As artes estão interligadas com o bem estar psicológico. Ou com a noção do que se pretende, a dureza do objectivo, a realidade do deadline, a impossibilidade de se estar apto a qualquer momento para se continuar o trabalho, a liberdade de escolha aquando o ponto final, o último traço, o fotograma final.

E num repente, tudo o que apontei actua sobre a urgência, a desorientação, o drama, a impossibilidade, a noção do fracasso… ou da glória.

Será assim tão objectiva esta relação entre a arte e o nosso estar? A nossa filosofia de vida, as escolhas, os percursos, as guerras que começam ainda no berço? Será que, afinal, precisamos de estar contra para criar? De ser o contrário da lógica normal ou/e natural das coisas? E que lógica é essa? E será isso a verdade? Mas que verdade, a dos Homens a ou de quem, afinal, é agente cultural?

E no meio disto, pergunta-se: o que é a cultura? Quais os elementos, os actores, os intervenientes, intermediários e mecenas? Porque é, afinal, a cultura tão pessoal mas, paralelamente, tão generalista, tão ávida por ser aceite como propensa à crítica e ao melindre?

Porque é, afinal, um artista, quanto mais ousado ou original (no seu tempo), acusado de sofrer de qualquer perturbação mental, como se fosse um “desvio”, uma teimosia, um desnorte ou, tão simplesmente, a incapacidade de viver sob as ordens, modas e políticas do momento?

A arte (genericamente falando) faz sempre parte do “Eu” actual, de quem vive naquele momento social e cultural. Pode antever? Pode. Pode recordar? Naturalmente. Pode sobreviver? Bom… depende dos reis, dos mecenas, dos governos, das políticas.

Imagine-se dar liberdade a qualquer pessoa para, sem qualquer preocupação mundana, poder fazer o que realmente quer. Algumas poderiam ficar quedas, libertando o pensamento, analisando o presente, adoptando uma posição crítica mas profiláctica em relação ao semelhante. Poderiam ser gurus, padres, políticos, analistas, escritores. Outras desejariam ser mais activas, agarrando qualquer instrumento para inscrever a alma, soltar dúvidas, encontrar caminhos em busca de uma luz que todos sonhamos encontrar. Haveria ainda outros que, sorrateiramente, esperariam pelos resultados dos demais para poder opinar, apontar, criticar e/ou aplaudir. Mas mesmo com toda a liberdade, certamente que poderíamos contar com muitos que, pura e simplesmente, só desejavam ver, entender, absorver e amar ou odiar o que outros fariam. E não serão também os espectadores… criadores?

Saber ver é ter cultura. E essa pode ser despejada em críticas vorazes como em silenciosas paixões. Pode levar ao amor como à loucura. Pode ser fonte do Belo como manancial problemático.

Afinal, e muito concretamente, o que é a cultura e o que tem ela que ver com saúde mental?

Tudo! E é este tudo que o Festival Mental, de que me orgulho ser directora e de continuar contra ventos e marés, tenta mostrar na sua programação que espelha, em todas as áreas possíveis, que a cultura é o veículo ideal para mostrar os mais recônditos segredos de quem pensa diferente, as penas reais de quem a mostra, as dores absurdas de quem tem a coragem de se mostrar ao mundo.

A arte, com letra pequena ou grande, abre portas de par em par para que, sem medo, possamos mostrar quem realmente somos, o que nos afecta, o que nos move, alimenta, seduz mas faz sofrer. De repente, temos na mão um resultado palpável que pode transmitir a dor e o sofrimento tão alojados no interior da nossa alma. Basta abri-la.

Repararam que mudei o sujeito e o tempo verbal? Só agora deram por isso, não foi? Querem maior prova de que todos precisamos de uma tela vazia para, finalmente e sem rodeios, poder? Sim, isso, poder! 

O meu é conseguir, com a ajuda de uma inexcedível pequena equipa de super-pessoas, trazer-vos o Festival Mental mais um ano. Algo que já foi espezinhado porque “não é um tema sexy” ou porque “não dispõe bem as pessoas”, frases ditas por responsáveis que afirmam praticar o bem.

Mas, na verdade, temos conseguido crescer como uma daquelas flores magníficas que brotam por entre as pedras da calçada ou os muros humanos.
E quem nos ajuda, empurra e faz crescer, começa a deixar de ter espaço naquele papelinho que mostra “quem nos apoia” porque, muitas vezes, quem o faz nem quer aparecer. Fá-lo porque sabe importante a relação entre a mente e a liberdade, entre a criação e a disponibilidade e, acima de tudo, entre a cultura e a saúde mental.

A grande questão é tentar entender porque é esta uma questão.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Ana Pinto Coelho-

É a directora e curadora do Festival Mental – Cinema, Artes e Informação, também conselheira e terapeuta em dependências químicas e comportamentais com diploma da Universidade de Oxford nessa área. Anteriormente, a sua vida foi dedicada à comunicação, assessoria de imprensa, e criação de vários projectos na área cultural e empresarial. Começou a trabalhar muito cedo enquanto estudava ao mesmo tempo, licenciou-se em Marketing e Publicidade no IADE após deixar o curso de Direito que frequentou durante dois anos. Foi autora e coordenadora de uma série infanto-juvenil para televisão. É editora de livros e pesquisadora.  Aposta em ajudar os seus pacientes e famílias num consultório em Lisboa, local a que chama Safe Place.

Texto de Ana Pinto Coelho
gerador-gargantas-soltas-ana-pinto-coelho