Numa viagem fugaz pelas estradas de Lisboa, ouvimos os novos beats urbanos que se fundem com o fado da saudade, os amores, desamores e dúvidas maiores da existência humana. A voz e escrita de Rita Vian cruzam-se no seu mais recente projeto, o primeiro EP CAOS`A, lançado de surpresa para o asfalto contemporâneo da música urbana. A música tradicional portuguesa ganha nova substância e transforma-se, como um ciclo que se renova quando toca a liberdade artística.

O fado e a música eletrónica encontram-se em CAOS’A, o título do novo EP de Rita Vian. Com produção de Branko nos cinco temas do disco, e a realização do João Pedro Moreira no single Trago”, CAOS`A foi um lançamento inesperado da editora portuguesa Arraial, que, inspirado no hip-hop e na tradição, relata a crueza da vida e as interrogações mais profundas do existencialismo apaixonado da artista.

Desde cedo ligada à música tradicional portuguesa, Rita Vian conhecia o fado na voz sem precisar de instrumentos. Começou por fazer parte dos Beautify Junkyards, entrou em “Carmen”, de Mike El Nite, e “RITA”, do DJ Glue. Em 2019, apresenta “Diágonas”, surge depois o remix de Branko para o single Sereia”, e de seguida “Purga”, no qual se apresenta a solo para um público atento às sonoridades em movimento.

Há na densidade da sua escrita uma verdade humana, não fosse a sua vontade de percorrer um caminho de autoconhecimento e descoberta. Este caminho, que se revelou “natural e inconsciente”, concretiza-se agora no novo EP CAOS’A, que explora uma viagem pessoal onde “Tudo Vira” a cada curva.

O Gerador quis conhecer a causa da CAOS’A, e esteve à conversa com Rita Vian sobre o seu novo projeto. Desvendámos parte da mancha de “desfados” que nascem da eletrónica nacional, contados por uma narrativa que nos fala, com arranjos de tradição portuguesa, dos nossos ritmos interiores.

Gerador (G.) - Qual é a tua primeira memória de música?
Rita Vian (R. V.) - Em casa da minha família, os meus avós, tios e pais sempre cantaram e tocaram instrumentos como viola, piano, mas não profissionalmente, mais instintivamente. São todos músicos a tocar de ouvido. Tenho umas primeiras memórias da minha mãe a tocar viola, os meus pais e avós a cantar. E tenho a sala dos meus avós como memória de música. A minha avó a tocar piano e a cantar músicas lá de casa, que mais tarde vim a descobrir, pelas partituras, que eram fados. Sempre foram cantadas como fados, a cappella, mas sem guitarra por trás. Como não tinha esse instrumento a acompanhar nunca associei o fado a toda a ideia clássica de fado. Até hoje, sempre cantei fado a cappella, com os meus amigos no final das noites, e continuei a cantar como se canta em minha casa.

G. – Acabas por trazer essa presença da música tradicional portuguesa, sem os instrumentos, de forma inconsciente, para as tuas músicas.
R. V. – Sim, diria que, inconscientemente, é isso. Mesmo desde a minha adolescência, em que fui para a escola e conheci o meu grupo de amigos, que mantenho até hoje, nenhum deles tinha ligação ao fado ou à música tradicional portuguesa. Isso que eu trazia acabou por, ao longo de toda a adolescência e mesmo na minha vida adulta, fazer-me dar cores diferentes àquilo que conheci em miúda, juntando a música tradicional com coisas que acabei por ouvir de música eletrónica e hip-hop. Isso na minha cabeça acaba por não ser uma junção, mas sim algo natural.

A música de Rita Vian funde a tradição e a eletrónica, com a intenção de explorar novos caminhos @Eva Fisahn

G. – Quando é que começaste a explorar melhor a música, a cantar e compor?
R. V. - Eu tive uma banda durante uns anos, Beautify Junkyards, que ainda hoje o são. Juntei-me a eles com 20 e poucos anos. Antes disso tive algumas experiências e propostas, mas os Beautify Junkyards tinham um lado experimental que me atraía muito, no sentido em que eu própria estava à procura de encontrar um caminho, experimentar coisas diferentes, usar samples, instrumentos não acústicos. O meu percurso com os Beautify foi muito nesse lado de exploração. Uma vez, um dos meus amigos, o Mike El Nite, convidou-me para entrar num disco dele, para fazer umas vozes na “Carmen”. A “Carmencita”, da Amália, era um dos fados que eu cantava mais, e daí surgir o convite. Acabei por entrar e cantar um trecho inteiro. Tudo isso se foi construindo naturalmente, foi ganhando nome. Daí que, quando comecei a fazer música a solo, já tinha todos esses ingredientes e não houve propriamente um dia em que pensasse que o ia começar a fazer. Lembro-me de que, um pouco antes, o Miguel [Mike El Nite], descobriu o Conan Osíris no SoundCloud. Já nessa altura fiquei muito fã dele e acabei por sentir algumas ligações a tudo o que estava a acontecer em torno daquilo que era diferente, dessa mancha musical que estava a acontecer com outros artistas. E foi nesse processo muito natural que, de repente, me senti parte dessa mancha, sem ter consciência disso.  

