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Sara Baptista de Sousa: “A saúde sexual e a saúde menstrual fazem parte do nosso dia a dia”

Sara Baptista de Sousa é a representante da recente startup, Omgyno, em Portugal. No dia 2 de setembro, deu-nos uma entrevista via Zoom, partilhando connosco de que maneira funciona este projeto de apoio à saúde sexual e menstrual, de que forma procura quebrar determinados preconceitos que ainda existem em torno deste tema, e quais as próximas inovações que pretende trazer para o nosso país a nível de educação, tecnologia inteligente e intimidade.

Omgyno. Imagem da cortesia de Sara Baptista de Sousa

Omgyno é uma startup de femtech liderada por mulheres e sediada na Grécia, tendo este ano começado a desenvolver-se em Portugal. Trata-se de uma plataforma online, criada para “todas as pessoas que tenham uma vagina” e para todos os que não têm acesso a um bom ginecologista “ou a serviços que ofereçam a atenção e as informações de que precisam”.

Nesta plataforma, podem encontrar-se autotestes ginecológicos, realizar consultas de ginecologia por videochamada com médicos especializados e de confiança, uma loja com venda de produtos menstruais sustentáveis, a Femshop, e um blogue, o Omguide, onde são publicados vários artigos de modo a educar a comunidade acerca da saúde sexual e menstrual. O principal objetivo deste projeto é criar um espaço onde todas as pessoas se possam sentir bem com o seu corpo, seguras, sem julgamentos ou preconceitos, nomeadamente pessoas transexuais que, muitas vezes, se sentem excluídas pela comunidade médica. “Os nossos pacientes nunca irão sofrer discriminação devido à sua idade, raça, género, identidade cultural, classe social ou educação.”

A Omgyno, fundada pela designer Doreen Toutikian e pela empresária Elisabeth Milisi, assenta em seis características principais, sendo inclusiva, feminista, orientada pela comunidade, holística, sustentável e divertida. Em Portugal, é dirigida por quatro mulheres: Sara Baptista de Sousa, Catarina Esteves, Fátima Santos e Mafalda Solnado. Todas fazem parte da equipa de Growth Hacking e Social Media. Sendo ainda um projeto em desenvolvimento, Sara Sousa contou-nos como tudo começou, o que ainda está por fazer e, acima de tudo, de que maneira a Omgyno pode vir a mudar mentalidades.

Sara Baptista de Sousa. Fotografia da sua cortesia

Gerador (G.) – Como é que a Omgyno entrou na tua vida?

Sara Baptista de Sousa (S. S.) – Trabalho na área do Marketing Digital e, o ano passado, estive na WebSummit. No meio de tantas empresas, encontrei uma rapariga de cabelo cor-de-rosa, a Doreen Toutikian, que foi quem fundou a empresa. Achei muito interessante o facto de o logo da startup refletir o lado feminino e acabei por ir falar com ela para saber de que tratava o projeto. Achei mesmo muito interessante! Nesse dia, enviei-lhe logo um email para ela não se esquecer de mim, mas ela nunca me respondeu [risos]. Felizmente, passada uma semana, voltei a insistir e consegui falar com ela. A Doreen ficou muito surpreendida, porque achava que este género de projeto já existia em Portugal. Sendo uma pessoa que está sempre a trabalhar na Grécia, o país fundador da Omgyno, e que até já trabalhou no Médio Oriente, a Doreen achava que nós éramos muito mais sexualmente abertos, tendo em conta as realidades desses países. Posto isto, sugeri que recriássemos este projeto também em Portugal. Quando comecei a trabalhar na Omgyno, tive de tirar alguns cursos, nomeadamente no que diz respeito às questões da identidade de género. É algo ainda muito novo, para mim. Tive de me informar sobre o assunto e acabei por perceber que nós, mulheres, assumimos que determinadas coisas são normais, quando não o deveriam ser. Como, por exemplo, ter medo de sair à noite. Percebi que este projeto seria um bom caminho para começarmos a mudar um pouco. Tenho uma filha de cinco anos e quero que ela conheça uma realidade diferente. Ao falar com a Doreen, tive também conhecimento de alguns dados, como, por exemplo, o facto de as pessoas transexuais terem vergonha de estar numa sala de ginecologia. São, muitas vezes, “olhadas de lado”, não se sentem confortáveis em ir a um médico que supostamente só trata mulheres, enquanto elas estão a fazer a transição para o sexo oposto. Os imigrantes também sofrem muito e têm imensas dificuldades no acesso à ginecologia, as quais eu desconhecia. Se não fosse a Doreen a mostrar-me todos estes estudos, iria continuar a viver iludida, pois achava que as pessoas tinham um comportamento completamente diferente. Percebo agora que estes temas ainda são muito polémicos. Dou-te ainda outro exemplo: a Omgyno está à procura de investimentos, mas já nos disseram que, uma vez que nós somos só mulheres, deveríamos integrar um homem na startup para conseguirmos obter essas ajudas. Repara bem, isto é empresa única e exclusivamente direcionada para pessoas que tenham um útero ou uma vagina. Contudo, se incluirmos um homem no projeto, a probabilidade de alguém querer investir na Omgyno é superior do que se nos mantivermos assim, sendo apenas mulheres.

