Adquirir um brinquedo parece um processo simples para uma criança sem deficiência. Ainda assim, o caso muda de figura quando se tem uma condição de vida. Foi face a este panorama e cientes desta não inclusão que nasceu o projeto a Oficina dos Brinquedos pelo Centro de Reabilitação da Associação do Porto de Paralisia Cerebral (APPC).

Aqui, o objetivo é simples: permitir que os brinquedos cheguem a todas as crianças independentemente da sua condição.

Apesar de o projeto remontar há dez anos com uma ideia da técnica ocupacional Sara Brandão, foi em 2019 que verdadeiramente se expandiu com a chegada de um outro voluntário. O Sílvio Mota, um antigo técnico de ar condicionado, agora reformado. Aliás, nos dias de hoje é ele o responsável por adaptar todos os brinquedos para as crianças com deficiência motora. O seu trabalho semanal passa por alterar o circuito interno para que o brinquedo possa ser acionado através de um switch.

Atualmente, o serviço está disponível para clientes do Centro de Reabilitação de Paralisia Cerebral do Porto e a sócios da Associação do Porto de Paralisia Cerebral. Para tal, basta trazer o brinquedo que pretendem ver adaptado, entregá-lo ao terapeuta que intervém com o cliente, acompanhado pela respetiva ficha de inscrição.

O Gerador esteve à conversa com Sílvio Mota, Sara Brandão e Abílio Cunha, presidente da Direção da Associação do Porto de Paralisia Cerebral. Ao longo da conversa, os três profissionais procuraram refletir sobre a emergência deste tipo de projetos e sobre as histórias que marcam desde o começo da Oficina dos Brinquedos.

Gerador (G.) – A ideia da Oficina dos Brinquedos remonta a 2012, mas só a partir de 2019, com a chegada do voluntário Sílvio Mota, antes técnico de ar condicionado, a adaptação de brinquedos para crianças com deficiência motora passou a ter um carácter mais frequente. Sílvio, gostava que começasse por explicar o porquê desta volta de 180 graus na sua vida?

Sílvio Mota (S. M.) – Eu estava empregado numa empresa de ar condicionado, era eletromecânico, mas, entretanto, a empresa fez remodelações e convidou algumas pessoas a sair, incluindo eu. Então, vim para cá. Depois estive no fundo de desemprego, durante três anos, mas acabei por me decidir e pedir a reforma. Entretanto, eu tenho uma fatalidade que foi a morte da minha mulher. E, desde aí que andava meio triste. Passado algum tempo, na APPC, uma amiga minha convidou-me se não queria integrar este projeto, já que me safava numas coisas. Na altura, disse-lhe que sim, mas sem compromisso. 

Entretanto, fui apresentado à Sara Brandão, que é a responsável pelo projeto da Oficina dos Brinquedos, e a outra terapeuta para fazer outro trabalho. Neste caso, ajeito cadeiras de rodas. Então, eu fiquei por lá.

Às terças e quartas, estou na Oficina das Cadeiras de Roda e, às quintas-feiras, vou para a Oficina dos Brinquedos. O que faço lá? Adaptar brinquedos. Ou seja, os miúdos, as crianças, têm muita dificuldade em ligar um brinquedo que até gostam muito, mas como é preciso utilizar uma pinça para ligar o brinquedo isso é lhes impossível. Então, optámos por adaptar os brinquedos. Como? Vou ao circuito elétrico interno, passo um fio, soldo, etc., para fora onde se liga umas fichas e depois conecta-se a um switch. Aquilo que a criança devia fazer com os dedos, que não consegue, com o switch, que é uma patela, já consegue movimentar o brinquedo. 

"Oficina dos Brinquedos": Sílvio Mota a trabalhar

G. – Sara falávamos agora sobre como começou este projeto na vida do Sílvio, mas como é que nasceu esta ideia pela Oficina dos Brinquedos? Porquê na APPC?

