“Toda a gente sabe um pouco de qualquer coisa porque leu um título, leu um parágrafo, mas a maior parte das pessoas depois acaba por não ler tudo e, portanto, quem está num jornal tem de lidar com isto.”

É desta forma que Rudolf Gruner explica que, mesmo considerando a investigação jornalística um bom investimento, um meio de comunicação social generalista tem de conseguir dar resposta àquilo que são os interesses do seu público que, na sua generalidade, não lê artigos mais longos.

Em entrevista ao Gerador, o diretor-geral do Observador explica que, mesmo sabendo a importância de conteúdos slow-reading, muitas vezes é difícil fazer a escolha de alocar recursos exclusivamente para esse fim. “Infelizmente não podemos fazer só isso, porque temos contas a pagar e temos os números para gerir, mas essas são as coisas que verdadeiramente nos dão gozo.”

Numa entrevista sobre jornalismo e mercado, o responsável – que também tem no currículo empresas como a Media Capital e a Vodafone – explica a sua visão sobre o panorama atual da comunicação em Portugal, e afirma que os jornais diários em papel vão “acabar”. Apesar disso, sublinha que continuará a haver espaço para publicações periódicas, ainda que apenas para as de leitura mais lenta.

Gerador (G.) – É diretor-geral do Observador. Tendo em conta a sua experiência na vertente empresarial de comunicação, como é que avalia a importância do jornalismo lento enquanto produto para o público?

Rudolf Gruner (R. G.) – É uma pergunta que... só essa dava para estarmos aqui meia hora [risos]. Então, tentando não responder em meia hora, mas em dois minutos: acho que uma das coisas que nós sentimos, estando no jornalismo, tendo um jornal e produzindo conteúdos todos os dias para centenas de milhares de pessoas, é, que de facto, nos últimos anos, o comportamento das pessoas face aos conteúdos informativos evoluiu, muito por via da Internet e das redes sociais, enfim, um conjunto de vários fenómenos.

Conto sempre esta história muito rápida que é: quando se deu o início da migração do papel para o digital, na verdade, o meio (o formato) era diferente, mas o comportamento, inicialmente, não era assim tão diferente. Quando a pessoa ia a um quiosque comprar um jornal em papel, de manhã, levava-o debaixo do braço e depois, chegava ao escritório ou a casa, abria o jornal, ia à capa, folheava, lia algumas coisas e eventualmente depois deixava outras para ler mais tarde. Na Internet, também acontecia assim. A pessoa chegava ao computador, abria-o ou ligava-o – se fosse um desktop – escrevia “publico.pt”, ou “expresso.pt”, dn.pt”, o que fosse, e vagueava um bocadinho ali pela homepage. No fundo ficava com uma noção geral, de acordo com o critério editorial de cada jornal e depois escolhia algumas coisas para ler. Estava ali 10, 20, 30 minutos, consoante também o tempo e o interesse, e depois, eventualmente ao longo do dia, podia apanhar mais ou uma outra coisa.

Hoje em dia, isso já não é assim. Primeiro, porque 85 por cento do consumo é feito em mobile, que, obviamente, tem um tempo de leitura mais curto, e é uma coisa mais fragmentada e mais rápida. Por outro lado, porque uma parte significativa do tráfego vem das redes sociais e do Google, e a menor parte do consumo de notícias é [que] feita por pessoas que vão intencionalmente ao jornal. Portanto, uma das coisas que se nota, é que a homepage tem um peso muito inferior àquele que teve no passado. Há muitas pessoas que nem sequer passam pela homepage. Durante meses vão vendo coisas no Instagram e no Facebook e vão clicando...

Depois este fenómeno do Facebook que é... o Facebook, em particular, veio trazer uma noção às pessoas de que elas não precisam de ir aos jornais, elas estão no Facebook, andam por ali a ver cães e gatos e, de quando em quando, aparecem notícias. De facto, o Facebook fez a coisa bem feita, porque a pessoa fica com a sensação, desde que vá duas, três vezes, quatro, cinco vezes por dia lá, de que as coisas que são importantes acabam por lhe aparecer. De certa forma, o Facebook passou a ser o curador.

