No início desta semana, o Gerador anunciou uma nova aliança que ajudará na concretização de reportagens de investigação, com a atribuição de bolsas a projetos apresentados por jovens jornalistas, como temos vindo a fazer, através da nova Bolsa Gerador Ciência Viva, com o contributo da Ciência Viva, uma entidade que promove a cultura científica e tecnológica em Portugal.

A Bolsa Gerador Ciência Viva para jovens jornalistas pretende criar condições para que estas pessoas, formadas em jornalismo ou ainda em formação, até aos 35 anos, possam desenvolver reportagens de investigação de qualidade, com acesso a recursos técnicos, humanos e financeiros. Assim, poderão apresentar projetos que enderecem uma das seis áreas de intervenção editorial prioritária do Gerador: sociedade; cultura; ambiente e sustentabilidade; interior do país; juventude; e ciência.

Com a inauguração desta nova parceria, aproveitámos para refletir sobre a cultura científica e a sua relação com o jornalismo científico, através de uma entrevista com Rosalia Vargas, presidente da Ciência Viva, no ano em que a entidade celebra 25 anos.

Rosalia Vargas fez os estudos básicos e secundários em Bragança e o universitário no Porto. O seu percurso académico percorre formações no primeiro ciclo do ensino básico e secundário, em Filosofia, Educação de Adultos, Educação e os Media e em Cultura Científica e Tecnológica. Vem desempenhando cargos de coordenação e direção nestas diferentes áreas, integrando grupos de estudo e avaliação nacionais e internacionais. É presidente da Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica – Ciência Viva e do Pavilhão do Conhecimento – Ciência Viva, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, exercendo ainda competências ao nível da implantação da rede de Centros Ciência Viva em todo o país. Participou como especialista no Benchmarking Study on Scientific Culture for the European Commission (2002), foi membro do Board do ECSITE – European Network of Science Centres and Museums (de 2001 a 2007), do International Programme Committee of 5th Science Centre World Congress 2008, é membro do Conselho Nacional de Educação (desde 2006), e foi vereadora da Educação, da Juventude e da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa (de 2007 a 2009).

Durante esta conversa, aproveitámos para falar sobre a noção de cultura científica, a importância do jornalismo científico para a sociedade, a combinação de arte e ciência, a existência de conhecimento científico como caminho para a liberdade, a presença das mulheres na ciência em Portugal, e, claro, sobre a recém-nascida aliança entre a Ciência Viva e o Gerador. Juntas-te a esta conversa?

Gerador (G.) — De que forma é que a cultura científica se mostra presente no nosso dia a dia e não como um domínio obsoleto de pessoas vestidas de bata num laboratório como, por vezes, se estigmatiza?

Rosalia Vargas (R. V.) — Acho que já estamos longe desse modelo. O nosso país avançou muito nesse campo. A cultura científica, hoje, é vista como um movimento social pelo conhecimento, portanto houve uma apropriação do conhecimento por parte da população. Estou a dizer isto e posso ser amplamente contrariada. Sei que há sempre argumentos contrários. Mas quem diz isso, e não deixa de ter razão, tem de pensar no que tínhamos há vinte e cinco anos. Digo isto, porque a Ciência Viva faz, precisamente, vinte e cinco anos e alguma coisa havemos de ter feito de diferente.

Não há dúvida de que, do ponto de que partimos da cultura e produção científica há vinte e cinco anos — e não foi a Ciência Viva a única responsável pela mudança, embora sejamos uns grandes promotores da mesma —, este era tão diferente daquilo que vivemos hoje, e o caminho que foi e está a ser feito é muito grande. Portanto, a minha visão é, não estando demasiado contente com os resultados, estou claramente a olhar para toda esta mudança duma maneira muito positiva. Isto leva tempo, mais do que uma geração, e tem efeitos na sociedade, que é muito mais curiosa, desejosa de conhecimento. Hoje, o abandono escolar é muito menor, o que também conta muito, mas não se muda de repente.

