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Rita Vian: “Quero sempre experimentar sonoridades de diferentes formas”

Uma mistura difícil de definir. A música de Rita Vian combina ritmos eletrónicos, batidas e “trejeitos” de fado, numa melodia frequentemente melancólica e assumidamente introspetiva.

Cantora e compositora, Rita Vian lançou-se a solo após integrar vários projetos, e conquistou a atenção de Branko, que produziu o seu mais recente EP, CAOS’A. Antes disso, o artista tinha já remixado o single Sereia, que despertou o interesse de uma audiência mais alargada.

A cantautora de 29 anos, que já gravou com Mike el Nite, Benji Price e DJ Glue, e ainda integrou a banda Beautify Junkyards, divulga agora este novo EP de cinco temas, que foi editado pela Arraial (braço editorial da Arruada). As letras, ricas e repletas, são sobre si própria “e sobre as coisas que eu estou a pensar”. “Não é uma mensagem para ninguém”, afirma.

Numa entrevista sobre caminhos e ambições, Rita Vian afirma que é movida pela criatividade, negando as amarras de um rótulo definido. “Desde que aquilo seja português, tenha uma mensagem bonita, tenha algo familiar, para mim [basta]. Não penso no resto”, afirma.


Gerador (G.) – Sei que estudaste diferentes vertentes da música em diferentes escolas, mas não levaste essas formações até ao fim em nenhum dos casos.

Rita Vian (R. V.) – Não.

G. – Porquê? Sentiste a falta de alguma coisa nessa educação mais “clássica” ou mais formal?

R. V. – Nem sei se me recordo... A minha mãe ia-me pondo a estudar piano em vários professores. Eu não lembro muito bem do motivo, mas acho que nós mudamos de casa, então, nos primeiros anos, ela pôs-me a estudar isoladamente. Eu cantava e tocava de ouvido, então a minha mãe lembrou-se de algumas com quem eu poderia estudar piano e pôs-me a estudar piano solto com essas pessoas. Depois tive um ano na Escola Metropolitana, também só a estudar piano...

Eu acho que, de certa maneira, eu nunca me deixava cativar pelo facto de a direção ser muito rígida e de eu saber que, por exemplo, queria cantar. Depois a questão clássica [é que] não te leva muito para o teu lado criativo, leva-te para o lado de teres que estudar música. As coisas têm regras e têm formas de se fazer, então eu desencantava-me muito depressa, porque não tinha depois o lado criativo de “olha se souberes isto, depois podes criar outras coisas”. Mesmo da parte dos professores não tinha esse lado, então eu ia-me desencantando. Depois estudei no Hot Clube, jazz também – e acho que nem chegou a um ano, foi meio semestre – mas foi a mesma coisa. Não me senti cativada para aquilo.

G. – Apesar disso, sempre soubeste querias seguir a área da música? Isso não te desmotivou?

R. V. – Não, não. Lá em casa a música sempre fez parte do dia a dia. Então, não era uma questão de escolher a música, era uma questão de a música fazer parte, um bocado. Para mim nunca foi propriamente uma escolha, de “tenho de ir por aqui”. Para mim, o que quer que eu estivesse a fazer, podia sempre cantar ao mesmo tempo. Não havia muita pressão nesse sentido. Só eu, sozinha, mais tarde, é que me apercebi de que tinha de fazer essa escolha e que tinha de tomar algumas decisões para fazer essa escolha.

G. – E que decisões foram essas, se é que podes dar algum exemplo?

R. V. – As decisões são tu direcionares a tua vida para isso. São, basicamente, ires atrás das tuas composições, de criar, de tirar o teu tempo para seres...

A questão da música, do lado criativo, é que depois tens de levar aquilo de uma forma muito profissional, se queres atingir um determinado objetivo e depois tens de te focar nisso. E aí, no meu caso, já é muito mais uma coisa de eu, sozinha, ter de tomar essa decisão e ter de me empenhar em gravar essas letras, músicas, etc.