O problema é que as pessoas... nós temos até um fenómeno, raro, que descobrimos outro dia que é: em alguns casos, descobrimos notícias que têm mais partilhas no Facebook do que leituras no site, o que a princípio é um contrassenso. Como é que pode haver mais partilhas do que leituras? Como é que pode haver uma pessoa que partilha uma notícia que não leu? Fizemos ali uma espécie de uma análise padrão e descobrimos que tipicamente são coisas que têm statements, coisas religiosas ou políticas ou coisas que envolvem feminismo... coisas deste género, em que as pessoas só pelo título e pela fotografia partilham sem sequer terem clicado na notícia para a ler, o que é extraordinário. Isso tem um bocado que ver com o fenómeno das redes sociais. Uma pessoa quando partilha uma coisa é porque quer fazer um statement sobre si próprio às pessoas que a seguem. Uma notícia sobre o ambiente, o meio ambiente e sustentabilidade... eu gosto disso e, portanto, partilho. Mas, em princípio, não faz muito sentido, porque se eu não li sequer a notícia, posso estar a partilhar algo que, se calhar, até nem é bem aquilo que eu penso.

E agora, para passar ao jornalismo lento... é uma coisa que nós sentimos muita falta. A maior parte do consumo que é feito – mesmo num site como o Observador, que tem conteúdo de qualidade e com alguma profundidade –, a maior parte do consumo das notícias não chega ao fim. As pessoas habituaram-se a ler na diagonal percorrem um bocadinho o texto... isto não é tudo, como é óbvio, mas já representa bastante.

No fundo, hoje, as pessoas tornaram-se conhecedoras de tudo, especialistas de nada. Toda a gente sabe um pouco de qualquer coisa porque leu um título, leu um parágrafo, mas a maior parte das pessoas depois acaba por não ler tudo e, portanto, quem está num jornal tem de lidar com isto. Nós tentamos, obviamente, influenciar – também é um pouco esse o nosso papel – as pessoas para serem mais informadas, tomarem decisões mais qualificadas, mas, quer dizer, nós não conseguimos lutar contra o mundo, não conseguimos inverter as tendências e os comportamentos. De alguma forma acabamos por ter de nos adaptar um pouco a isso.

Nós acabamos por fazer muito conteúdo em profundidade e sentimos que, quando o fazemos, vale a pena. Nem sempre conseguimos fazer tudo aquilo que queríamos, e obviamente há sempre decisões a tomar. Tenho um jornalista disponível, vai fazer quatro lusas ou vai estar duas semanas a escrever uma coisa slow-reading? É uma decisão difícil de tomar. Acabamos por tentar manter um equilíbrio bom e sempre nos sentimos compensados por isso. Se calhar não vamos ter 100 mil pessoas a ler, vamos ter só 5 mil ou 7 mil, mas essas são também as pessoas que ficam com uma relação emocional mais forte com o jornal e que tenderão a sentir-se motivadas a voltar mais vezes. Eu acho que isso é muito importante, mas é uma luta muito grande, porque não é... a espuma dos dias já não está aí...

G. – Mas considera que é um bom investimento, esse tipo de conteúdos?

R. G. – É, porque de facto não é possível em 500 caracteres abordar nenhum tema... se é para dizer que o Benfica ganhou ao Porto, obviamente que sim, se é para dizer que amanhã vai chover... mas, quer dizer, isso ocupa um pequeno espaço daquilo que nós queremos fazer. Queremos analisar temas em profundidade, queremos fazer investigação, queremos escrutinar os poderes...

Uma das coisas que temos vindo a fazer, e crescentemente, agora no último ano, é os ensaios. Os ensaios do Observador, sobre a área de educação, sobre saúde e coisas económicas – que temos feito com o Alberto Mateus – são peças incríveis. Quem está disponível para tirar 25, 30, 35 minutos do seu tempo para ler uma coisa daquelas do princípio ao fim, se calhar vai ter de trabalhar mais uns minutos nesse dia porque interrompeu o dia para ler, mas vai-se sentir compensado por isso, e nós sentimos claramente. Isso é aquilo que nós gostamos de fazer. Infelizmente não podemos fazer só isso, porque temos contas a pagar e temos os números para gerir, mas essas são as coisas que verdadeiramente nos dão gozo.

G. – Há, no Observador, alguma equipa dedicada exclusivamente a esse tipo de conteúdos? Ou isso é algo que vai sendo gerido com os jornalistas que trabalham no quotidiano?