Quando se fala de cultura científica, é preciso, sobretudo, [perceber] como a cultura científica evolui no nosso país, por exemplo. Evolui trabalhando com outros, partilhando, fazendo parcerias, caso contrário não há evolução possível. A ideia de que o conhecimento científico e os cientistas estão fechados no condomínio da ciência já não colhe, está francamente a mudar. Portanto, [é preciso haver] partilha do conhecimento, colaboração com muitos projetos, a escola estar cada vez mais aberta a mudanças, com mais autonomia, e também a criação de espaços onde isso é discutido, apresentado à população, são convidados os jovens, as famílias, as escolas a virem e a discutirem conhecimento e a debater. Isso aumentou muitíssimo no nosso país. Há vinte e cinco anos não havia um centro de ciência no nosso país e, hoje, há uma rede de vinte centros de ciência. É uma rede, aliás, que é olhada com muita curiosidade a nível nacional e internacional. O êxito? Parcerias — trabalhamos com câmaras municipais, com instituições científicas, universidades, politécnicos, empresas e outras associações. Não estamos só fechados naquilo que é a cultura científica.

(G.) — Num tweet, escreveu: “Arte e Ciência, melhor combinação não há”, a propósito da pintora Graça Morais. Partilhou também a ponte escultura de Leonel Moura, em Ponte de Sor, um artista conhecido por usar a ciência na criação artística. De que forma a combinação entre estas duas áreas as dilata?

(R. V.) — É fundamental. Já ninguém pensa na Stem* [acrónimo em inglês que, traduzido, significa “Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática”]. Hoje pensamos nas Steam (metodologia que reúne as disciplinas anteriores e acrescenta o “a” de “artes”). Por isso, as artes, de uma maneira geral, são fundamentais para a compreensão de conhecimento, da sociedade e, claro, da ciência. Portanto, fazer essas ligações tem sido algo que temos vindo a promover desde há muitos anos.

Por exemplo, já organizámos residências artísticas em colaboração com a cultura. Há quinze anos que começámos a fazê-lo, convidando artistas a fazerem residências nos laboratórios de investigação. Isso originou trabalhos magníficos, uma conexão de ideias e de criatividade muito boas. Portanto, trabalhar com outras áreas, saber que a cultura não é só a cultura científica, embora, sejamos claros, o nosso trabalho seja essencialmente nessa base, mas estamos sempre em ligação com outras áreas culturais. E, com a arte, em geral, é extraordinário.

Dou outro exemplo muito recente. Em 2019, fizemos uma parceria com a instituição Ar.Co e lançámos um desafio — fazer as joias da ciência. Eles têm aulas de joalharia, várias dinâmicas de ateliês, e combinámos trabalhar em conjunto e fazermos uma exposição sobre as joias da ciência. Os estudantes fizeram joias, fabricaram produtos. Convidámos investigadores, cientistas — homens e mulheres — para virem desfilar as joias feitas por joalheiros aprendizes. Portanto, é algo que promovemos muito. Essa prática só tem a ganhar com a sinergia das artes, porque as artes estão na nossa vida e, sem isso, sorrimos menos, porque nos emocionamos menos. A arte emociona, seja ela qual for — a música, o cinema, a pintura, a escrita. É tão potente que mexe connosco. Mexe com aqueles que lidam muito com a arte e com os que lidam menos e, portanto, precisamos da emoção, do riso, do choro para exprimir sentimentos e, tudo isto ligado à ciência, dá um resultado extraordinário, move o mundo. Muda mentalidades.

*A metodologia Stem/Steam é uma nova abordagem de aprendizagem que preza pela multidisciplinaridade nas salas de aula, apresentando uma forma de aprendizagem integrada, com base em projetos, e que procura formar as pessoas em várias áreas do conhecimento.

(G.) — Como considera que o jornalismo científico contribui, ou poderia contribuir, para a literacia científica?

