No universo online, há uma plataforma que nasceu para mostrar de que são feitos os lugares que se vão perdendo no tempo. De território em território, o Rostos da Aldeia vai mostrando que cada aldeia é feita de gente e de muitas histórias, enquanto tenta combater o despovoamento.

Há aldeias que se têm perdido no tempo. Umas viram cartões-postal, pelas suas paisagens ou acontecimentos, para que ninguém se esqueça, mas outras apagam-se por não sabermos de que são feitas. A Luísa Pinto, jornalista de profissão e contadora de histórias por vocação, quis pôr estas aldeias no mapa e contá-las ao mundo, para que nunca mais se perdessem – e pudessem, um dia, ser o postal de alguém. Surgiu assim o Rostos da Aldeia, com o Filipe Morato Gomes, autor do blogue de viagens Alma de Viajante, e o Tiago Cerveira, multipremiado videógrafo português (também natural de uma pequena aldeia), também na porta desta casa, mostrando-nos as aldeias mais remotas de Portugal.

Em entrevista ao Gerador, Luísa e Filipe contaram que o projeto começou há quase dois anos, quando fundaram a Associação Rostos da Aldeia. A pandemia atrasou o processo, mas deu espaço para inúmeras discussões sobre como seria a melhor forma de apresentar estas localidades ao mundo. Segundo Luísa, o objetivo é serem um projeto de comunicação multiplataforma que conta as histórias em vários formatos, “humanizando os territórios, contando as histórias das pessoas que lá vivem”.

Nesta plataforma podemos encontrar histórias, sugestões, e até uma loja que nos encaminha para os artesãos de cada aldeia, tudo para nos fazer mergulhar e querer apanhar o primeiro transporte até ao destino. Por exemplo, Arga, situada “entre os rios Minho e Lima, em Viana do Castelo”, mostra-nos um pintor que, apesar de não ser da terra, trouxe a arte para o meio rural onde nasceu a mordoma de um mosteiro que, depois de muitos anos em Lisboa, percebeu que o seu lugar era ali. Não esquecendo uma das agricultoras de Arga, que é ainda motard e bailadora no grupo de danças e cantares genuínos da serra de Arga. Em Campo Benfeito (localizada a mais de mil metros em plena serra de Montemuro), Rostos da Aldeia, mostra que ali há vida para lá do campo contando-nos a história do diretor artístico e fundador do Teatro Regional da Serra de Montemuro, da impulsionadora das Capuchinhas (cooperativa de produção e venda de vestuário artesanal), e ainda a história de uma socióloga, que se cansou da cidade e voltou para a terra dos avós. Mas foi em Ferraria de São João, que o Rostos da Aldeia contou as suas primeiras histórias, tendo como personagem principal o empreendedor turístico – que inspirara Luísa nesta aventura –, e uma queijeira, de 61 anos, que dá workshops de como fazer queijo com o leite das suas cabras.

A história dos sítios é também feita de (muita) música, por isso Luísa, Filipe e Tiago trouxeram o Luís Pedro para a equipa, um compositor da região centro do país e que, “tem uma sensibilidade muito particular em termos de instrumentos regionais e património musical regional”. A ‘portugalidade’ dos vídeos completa-se assim com os instrumentos regionais de cada território que visitam.

Em entrevista ao Gerador, Luísa e Filipe falaram-nos sobre o projeto, o que têm encontrado em cada aldeia e como o importante, é “que existam cada vez mais pessoas para que o território seja equilibrado”.

Fotografia de Tiago Cerveira

Gerador (G.) – Como surgiu o Rostos da Aldeia? E nasceu para contar que histórias?

Luísa Pinto (L. P.) – Foi uma ideia um bocado pessoal, depois desafiei o Tiago e o Filipe a juntarem-se ao barco, e eles trouxeram muitas ideias e ajudaram a definir melhor o que seria este projeto. Sou jornalista num órgão de comunicação social nacional há muitos anos e trato de algumas destas questões de coesão territorial, de um ponto de vista macro, sentada na minha secretária, escrevendo notícias sobre as políticas institucionais que vão sendo criadas para estes territórios. Vou muitas vezes ao terreno, é certo, mas é quase sempre pelas piores razões ou não pelas razões que estes territórios merecem – ou por uma tragédia, ou por um alojamento rural chique, mas cada vez menos para falar das pessoas que habitam nestes territórios e das suas necessidades. Sou também originária de um destes territórios, não nasci nem nunca vivi lá, é a aldeia dos meus avós, mas estou habituada a conhecer estas histórias, sei porque saíram e o que gostavam de ter para voltar. Por isso, senti a necessidade de dar voz a estas pessoas, as que nunca saíram de lá, as que escolheram regressar e as que escolheram esses lugares para aí criarem a sua história, mesmo não tendo raízes.

