A chegada da Covid-19 e a posterior imposição do confinamento obrigatório em território nacional, ditou o abrandamento da produção cultural. Em Portugal, muitos foram os artistas que viram os seus discos em stand-by. Exemplo disto é o artista Samuel Úria, que estreia amanhã, dia 18 de setembro, o seu novo álbum “Canções do Pós-Guerra”.

Um disco inteiramente produzido no ano de 2019, que procura entregar ao público uma “visão desencantada do presente”, mas ao mesmo tempo aliada a uma perspetiva de “sobrevivência e reconstrução”. Os concertos de apresentação do disco terão lugar no dia 6 de outubro, no Teatro Tivoli, Lisboa, e no dia 7 de outubro, na Casa da Música, no Porto.

Em entrevista ao Gerador, Samuel Úria reflete sobre o lançamento do seu disco num período de pós-confinamento e sobre o seu regresso aos palcos numa nova realidade.

Gerador (G.) – À medida que os anos vão passando, e moldados pelas experiências que vamos tendo, há vozes dentro de nós, nomeadamente, na música portuguesa, que ganham mais força. Numa altura em que estás prestes a lançar um novo disco como caracterizas a voz que nele imprimes?

Samuel Úria (S.) – Eu acho que é um amadurecimento natural, até porque as coisas não acontecem do nada. Elas são construídas umas em cima das outras e há reminiscências do passado que estão presentes neste disco, nem que seja por me querer libertar do passado recente musical por saturação ou por querer explorar coisas novas. Nesse sentido acho que existe uma noção de progressão de disco para disco, de canção para canção. Agora, essa ideia de progressão pode nem ser sempre notória ou até eu posso nem estar interessado em que este disco pareça mais desenvolvido, mais aprumado que os anteriores. Não é por aí, a evolução. Às vezes, por questões de idade ou por aquilo que me rodeia, eu posso querer que um disco, como foi o caso deste, seja mais contido que o anterior. Nesse sentido, que seja um disco mais difícil de descobrir que o anterior. Eu não consigo dissociar da passagem do tempo, da maturidade ou de uma rebeldia diferente daquela que tinha quando era mais novo e fazia discos com uma rebeldia mais jovial.

G. – Este é um disco muito marcado pelo discurso combativo. No passado, conhecemos cantautores que, através da música, eram muito ativos politicamente, como é o caso de José Mário Branco, Sérgio Godinho, entre outros. Que papel achas que ocupa hoje esta linha musical, ou achas que pode vir a ocupar tendo em conta o contexto socioeconómico que se avizinha?

S. – Eu acho que as artes e a cultura sempre estiveram reféns daquilo que se está a passar na sociedade. Quem escreve canções enquanto observador ou com a preocupação de ser um cronista do seu tempo acaba sempre a ser inundado dessas questões políticas e sociais. José Mário Branco, Sérgio Godinho, Zeca Afonso são cantores que tiveram necessidades de serem porta-vozes de uma voz que era amordaçada, e, por isso, os seus inícios musicais eram muitos marcados pelo contexto político e pela necessidade de um contexto novo. E eu acho que desde desse fim até ao final dos anos 60, inícios dos anos 70, até agora ou andamos um pouco adormecidos ou até o contexto político não era tão tremente de ser traduzido em canções como está agora a voltar a ser.

Por um lado, há questões ideológicas que se extremaram, por outro lado, e isto de uma visão pessoal, não vejo a democracia a ser ameaçada, não vejo as liberdades a serem ameaçadas, mas vejo que há ideologias que eu não esperava ver no meu tempo de vida a grassarem no panorama português, a terem uma expressão que eu não esperava. E, só por essa surpresa, que é uma surpresa muito incómoda, eu acho que era incapaz de fazer um disco reflexivo da minha interioridade, das minhas ideias em que esse desconforto não estivesse presente. Então, acho que nem terá sido de uma forma consciente, de uma forma intencional, mas há aqui um grito que tem de ser dado, porque há muita coisa ensurdecedora à volta.

Fotografia de Joana Linda

G. – Sei que anteriormente já foste professor de Expressão Plástica. Gostava agora que recordasses um pouco do início da tua carreira musical. Qual o local onde atuaste pela primeira vez? Com que música? Houve algum momento mais marcante, nesse dia?

S. – Eu, como já sou um bocadinho antigo, é difícil perceber quando foi a primeira vez que toquei. Embora tivesse sido professor, a música já estava presente, já tinha tido bandas.

Quando começo a dar aulas já estava a desenvolver o primeiro disco. As coisas sempre foram um pouco paralelas. Embora eu assumisse que a minha extensidade total estava ligada à música, não imaginava a música como a minha profissão e assumia o dar aulas, pelo qual tinha estudado, como a saída profissional direta.