G. – Depois surge “Diágonas”, em 2019, seguido de “Sereia”, com remix do Branko, até à “Purga”, o mais recente single antes do primeiro EP. Sempre foi um objetivo teu teres um projeto individual?
R. V. – Sim. Sempre foi o meu objetivo, mas nunca foi nada estruturado. Aliás, quando estava a fazer a “Purga”, tudo me saiu como uma necessidade. Escrevi essa música durante a quarentena, em que estávamos todos numa fase mais introspetiva. Quando o Franklin me enviou o beat, eu comecei a escrever em todos os meus trajetos, sempre que conseguia. O facto de as pessoas terem reagido tão bem à “Purga” acabou por me mostrar que eu podia escrever, que podia seguir esse projeto. Vais ganhando confiança, vais percebendo que podes explorar o que queres e podes avançar. As pessoas tiveram aqui um papel importante, porque se ligam às coisas, neste caso à música, e ela ganha outra vida. Tudo isso me permitiu aproximar de muita gente, o que despertou uma maior curiosidade pela minha música e sobre o que estava a preparar.

G. – Depois da “Purga”, somos surpreendidos com este novo EP “CAOS`A”, o teu primeiro. Como surgiu?
R. V. -Eu estava a terminar a “Purga” quando conheci o Branko. Ele enviou-me uma mensagem porque gostou de ouvir a “Sereia” e queria que eu fosse ao estúdio. Quando lá cheguei, ele já tinha um beat para eu ouvir. Não foi automático, mas, quando ouvi o beat, ele acertou naquilo que eu trabalharia, o que nem sempre acontece. Foi aí que acabou por sair a primeira música deste EP, a “Plana”. Eu lembro-me de que fiz logo ali parte da letra e da melodia de voz. Enquanto trabalhávamos na música “Plana”, sem saber ainda ao certo se seria para o meu EP ou para um projeto dele, criámos uma empatia que acabou por nos levar juntos para um processo muito tranquilo, tanto que o remix da “Sereia” surgiu meses depois disso.

De repente, já estávamos a trocar ideias de músicas, pedaços de coisas que escrevia, trechos de melodias e coisas que apanhava no dia a dia, no trabalho. Ele ia trabalhando isso e no final tínhamos uma série de ideias. Claro que, já na Arruada, quando surgiu a ideia do EP, eu e o Branko já tínhamos trabalhos para isso acontecer com naturalidade. Depois houve todo um processo mais intenso para que mergulhássemos a sério naquilo e saísse com toda a intenção e os sinais certos. Tudo o que sentíamos que a música precisava. Eu acho que quando não sabes bem o caminho, estás a soltar ideias, precisas de alguém que te diga: “Tens não sei quanto tempo para fazer estas canções”. E pensas “Ok, temos de fazer acontecer isto” [risos]. Até lá estávamos muito no ar, e de repente houve essa necessidade que nos fez sentar e arrumar tudo, dar um nome. E acabou por acontecer assim.

G – Desse processo criativo nasceu o EP. No fundo, deixou de estar um “caos”…
R. V. – Sim, exato. Deixou de ser um caos para se tornar uma “CAOS`A”. [risos]