Assumimos também como missão que queremos contribuir para este debate, trazer as cartas para cima da mesa, para as coisas começarem a ser debatidas. Sei que ir viver para uma aldeia do interior não é um mar de rosas nem uma solução para toda a gente, mas é cada vez para mais pessoas porque através do teletrabalho podemos trabalhar num sítio qualquer. Achei que era uma boa altura para trazermos estas coisas para cima da mesa, e é o que sei fazer enquanto jornalista: contar histórias. Queremos ser um projeto de comunicação multiplataforma que conta as histórias em vários formatos (vídeo, fotografia) humanizando os territórios, contanto as histórias das pessoas que lá vivem.

Fotografia de Tiago Cerveira

G. – O que encontram nestas aldeias e porque as escolheram?

L. P. – Quando começámos a falar sobre este projeto, decidimos fazer um teste-piloto, em Ferraria de São João (no concelho de Penela). Escolhi começarmos por aqui porque fui a essa aldeia na altura dos incêndios de 2017 e fiquei muito impressionada com o relato de uma das pessoas que lá morava, era um novo habitante que tinha escolhido ir para lá viver. Ele não tinha qualquer ligação à terra, já tinha vivido noutros sítios, mas decidiu escolher Ferraria de São João para criar os seus filhos. Na altura dos grandes incêndios foram notícia porque a aldeia se organizou para evitar que as chamas engolissem a povoação, não só com a ajuda de um sobreiral centenário, mas também porque se apressaram a arrancar as árvores que existiam à volta da aldeia. É uma aldeia com cerca de 80 habitantes, mas que, os que sempre lá viveram e os novos que chegaram, conseguiram unir-se e criar um projeto para preservar a aldeia. Criou-se ali uma comunidade e achei que deviam haver mais histórias como essas para contar.

Sobre como abordamos os territórios, um de nós conhece, por norma, alguém que tem uma história particular – um saber-fazer que se está a perder, um artesão, alguém que está a levar algo de novo ao território –, identificamos duas ou três pessoas e todos temos histórias para contar. Depois, tentamos que essas duas pessoas nos levem a mais pessoas e vamos cerca de dois a três dias para essa aldeia. Fazemos entrevista a uma pessoa. É a história na primeira pessoa que temos no site, depois passamos dois ou três dias a vivenciar a aldeia e perceber como as coisas se organizam. O Filipe é blogger de viagens e traz essa vantagem de tentar dar sempre sugestões de atividades. O essencial é ter um impacto positivo nestes territórios, para levarmos mais pessoas a visitarem e a prolongar a sua estadia. Por exemplo, se souberem que na aldeia de Ferraria de São João existem uma série de percursos pedestres e workshops de queijo de cabra, as pessoas vão procurar mais tempo para conhecer e vivenciar. No limite, se convencermos alguém a mudar-se para uma destas aldeias, a nossa missão está cumprida. Ao falar com estas pessoas e dando voz, é uma forma de contribuir para este debate que agora é necessário se feito para tentarmos reequilibrar o território.

G. – Muitas destas aldeias são envelhecidas, como é que podemos puxar os mais jovens para estas aldeias que não têm grande coisa a acontecer aos seus olhos?