Mas, a primeira vez que toquei ao vivo, um concerto a sério, terá sido por uma escola secundária de Tondela, ou num concerto de bandas, ou então por apoiar uma lista para a associação de estudantes.

Possivelmente, até já saíam publicações minhas, até porque eu nunca estive ligado a bandas de covers. Aliás, eu saí de uma das minhas primeiras bandas quando decidiram começar a tocar covers e eu não estava muito virado para aí. Decidi sair e rumar a outra banda.

As coisas nunca deixaram de ser marcantes e eu não estou a tentar mesquinhar os espaços pequenos em que estive ao início. Eu sou tão deslumbrado com tudo em relação a poder viver disto, viver de uma coisa com a qual nunca sonhei em poder viver que depois me custa a deslumbrar com coisas específicas ou concertos específicos.

G. – Num tempo instável, face à Covid-19, como foi o processo de lançar o álbum “Canções do Pós-Guerra”?

S. – Foi um processo amordaçado, adiado porque o disco era para sair no final de março, início de abril.

Assim que houve os primeiros casos, eu e a minha equipa começamos a perceber que ia ser muito complicado lançar o disco durante o estado de confinamento. Não era impossível, mas para mim é muito necessário fazer concertos de lançamento, acoplar a componente ao vivo com o lançamento das canções. É um bocado ampliar o leque de possibilidades das canções.

 Nesse sentido, decidimos adiar e é sempre difícil a espera até porque eu, por ter canções para sair, recusei-me a escrever coisas novas. Depois, também foi difícil por perceber que, sendo um disco reflexivo, interior, às vezes meio pessimista, contestatário,comecei a perceber que não é propriamente o que as pessoas querem ouvir enquanto isto lhes ofereça uma alternativa ou um escape. Não vai ser um disco de escape.

Ele está a sair agora em outubro, não sei em que tipo de epicentro desta crise ou desta pandemia estamos, mas, se calhar, se tivesse calculado o disco de outra maneira podia estar agora a lançar um disco mais alegre para servir de escape, consolo.

De qualquer das formas, estou totalmente disposto a assumir estas tensões, e também, se calhar, vou ter o efeito mais positivo em que as pessoas que estão a viver isto, se calhar, também querem perceber se há outras a viverem isto e então vão ouvir o disco nesse sentido de comunhão, comunhão do presente.

G. – Sentes que, com a pandemia, o público que te acompanha tem vindo a demonstrar um maior apoio pelos teus projetos? Se sim, em que aspetos?

S. – Eu ainda não fiz testes suficientes. Eu percebo as limitações que as pessoas vão passar a ter e não vou sentir isso como uma falta de apoio. Para já, limitações em termos numéricos nas salas, que vão ser reduzidas. Vou compreender quem tem familiares idosos. Compreendo que as pessoas tenham receio de ir aos concertos, porque estão em idades em que é mais possível o contágio. Mas, por outro lado, estou resignado a entender que no futuro próximo a economia vai-se ressentir com tudo isto que se passou, e eu compreendo que os concertos não sejam a prioridade para o cidadão comum de tudo o que se passou.

G. – O teu novo disco chama-se “Canções do pós-guerra”. Que temas, situações ou contextos te foram mais urgentes incluir nestas canções e que te serviram de inspiração?

S. – O facto de ter escolhido o pós-guerra, sendo que a guerra pode ser muita coisa, guerras de conflitos armados, de sexos, interiores, etc. Isso, de alguma forma, não me limitou do aspeto temático do disco. Há alguma visão desencantada com muita coisa que está presente e isso também pode ser fruto de várias guerras, e isso pode ser aquilo que torna o disco concetual, porque é um conceito do desencanto, sobrevivência, reconstrução. Mas, eu acho que não há só o motivo que me leva a escrever, acho que é tudo. É o presente, sobretudo. É a minha maneira de filtrar o presente. É a minha maneira de assentar o pé naquilo que está a acontecer agora. É a minha visão do passado aplicada às minhas expetativas para o futuro. É uma exploração dos medos. E, apesar de agora estar com um discurso muito pessimista, não consigo deixar de escrever com uma réstia de esperança. Então, sendo um disco pessimista, há uma posição de acreditar que mesmo que não fique tudo bem, eu acho que nós podemos ficar melhores. O melhoramento pessoal mesmo com tudo lá fora a arder já é uma situação em que vale a pena acreditar no futuro, e é um motivo de esperança.

Fotografia de Joana Linda

G. – Durante 3 meses fomos obrigados a cumprir confinamento obrigatório. De momento, encontramo-nos numa etapa de pós-confinamento. Ao ler o título do teu álbum automaticamente associei a esta situação. Detém o título do álbum “Canções do Pós-Guerra” alguma relação direta com esta atualidade?