Sara Brandão (S. B.) – A oficina já nasceu há bastante tempo, em 2012. Na altura, surgiu com um grupo de colegas que já trabalhavam no centro de reabilitação.

Inicialmente, tínhamos alguns switchs e alguns brinquedos adaptados comercializados, mas que eram poucos. Davam-nos pouca diversidade. Ao mesmo tempo, sentíamos que alguns brinquedos que as crianças gostavam mais não tinham possibilidade de os aceder. Então, o que fizemos, na altura, foi um pequeno workshop, em que fomos aprender nós, técnicos, como é que se fazia a adaptação e começámos devagarinho a adaptar alguns dos brinquedos que tínhamos cá no serviço. 

Como a nossa a área é técnica de reabilitação, efetivamente, nós demorávamos muito tempo, não tínhamos a mesma qualidade porque, apesar do workshop, o conhecimento não é o mesmo e não conseguíamos fazer chegar os brinquedos às crianças que nós acompanhamos. Já por não falar do tempo que demorávamos... Com a colaboração do Sílvio como voluntário é totalmente diferente... Por exemplo, ainda hoje de manhã eu cheguei e tinha aqui já três brinquedos adaptados, não sei quantos já compostos… É sem dúvida diferente. E, conseguimos ter uma diversidade muito maior. Conseguimos ter muitos mais brinquedos, coisas mais específicas, que nós queremos do brinquedo.

Técnica Ocupacional- Sara Brandão

G. – Precisamente, o projeto tem como objetivo tornar os brinquedos acessíveis e permitir o acesso igualitário a todas as crianças. Sentem que a sociedade e o mercado em geral estão conscientes desta necessidade de inclusão?

S. B. – Acho que essa preocupação tem vindo a crescer. Mesmo agora já há algumas empresas que assinalam na embalagem se é um brinquedo mais tátil, mais visual, etc. Agora os brinquedos, sem dúvida, que ainda não estão adaptados a todas as crianças. Isso não. Eu acho que esta preocupação ainda vai aumentar, mas os outros brinquedos também são importantes. Outras crianças também precisam desses desafios. De ter coisas mais difíceis para experimentar. Agora, acho que tem vindo a melhorar. Temos sempre tambores, pianos e esse tipo de material que eu acho que algumas marcas também têm vindo a tentar simplificar. A verdade é que quanto mais simples, mais fácil é de se utilizar. 

"Oficina dos Brinquedos": Brinquedos adaptados

G. – Mas, ainda há muito a caminhar para se atingir esta inclusão...

S. B. – Sim, sim! Acho que nalguns pontos até já há esse pensamento consciente de OK, vamos fazer aqui uma coisa que realmente seja para todos. Noutros se calhar apela-se mais a um lado comercial e, talvez, não tenhamos tanto essa preocupação. É um caminho que temos de ir fazendo e é importante haver sempre estes alertas.

G. – Que tipo de benefícios é que esta adaptação traz para as crianças com deficiência motora?

S. B. – O primeiro benefício é a questão da motivação porque quando é um brinquedo em que a criança consegue trabalhar com ele é diferente de um brinquedo que não consegue. O que nós queremos é isso. Primeiro, que a criança tenha esta vontade de participar e de brincar. Quando ela depois tem essa vontade, mas tenta e não consegue isto é uma grande frustração. Quando ela consegue, aí sim, já vai ter essa vontade de repetir e depois disto vamos desenvolvendo competências. Daí que essa parte também seja importante, por exemplo, a coordenação que ela tem de ter para dirigir o movimento, a partida do olho no botão onde tem de acionar. Só esta noção de causa, efeito, de perceber que aquilo vai acionar o brinquedo, de perceber este mecanismo, tudo isso são vantagens que advêm desta participação. Muitas vezes até o próprio movimento pela vontade que ela tem de chegar ao brinquedo, de interagir com o brinquedo. Se for um brinquedo que ande aquela vontade de ir atrás dele… Portanto, o brincar é sempre essencial.