(R. V.) — Essa é uma pedra angular. É muito importante, porque é como os cidadãos podem ter conhecimento que vai aumentar o nosso grau de exigência e crítica na sociedade. Temos de receber esses conhecimentos de muitas formas. E antes de se ter esse conhecimento, vem por formas de informação. O jornalismo cumpre esse papel. Estamos a assistir, o que é uma pena, a que o jornalismo ligado à ciência como havia há uns anos — há duas décadas havia jornalistas especializados em economia, ambiente, ciência — está a perder-se, e isso é um problema. As linhas editoriais das grandes publicações não estão a olhar para isso com atenção. Mas há, cada vez mais, um público diversificado, jovem, que quer ser bem informado, que quer ser informado sobre assuntos do dia a dia que lhe dizem respeito — a saúde, economia, finanças, artes, ciência, entre outros.

Por isso, vemos com muito gosto a parceria da Ciência Viva com o Gerador no que diz respeito a uma bolsa de jornalismo de Ciência Viva para jovens. É um novo pilar de estratégia que o Gerador poderá ter e que vai ter, de certeza, um impacto muito grande. A nível do jornalismo, já temos vindo a apoiar jornalismo regional. Portanto, temos a ciência nos jornais regionais. É um projeto que tem alguns anos, em que estamos a alimentar as linhas editoriais e os trabalhos de jornais regionais com ciência, com cientistas. Os cientistas são oriundos de todo o lado, então os jornais regionais também amplificam aqueles que são os resultados dos seus conterrâneos. Ao fazerem isso, estão a divulgar ciência, estão a pôr a ciência na sociedade.

E o Gerador tem um lado muito bom de escrita de jornalismo, a que chamam o jornalismo lento. Apetece ler com muita atenção esse jornalismo que vocês refletem, porque levou tempo a ser feito, a ser pesquisado, a ser construído. Por isso, é digno de ser lido devagar para saborear bem.

(G.) — A divulgação da ciência é, então, um trabalho de equipa que envolve desde a comunidade científica, aos professores nas escolas, os museus, os centros de ciência, mas também o trabalho dos jornalistas no que diz respeito a fazer chegar a informação científica à sociedade?

(R. V.) — Absolutamente. É disso que precisamos, que haja mais apostas nessa forma de comunicar. Essa é uma forma de comunicação de ciência, e o jornalismo científico ajuda-nos a desvendar, de uma maneira mais clara, aquilo que é mais difícil de entender. Os jornalistas de ciência são facilitadores do conhecimento. De facto, não é fácil, porque há uma linguagem própria, há um sentido do conhecimento que é muito complexo e decifrá-lo rapidamente não é fácil. Os jornalistas fazem isso com uma linguagem muito apelativa, clara. Nós gostamos disso e de ser entusiasmados com a ciência através dos jornalistas que fazem o trabalho de alguma mediação com os investigadores e com aquilo que está na ordem do dia no campo da ciência e da tecnologia.

(G.) — Atravessamos um momento mediático em que convivemos com questões como a proliferação de fake news, desinformação ou teorias da conspiração. Exemplo disso é a questão da vacinação contra a covid-19. Que relação tem o jornalismo e a ciência nestes casos e de que formas considera que a mesma pode ser estreitada de forma a combater as situações de desinformação?

(R. V.) — O jornalismo nunca conseguirá, sozinho, combater as fake news, as notícias falsas, porque há jornalismo que contribui para as mesmas. Portanto, muitas das notícias falsas são produzidas em ambiente de jornalismo, e isso é muito complicado, porque é preciso aprender a decifrar, a pôr em causa, a ter algum distanciamento em relação àquilo que se lê. Claro que é paradoxal, porque o contrário também é verdadeiro. É no ambiente de um bom jornalismo que se desmontam as notícias falsas. Portanto, é uma dupla realidade que existe dentro daquilo que é o jornalismo. Não é só no campo do jornalismo que isto vai ser resolvido. Tem de o ser no campo da escola, da educação, da cidadania, de haver muitas situações em que as pessoas são habituadas a questionar, criticar, a pôr em causa, a olhar para outro lado das questões. Isso aprende-se na escola, na sociedade, com organizações, com museus e centros de ciência, que são lugares confiáveis para deslindar e discutir o conhecimento em muitas vertentes e, portanto, é um trabalho conjunto da sociedade para combater esse flagelo.

