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Sabemos realmente reciclar?

A reciclagem pode parecer um processo simples, mas um só erro na separação dos resíduos é suficiente para comprometer a reciclagem dos restantes materiais dentro do ecoponto.

Fotografia de Fotoeventis, disponível em Istock by Getty Images

Grande parte dos resíduos que produzimos podem ser reciclados. Apesar de parecer uma tarefa simples que se resume a três ecopontos, as dúvidas relativas à forma como os resíduos devem ser separados têm-se revelado como um dos maiores desafios para a indústria de reciclagem.“Sabemos para onde vai o papel, vidro, metal, mas é uma informação muito vaga, falta especificidade naquilo que pode ou não ser reciclado”, diz-nos Núria Ribas, estudante universitária.

Apesar da intenção de serem ecologicamente cautelosos, 15 indivíduos, de idades compreendidas entre 19 e 33 anos, entrevistados pelo Gerador, revelaram como a falta de informação sobre o tipo de material que pode ser reciclado, muitas vezes, suscita dúvidas sobre o destino de determinados resíduos.

Enquanto incertezas relacionadas à reciclagem podem parecer inofensivas, segundo o engenheiro António Afonso, estas acabam por pôr o processo de reciclagem em risco, devido à contaminação dos materiais recicláveis pelos não recicláveis. Apenas um item não reciclável é suficiente para contaminar todo o ecoponto, impedindo que o mesmo seja reciclado. Como consequência, muitos destes resíduos acabam por ser encaminhados para a incineração ou o aterro sanitário.

António, que é o responsável pelo Centro de Triagem e Ecocentro do Lumiar (Valorsul), revelou ao Gerador que 40 % dos resíduos que chegam a este estabelecimento, provenientes dos ecopontos, acabam por estar contaminados e, portanto, impróprios para a reciclagem.

De acordo com um inquérito nacional realizado pela Sociedade Ponto Verde, o Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e o OBSERVA, referente à prática e atitude dos resíduos urbanos, 67,2 % da população portuguesa participa na reciclagem de embalagens (estudo divulgado em 2021).

Contudo, apesar da grande adesão a um estilo de vida mais sustentável, 60 % dos resíduos urbanos ainda vão para o aterro, ou seja, não são reciclados mesmo depois de serem depositados no ecoponto. Em declarações dadas ao Jornal de Notícias, Ana Morais, CEO da Sociedade Ponto Verde, partilhou os dados da empresa alertando que é preciso ensinar a sociedade a reciclar, tornando “o sistema de reciclagem mais transparente, de forma a servir melhor os cidadãos”. Pois, além de contribuir para o desperdício, as consequências desta contaminação também se refletem no processo de triagem, uma vez que exigem uma mão de obra acrescida por parte destes funcionários. “A contaminação consome recursos, tempo e disponibilidade que podiam estar a ser aproveitados para separar outros materiais. Acabamos por transportar materiais que não têm proveito. [...] Depois, na parte da triagem, temos de separar estes materiais, pois não conseguimos descontaminá-los a 100 %, fica sempre um resto de contaminação que vai dificultar ou impossibilitar a reciclagem destes resíduos”, explica António.

Perante este quadro, o Gerador questionou o profissional sobre as especificidades dos materiais que podem ser reciclados. No entanto, as regras podem variar consoante o país, pelo que as diretrizes abaixo adequam-se ao processo de reciclagem em Portugal.

No que diz respeito ao plástico, metal e vidro, apenas embalagens podem ser depositadas no ecoponto, uma vez que são relativamente uniformes no que respeita aos materiais que as compõem.

Relativamente ao vidro, apenas embalagens de uso alimentar podem ser depositadas. Isto porque a sua constituição garante que não há transferência de químicos para os alimentos. Os restantes tipos de vidro não se regem pelas mesmas especificidades na sua composição, logo, quando partidos e misturados, eliminam a homogeneidade do ecoponto e podem transferir químicos que alteram os demais produtos dentro do ecoponto. A homogeneidade é justamente necessária de modo que estes produtos sejam reaproveitados para o mesmo fim.

Objetos como lâmpadas, espelhos, janelas, cerâmica, que, apesar de não serem embalagens, são feitos de vidro, devem ter um fluxo próprio de encaminhamento. Estes vidros podem ser reciclados, mas não através do ecoponto verde, pois é necessário que haja uma separação do tipo de vidro para assegurar que é reaproveitado de acordo com a sua composição.