R. G. – Todos eles gostam de fazer isso. Obviamente que os mais juniores, normalmente, estão mais a tratar de temas da atualidade, mas quase todos eles têm, em algum momento, a oportunidade de o fazer. Obviamente que, por exemplo, o nosso jornalista sénior de investigação, que é o Luís Rosa, todos os temas [que trata] têm que ver com julgamentos, corrupção, coisas do género. O Luís, se calhar, é o jornalista que publica menos quantidade de artigos por ano, mas, às vezes, ele está três semanas fechado numa sala e depois no fim das três semanas não tem nada para publicar... mas aqui estamos a falar de investigação.

Agora, vou-lhe dar um exemplo: uma área onde nós temos, surpreendentemente, conteúdos com alguma profundidade é o desporto. O Observador não é um jornal de desporto, portanto quem quer saber as coisas vai [ao jornal] A Bola, ao [jornal] Record. E nós então encontrámos um caminho no desporto que foi: não vale a pena estarmos a dizer que o Benfica ganhou 2–1 ou que perdeu, as pessoas vão procurar isso noutros sítios... e [nem] falar dos árbitros e das penalidades... então, normalmente fazemos peças relativamente longas sobre desporto. Não apelam a tanta gente assim, mas para as pessoas que gostam de perceber melhor como é que foi a tática, e porque é que o treinador fez aquilo ou porque é que um jogador teve uma evolução positiva ou negativa, [que] gostam de perceber em profundidade o tema, aquilo parece-lhes bem. Depois obviamente temos toda a área dos ensaios e também os especiais.

Nós, dentro do Observador, temos mesmo uma categoria que é “Especiais”, que são tipicamente artigos que têm slow-reading, portanto são artigos de alguma profundidade. Num ou noutro procuramos até adicionar algum elemento multimédia.

Uma das coisas que nós acreditamos muito é que o produto informativo digital é composto pelo conteúdo, o texto que está escrito, ou o vídeo, ou o áudio, mas também muito pela experiência de consumo. E quando nós estamos no mundo digital a experiência de consumo pode ser uma coisa incrível, ou então pode ser uma mera transposição do papel. Foi assim que começou e ainda hoje 90 ou 95 por cento dos artigos publicados pelos jornais todos é: um título, texto, uma imagem de destaque. No fundo, em que isso é diferente de um artigo no papel? Não é, é igual. Pode-se partilhar, pode-se comentar – coisas que não se podem fazer no papel – mas depois temos os outros artigos, em que há um gráfico interativo, em que há efeitos visuais que ajudam a compreender melhor o texto. Nós adorávamos fazer isso em todos os artigos, infelizmente não é possível.

Vou-lhe dar um exemplo: nós fizemos uma peça, agora no início do ano, sobre o [corona]vírus, uma grande reportagem no Hospital Santa Maria. Tivemos uma equipa que esteve lá não sei quantos dias, filmou tudo, andou com os fatos [de proteção] vestidos de alto a baixo. Nós tivemos de pôr três dos nossos recursos mais valiosos, durante 72 horas dentro do hospital e depois, quando voltaram, tinham toneladas de conteúdos e estiveram duas semanas a editar, a escrever. Juntou-se um designer que esteve durante duas, três semanas a trabalhar em exclusivo só naquela peça e no fim publicámo-la. Era uma peça maravilhosa, mas o custo de fazer aquilo, para nós, foi astronómico. Para mim aquilo é magia, é o que nós gostávamos de fazer, é para isso que existimos.

G. – Referiu, há instantes, a questão das redes sociais e a forma como isso alterou os comportamentos de consumo do público. Na sua visão, isso influenciou – ou influencia – a própria prática jornalística? A própria forma de escrever ou de tratar os conteúdos?

R. G. – Sim, inevitavelmente. Vou dar-lhe um exemplo: o Instagram tem vindo a crescer. As pessoas exageram um bocadinho, parece que o Facebook já não interessa nada e agora o Instagram é que interessa. Não é verdade. Nós olhamos para números, e o Facebook continua a ser esmagador, mas, de facto, o Instagram tem vindo a crescer, e, quando olhamos para coisas mais segmentadas, aí o Instagram tem mais importância.

Nós temos vindo a fazer uma coisa que é os Instagram Stories. Há um público mais jovem que está muito afastado da leitura, infelizmente. Um miúdo de 17, 18, 19 anos hoje em dia, se for de jornalismo tudo bem, ele tem interesse pela coisa, mas, quer dizer, os outros – eu tenho cá alguns espécimes em casa desse género, portanto conheço bem – têm o telemóvel e têm milhares de coisas que podem lá fazer. Portanto, estarem 20 minutos a ler conteúdo noticioso não é bem... não é assim muito fácil. Então começámos a fazer uma coisa, que foi: termos especialistas escolhem três, quatro notícias por dia – das 180 que nós publicamos – escolhem-nas com um determinado critério e convertem-nas em Instagram Stories.