Contudo, no que diz respeito ao exemplo de que falou, da vacinação, foi, até agora, um caso de grande sucesso no nosso país, com um envolvimento maior do que o esperado. As pessoas aderem, os jovens têm tido uma atitude muito positiva, e isso é muito bom. Atrevo-me a dizer que isso é um índice de existência de cultura científica. Houve alterações e melhorias na sociedade. De facto, o bom jornalismo, neste contexto, foi muito importante. Divulgou o que era preciso fazer, disseminou informação que as pessoas podiam comparar e fazer escolhas. Mas o número de artigos positivos, bem escritos e fundamentados sobre esta matéria, foi muito maior do que o número de artigos que veiculavam notícias que não eram fundamentadas e eram falsas. E não estamos a falar de redes sociais, porque aí não estamos a falar de jornalismo, embora se a informação for veiculada por profissionais, pode estar no campo do jornalismo.

(G.) — Aproveitando a referência às redes sociais, muitas vezes, estas permitem que se espalhem opiniões infundadas que contestam a ciência. O contributo da ciência para combater essa realidade passa, desde logo, pelo exemplo do método científico em que se levantam questões, para as quais são definidas hipóteses que depois terão de ser testadas e, até, serem alvo de sentido crítico antes de se chegar a uma conclusão?

(R. V.) — Claro. É usar a escola como uma plataforma de conhecimento, dinâmicas, vivências, debates. A escola tem de ser um lugar de debate. Geralmente não o é, pois não? [Rosalia sorri, enquanto confirmo que, pela minha experiência, a escola não é esse lugar.] A escola não é muito um lugar de debate, é-o quando tem profissionais que encorajam esse debate, que levam projetos de fora para dentro, projetos que são fora da caixa, que levam os alunos a pensar, intervir. A escola está, cada vez mais, a aproximar-se deste paradigma de falar, expor, discutir e argumentar. E isto treina-se — discutir para melhorar o conhecimento das coisas, discutir para melhorar o entendimento do outro. Isso, cada vez mais, é necessário na sociedade.

(G.) — Por várias vezes afirmou que o conhecimento abre um caminho para a liberdade. Em que medida o conhecimento científico, em particular, o pode fazer?

(R. V.) — O conhecimento abre janelas. O conhecimento é plural, múltiplo, não pode estar fechado em si mesmo. Nós temos o Pavilhão do Conhecimento, porque é plural. Abarca temas e debates de ideias de todas as áreas, desde a filosofia, as ciências mais naturais, mais exatas, até às artes. É um espaço que se quer plural e dinâmico. Portanto, isto do conhecimento não é nada que possamos guardar para nós ou dizer que o atingimos. É um processo, um dinamismo. E, hoje em dia, a sociedade abre-se em formas muito diferentes de conhecer. Portanto, é um movimento dinâmico, ativo, crítico e inspirador. Tem de ser inspirador e colaborativo. Pensar sozinho é importante — às vezes precisamos do silêncio para pensarmos e para pensarmo-nos — mas, se ficarmos só aí, fica pobre. Nós queremos um conhecimento colaborativo. É muito estimulante e criativo, estar com outros e construir o conhecimento em conjunto.