S. – Relação tem, embora a certo ponto tenha sido sorte. O disco foi escrito todo em 2019, 99% foi gravado em 2019. Não foi feita nenhuma alteração ao disco, aliás a parte gráfica ficou toda pronta uma semana antes de ficarmos confinados. Agora, não prevendo qualquer tipo de pandemia, por outro lado tinha indícios, fatores sociais que estão presentes quando escrevo e que, surpreendentemente, foram amplificados no contexto de crise.

Ou seja, eu quando estou a escrever já tinha dados suficientes para saber que, havendo uma crise qualquer no mundo, muito menos precisava de ser tão global, isto não ia correr bem. Em vez de rumarmos para uma solução conjunta, iríamos extremar mais, haveria negacionismo, haveria extremismo.

Eu não sabia qual era a crise que ia acontecer nem esperava que acontecesse uma crise tão forte, tão explosiva, logo depois de ter escrito estas canções. Mas acontecendo, vai dar razão a algumas das minhas suspeitas sobre as nossas tendências. Não estou contente com a profecia, mas é uma profecia fácil. De facto, estava ali à vista de todos que isto não ia correr bem.

G. – Ao escutar o álbum houve, ainda, alguns versos que me ficaram em mente e que gostava que os aprofundasses. Um desses casos foi na música “Fica aquém”, no verso “teremos morte por salário”. Nos últimos meses, sabemos que a pandemia veio expor muitas das fragilidades do setor cultural, inclusive da precariedade do trabalho dos profissionais deste setor, que têm um trabalho intermitente e, muitas vezes, ficam sem salário. Possui este verso alguma relação com a precariedade causada pela pandemia ou pretende de alguma forma alertar para a realidade destes profissionais?

S. – O verso não estava completamente inclinado para aí, embora eu goste sempre de escrever com alguma amplitude. Quando uso palavras que podem querer dizer várias coisas é mais fácil, depois, colá-las a situações da atualidade.

A ideia original até era o que nós levamos daqui da vida que não a própria morte, e, às vezes, as nossas atitudes não dignificam aquilo que nós somos depois de deixarmos de cá estar. Era nesse sentido em que a morte acaba por ser o salário que vai retribuir as nossas falhas e os nossos pecados. Aquilo que somos insuficientes e ficamos aquém. Agora, eu também não consigo pensar e não a rever à luz do que está a acontecer.

G. – Outro verso foi na música “o Muro”, nomeadamente, “sempre me faltam palavras para dar, uso-as para me encobrir”. Em outras entrevistas tuas que tive a oportunidade de ler falavas acerca de um Samuel que tem dificuldade em se exprimir “por palavras” presencialmente, mas não musicalmente. Estarás neste pequeno verso a fazer uma pequena “confissão” pessoal do Samuel?

S. – Eu não tenho propriamente dificuldade em expressar-me pessoalmente, falta-me, às vezes, é vontade. Às vezes, distraio-me, confesso. Mas eu gosto é de ir para as mesas redondas. Gosto de ouvir, tenho prazer. É uma coisa que está comigo. Esse verso é muito proporcional, mas também confessa algo que faz parte do meu processo criativo. Eu gosto muito de escrever e gosto de escrever sobre aquilo que me está na cabeça, na alma, mas depois, por outro lado, sinto que me estou a dar demasiado. Estou-me a expor em demasia. As mesmas palavras que utilizei para me revelar vão ser viradas para me acobertar. Também crio jogos de palavras que escondam o excesso de nudez que esteja ali pelo meio.

Então, as palavras nunca me hão de faltar e eu vou querer muito contar histórias, mas não vou querer estar muito presente nelas. Não é uma questão de timidez, de modéstia, pode ser, às vezes, uma questão de modéstia, mas também é algo moderado neste jogo – revelar muito e esconder muito em simultâneo.

G. – Por fim, na canção “Cedo”, nos três primeiros versos escreves o seguinte: “E eis que a prata chegou, pouco a pouco aos cabelos”, isto leva-me a crer que a letra terá alguma ligação com a tua chegada à casa dos 40 anos. Poderá esta faixa ser interpretada como uma espécie de reflexão/retrospetiva acerca do passar dos anos?

S. – Não de forma consciente, mas eu reparo que o disco reflete muito sobre a idade. E não é por me sentir mais velho, até porque passar dos 39 para os 40 é um dia. Não fiquei com dor nas costas de um dia para o outro. Mas como é uma idade redonda e como eu passo para os 40 anos na altura em que passamos para 2020, que são números redondos, é quase impossível não fazer uma reflexão que se faz de década a década.