G. – Integraste outros projetos, nomeadamente a banda Beautify Junkyards. O registo, neste grupo, era bastante diferente. Saíste e lançaste-te a solo por vontade de seguir outro caminho? Porque a tua intenção criativa não era seguir essa linha? Ou foi por outros motivos?

R. V. Não. Houve uma altura em que eu tive algumas oportunidades para me juntar a algumas bandas e os Beautify foram uma delas. Os Beautify inicialmente interessaram-me porque não eram algo muito definido. Tanto metia folk portuguesa – Zeca Afonso cancioneiro português, Fausto – como metia MBB. Tinha um lado muito clássico e depois tinha um lado eletrónico, meio de sampling, de várias coisas que eu ainda estava por descobrir, também, como é que eu juntaria elementos. Então, na altura, despertou-me muita curiosidade.

Eu acho que nós nunca sabemos o caminho. Pelo menos eu não sabia a 100 por cento o caminho que ia tomar, mas ia à procura de pistas em coisas que me interessavam por algum motivo e depois arriscava. Os Beautify ajudaram-me muito a perceber o que é que eu faria e o que é que não faria sozinha. Então foi muito por aí. Depois, ao longo do tempo, fui-me apercebendo de que não me identificava com algumas coisas e fomos falando sobre isso. E depois o tempo foi passando, até que um dia me decidi lançar a solo e sair da banda. E assim foi.

G. – Então sempre tiveste essa vontade, de cantar a solo? Ou foi o percurso que te encaminhou para isso?

R. V. – Eu acho que sempre tive essa vontade. Só que, lá está, eu nunca levei isso como um grande peso ou uma decisão muito grande. Achei sempre que, quando chegasse o dia, e se eu tivesse as coisas para isso – os elementos [necessários], as músicas feitas, uma identidade, que eu conseguisse escrever e conseguisse ver-me representada nessa escrita – aí sim, as coisas já iam acontecer naturalmente. E acabaram por acontecer.

G. – Essa decisão acabou por materializar-se pouco tempo antes de a pandemia começar, certo? Ou pelo menos foi nessa altura que lançaste os primeiros singles...

R. V. – Sim, foi em 2018, 2019.

G. – Isso afetou de alguma forma a divulgação do teu trabalho? Sentes que o teu lançamento a solo seria diferente se não tivesse acontecido nesse contexto?

R. V. – Não. Eu acho que, na verdade, não mexendo muito no destino, até me ajudou, porque quando eu lancei [o single] Sereia já estávamos na pandemia, na quarentena e o Branko ouviu-o eventualmente por estar mais em casa, mais atento. Mais pessoas ouviram por estarem em casa, mais atentas, e isso ajudou-me, na verdade, de alguma forma. Não me ajudou a quarentena, mas, de alguma forma, houve uma atenção que me pode ter ajudado. E depois acabei por me refugiar na quarentena e no facto de estar a viver sozinha na altura, para escrever e para ir desenvolvendo mais trabalho e nomeadamente [o single] Purga.

G. – Esse trabalho já foi, depois, influenciado pela colaboração com o Branko? Como se desenvolveu a partir daí?

R. V. – Não. Eu já estava a terminar a Purga quando o Branko me mandou uma mensagem. E, mais ou menos nessa altura, enviei a Purga tanto para o Branko como para mais pessoas com que hoje em dia trabalho. Foi mais ao contrário. A partir daí, as próprias pessoas despertaram mais interesse nessa direção.

G. – Essa abordagem, do Branko, por exemplo, foi algo que te deixou surpreendida? Já tinhas tido algum tipo de contacto com ele, antes disso?

R. V. – Não tinha. Eu, por acaso, antes disso, no ano anterior, tinha estado no [festival] Primavera Sound com ele, mas muito por termos um amigo em comum. Então, às vezes, eu estava com esse meu amigo e o Branko estava lá. De vez em quando eu dizia qualquer coisa sobre um concerto e o Branko entrava na conversa e eu ficava só [a pensar] “está a falar comigo” [risos], mas não o conhecia de lado nenhum, só mesmo desse evento.