L. P. – Essas pessoas mais envelhecidas estão ávidas de serem visitadas e de partilharem o seu conhecimento. Normalmente, quando te sentas numa esquina ou mesa a conversar com estas pessoas, acabas por ouvir os seus relatos do que se passava antigamente e da saudade que têm de ver a aldeia cheia de gente, não do trabalho árduo, de trabalhar muito para comer à noite (e às vezes mal), dessa componente de pobreza, que levou ao êxodo rural na altura do Estado Novo. Hoje em dia, as perspetivas de emprego não se multiplicaram no interior nem existem muitas opções de trabalho, apesar de todos os incentivos, por isso é que a fuga para o litoral continua a existir. Mas o que já existe nas aldeias e ouvimos essas pessoas falas é a mecanização das coisas. As pessoas dizem, “agora até é fácil, até temos um trator”, e não querem sair de lá, ficam felizes por verem alguém novo a chegar. Também já vemos alguns casais relativamente novos a ter a sua horta, plantar, por terem aquela satisfação (que acho que as novas gerações têm cada vez mais), de saberem aquilo que comem e põem na mesa, as questões da ecologia e do impacto ambiental. Agora há toda uma mescla de oportunidades que creio que é importante trazer para a discussão. Estas pessoas mais envelhecidas, a única coisa que pedem é que gostavam de ter mais visitas e ver vida nas aldeias porque acham que a vida está mais fácil do que estava antes. Mas, claro, algumas pessoas ainda não querem voltar porque ainda têm o período que as fez sair na memória.

Fotografia de Filipe Morato Gomes

G. – A Luísa e o Filipe são do mundo das viagens… o facto de terem viajado mais de meio mundo, influencia a forma como estão a criar este projeto e a apresentá-lo ao resto do mundo?

Filipe Morato Gomes (F. M. G.) – Eu tenho a perfeita noção de que quanto mais viajo mais tenho a certeza de que vivemos num país extraordinário. Portugal, na sua pequenez geográfica, tem uma diversidade tão grande, tão incrível, a todos os níveis, gastronómicos, climáticos, dos costumes. Saltamos do Minho para o Alentejo e muda tudo. Nesse aspeto, isso é uma vantagem porque conseguimos, num espaço geograficamente pequeno, contar experiências muito diferentes. Vestindo a pele de viajante, onde me sinto bem é nos lugares pequenos, aqueles onde no dia seguinte as pessoas já te chamam pelo nome, é aí onde me sinto bem, não sou de grandes cidades e hotéis. Se me perguntares se prefiro ficar no Hilton (e nada contra o Hilton) ou na casa da ‘Ti Maria’, eu prefiro a casa da ‘Ti Maria’, por esta questão da proximidade. Acredito que as pessoas fazem os lugares e isso é tanto mais verdade, quanto mais pequenos são os meios onde há um contacto muito próximo, nas cidades é difícil ter essa proximidade. Também por isso, olho para este projeto com um carinho imenso porque tem a minha cara enquanto viajante, é aqui que me sinto bem. Se falares com qualquer um de nós, encontras a mesma paixão e brilho no olhar quando falamos do Rostos da Aldeia porque é a nossa cara por razões diferentes.

L. P. – Nisso partilhamos a mesma paixão, as pessoas fazem os lugares. Claro que também gosto de ir a grandes cidades, mas gosto é de conhecer pessoas e conversar com elas, ouvir as suas histórias, por isso faz todo o sentido pensar num projeto destes, escolher um sítio pequenino no território e contar a história destas pessoas, de quem vive atrás dos muros e das paredes, porque uma coisa que nós sabemos, não podemos só falar das aldeias-postal, que estão bonitas e requalificadas, porque houve uma série de investimentos em infraestruturas, temos de falar de todas. Em termos de acessibilidade, já não é o que era e as estradas chegam a todo o lado. É também o que me vão dizendo nas aldeias que visitamos, “Estou perto de tudo, passados 15 minutos consigo estar na aldeia”. Claro que a oferta na saúde e educação também contam, mas é uma pescada de rabo na boca, se não há ninguém nesses territórios não faz sentido haver uma escola, se aparecem as crianças a escola vai ter de aparecer, talvez tenhamos de pensar ao contrário. Há um trabalho que tem ainda de ser feito, mas, e em termos de acessibilidades, as coisas estão muito melhores. O que queremos mostrar é que há pessoas e é importante que existam cada vez mais pessoas para que o território seja equilibrado. No fundo, anda sempre à volta de pessoas.

G. – Vão continuar pelo resto do país, ou apenas no interior centro e norte do país?

L. P. – O objetivo é o país todo. Coincidiu começarmos no centro, mas queremos ir ao sul, Alentejo e Algarve. Estou nisto a tempo inteiro e vamos ter de remar e andar uns anos a contar estas histórias porque há muitas histórias para contar.

Texto de Patrícia Nogueira
Fotografias de Tiago Cerveira