A cerâmica constitui ainda um papel de contaminante porque tem uma temperatura de fusão diferente das embalagens, ou seja, resiste a altas temperaturas, por isso não derreterá da mesma forma que o restante vidro, distorcendo a homogeneidade do lote, pois acabam por restar fragmentos sólidos destes objetos, que precisam de ser removidos a posteriori.

Ao contrário do papel, a gordura no vidro não inviabiliza a sua reciclagem. António mencionou como principais contaminantes do papel/cartão a matéria orgânica, respetivamente gordura, restos de alimentos e ainda vestígios sanitários que os mancham.

O papel plastificado, de autocolantes, encerado são alguns dos materiais que têm a sua reciclagem comprometida, devido à sua impermeabilidade. Eles não permitem a penetração de água, que é um passo necessário para o processo de desfibração destes materiais. Este procedimento permite que fibras sejam separadas e utilizadas para a produção de papel/cartão reciclado.

O destino de embalagens líquidas, como pacotes de leite e sumo, foi uma das questões levantadas pelos entrevistados por serem multifacetados com camadas de plástico e cartão/papel. O engenheiro elucidou que estas embalagens pertencem à categoria do plástico — ecoponto amarelo. As ECAL — embalagens de cartão de alimentos líquidos, apesar de serem de cartão, são compostas por camadas de plástico e alumínio. O centro de reciclagem LIPOR, atesta esta indicação, ao explicitar que, quando estas embalagens são colocadas no ecoponto amarelo, passam por uma triagem mais elaborada, sendo assim separadas do plástico e do metal antes de serem encaminhadas para a indústria de reciclagem para o processo da desfibração.

O plástico destacou-se como a categoria que mais sofre contaminação. Já o metal, apesar de pertencer ao mesmo ecoponto, é o menos afetado. Isto deve-se ao facto de que o metal não está sujeito a altos níveis de contaminação, ou seja, mesmo que entre em contacto com tipos de metais que não pertencem ao ecoponto amarelo, ainda é possível separar e aproveitar ambos.

Porém, António ressaltou que a reciclagem de objetos como eletrodomésticos e equipamento eletrónico, que são comumente depositadas no ecoponto amarelo, deve ser feita diretamente nos ecocentros.

Oitenta por cento do plástico produzido é reciclável, são os chamados termoplásticos, que, quando expostos a altas temperaturas, se tornam moldáveis, sendo de fácil reciclagem porque podem ser remodelados. Os tipos de plástico PET, PEAD enquadram-se nesta categoria de plástico, sendo também o mais comum na produção de embalagens de plástico de uso doméstico.

Portanto, neste ecoponto é recomendada a depositação de embalagens de comida, latas, conservas e outras embalagens de produtos não corrosivos.

©Maura Francisco

Os materiais não precisam de ser lavados antes de serem depositados no ecoponto. “Estamos a ser muito eficientes no aproveitamento da água, as indústrias de reciclagem têm um processo próprio de lavagem destes materiais”, afirmou António, tendo alertado, no entanto, para o facto de que as embalagens devem ser escorridas e esvaziadas ao máximo.

Outro fator a ter em atenção, levantado pelo engenheiro, é que não é necessário remover as tampas das embalagens. Durante o processo de crivagem, que em termos mais simples pode ser comparado com um peneiro que mecanicamente separa os resíduos em diferentes dimensões, as tampas, por serem de um tamanho pequeno, são colocadas na dimensão inferior onde se encontra a maior parte dos contaminantes.

Depois da separação automatizada, alguns materiais com tampas, rótulos, ou aqueles contaminados que não foram devidamente identificados precisam de passar por um processo de afinação humana.

“Reciclar é um processo de aprendizagem constante, não encontramos informação em muitos sítios sobre como devemos reciclar, portanto há certas questões que vão sempre surgindo”, Diana Neves, ativista contra a greve climática

Para além das sugestões apresentadas no decorrer deste artigo, aplicações como Waste app, disponível gratuitamente para sistemas IOS e Android, podem servir como uma alternativa para uma reciclagem mais consciente. A aplicação, que foi desenvolvida pela organização não governamental do ambiente “Quercus”, atual ZERO, consiste em informar o cidadão sobre o tipo de resíduo que pode ser colocado dentro dos ecopontos, e indicar-lhe o destino dos restantes resíduos que não podem ser colocados nos mesmos. Ou seja, o utilizador pode digitar, em específico, o item que pretende reciclar no menu e, posteriormente, será encaminhado para as várias opções disponíveis.

Reciclar é importante, mas, mais do que isso, é preciso fazer a separação correta dos resíduos para garantir que são devidamente aproveitados.

Texto de Maura Francisco

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