(G.) — Numa notícia do Expresso, de fevereiro de 2020, lemos que as mulheres constituem 60 % das pessoas que trabalham em laboratórios do Estado português, ocupam metade dos lugares de investigação nas instituições de ensino superior e superam o número de homens investigadores em cinco de sete grandes áreas científicas, tornando o nosso país naquele que tem uma maior percentagem de mulheres em cursos de ciências, matemática e computação, embora ainda existam poucas mulheres em lugares de chefia. Em entrevista à Máxima, em 2020, a propósito do 25 de Abril, a Rosalia disse: “Tal como os homens, no 25 de Abril, as mulheres conquistaram também a liberdade de expressão, de pensamento e de associação, bem como o direito à saúde, segurança social e sobretudo à educação, que assumiu particular importância”. De que forma tem assistido à presença de cada vez mais mulheres na ciência como um processo de crescente libertação e que caminho ainda é preciso percorrer?

(R. V.) — Essa pergunta é muito interessante. Começando pela Ciência Viva, nós somos muitas mulheres. Não fazemos por isso quando estamos a recrutar, mas a verdade é que esta equipa tem crescido mais feminina do que outra coisa. Dirigindo a Ciência Viva há tantos anos, tenho notado que nos aparecem cada vez mais mulheres com uma formação muitíssimo boa e com uma capacidade de trabalho excecional. Portanto, se estivermos a recrutar e tivermos um homem e uma mulher, se ela for melhor, é ela que entra, se ele for melhor, é ele. Prevalece a competência. E, de facto, elas têm-se revelado com grandes níveis de competência, e isso verifica-se também nas percentagens relativas a mulheres na ciência no nosso país. Aliás, o número de mulheres de ciência no nosso país é um estudo de caso — é um número maior do que a nível europeu.

Há uns anos, começámos a ir também ao encontro das mulheres na ciência e já editámos três livros que se chamam: Mulheres na Ciência. Nenhum homem cientista se queixou, até hoje, de não estar nesse livro, porque percebe que é dedicado às mulheres. Não sei se, no caminho que isto leva, no futuro, não vamos editar livros que se chamam Os Homens na Ciência. Mas a percentagem de mulheres na ciência é bastante elevada e o que fizemos foi contratar fotógrafos para fotografar mulheres que têm índices de produção científica que as colocam em patamares científicos de elevadíssima qualidade. Incluímos duzentas e tal mulheres por livro e ainda temos várias por incluir. E estamos agora a trabalhar num livro muito curioso — As Raparigas na Ciência e Tecnologia. Aí, vamos olhar para raparigas muito novas, algumas que estão no primeiro ciclo, e que estão em projetos de ciências, engenharias, que estão em clubes de ciência viva, que concorrem a programas internacionais e vamos fotografá-las e dar o seu testemunho. Vamos fazer um livro que mostre como estamos a estimular, com vários programas, este caminho de mais e mais mulheres na ciência.

Há um problema que também levantou, que é o das mulheres estarem em poucos lugares de chefia. Já estão em muitos mais do que estavam, tem evoluído. Há grandes unidades de investigação no nosso país que têm mulheres à frente e são cada vez mais. Agora, é preciso continuar e estimular isso. Claro que, principalmente no início de carreira, é crucial as mulheres terem tempo, apoios familiares para poderem fazer esse caminho. É essencial, cada vez mais, que isso exista. Ainda há muita coisa a afinar, mas estamos num bom caminho.

(G.) — Existem vários casos de cientistas de excelência em Portugal, embora muitas possam passar despercebidas para a maioria da população. De que forma podemos contribuir para que esta excelência se funda em vários patamares de superação e não de exclusão?

(R. V.) — Acho que isso acontece para os homens e para as mulheres, na ciência. Há cientistas homens que estão a fazer um excelente trabalho, e isso não é muito conhecido do público. E alguns são muito conhecidos. Depende das áreas em que estão a trabalhar. Os jornalistas são uma câmara de ampliação desse trabalho, mas amplificam algumas áreas de investigação e não outras, porque são mais cativantes, têm mais que ver com a vida de cada um de nós. Por exemplo, tudo o que tem que ver com investigação na saúde, tem muito que ver com a vida de cada um. Há áreas que são, à partida, muito mais apelativas para o público. Agora temos astrobiólogas muito conhecidas, porque as pessoas têm uma curiosidade enorme sobre o espaço, saber se há vida noutros planetas. Por exemplo, a Zita Martins é uma astrobióloga muito conhecida do público. Na engenharia, temos a Elvira Fortunato que ganhou o prémio Pessoa e é muito conhecida. E, ao dizer estes nomes, estou a descurar outros que são muito conhecidos.