G – Que linha de pensamento ajudou a construir esse CAOS`A? Há alguma narrativa ao longo de todo o disco?
R. V. – O início do disco é uma viagem tranquila, que passa por diferentes processos da nossa construção e desconstrução. Tanto da calma como das nossas dúvidas sobre o que vemos ou não, de estarmos ou não no sítio certo. Depois fala de como chegamos à conclusão de que, mesmo estando no sítio errado, tudo pode virar. Quando procuramos razões para tudo mudar temos sempre o lado amoroso, o lado de nos apaixonarmos, que nos cega para tudo o resto. E por fim, a dúvida de nunca sabermos o que devemos mudar, ou não, em nós. E por isso acabamos por mudar inteiros. Muitas vezes nem nos reconhecemos no passado, ou apenas nos reconhecemos na forma como tudo evolui sem nos apercebermos disso. Tudo isto são processos de autoconhecimento, consciência de nós próprios, do nosso corpo e do que sentimos, amores, desamores, saudades, tudo o que nos faz mexer, pensar e apaixonar. Tenho muito esse desafio para mim própria, na minha forma de escrever mais densa. Procuro palavras e exemplos de coisas que nos façam pensar e sentir, ouvir partes de nós só nossas, tão íntimas, que muitas vezes não vamos lá e não partilhamos por termos dúvidas. Gosto deste desafio de tentar ir ao âmago e procurar o máximo das questões centrais das nossas mudanças e desafios internos. É sobretudo essa a linha do EP e da minha escrita.

Capa do EP CAOS`A, de Rita Vian, editado pela Arruada @Eva Fisahn

G - Ao longo das faixas reconhecemos uma mistura de fado e eletrónica, uma presença de hip-hop e da melodia da saudade. É um caminho intencional que pretendes continuar?
R. V. - Sim, acho que vai estar sempre ligado. Não vejo outra forma de fazer música, vou sempre fundir as coisas. Música, para mim, é um conceito que abarca tudo. Para este disco tentei trazer uma viola e uma guitarra portuguesa, mas o imaginário de um primeiro disco meu tinha de ser fiel ao facto de nunca ter cantado com esses instrumentos por trás. No sentido de este ser o primeiro, queria que fosse fiel à minha vida recente, daí não os usar. Penso que no futuro de certeza que vou querer experimentar outras coisas, tendo sempre como chave o que a música me pedir, não propriamente se encaixa nela. Sei que vai ser sempre música eletrónica a acompanhar parte do processo e que terá, seja de que forma for, os acrescentos que a música pedir nessa altura. Tudo é um movimento constante, uma constante mutação, e vou descobrir novas coisas que fazem sentido à minha voz que nunca usei. Não fazem parte do imaginário de trás mais sim do que vem para a frente. Não é algo estruturado, de raiz, fundamentado, que não evolui para lado nenhum. Vai evoluir para algum lado, certamente. Já a escrita, desconfio que vou ter sempre um lado existencialista e muito apaixonado. Só descobrindo no próximo disco! [risos]

G. – Apesar de ser um caminho de reflexão e autoconhecimento, estás sempre rodeada de artistas que te inspiram, que fazem parte do teu percurso pela música.
R. V. -A música é um complemento da minha vida por necessidade, se assim não o fosse era totalmente a minha vida. Mas mesmo assim, faço-me rodear sempre pelos meus amigos, alguns deles também músicos, o Mike El Nite, o ProfJam, andámos todos na mesma escola. O que me inspira é mesmo o fado, o hip-hop, a complexidade da escrita associada a espaços e melodias que te levam para o sítio certo e o sentimento certo. Espero rodear-me sempre do que me inspira e conhecer mais pessoas ao longo do tempo, que me elevem para universos que me façam descobrir coisas minhas que ainda não conhecia. O João Pedro Moreira, que faz parte dos Beautify Junkyards, e que realizou os vídeos, é um grande amigo meu também. O Branko a mesma coisa, a presença dele foi muito natural, tanto no sentido musical como depois por nos darmos muito bem, torna tudo mais fácil. Quando surge uma ligação tudo nasce de algo mais bonito e verdadeiro, nasce um processo muito natural de trabalho. Acaba por não ser trabalho, mas ser um prazer descobrir a evolução deste percurso, deste disco.

G - O que sentes que se transformou, desde o lançamento de “Diágonas”, em 2019? Fala-nos dessa sensação de “ver que conseguimos”, como falas na música “HPA”, do teu primeiro disco, CAOS`A.
R. V. -Sinto que me foi dada uma segurança por mim própria, e que depois foi sendo reconhecida pelas pessoas como algo que pode existir e tem um lugar. Fui encontrando esse lugar com cada vez mais espaço para mim. Tenho um caminho pela frente, já com muita liberdade e cada vez mais sinto que tudo se abre, na minha cabeça, para continuar esse caminho, sem medo, sem resistência, com a vontade de explorar tudo o que tenho para dizer, tudo o que tenho vontade de expressar e sempre guardei durante muitos anos. Agora há uma estrada para percorrer que me deixa com um sentimento de cumprir algo que sentia que podia ter um lugar. E esse lugar existe e fico contente que ele exista.

Texto de Ana Mendes
Fotografias de Eva Fisahn

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