G. – Se te pedisse para pores a tocar uma das músicas do teu novo disco, agora, qual escolherias? O que te levou a fazer essa escolha, neste momento?

S. – Essa é mais complicada, porque neste momento estou a promover o disco. Tenho estado ligado a uma divisão de afetos como um pai que tem nove filhos e tem de gostar deles todos de uma forma igual. Deixa-me pensar, se calhar até iria por uma solução fácil que é recomendar sobre aquela que escrevi há menos tempo. Ou seja, o meu manager pediu-me para escrever pequenos textos sobre as canções e, então, a canção que tenho mais presente é uma canção chamada “As Traves”, que é a canção menos canção do disco. É longa, é uma exploração retroativa em termos sonoros, mas é a canção que vou sugerir.

G. – Quais as expetativas de voltar a pisar o palco, agora com a apresentação do novo álbum, num período de pós confinamento face à covid-19?

S. – A expetativa é o que está a comandar tudo. Há muita expetativa. Há uma coisa que me embirrara que é a ansiedade. Há mesmo muita vontade de pisar o palco. Tenho muitas saudades desta coisa. Ter um palco e começar a experimentar coisas novas, fazer do grosso do concerto uma panóplia de canções que são novas, até para mim, porquem de algumas não me lembro, até para a banda. Vai ser mesmo a novidade.

Então, agora vamos voltar ao laboratório de ensaios que é trabalhoso, mas também lúdico, e vai ser bom estar com pessoas. Mas é a expetativa de formular o universo musical. Eu toquei o meu último disco LP há quatro anos. E eu não o parei de tocar. Foi um disco que teve, até agora, sucesso. Houve pessoas que, durante os quatro anos, o foram descobrindo. Eu até repetia terras e percebia que havia gente nova no público dessas terras. Foi um disco que teve uma longevidade muito longa, então agora eu estou, de alguma forma, a querer-me libertar dele. E isso também é uma expetativa muito grande.

Fotografia de Joana Linda

G. – Aos 41 anos de idade existe algum objetivo de vida que ainda gostasses de cumprir? Se sim, qual?

S. – Eu acho que, se não tiver objetivos, a falta de ambição também mata um bocado a minha carreira. É verdade que não sou ambicioso em termos de estrelato. Não sou ambicioso em termos de estatuto, o que pode ser um pouco escandaloso para quem trabalha comigo e cria essas expetativas em mim.

Mas a minha maior expetativa é ir conhecer gente da música, fazer amigos da gente da música e esses amigos que faço estarem a enriquecer as minhas músicas ou eu a enriquecer as músicas deles. Uma grande expetativa é continuar com esse sentido de comunidade. Poder trazer pessoas talentosas para dentro da minha música e eu também poder dar o meu contributo para ajudar ou para incrementar a carreira dessas pessoas. Isso é das coisas que mais me deixa feliz. Eu não sinto competição, pelo menos comigo não existe. Fico muito contente quando os meus amigos ou alguém que não conheça tenha sucesso, porque é merecido.

G. – Para as pessoas que anseiam prosseguir uma carreira musical, em português, que conselho lhes deixas face ao panorama atual do país?

S. – Em português as coisas mudaram muito nos últimos anos. Eu, quando comecei a apresentar as minhas primeiras canções e a dar entrevistas, perguntavam-me porque cantava em português, porque não era normal. Entretanto, nos últimos 10/15 anos tornou-se a moda. Escrever em português, hoje, até é mais rentável do que escrever noutras línguas.

Eu acho que escrever português faz com que as pessoas que escrevem se comprometam com aquilo que estão a dizer. Também é verdade que há pessoas que escrevem como se fossem números ou matemáticas.

Agora, eu que não me sinto um intérprete extraordinário, fui buscar ao português essa sinceridade e esse comprometimento, um elemento forte para a minha música e para a minha carreira. O português tem esse lado de nos tornar singulares, porque é muito rico e nessa riqueza nós podemos ir buscar aquilo que nos pode tornar singular e a mensagem que nos remarca.

G. – Em termos de concertos ou de outro projeto que vás realizar nos próximos tempos há algo que gostasses de destacar?

S. – Vou estar dia 19, sábado, no cubo mágico que também surge neste contexto de pandemia, em Viseu, que é quase uma das minhas cidades.

Vou agora destacar dia 6 de outubro, no teatro Tivoli, e dia 7 de outubro, na casa da música, o lançamento dos meus discos. Eu conto ter convidados que ainda não estão confirmados, mas vou ter muita gente em palco. Vou ter a minha banda toda, o coro que me acompanha em concertos e em disco também. Não consigo não destacar, porque são esses que me estão a dar aquela necessidade boa de querer muito que isto aconteça.

Texto de Isabel Marques
Fotografia da cortesia da editora Valentim de Carvalho