Doreen Toutikian, CEO da Omgyno. Fotografia cedida por Sara Baptista de Sousa

G. – De que maneira a Omgyno se está a desenvolver em Portugal?

S. S. – Agora, o principal objetivo é fazer com que a empresa chegue ao maior número de pessoas para que possamos seguir para o próximo passo, que será a procura de profissionais. Na Omgyno, lidamos com a área da ginecologia e queremos ser um espaço para todas as pessoas que precisem. Não só as mulheres, ou seja, quem nasceu mulher e tem o órgão sexual feminino, mas também pessoas que sejam não-binárias, pessoas transexuais, etc. Queremos estar abertos a tudo. Para as consultas de ginecologia, iremos ter médicos selecionados para cada situação e que não julguem ninguém. Vamos imaginar que aparece uma mulher de 30 anos e que não quer ter filhos. Ela não tem de ser olhada de maneira diferente só porque não quer ter filhos. Ou, então, uma mulher que só quer ter filhos depois dos quarenta, ou alguém que não quer ter uma relação estável, mas que gosta de ter um namorado diferente de três em três meses. Ou seja, o objetivo é que estas pessoas consigam ir ao médico sem terem medo de ser julgadas. Queremos que seja um safe place [lugar seguro]. Depois de conseguirmos encontrar os médicos, a ideia é criar uma parceria com um laboratório para podermos vender autotestes que detetem determinadas doenças, como as infeções urinárias. Deste modo, as pessoas podem fazer o teste em casa, enviar para o laboratório e esse mesmo laboratório declarar os resultados. Se, depois, for necessário procurar algum profissional mais específico para a situação, a pessoa poderá encontrá-lo através das nossas consultas online. Portanto, ainda estamos numa primeira fase. Queremos que as pessoas nos conheçam, através do Omguide, o nosso blogue no qual publicamos vários artigos, e das nossas redes sociais. Quando sentirmos que isso já está a 100 %, partiremos, então, para a procura de médicos e, depois, para o tal laboratório que referi.

Autoteste vendido na Femshop da Omgyno. Imagem da cortesia de Sara Baptista de Sousa.

G. – Tencionam que a Omgyno, em Portugal, também ajude pessoas no estrangeiro?

S. S. – Bem, vamos imaginar que uma pessoa grega está a morar em Portugal. Uma vez que a startup já existe na Grécia, os médicos que estão na plataforma são gregos. Ou seja, existe a possibilidade de a pessoa escolher o idioma em que prefere ter a consulta e pretendemos que seja igual em Portugal. Isto ajudará, principalmente, os imigrantes. Queremos que os nossos médicos portugueses ajudem lá fora e queremos ter médicos estrangeiros que ajudem quem se encontra no nosso país e não fale português.

G. – Um dos vossos focos é o feminismo e todas as pessoas que tenham uma vagina. Esta postura foi alvo de crítica negativa?

S. S. – Sim. Como nós falamos muito de saúde sexual e menstrual, a pergunta que mais surge é: “mas tu gostas de sexo?”. Associam sempre à prática do ato sexual e não são capazes de pensar mais além. Esquecem-se de tudo o que isto engloba. Vai muito para além do sexo. Até com as imagens das redes sociais temos problemas. Sabemos que há imagens que não podemos partilhar, mas, por exemplo, no nosso Instagram temos uma imagem de duas bananas que representam as doenças sexualmente transmissíveis. A banana amarela usa um preservativo e está com um aspeto saudável. A que está ao seu lado não tem proteção, logo tem um aspeto mais escuro e estragado. Nós tivemos essa publicação rejeitada pela plataforma mais de seis vezes! E são apenas duas bananas! Somos bloqueados muitas vezes, mesmo que não partilhemos nada de mal. Já usamos as frutas para representar os órgãos sexuais do ser humano, precisamente para não sermos denunciados, mas, mesmo assim, nem sempre corre bem. Reparámos também que, se publicarmos uma imagem mais gráfica, o público tem sempre medo de comentar ou colocar um gosto, pois sente vergonha. O nosso engagement melhorou bastante a partir do momento em que deixámos de publicar esse tipo de conteúdo. Temos tido muitas críticas, principalmente nas redes sociais, de pessoas que às vezes nem percebem o objetivo do projeto. Isto só irá desaparecer com educação. As pessoas têm de entender que a saúde sexual e a saúde menstrual fazem parte do nosso dia a dia.