De um lado, nós temos, sim, de promover estas competências, de estar sempre a tentar desenvolver, ao máximo, aquilo que a criança possa conseguir. Por outro lado, temos de procurar responder para que dentro do que ela já consegue, ela consiga ser mais funcional e sentir-se feliz. É mesmo fundamental. 

Ainda ontem estive a utilizar um desses brinquedos e tinha utilizado outro que não estava adaptado e realmente era mais difícil para a criança perceber o mecanismo. Depois, quando lhe inseri o brinquedo adaptado e quando ela percebeu que carregando ali aquilo fazia logo tudo começou-se a rir e ficou supercontente. Acho que é isto que faz toda a diferença. Darmos esta noção que com uma simples adaptação eles são capazes. 

"Oficina dos Brinquedos": A adaptação eletrónica

G. – Retomando agora a conversa ao Sílvio... Já falamos sobre como é que este projeto nasceu na sua vida, mas normalmente como é que é este processo de “arranjo dos brinquedos”? Quantas horas exige? 

S. M. – Não demora muito... Eu só trabalho na Oficina dos Brinquedos à quinta-feira e só da parte da manhã. Por exemplo, ainda hoje adaptei dois brinquedos. E, reparei mais dois ou três. Algumas reparações são muito fáceis é só pôr pilhas. No entanto, adaptar há alguns que demoram mais, claro. Hoje, reparei um que era um robô em que tive de abrir uma parte da perna porque era lá que estava inserido o motor elétrico e depois tive de ver o que estava mal e o que estava bem. Por isso, não é muito difícil. Basta ter um bocadinho de gosto. 

Outra situação... Ainda hoje, estava lá um menino com a mãe e eu tinha adaptado um panda e ele ouviu um barulho e veio para a minha beira. E, dei-lhe a experimentar o brinquedo. Ele mal o viu a dançar o miúdo delirou. É isto no fundo que me deixa satisfeito.

G. – Ver essa felicidade nas crianças...

S. M. – Sim! Isto na Oficina dos Brinquedos. É mesmo uma maravilha. 

G. – E, como é que funciona o processo de recolha dos brinquedos?

S. B. – Parte deles são adquiridos com as verbas da instituição, temos também algumas doações que vão chegando. Por exemplo, este panda foi uma doação. Quando existem nós aproveitamos e é sempre uma mais-valia. O que nós fazemos com esses brinquedos doados e com aqueles que são adquiridos e adaptados é utilizar aqui neste contexto de reabilitação e outros por empréstimo. Ou seja, a criança pode levar para casa, durante um tempo, para experimentar e depois volta a trazer. Quando são os brinquedos que são trazidos pelos clientes, nós adaptamos, sem custo aquilo que eles querem e depois a criança usa em casa. Normalmente, o primeiro contacto que têm com o brinquedo é aqui no centro e se realmente fizer sentido para essa criança avança-se para a aquisição do botão. 

"Oficina dos Brinquedos"

G. – Já que falamos de doações, e tendo em conta que este projeto é gratuito para clientes e sócios e feito à base de voluntariado, de que outras formas é que as pessoas vos podem ajudar?

S. B. – Neste momento, e ainda bem, as necessidades que nos chegam estão em grande parte colmatadas. É o que nós sentimos. Isso acho que é bom de se dizer. Por exemplo, mesmo a nível do material que o Sílvio utiliza na oficina nós temos tido o cuidado de perguntar se tem tudo e ele tem-nos dito que sim. Quando falamos de material tem mais a ver com ferramentas, essas coisas todas. Por isso, aqui para a oficina, nós vamos tendo a nossa sustentabilidade, por assim dizer, agora claro que é sempre bom fazermos chegar isto ao máximo de crianças. Portanto, a divulgação é uma forma de ajudar porque poderá haver crianças, famílias, que não saibam que isto existe e isso sim é uma mais-valia. É conseguir chegar a todos os que precisam.