Fazemos este trabalho de pegar num artigo com 3 mil caracteres ou 5 mil caracteres e transformá-lo numa Insta Stories com cinco frames. É impossível contar tudo, mas a lógica aqui é: se nós não conseguimos chegar aos jovens de outra maneira, temos de ir ter com eles onde eles estão e temos de lhes dar o conteúdo num formato em que eles se disponibilizem a consumir o que quer que seja. Então é isso que fazemos.

Portanto, sim. No fundo estes comportamentos, estas tendências e estas plataformas das redes sociais condicionam um bocadinho, e nós vemo-nos numa situação que temos de ajustar ao que as pessoas querem, ao que as pessoas procuram e à forma como nós lhes conseguimos chegar. Temos feito umas experiências também no TikTok... pronto, são sempre desafios para nós. Também não gosto de dramatizar. Claro que, eu tenho filhos, portanto fico um bocadinho preocupado ao ver que eles não leem. Parece que andam meios alheados do mundo, e andam a perder muito tempo com coisas que não são realmente importantes mas... é o que é, e portanto, procuramos outras maneiras de lhes chegar. Slow-reading para malta nova é missão praticamente impossível.

G. – Quando foi lançado, em 2014, o Observador foi pioneiro, no sentido em que foi o primeiro jornal em Portugal a ser exclusivamente digital. Olhando para trás e para o percurso percorrido, houve mais dificuldades na captação de público nessa altura – por, talvez, ainda haver o hábito de ler em papel – ou, pelo contrário, essa é uma dificuldade acrescida hoje?

R. G. – Não. A Internet, nesse aspeto, é uma plataforma fabulosa. Nós lançámos, há dois anos, o projeto da rádio [Observador]. A rádio, do ponto de vista digital está a correr muito bem, com os podcasts e com o consumo live. Mas, por exemplo, a rádio na parte FM – que apesar de tudo continua a ter um peso muito grande – é um meio muito mais complicado, muito mais regulamentado. A ERC [Entidade Reguladora da Comunicação] tem.. enfim... uma pessoa que se lembre “olha hoje quero fazer uma rádio”, vai gastar rios de dinheiro e vai esperar anos até conseguir ter o que quer que seja. No digital, não é assim. [Pensa-se ] “olha, quero fazer um jornal online”, [e é já] amanhã. [Quer dizer], amanhã é um bocado exagerado, mas, junta algumas pessoas, faz um site assim mais ou menos e está no ar, está aberto e toda a gente consegue ver. Depois a questão é, como é que eu vou atrair pessoas? Eu acho que, desse ponto de vista, nós entrámos no momento certo. Temos tido alguma sorte, e talvez alguma perspicácia também.

Tinha havido tentativas antes, de fazer jornais digitais, mas era muito cedo, eu acho que era muito cedo. Em 2014, quando chegámos, acho que foi o momento certo. Na altura nós pensamos muito no tema das subscrições pagas e achámos que era cedo. Não só era cedo para nós – como é que alguém ia pagar por algo não conhecia? –, mas também era cedo para o mercado. O Público e o Expresso já estavam com as paywalls, e nós acabamos por lançar a nossa paywall em 2018, no momento certo. Porquê? Porque, em termos de maturidade, em 2014 era diferente de 2018. Hoje vejo a minha casa, mas também a dos meus amigos: eu tenho Netflix, HBO, Amazon Prime, Apple TV. Depois no futebol tenho Benfica TV, Sport TV, 11Sports, pago Spotify Família... chega ao fim do mês e gasto umas dezenas largas de euros. Isto não era assim em 2014, muito menos em 2010. No jornal, é um bocadinho a mesma coisa.

Hoje em dia, é quase impossível a pessoa de manhã ir à banca comprar o jornal e ler qualquer coisa que não soubesse já. É quase impossível. E durante muitos anos os jornais tentavam aguentar o papel com uma estratégia que é “não vou publicar já no site, são cinco da tarde, vou guardar para amanhã”. Durante um tempo, isso funcionou até que apareceu o Observador e outros e nós não esperamos, metemos logo. Se eu publico e [outros] ficam à espera do papel amanhã...

