Atenuar os efeitos do medo e da ansiedade causados ​​pelo novo coronavírus não é tarefa fácil, dadas as nossas incertezas relativas à situação e também às nossas tendências biológicas e psicológicas, pouco faladas mas que se manifestam em vários comportamentos compulsivos que estamos a observar (nem é preciso descrevê-los aqui).

O Dr. Simon Sherry, psicólogo clínico e professor de psicologia e neurociência da Universidade Dalhousie, acredita que os primeiros passos são: evitar a histeria, analisar racionalmente a situação e espalhar essa racionalidade para os outros.

“No momento, existe um tipo de distorção digital em que as pessoas são inundadas por informações negativas”, disse.

“Cada título e cada clique alimenta uma dieta constante de pânico e ansiedade. Portanto, as pessoas precisam considerar a ideia de haver demasiada informação e limitar a sua exposição a coisas como social media, porque aí, em particular, o pânico vende.”

Ter cuidado é imprenscindível nesta situação ao contrário de entrar em pânico.

É natural sentirmos stress e ansiedade (sim, ansiedade, mesmo que já tenha ouvido alguém da área da saúde mental falar muito irritado porque se usou o termo “ansiedade” a este respeito), tristeza e preocupação durante e após um desastre.

Todos reagimos de forma diferente e os nossos próprios sentimentos mudam com o tempo. Prestem atenção a isso. Os primeiros tempos serão diferentes dos próximos.

O que se aconselha? Observar e aceitar o que se sente. Um, dois minutos que seja, por dia.

Cuidar da nossa saúde emocional durante esta emergência ajudará a pensar com clareza e a reagir às necessidades urgentes como protegeres-te e à tua família (se for o caso).

Porque é certo que uma situação como esta afecta a saúde mental de qualquer pessoa e de qualquer idade. E negá-lo torna tudo pior – ou adia a evidência.

Portanto: pensar nisso, assumir e aceitar, um bocadinho cada dia, é a receita para uma espécie de auto-terapia, que só pode trazer benefícios. Sem complicações.

Ninguém sabe quanto tempo essa pandemia vai durar, ou quanto tempo a vida das pessoas ficará prejudicada.

“Combinado com o stress da perda de emprego, do aumento da dívida, da tensão familiar ou mesmo da incapacidade de desabafar no ginásio ou cabeleireiros, as pessoas podem sentir-se cada vez mais frustradas, entediadas, zangadas ou confusas”, diz-nos Lynn Bufka, psicóloga da American Psychological Association.

E acrescenta: “se está deprimido, é difícil obter energia sobre como fazer as coisas necessárias para se manter conectado aos outros. Se está ansioso, a sua ansiedade provavelmente já está elevada no momento, vai ter menos recursos para lidar com isto”, conclui.

Acrescento situações que podem ser comuns:

– Sentires-te mais ansioso e/ou preocupado com a saúde de quem gostas;

– Teres problemas em adormecer e/ou pertubações de apetite;

– Sentires agravadas outras condições que já vinham de antes;

– Consumir mais álcool, tabaco ou drogas, ou ter comportamentos mais compulsivos do que antes relativamente ao uso do computador, telemóvel, jogos, etc.

Já para as crianças:

É muito complicado perder as rotinas: ir à escola, estar com amigos, aprender com os professores e brincar no recreio passou a ser impossível de momento. As crianças podem expressar essa frustração de várias maneiras, dependendo da idade, incluindo:

    Chorar mais ou ficar muito irritadiça/o;

    Voltar a antigos comportamentos, como fazer xixi na cama;

    Estar muito preocupada/o ou triste;

    Adoptar hábitos alimentares ou de sono que não são saudáveis;

    Agir com mais raiva (principalmente entre adolescentes);

    Ter mais problemas para manter o foco (nas aulas online, por exemplo);

    Dores de cabeça ou dores no corpo;

    Consumir álcool, tabaco ou drogas.

O que fazer? Estar atento aos sinais!

Pessoas isoladas devem “permanecer conectadas e manter as suas redes sociais, juntamente com a rotina diária, tanto quanto possível”, esclareceu a Organização Mundial da Saúde no início do mês.

Talvez não possamos ir ao escritório, mas ainda podemos tomar um banho, vestir, comer alimentos saudáveis, sobretudo frutas e vegetais, e seguir um horário normal.

Mas, acrescento: prestem atenção, todos os dias, às vossas próprias necessidades e sentimentos.

Se estás a ver ou ouvir demasiada informação sobre o COVID-19, isso vai aumentar a ansiedade. Define horários durante o dia para ver as últimas informações (em fontes fiáveis), e depois desliga. ​

Muda de canal, lê um livro, telefona a uma amigo/parente, ouve música. Aprende a fazer música. Escreve um poema, um ensaio, um livro. Imagina-te com outra carreira, como aprender outro ofício, onde fazê-lo. Há milhares de cursos online gratuitos das mais prestigiadas universidades mundiais.

Faz um reset. E um login.

Nota: Pessoas com condições de saúde mental preexistentes devem, obviamente, continuar com os seus planos de tratamento durante uma emergência e monitorizar novos sintomas (para isso existem linhas de ajuda e nada como seguir o site).

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Ana Pinto Coelho-

É a directora e curadora do Festival Mental – Cinema, Artes e Informação, também conselheira e terapeuta em dependências químicas e comportamentais com diploma da Universidade de Oxford nessa área. Anteriormente, a sua vida foi dedicada à comunicação, assessoria de imprensa, e criação de vários projectos na área cultural e empresarial. Começou a trabalhar muito cedo enquanto estudava ao mesmo tempo, licenciou-se em Marketing e Publicidade no IADE após deixar o curso de Direito que frequentou durante dois anos. Foi autora e coordenadora de uma série infanto-juvenil para televisão. É editora de livros e pesquisadora.  Aposta em ajudar os seus pacientes e famílias num consultório em Lisboa, local a que chama Safe Place.

Texto de Ana Pinto Coelho