(G.) — Quais os exemplos, dentro da rede de Centros Ciência Viva, que mais vos têm inspirado nos últimos anos, inclusive junto da juventude?

(R. V.) — Nós somos muito exigentes e construir uma rede leva tempo, tem de ser alimentada de projetos e nós trabalhamos muito em rede. Partilhamos recursos, ideias e, às vezes, fico verde de uma boa inveja de atividades e ações que outros centros Ciência Viva fazem e eu penso — “porque é que nós não fizemos aquilo? Que bela ideia!” Ficamos sempre felizes porque outros centros da rede fazem trabalhos e estão a desenvolver ideias que nem nos passou pela cabeça. Significa que a rede funciona, que está num bom caminho e que tem muita qualidade. E que têm criatividade e valências que, às vezes, não temos, porque os centros Ciência Viva são todos diferentes, de áreas diferentes e têm pessoas muito qualificadas como profissionais. Portanto, há uma competição saudável entre todos nós, mas também um gosto partilhado do êxito de cada um, que é muito grande.

Por exemplo, tivemos uma ação há uns anos, que vamos repetir, sobre a qual temos um livro — Noite no Museu —, que é uma atividade que sempre foi um êxito. As crianças vêm e passam a noite aqui [Pavilhão do Conhecimento]. Exploram o museu de lanterna, porque apagamos as luzes do museu. É resolver um enigma, resolver uma aventura, e aprende-se muito assim, porque nunca mais se esquece essa experiência. Outro exemplo é o centro Ciência Viva de Estremoz que tinha uma atividade, que agora vai retomar, chamada Ciência na Rua. Nesses dias, Estremoz leva música, dança, teatro, workshops de ciência para todos, atividades magníficas e feitas por muitos profissionais e culturas diferentes. Se eu der mais exemplos, estou a esquecer-me certamente de outros muito bons.

(G.) — No site da Ciência Viva, podemos ler: “A Ciência Viva constituiu-se desde o início como um programa aberto e promotor de alianças entre diferentes setores da sociedade portuguesa.” Esta semana foi anunciada mais uma aliança, desta vez entre a Ciência Viva e o Gerador através da criação da Bolsa Gerador Ciência Viva para jovens jornalistas. O que espera desta aliança e qual considera ser a importância deste tipo de iniciativas para a promoção, nomeadamente, do jornalismo científico?

(R. V.) — O facto de estarmos a fazer esta parceria agora é a prova de que promovemos alianças. Isso tem sido um caminho excelente. Lembro o professor Mariano Gago, o nosso criador e mentor, que dizia uma coisa muito simples — “ninguém sabe o suficiente para fazer tudo sozinho”. Portanto, ele dizia para fazermos parcerias, promovermos alianças nacionais e internacionais, e é isso que fazemos. O sucesso da Ciência Viva deve-se às parcerias que temos. Vemos esta Bolsa Gerador Ciência Viva para jovens jornalistas com muito entusiasmo, porque o público que vos lê é exigente, diversificado, maioritariamente adulto-jovem e, portanto, têm o mundo nas mãos, têm a mudança nas mãos, são os atores da mudança em muitas vertentes. É um gosto enorme estarmos nesta parceria convosco, para este público que nós prezamos tanto e que vem com uma abordagem cultural muito diferente, diversa, e isso é muito bom.

Texto de Andreia Monteiro
Fotografia da cortesia de Rosalia Vargas
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