Rapidamente se percebeu que essa estratégia não correu bem. Por isso, se virmos o declínio que os jornais têm tido, o ano passado correu particularmente mal. Eles andam a perder 9 por cento ao ano, de circulação em papel. O ano passado foi quase o dobro. Isto não é segredo para nenhum [deles]. Eu tenho a firme convicção de que é uma questão de tempo. Não sei se é um ano, se é dois, se é cinco. Os jornais diários em papel, não acredito que daqui a dez anos existam. Nenhum, nem sequer o Correio da Manhã. Mesmo.

G. – Acha que vão desaparecer todos? O Correio da Manhã, por exemplo, apesar de tudo tem uma grande circulação ainda...

R. G. – Tem. O Correio da Manhã, apesar de tudo, neste momento já tem 50 mil [exemplares vendidos], estamos a falar de um jornal que, há três anos tinha 100 mil. Está com 50 [mil]. O JN [Jornal de Notícias], que tinha 70, 90 mil, agora está com 27, 28 [mil]. O Público, que se aguentou ali nos 13 mil durante um tempo agora baixou para 11, 10 [mil]. Quando chega ali aos 10... é o fim, não é? O Correio da Manhã – se eu tivesse de arriscar –, apesar de tudo, é o que parece que vai resistir mais tempo. Não só porque tem um posicionamento muito específico...

Goste-se ou não se goste o Correio da Manhã tem muitas notícias locais, é muito rápido, também tem boa investigação, tem um conjunto de coisas que as pessoas criticam, mas tem coisas que são valiosas, e tem uma grande vantagem. Porque é que ele ainda vende 50 mil, apesar de tudo? Porque as pessoas mais velhas, do interior, nos cafés e não sei quê, compram. Mas, quer dizer, essas pessoas vão morrer um dia, não é? Portanto, eu não tenho dúvidas de que o Correio da Manhã em papel, diário, vai acabar também. Pode ser mais tarde do que os outros, mas também vai acabar.

Ora, eu não acho que o papel, como um todo, esteja terminado. Acho que o Expresso pode continuar a funcionar. Eu não compro o Expresso para ficar atualizado. Compro ao fim de semana – ou a Visão, ao sábado –, porque quero fazer slow-reading. Ir para a praia ou estar na varanda, ou no sofá e quero estar ali uma hora ou duas a ler um tema que me interessa. Para isso continua a haver espaço.

Nós fizemos revistas em papel. Nós começamos mais tarde e, neste momento, imprimimos cinco revistas por ano. São revistas de alta qualidade. Nós fazemos tiragens pequeninas, 12 mil, 14 mil, [mas] também mantemos a ambição de vender 50 mil ou 100 mil. Fazemos com grande qualidade, no conteúdo, no papel, no grafismo e está a funcionar bem. As revistas [estão] todas a cair, e as nossas estão a funcionar bem. Agora, não é uma revista semanal, nem sequer mensal, são cinco por ano, são temáticas. Há espaço para este tipo de projetos, eu acho que sim, mas nessa lógica (nunca ligados à atualidade).

Isso é uma luta perdida. [A aposta] tem de ser em coisas realmente valiosas. E nós estamos a aumentar o preço. Começamos a cobrar 3,90 €, depois 4,90 €, agora 5,90 €, e elas vendem o mesmo. As poucas pessoas que ainda pagam, não se importam de pagar até um bocadinho mais para ter acesso àquele produto – que começa a ser quase um produto de luxo, não é?

G. – Refere-se à revista... Talvez seja complicado ter esta perceção, tendo em conta todos os canais ondem vocês publicam, mas qual será o tipo de conteúdos que tem maior adesão?

R. G. – Por área temática?

G. – Sim..Ou seja, se são as manchetes, se são as notícias de última hora, as reportagens...

R. G. – Estava há pouco a dizer-lhe que, em média, publicamos 180 conteúdos por dia. Isto inclui vídeos, áudios e textos também. No início do dia, não sabemos quais vão ser todas, algumas estão planeadas outras vão surgindo ao longo dia e nunca sabemos quais é que vão ter mais sucesso. Obviamente temos uma sensibilidade adquirida ao longo do tempo. Há um tema que nós sabemos “isto vai pegar”, mas se eu for hoje ver quais foram as coisas mais lidas de ontem, eu nunca conseguiria tê-las adivinhado antes, mesmo que soubesse tudo o que íamos publicar. É quase impossível de prever. Há fenómenos virais, também, partilhas – o WhatsApp também tem um papel muito grande hoje em dia –, mas se olharmos assim para uma visão mais alargada, de helicóptero, o que é que eu concluo: por um lado, o long tail.

