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Ruy de Carvalho: “A minha ambição está na vontade dos outros”

Faltava pouco tempo para voltar a pisar o palco e tinha dor de garganta, mas…

Texto de Sofia Craveiro

Fotografia de Bárbara Monteiro

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Faltava pouco tempo para voltar a pisar o palco e tinha dor de garganta, mas não foi isso que o impediu de abrir as portas do camarim. O ritual de dar entrevistas, por estes dias, é tão comum quanto a chávena de chá que bebe para relaxar. Apesar disso, a momentos de encher o auditório do Tagus Park, em Oeiras, o consagrado ator Ruy de Carvalho falou uma vez mais sobre a vida que estava prestes a expor.

No espetáculo Ruy, a História Devida, as suas vivências servem de pretexto para um modelo híbrido de representação e interação com o público. Predomina o ambiente intimista e a espontaneidade no cenário que imita uma grande sala de estar. Nas molduras reconhecem-se os rostos de colegas com quem contracenou: Laura Alves, Florbela Queirós, Eunice Muñoz, entre muitos outros que se identificam por entre retratos de momentos-chave da carreira do ator.

Há detalhes “picantes” - conforme ele próprio descreve -, histórias caricatas e momentos ternos que o ator traz a palco, à boleia das perguntas de Luís Pacheco, que veste o papel de colega-entrevistador. Mediante as questões, o espetáculo é sempre único. “É diferente por causa do público. O público é que é diferente, não somos nós”, explicou.

Aos 96 anos de vida – feitos dali a poucos dias, a 1 de março –, e 81 de carreira, Ruy de Carvalho diz-se agradecido e tranquilo, assegurando que continuará a “servir” o público português. Conforme disse, assim que entrou em cena: "só há duas formas de representar: bem ou mal."


Gerador (G.) – Está mais uma vez a escassos momentos de pisar o palco. Ainda sente algum tipo de ansiedade atualmente?

Ruy de Carvalho (R. C.) – Não. Ansiedade, não tenho. Tenho é respeito. A ansiedade e o medo que a gente tem inicialmente, passa a ser respeito pelo trabalho que fazemos, pelos colegas que temos e para o público. Respeito absoluto pelo nosso trabalho, pela qualidade com que o fazemos.

G. – Algum dia pensou que poderia estar a representar-se a si próprio?

R. C. – Não. A ideia não foi minha. Aliás, a ideia foi da minha empresa, a Yellow Star Company, que se lembrou de fazer uma coisa homenageando a minha pessoa, com um colega meu a fazer-me uma entrevista, que é o Luís Pacheco. [Ele] fica a entrevistar-me e vai perguntando coisas da minha vida. Coisas picantes, coisas sem serem picantes, coisas naturais, coisas que nos acontecem no palco… os nossos problemas todos de atores. Nós temos problemas, como calcula. Nem todos os dias [são bons]. Este espetáculo, aliás, é diferente. A parte da entrevista não é igual à parte do começo. O começo tem uma disciplina, depois há uma entrevista, que depende muito do que o público quer saber.

G. – Há uma interação.

R. C. – Pois. E quem está presente pode dizer o que quer ouvir. Ele [Luís Pacheco] vai lá para fora perguntar às pessoas o que querem ouvir [antes do início do espetáculo].

G. – Esta ideia de fazer um espetáculo baseado na sua vida terá surgido porque o seu percurso se confunde com a própria história do teatro?

R. C. – O meu percurso são 81 anos, meu amor. Tenho 96, quase. Faltam quatro dias para os fazer.

G. – Mas concorda que a sua vida se confunde com a história do teatro?

R. C. – Do teatro contemporâneo, na verdade, o atual. Teve grandes crises. Algumas foram-se vencendo. Houve quem as vencesse… isso depois é tudo contado [durante o espetáculo]. Não posso contar nada.

Fotografia de Bárbara Monteiro
G. – Na entrevista que deu recentemente a Fátima Campos Ferreira, e que passou na RTP, disse que “o teatro é a única profissão onde lhe pedem borlas”. Porque acha que isso acontece?

