente se ouve as crianças nos espaços de debate público. Rita Cássia quer mostrar-lhes que as suas histórias importam e deixar claro que, para si, “a pobreza não deve ser um motivo para separar a criança da sua família” — di-lo ao Gerador com uma nota de admiração pela Dra Marta Santos Pais, que trabalha para a Organização das Nações Unidas.  “A nível das políticas públicas seria fundamental que pudéssemos ter, em Portugal, programas que autonomizem as mulheres que são mães. Enquanto houver crianças a ser sinalizadas "estando em risco" antes de nascer, de dentro das barrigas de suas mães, provavelmente estaremos muito longe da co-criação de uma sociedade igualitária. Enquanto crianças estiverem a ser abduzidas dos seus lares, de perto das suas principais referências afetivas, a ser salvaguardadas junto a pessoas agressoras, estaremos a perpetuar a transmissão de conhecimentos violentos que certamente impedirão as crianças de viverem suas infâncias condignamente e de virem a ser pessoas adultas saudáveis”, sublinha.   

Num cenário ideal para Rita, todos e todas poderemos “refletir coletivamente sobre como estamos a viver socialmente e a invisibilizar problemáticas sociais que necessitam com urgência de atenção e de positivas transformações, sob pena de estarmos a incorrer em profundas violações de direitos fundamentais de mulheres e de crianças ad aeternum, a reproduzir práticas coloniais, machistas e fascistas.” A diferença começará “através da implementação de boas práticas educacionais, políticas, jurídicas e legislativas”. Para as pensar, este projeto pode ser um bom começo.

Texto de Carolina Franco
Fotografia da cortesia de Rita Cássia

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