Nós, com 180 notícias por dia, fazemos mais de cinco mil por mês, portanto, se olharmos mês a mês, temos imensas notícias. E se calhar conseguimos fazer aquela famosa regra do 80/20, ou seja, 20 por cento dos conteúdos geram 80 por cento do tráfego, mas nós depois precisamos dos outros 80 no long tail. Há uma notícia sobre pesca, há meia dúzia de pessoas que gostam, [ou] há uma notícia sobre qualquer coisa que aconteceu em Moçambique, há meia dúzia de pessoas [a ver]… Nós precisamos disso tudo. Até gostava de ter mais. Há áreas onde nós não temos conteúdos em qualidade e quantidade suficiente para aquilo que nós gostaríamos. E, portanto, nós até gostávamos de ter mais.

Aquilo que nós temos visto, historicamente, é: lifestyle, os temas de lifestyle funcionam, normalmente, bastante bem, o desporto – mas a nossa situação é um bocadinho particular como eu expliquei há pouco – também tem vindo a crescer no Observador, o automóvel, é uma área que as pessoas se interessam, e depois os outros temas variam um bocadinho.

Por exemplo, se estamos num mês de eleições, a política cresce, se estamos num mês de orçamento, a economia cresce. Se formos ver, de todo o sempre, nos nossos sete anos, quais foram os artigos mais importantes – temos alguns artigos que fizeram mais de meio milhão de leitores, o que é impressionante – alguns dos que estão no top são temas que têm que ver com família e relações: crianças, educação, pais e filhos esse tipo de coisas. Mas isso não é tão constante, de vez em quando surge um tema que... puf, explode.

G. – Quando o Observador foi lançado – numa entrevista que deu nessa altura –, descrevia-o como uma plataforma de acesso livre, sendo a maior fonte de receitas a publicidade. Tendo em conta que atualmente há grande parte dos conteúdos que são pagos, a predominância da publicidade nas receitas ainda se mantém?

R. G. – Isso tem vindo a alterar-se. O estar 100 por cento, ou em grande medida, dependente da publicidade não é uma coisa muito boa, porque quando há crises, como esta que estamos agora a viver e a anterior, nos orçamentos das empresas, a rubrica de marketing é sempre aquela que é uma das mais fáceis de cortar rapidamente. Portanto, quem está muito dependente da publicidade está muito exposto a esses riscos das crises económicas.

Nós quando começámos era essencialmente isso. As subscrições vieram mudar um bocadinho esse panorama. Nós, em 2020, já tivemos um peso das subscrições superior a 20 por cento da receita total, e a minha expectativa é a de que em três a cinco anos ela possa valer 50 por cento. Isso vai ser ótimo por todas as razões.

Por um lado, porque diminui a nossa dependência de publicidade. Nós queremos ter publicidade na mesma e queremos que ela cresça, mas, no dia em que 50 por cento das receitas já não for de publicidade, vamos ter uma visão um pouco mais tranquila. Obviamente que esses 50 por cento – ou 20 por cento agora que poderão crescer para 50 por cento de 3 a 5 anos – só serão possíveis se fizermos conteúdos bons e se dermos razões aos nossos leitores para nos pagarem 60, 66 € por ano para ter acesso aos conteúdos. Esse é o nosso desafio agora, é aí que estamos a trabalhar. [Perceber] o que é que é preciso para termos um produto ainda melhor e para haver mais pessoas disponíveis para pagar. E há aí uma ciência muito apurada à volta de tudo isso, estamos a aprender.

