Notícias chocantes semana após semana chegam de Cabo Delgado, esta semana foram decapitadas 11 pessoas no distrito de Macomia…Estima-se que desde Outubro de 2017 já tenham morrido, no mínimo, 600 pessoas e que cerca de 200 mil já tenham sido afetadas pelos ataques terroristas ( in DW).

Tenho o péssimo hábito de quando gosto de uns sapatos de os usar até à exaustão. Exaustão da sola, dos saltos, do forro, da alma do sapatos, dos pés. Aprendi esta semana que os sapatos têm uma parte que se chama alma, faz sentido, sinto uma espécie de ligação umbilical aos sapatos quando me sinto confortável neles e digo várias vezes para mim e para as pessoas cá de casa : “ai gosto mesmo destes sapatos”. Desenganem-se que não sou nenhuma Imelda Marcos ( a famosa política filipina conhecida pela colecção de mais de 3000 sapatos), tenho poucos pares e em geral os meus sapatos não são muito caros, mas sinto uma ligação forte com eles e associoos sempre a um período específico da minha jornada, senão à própria jornada em si. Não sou supersticiosa mas quando gosto de uns sapatos sinto que eles contam histórias, as minhas e as dos outros. Um dos meus pés, ou será mesmo perna, deve ser um pouco torto ou torta porque com o passar do tempo há sempre um dos pés, o direto, cuja sola dos sapatos fica mais gasta e o sapato fica bem inclinado.

Sou uma baixinha de 1,60m e recordo-me que quando tinha cerca de 18 anos tive um namorado que media quase 2 metros e na altura achei que não tinha outra opção que não começar a usar saltos altos. Não tinha carro nem carta e morava a uns 10 minutos do metro num caminho em calçada onde frequentemente ficava com o salto enfiado, ou tropeçava ou escorregava com alguma facilidade quando não estava com sapatos de cunha, mas obriguei-me a ficar mais alta para me sentir mais confiante, eventualmente consegui começar a dominar a fera e hoje não dispenso entrar no palco exercitando equilibrismo e dançar freneticamente com os saltos altos até ao momento auge em que tiro os sapatos e convido quem me vê a ousar tirar os sapatos quase como símbolo de união em que todos estamos na mesma sintonia, como se finalmente pudéssemos estar todos na mesma condição, de pé nu. É uma parte do concerto simbólica, momento de separação, como sagrado, tomado por um presença viva de um mesmo amor divino em que nos lembramos que nem todos temos o mesmo tamanho de pé, sapatos e que há quem nem tenha a possibilidade da usar sapatos, mas que somos um e que sozinhos vamos mais depressa mas juntos vamos mais longe. Vejo nos sapatos uma simbólica forma da vida por isso tenho uma enorme empatia pela expressão “calçar os sapatos dos outros”. Seremos nós capazes de realmente calçar os sapatos dos outros? Consigo eu abrir mão dos meus julgamentos para me colocar no lugar de outra pessoa e lutar pelos seus direitos e dignidade?

Embebidos que estamos neste 2020 pela pandemia do Covid19 e as suas consequências, sentimos na pele as distâncias que nos separam de familiares, fronteiras encerradas, férias, vida adiada, economia parada, cultura estagnada sem um recomeço promissor à vista. Gritamos, felizmente, black lives matter cada vez mais elucidados e cientes do privilégio que uns têm em detrimento de outros mas hoje queria usar um parágrafo sobre outros sapatos, outros pés que me têm angustiado, notícias ofuscadas por assuntos mais instagramáveis e populares - o flagelo do extermínio de vidas em Cabo Delgado.

Há 3 anos que Cabo Delgado, uma paradisíaca província a norte de Moçambique onde se erguiam luxuosas estâncias turísticas e se encontravam reservas de hidrocarbonetos em exploração, se tem transformado num lugar infernal, num palco de ataques armados de insurgentes radicais extremos que já fizeram centenas de mortes, por decapitação, centenas de refugiados que hoje são mais vulneráveis a contrair o Coronavirus, centenas de pessoas a passar fome e sede dependentes de organizações humanitárias, aldeias queimadas, centenas de refugiados. Tenho ouvido os mais dolorosos relatos dos meus amigos que trabalham em organizações que contam histórias de sobrevivência difíceis de compreender. Quem vai calçar os sapatos de Cabo Delgado? Quem vai gritar as vidas de Cabo Delgado importam? Deixo aqui o meu apelo a todas as entidades nacionais e internacionais que podem intervir que terminem de uma vez por todas com esta chacina para a qual não basta empatia, é necessária acção. É urgente calçarmos os sapatos de Cabo Delgado, conhecer as suas histórias e mudar o futuro de todos os que são vítimas deste flagelo. Precisamos de falar sobre Cabo Delgado.

Saibam mais em: #cabodelgadotambémémoçambique

*Texto escrito de acordo com o antigo Acordo Ortográfico 

-Sobre Selma Uamusse- 

De origem e nacionalidade moçambicana, residente em Lisboa, formada em Engenheira do Território pelo Instituto Superior Técnico, ex-aluna da escola de Jazz do Hot Club, mãe, esposa, missionária e activista social,  Selma Uamusse é cantora desde 1999. Lançou a sua carreira a solo em 2014, através da sua música transversal a vários estilos mas que bebe muito das sonoridades, poli-ritmias e polifonias do seu país natal, tendo apresentado, em 2018, o seu primeiro álbum a solo, Mati.  A carreira de Selma Uamusse ficou, nos últimos anos, marcada pelas colaborações com os mais variados músicos e artistas portugueses, nomeadamente Rodrigo Leão,  Wraygunn, Throes+The Shine, Moullinex, Medeiros/Lucas, Samuel Úria, Joana Barra Vaz,  Octa Push etc. pisando também, os palcos do teatro e cinema.

Texto de Selma Uamusse
Fotografia de Rafael Berizinski
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