Ainda houve uma altura em que esse nosso amigo ainda nos tentou fazer uma ligação entre os dois, porque o Branko às vezes procurava vozes para discos. Eu enviei coisas minhas, mas aquilo não saiu dali e depois sim, passado um tempo, recebi uma mensagem dele, por causa da versão original da Sereia, na verdade. Depois, lá está, enviei-lhe a Purga e só depois de estarmos a fazer a primeira música – que se tornou a primeira música do EP – é que o João fez o remix da Sereia. Este remix foi, na verdade, a última coisa a acontecer. Foi a primeira a sair e a última a ser desenvolvida por ele, sim.

G. – Neste trabalho juntas muito o registo de fado com beats, música mais eletrónica... defines-te como fadista, ou não?

R. V. – Não, eu acho que não, até porque nunca fui fadista e porque ser fadista é muito diferente daquilo que eu faço. Eu canto em português, canto de uma forma bastante portuguesa. Tenho alguns trejeitos de fado porque se cantava fado na minha família, mas acho que não sou fadista. Ser fadista tem um percurso, tem muita coisa.

G. – Esse é um caminho que nunca ponderaste seguir? Preferes antes esse lado mais criativo e disruptivo?

R. V. – Disruptivo não diria. Diria criativo. A minha questão é que, como eu não fiz parte... tu ou fazes parte desse percurso ou não. Não podes de repente cortar e aparecer numa casa de fados e... se calhar até podes, mas eu nunca fiz isso. Então,cantava fado para os meus amigos e não pensei nunca que poderia fazer esse percurso. E não tem nada que ver com disrupção, tem mesmo que ver com o lado criativo e com a cabeça. Porque eu sempre tive muita vontade de cantar e de escrever e de partilhar ideias através disso tudo. Então, tudo o que me deixava ir para esse mundo, onde eu podia escrever em português, para mim era um espaço confortável.

Então nunca pensei muito no sítio onde estava, na verdade, nem na forma como estava a transmitir as coisas. Desde que, para mim, aquilo seja português, tenha uma mensagem bonita, tenha algo familiar, para mim [basta]. Não penso no resto.

Não estou a pensar em mudar. Não estou a pensar em nada disso. Estou a pensar que a eletrónica é um elemento como é o elemento acústico e eu gosto de ambos e posso, agora, num próximo disco – acho que dá-se muito valor a esta coisa mas... – acho que posso (e tenho muita vontade) de incluir mais elementos acústicos e fazer essa mistura com a eletrónica. Não vejo muito essa coisa do...

G. – Ou seja, não defines o teu estilo de uma forma estanque? Queres antes continuar a experimentar outras coisas?

R. V. – Quero sempre experimentar sonoridades de diferentes formas, mas sempre na ideia de que o eletrónico é um instrumento, o acústico é um instrumento e ambos podem ser usados. Para mim, eu posso usar muito acústico, e usar eletrónico e usar os dois. Numas músicas mais uns do que outros e vice-versa. Mas, para mim, é uma descoberta igual. Interessa-me mais descobrir as canções, as letras, tudo isso.

G. – Escreves muito e todas as tuas letras foram escritas por ti. Todas elas têm este caráter introspetivo? Ou há alguma delas em que tenhas sentido a necessidade de intervir perante uma qualquer força exterior a ti?

R. V. – Acho que é mais introspetivo, pelo menos tem sido até agora. Acho que, pode-se ler uma certa intervenção em tu falares contigo e quereres [ter] essa conversa contigo. Mas [o meu trabalho] é introspetivo, na verdade. [É] sobre mim e sobre as coisas que eu estou a pensar. Não é uma mensagem para ninguém, é mais uma mensagem para mim.

G. – Há pouco referias elementos que poderias incluir noutros trabalhos. Isso significa que estás a trabalhar em novas coisas? Tens outros projetos na calha, após este lançamento?

R. V. – Estou a trabalhar em novas coisas, sempre. Não por força de nada, mas porque sim. Naturalmente vou escrevendo, vou compondo.

Texto por Sofia Craveiro
Fotografia de Eva Fisahn

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