Todo o mundo está a trabalhar nesta área agora com muita atenção, mas está-nos a correr muito bem. E é engraçado ver que, se olharmos para o panorama nacional –daquilo que falávamos do papel –, quem é que são os jornais em papel que vendem mais? Correio da Manhã, depois o JN, quase metade depois – estou a excluir o Expresso porque é semanário – depois o Público. Se formos ver no digital, há três marcas que têm muita expressão, que têm 80 por cento das assinaturas digitais. Quais são? Expresso, Público e Observador. O Correio da Manhã praticamente não existe em assinaturas digitais, o JN também não, o DN também não... Acho que isso tem que ver com o fenómeno geracional, ou seja, quando estamos a ver as vendas em banca, estamos a falar muito dos cafezinhos, no interior, e outras coisas. Quando estamos a falar das assinaturas digitais, estamos a falar de um público muito mais alargado, um público mais sofisticado, mais cosmopolita e por aí fora. Isso é o futuro não é? Eu acho que as marcas que estão a olhar para isto devem pensar sobre isso. Ou seja, no fundo, quando estamos no mundo digital – que é tudo –, há três marcas em Portugal pelas quais os portugueses estão disponíveis para pagar assinaturas e as outras não. Essas marcas... não sei como é que vão fazer, mas têm de pensar um bocadinho no seu modelo. Há um modelo, que é o modelo Notícias ao Minuto, que é outro modelo.

O importante acima de tudo é ter uma boa marca, de grande qualidade, e que as pessoas queiram pagar. É o nosso caminho penso que será também o do Público, Expresso e de outros. Depois há o outro negócio que é ter jornalistas.

G. – Mas isso [projetos como Notícias ao Minuto], não se pode apelidar de projetos jornalísticos...

R. G.É um projeto informativo, vá, tem informação. Não lhe chamaria jornalístico, mas é um projeto de conteúdos informativos. Mas para eles, se calhar, aquilo funciona. Dizem que não tem prejuízos, e eu acredito, é possível. Eles têm dezenas de pessoas a trabalhar, se calhar não são jornalistas superseniores... publicam 300, 400 notícias por dia – portanto o dobro de nós – devem falar de tudo e mais alguma coisa, claro. Não têm slow-reading, não têm opinião, não têm um conjunto de coisas que nós fazermos, mas é o modelo de negócio deles. Eu acho que estes [modelos] são os dois que vão subsistir. Atualidade pura e bruta em grande quantidade, low-cost e que vive da publicidade e isso chega. Depois o outro que é: marcas premium, com qualidade, com conteúdos que as pessoas estão disponíveis para pagar. Não vejo muito bem o espaço no meio, ainda.

G. – O número de jornalistas a trabalhar no Observador tem vindo a manter-se, a aumentar ou a diminuir?

R. G.[Tem vindo] a aumentar muito. Nós quando começámos, em 2014, éramos 40 pessoas no total. Devíamos ser, pra aí, 30 ou 32 jornalistas, e o resto era programadores, comerciais, etc. Hoje, nós somos já perto de 150 pessoas. Obviamente que só da rádio vieram umas 40, mas, mesmo que tiremos a rádio, estamos a falar de 110 pessoas ainda. Temos, obviamente, uns 10 ou 15 estagiários, que vamos refrescando e vamos incorporando alguns.

As outras áreas também cresceram. Nós tínhamos três programadores, agora temos oito. Tínhamos dois comerciais, agora temos também oito ou nove, portanto todas as áreas foram crescendo. Jornalistas, jornalistas puros, devemos ter talvez uns 60, 70, mas depois se considerarmos as pessoas que fazem vídeo – que é jornalismo também, mas noutra forma –, fotografia ou áudio, mais as pessoas que fazem conteúdos para as redes sociais (que pegam num conteúdo e transformam-no numa coisa multimédia) se calhar estamos a falar de umas 100 pessoas no total.

G. – Na mesma entrevista que deu em 2014, referia que “todos os jornalistas trabalhavam as redes sociais”. Isto ainda acontece ou hoje em dia são equipas independentes?

R. G. – Não... mas nunca foi. Eu terei dito isso?

G. – Sim, disse. Não sei ao certo que função seria, mas disse que eles se envolviam nessa parte.

R. G. – Então, nós temos uma equipa que faz a gestão de comunidades e inclui também as redes sociais. Eles têm dois papéis: um é o screening, que é captar tendências, coisas que estão a acontecer, [do género] “apareceu uma coisa viral que nós ainda não apanhámos” –, se bem que, em boa verdade, a maior parte dessas coisas são apanhadas pela redação logo, não precisam que alguém nas redes sociais lhes venha dizer porque todos eles estão atentos –, depois tem a segunda parte, que na verdade é a mais importante, que é a amplificação do conteúdo. Ou seja, um jornalista acaba o seu trabalho, escreve o artigo, ele fica disponível para ser visto pelo editor, depois publicado a partir do momento em que é publicado sai da redação “jornalistas” e passa para a redação “redes sociais”. São eles que depois definem títulos, às vezes alteram o texto que aparece associado nas redes sociais, timings de publicação... portanto esse trabalho depois é todo feito ao nível das redes sociais e tem uma ciência própria. Temos essas coisas completamente separadas o que não invalida que, depois de o jornalista ver o seu artigo publicado no Facebook não o partilhe ou algo do género, mas não é o próprio jornalista que decide como é que aquilo é publicado, em que momento, por que ordem... não, é uma equipa à parte.