R. C. – Quando me perguntam: “Não arranjas lá um lugarzinho para mim? De graça?” As pessoas nunca pedem nada ao talho ou à mercearia. Aí é tudo pago, mas, no teatro, pedem borlas, [pedem] para entrar de graça. Na minha família, ninguém pede borlas. Mesmo os meus filhos pagam bilhete, porque há profissionais, minha filha, que vivem disto. Eu sou profissional disto. Se [as pessoas] não pagarem bilhete, o que é que paga o empresário? Se não lhe pagarem os bilhetes na bilheteira, ele não me pode pagar a mim.

G. – Há uma desvalorização do trabalho na cultura.

R. C. – A valorização é quererem vir sem pagar [risos].

G. – Acha que o povo português se tem tornado mais culto? Ou nem por isso?

R. C. – Sim, está muito mais culto. Veja as mulheres portuguesas, por exemplo. As mulheres portuguesas têm um lugar muito importante na sociedade. A menina sabe isso. Se calhar, antigamente, só vinham rapazes fazer esta entrevista, não vinha a menina. Pois agora é só meninas.

G. – É só meninas?

R. C. – Ainda não fiz outra coisa… entrevistas só com senhoras.

G. – E isso é uma mudança boa, na sua opinião?

R. C. – Claro que sim. As mulheres têm muito valor, não têm?

G. – Claro que sim.

R. C. – São mães, normalmente. Quem põe o mundo cá fora é a mãe.

G. – Que diferenças sente em relação àquilo que fazia antes e depois da ditadura?

R. C. – Bem… antigamente havia a censura, não é? Hoje, não há censura felizmente. Como não há censura, as coisas vão escorreitas para o público. Antigamente, tínhamos de disfarçar determinadas coisas. Quando a gente não disfarçava, cortavam tudo. Alteravam textos completamente ou, então, tiravam-nos completamente.

G. – Impediam-no de subir ao palco.

R. C. – Exatamente. No Teatro Moderno de Lisboa, mandámos 12 peças à censura e cortaram todas.

G. – Foi até por isso que a companhia que fundou acabou por cessar a atividade.

R. C. – Aliás, as companhias fundavam-se, e depois, como havia censura, algumas acabavam. Esgotavam tudo.

G. – Na sua opinião, qual é maior dificuldade que enfrenta um ator ou uma atriz em Portugal?

R. C. – Neste momento, há muitas dificuldades. Como sabe o Ministério da Cultura não funciona cá em Portugal. Eu tenho esperança de que funcione, porque acho que este ministro da Cultura [Pedro Adão e Silva] é uma pessoa capaz de fazer alguma coisa… se o deixarem fazer, claro. Se puder fazer, faz.

G. – Se não continuar a ser [um ministério] suborçamentado, que dá poucos apoios…

R. C. – É saber quanto é que é o orçamento do Estado para a cultura. Basta isso para saber que o apoio à cultura portuguesa é muito pequeno.

Fotografia de Bárbara Monteiro
G. – Tem algum arrependimento? No seu percurso, na sua carreira, na sua vida pessoal?

R. C. – Arrependimento, não tenho, não. Escolhi uma profissão que gosto muito. É a minha profissão. Tenho irmãos atores, tenho filhos atores, tenho um neto ator… portanto, acho que não tenho nada contra a profissão. Nem eles tiveram, nem eu. Para mim foi mais fácil, porque tinha irmãos antes de mim. [...]

G. – Mas há alguma coisa que gostasse de ter feito diferente?

R. C. – Há muita coisa. Gostava de ter sido médico. Podia ter sido médico e ator ao mesmo tempo, que havia médicos atores. Tive colegas que eram formados em medicina, quase com o curso acabado.

G. – Nunca seguiu essa vertente, talvez por ter tido bastante destaque, desde muito cedo…

R. C. – Eu estive desempregado uns cinco meses, em toda a vida, minha filha. É bastante pouco, não é? Eu sou um homem feliz nesse aspeto.