Omgyno. Imagem da cortesia de Sara Baptista de Sousa

G. – Como funciona a Femshop? Sentes que as pessoas não estão suficientemente informadas acerca dos mais recentes produtos menstruais?

S. S. – Sim, completamente. Nós só vendemos produtos sustentáveis, pois é um dos nossos valores. Em cada produto, colocámos uma pequena descrição sobre o mesmo, pois a grande maioria da população não sabe como se utiliza um copo menstrual ou como se lava um penso higiénico reutilizável, por exemplo. Mais uma vez, estamos a querer contribuir para a educação. Durante toda a nossa vida ouvimos falar dos tampões e dos pensos higiénicos. Agora temos estes artigos que trazem uma realidade completamente nova. Temos de desmitificar este tabu que existe à volta da menstruação e da reutilização de determinados produtos. Para além disso, queremos também trazer mulheres empreendedoras para a Omgyno e que façam estes produtos para que os possamos vender na nossa loja e divulgar o seu trabalho.

G. – Qual é a importância da existência de uma startup deste género?

S. S. – Desde a pandemia que tenho sentido que as pessoas procuram mais este tipo de empresa. Principalmente as mais novas, dado tratar-se de um projeto online. As pessoas mais velhas ainda são um bocadinho preconceituosas e não entendem bem porque criámos a Omgyno. Depois, uma vez que a maior parte das startups são criadas por homens, deparamo-nos com imensas críticas por sermos mulheres a gerir o negócio. Pensam que estamos a brincar. A Marta Crawford demorou dez anos para conseguir contruir o Museu Pedagógico do Sexo, mas conseguiu. No que toca a estes temas, o importante é nunca desistir. Insistir, insistir, insistir. Até conseguir. Acima de tudo, a Omgyno apareceu para ajudar as pessoas e, sim, tem feito diferença. Eu tenho a sorte de nunca ter tido uma má experiência no ginecologista, mas com as histórias que tenho ouvido, penso que se fosse comigo, nunca mais iria conseguir ir a uma consulta. Quem tem experiências negativas fica marcado para o resto da vida. Estamos a falar de uma área do nosso corpo que é muito importante. A Omgyno quer apenas provar que a nossa saúde sexual e menstrual é uma coisa tão natural como ir ao dentista. Se existisse uma plataforma destas em cada país, as pessoas seriam muito mais informadas.

G. – A Omgyno baseia-se em seis valores. Qual a importância destes e de que maneira estes se manifestam?

S. S. – Os nossos valores estão presentes em tudo. A inclusão, logicamente, refere-se ao facto de aceitarmos qualquer pessoa, mesmo que ela não se identifique como mulher. A parte holística surgiu porque nós acreditamos que não estamos a tratar apenas de uma coisa específica. Por exemplo, temos um artigo em que falamos sobre saúde mental. Se não estivermos bem mentalmente, também a nossa saúde sexual será afetada. Tentamos ver o corpo como um todo. Também somos divertidos, claro. Queremos tornar isto mais leve. Ao publicarmos frutas no nosso Instagram, não estamos apenas a querer contornar o algoritmo [risos], estamos também a querer trazer alguma leveza para este tema. Depois, a empresa é orientada pela comunidade, pois estamos sempre à procura do feedback das pessoas, mesmo a nível de ginecologistas. Se alguém nos recomendar um profissional em quem confia, nós vamos ouvir essa pessoa e avaliar se aquele médico pode integrar a Omgyno. Em relação ao feminismo, muitos acreditam que quem é feminista é uma espécie de “feminazi”. Não é nada disso. Apenas acreditamos que deve existir igualdade entre homens e mulheres. Já lançámos um artigo em que explicamos como os mais novos podem aprender a ser feministas. E estamos a falar de coisas tão simples como ajudar a levantar a mesa, ou seja, não assumir que tudo o que é tarefa doméstica deve ser feito pela mulher e que tudo o que é trabalho deve pertencer ao homem. Não. Somos todos iguais.

G. – Consideras que existe um o mito por detrás da saúde sexual e menstrual. O que é necessário ser transmitido à sociedade para que ele deixe de existir?

S. S. – A minha própria família acha que eu sou maluca por fazer parte de um projeto destes [risos]! Sinto que estes pensamentos passam de geração em geração, e a única forma de isso se contornar é falarmos abertamente sobre as coisas. Eu lembro-me de a minha avó me dizer que, quando estava menstruada, não podia lavar o cabelo. Era uma coisa assim desse género. O que é que uma coisa tem que ver com a outra, certo? Mas isto é culpa das gerações anteriores que propagaram essas ideias, e quem veio a seguir não fez nada para mudar esse pensamento. Para que a sociedade acabe com os autojulgamentos e preconceitos a propósito destes temas, temos de os normalizar. Penso que este projeto vá conseguir desmistificar tudo isto e criar novas mentalidades.

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