G. – Diria que o problema da desinformação – que tem vindo a agravar-se, conforme verificámos com a pandemia – se relaciona com a forma como se pratica jornalismo hoje em dia ou é um problema paralelo que o jornalismo não está a conseguir combater?

R. G. – Os jornais têm feito um esforço significativo para o combater. No caso particular do Observador – que é o que eu conheço e pelo qual posso falar –, temos feito mesmo um esforço muito grande. Aliás, em Portugal, há duas entidades acreditadas junto da associação que faz o fact-checking internacional, que é o Observador e o Polígrafo. Nós até temos uma parceria com o Facebook para produzir fact-checks. Portanto o Facebook, no fundo, tem um projeto em que identifica conteúdos que estão a ser publicados que, potencialmente, podem ser falsos e portanto carecem verificação. Nós vamos recebendo essas coisas, verificamos e produzimos fact-checks por cima dessas coisas, que depois são publicadas em associação ao conteúdo que estava errado. Temos esta parceria já há dois anos. Neste momento, fazemos cerca de 50 fact-checks por mês.

Depois criámos também uma parceria com a TVI, que se interessou pelo tema. No Jornal das 8, todos os dias, há um bloco que é a hora da verdade, em que somos nós, em parceria com a TVI, que produzimos os conteúdos para esse fact-check.

Portanto, eu acho que tem havido um esforço, realmente, para isso, mas aquilo é... Às vezes, sentimo-nos como [se estivéssemos] a tentar travar uma maré com as mãos, há água a passar por todo lado. Porque isso está tão espalhado, é tão difícil de controlar...

Praticamente não há dia nenhum em que, no WhatsApp, não tenha de responder a um amigo ou familiar a dizer: “Olha, essa notícia que acabaste de partilhar é falsa, está aqui o fact-check do Observador.”

E há outra coisa, também, que é: “Acabaste de partilhar um artigo de opinião que está na pay-wall do Observador, gratuitamente, uma coisa que nós pedimos [às pessoas] para pagar.” São os dois problemas e as redes [sociais], a Internet, não ajudam. E as pessoas emprenham pelos ouvidos... se [alguém] recebe uma coisa no WhatsApp, lê aquilo e partilha aquilo, nem foi verificar de onde é que aquilo vem... é um esforço muito inglório, que depois fica, não é? Nós depois até podemos alertar que aquilo era mentira e não estava certo, mas metade das pessoas que leram a mentira já não vão ler a verdade, as que leram se calhar não percebem bem... é um terror.

G. – Já sentiu descredibilização do trabalho feito pelo Observador, devido à ação de pessoas que acreditam em desinformação e teorias da conspiração?

R. G. –Sim, eu acho que isso acontece sempre, não há volta a dar. O Observador tem um posicionamento muito específico e, portanto, temos os haters. Nós temos tido como política – mesmo nalguns casos mais complicados, que nos ferem mais um pouco, que nos magoam um pouco mais –, nós temos normalmente de optar por não entrar em conflito. Temos deixado que, depois, a própria Internet e as comunidades se encarreguem de resolver o problema, porque também temos muitas pessoas que nos defendem.

Há bocado falava mal das redes [sociais] e da Internet, mas também tem coisas boas, e esta é uma delas. Às vezes vem alguém, até uma personalidade supostamente respeitável, dizer qualquer coisa má sobre nós, sobre qualquer coisa que nós escrevemos, e depois é a própria comunidade que se encarrega de desmontar aquela argumentação e de contrariar e de explicar, e nós ficamos ansiosamente a observar. Obviamente que – novamente a mesma coisa – se calhar houve dez mil pessoas que leram aquela crítica e depois só duas ou três mil é que leram a desconstrução dela e perceberam que não tinha razão de ser.

Texto por Sofia Craveiro
Imagem cedida por Rudolf Gruner

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