E, mesmo quando temos de fazer coisas mais pontuais temos logo uma rápida ajuda de todas as pessoas. 

S. M. – Uma vez uma mãe comprou um triciclo para uma criança. Uma filha. Entretanto, a filha com as dificuldades que tinha em pôr os pés no triciclo falou com a terapeuta que posteriormente veio-me pedir a mim para o adaptar. Então, arranjei lá uns bocados de alumínio e fiz um pedal mesmo. Eu fiquei tão contente por ver que a criança já conseguia fazer aquilo e ver a mãe também.

G. – Ao longo desta conversa já fomos falando de histórias, mas houve algum episódio que vos tenha marcado de uma forma especial?

S. M. – Acho que não.... É mesmo aquilo que digo sempre. Para mim é a satisfação de ver aquelas crianças rirem. É isso que me deixa feliz. 

S. B. – Sempre que introduzimos, pela primeira vez, um brinquedo a uma criança que antes não conseguia é sempre um marco importante. É o sentir que ela também consegue. Felizmente, já o pude sentir várias vezes e de tornar uma coisa que era difícil numa coisa fácil. Isso é o que nos acaba por marcar, mas de uma forma positiva. 

G. – No futuro, gostavam de alargar o projeto até outros horizontes de Portugal?

S. B. – Eu sei que há colegas em Coimbra que também desenvolvem algo do género e tem havido outras iniciativas pelo país. Levar a outros distritos talvez não... Mas já temos aí um novo desafio que passa por se levar esta temática até às escolas e aos jardins de infância. Fazer uma divulgação maior. Acho que isso, sim, pode ser importante porque é divulgar junto de todas as crianças o que é isto do brinquedo adaptado, como é que ele funciona, etc. Isto dentro do nosso distrito.

G. – O Abílio entretanto juntou-se à nossa conversa... Enquanto atual presidente da APPC, com uma deficiência motora, e perspetivando um bocado o passado sente que teve o mesmo acesso a esta preocupação? Ou pelo contrário foi alvo de discriminação?

Abílio Cunha (A.C) – Esse é um caso muito antigo. Eu não nasci em Portugal, nasci em Angola. Eu nunca me senti excluído porque cada comunidade de crianças fazia os seus próprios brinquedos. Portanto, eu não tive esses constrangimentos, mas na era atual é uma angústia para os pais e uma violação para as crianças não terem as mesmas oportunidades no ato de brincar. Ainda por cima, este é um ato muito nobre. 

No que toca à consciência destes brinquedos adaptados ainda é um segmento muito reduzido. 

Ao nível do ato de brincar, por parte desta população, sabemos que a nível das autarquias muita das respostas acabam por ser os chamados campos de férias. Nós agora até vamos iniciar um trabalho com a câmara de Gondomar, no sentido de os campos de férias passarem a ter o nosso apoio. Não só técnico, mas também logístico. 

Este projeto não engloba só o brinquedo em si, há uma panóplia de situações. Muitas vezes lembrámo-nos de aumentar a largura da porta, da cama, mas raramente nos lembramos dos parques infantis, das praias, etc. Há aqui um longo caminho a percorrer para que cada criança possa ter o direito de ser feliz. 

Abílio Cunha, presidente da Direção da Associação do Porto de Paralisia Cerebral

G. – Ou seja, é preciso repensar no sistema atual...

A.C – Exato! É preciso repensar na criança porque alguns problemas só nos apercebemos quando já somos adultos. 


Quando as crianças brincam

E eu as oiço brincar,

Qualquer coisa em minha alma

Começa a se alegrar.

E toda aquela infância

Que não tive me vem,

Numa onda de alegria

Que não foi de ninguém.

Se quem fui é enigma,

E quem serei visão,

Quem sou ao menos sinta

Isto no coração.

“Quando as crianças brincam” – Fernando Pessoa

Texto de Isabel Marques
Fotografias da cortesia do Centro de Reabilitação da Associação do Porto de Paralisia Cerebral