G. – Já disse algumas vezes que a televisão foi ingrata consigo. Porquê?

R. C. – A televisão, não. A direção de uma [estação] de televisão. Não a televisão, nem as pessoas que lá trabalham. Tenho lá grandes amigos nesse sítio. Não foi a televisão que foi ingrata. Foi ingrato quem administrava a televisão nessa altura. Um compromisso como eu tinha, naquela estação de televisão [TVI], durante 14 anos, e, quando me mandaram embora, não disseram nem obrigado, nem bom dia, nem boa tarde. Uma falta de respeito pelo homem que eu tinha sido, pelo trabalhador que eu tinha sido naquela casa.

G. – Fez diferença na sua carreira também esse destaque na televisão? Sente que alcançou públicos diferentes?

R. C. – Não, não. Como calcula, hoje na rua toda a gente me conhece, minha filha. Levo muitos beijos.

G. – É muito adorado pelo público português.

R. C. – O público português, acho que gosta de mim. Eu tenho provas disso. Se a menina vier aqui [auditório do Tagus Park], é um sítio completamente novo que está cheio, sempre.

G. – As pessoas continuam a ter vontade de o ver e assistir ao seu desempenho.

R. C. – Gostam de me ver e de saber coisas da minha vida. Eu conto-as ali. Mas [agora] não lhe conto nada do que digo ali [risos]. Venha ver se quiser.

G. – Faço tenções. Mas a peça acaba por ser sempre diferente por causa disso, pelo que sei. Pela interação, como dissemos…

R. C. – É diferente por causa do público. O público é que é diferente, não somos nós. Nós somos os mesmos. O público é que faz as perguntas e quer saber coisas da minha vida. Ali não há texto. Há uma série de perguntas que podem ser feitas e quem as propõe é o público. [...]

G. – Acha que foi sempre o mesmo? Teve sempre a mesma postura, de certa forma, e foi isso que o levou a ter mais sucesso na sua carreira?

R. C. – Já disse que a minha postura é de respeito pelas pessoas que estão lá fora sentadas, pelas que estão a trabalhar comigo e por mim. Eu respeito-me a mim, aos meus colegas e ao público. Muito. É uma posição de respeito e de serviço.

G. – Pois… era isso que ia perguntar…

R. C. – É um serviço que eu faço. A minha vida profissional, o que é que produz? Serviço, trabalho… serviço às pessoas. Um advogado faz serviço às pessoas, um engenheiro faz serviço às pessoas. Há grandes engenheiros e maus engenheiros. Há grandes advogados e maus advogados. Há muitas profissões que têm gente muito boa e que também são distinguidas, como eu, como ator. Não é que eu não tenha colegas extraordinários. Belíssimos atores, novos e mais velhos. Quer dizer, mais velhos não há agora… eu sou o mais velho de todos, até da Europa.

Fotografia de Bárbara Monteiro
G. – Dá-lhe gosto trabalhar com essas novas gerações?

R. C. – Com certeza. Gosto de trabalhar com o meu filho. Gosto de trabalhar com o meu neto, não acha? Porque é que não hei de trabalhar com prazer com os outros?

G. – Deixou também um legado cultural na sua família.

R. C. – Acho que sim. Começa pela minha mãe, que era pianista. O legado que nós temos é cultural. É o amor à cultura, que é a arca do tesouro de um povo. Às vezes, os governos não a querem abrir. Não convém muito. A cultura é perigosa.

G. – Porque diz que não convém?

R. C. – A gente diz coisas que eles não gostam. A menina não está a ver? Ninguém gosta de ouvir aquilo que dizem deles [risos]. Acontece.

G. – Tem alguma ambição? Algo que ainda gostasse de concretizar?

R. C. – Agora a minha ambição está na vontade dos outros, [em fazer] o que querem que eu faça. Já fiz quase tudo o que é preciso fazer. Já fui homenageado imensas vezes, condecorado, tudo o que a menina possa imaginar. Já não posso pedir nada. Agora faço o que querem que eu faça, desde que não tenha de estar a estudar horas e horas. Não posso fazer um protagonista, com certeza. Já é um pouco difícil… tenho de decorar até de manhã, tenho de estudar um texto. Os textos não são empilhados, são decorados. E isso leva muitas horas. A pergunta que me fazem às vezes é: “Como é que decora ainda?” Não sei… é porque faço o exercício ao cérebro, para que o cérebro trabalhe.

Fotografia de Bárbara Monteiro

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