Os números que nos acompanharam nos últimos nove meses nunca se revelaram tão importantes. Partindo da reportagem de Raquel Botelho Rodrigues, "Saúde Mental: “Que ameaçadores me parecem os nomes dos meses”” esta representatividade tende a ser um conceito determinante, quer na sociedade portuguesa quer na mundial. Foram diversos os setores afetados, os toques perdidos e as portas fechadas. 
A Cultura, entendida por uma busca da libertação desde os anos 70 ainda em regime ditatorial, é hoje um conjunto de longas bagagens, nas mais diferentes áreas e sociedades e, no que toca à portuguesa, tem sido uma luta constante.     
A ausência de um espaço físico, de um recinto repleto de pessoas no qual o contacto físico e verbal é libertador e a falta de quem tanto faz acreditar, questionar e descentralizar o pensamento é visível aos olhos de quem sente falta e de quem tenta colmatar a mesma.

A ausência de festivais, festas e eventos culturais tem impacto na saúde mental da população

Partindo da mais recente edição da Revista Gerador (32)Qual o Fado da Cultura Portuguesa?”, Pedro Morgado, médico psiquiatra e investigador, explicou-nos que “uma sociedade sem oferta cultural livre, irreverente e diversificada é uma sociedade em maior risco de morbilidade”.
Francisco Paulino, diretor da associação SOS Voz Amiga – linha de apoio emocional, permitiu-nos entender exatamente esta questão através dos contactos que a linha recebeu, no qual a cultura e o contexto cultural são abordados: “não é um item que seja identificado nas nossas estatísticas, mas questionados os voluntários sobre esta temática, devolvem-me que: está implícito nos desabafos de pessoas que tinham hábitos de saídas para frequentarem espetáculos e agora sentem-se prisioneiros duma solidão que, efetivamente, os afeta no seu equilíbrio emocional”, afirma.

Francisco conta-nos ainda que as chamadas dos artistas ou profissionais da cultura também chegam “do outro lado da sebe, mas também em sofrimento, ligam-nos alguns profissionais do espetáculo, tristes e envergonhados por se verem obrigados a sobreviver à custa dos amigos…”.

A linha de apoio emocional disponibiliza-se a ajudar todos aqueles e aquelas que se encontram em situações de sofrimento causadas pela solidão, ansiedade, depressão ou risco de suicídio.
Nos últimos nove meses, os números cresceram exponencialmente, segundo as estatísticas recolhidas pela associação para a organização do plano de atividades e da formação da newsletter da associação. Sem um padrão existente, isto porque o “sofrimento não tem hora, sexo ou idade”, Francisco reconhece que, tendo em conta o total de chamadas recebidas, “são as mulheres quem mais liga, presentemente, numa percentagem mais próxima da dos homens. Há dez anos havia uma parcela de 70% de apelos no feminino, nos últimos tempos é de 55% para as mulheres e 45% para os homens. Aquela questão cultural que não ‘permite’ que um homem chore ou demonstre fraqueza emocional, está mais atenuada.”

No que toca aos motivos de chamada, verifica-se que:

  • quem mais liga são homens entre os 46 e os 55 anos por motivos de ansiedade e depressão;
  •  na maioria são mulheres acima dos 65 anos quem contacta devido à solidão;
  •  mulheres entre os 18 e 35 anos contactam por problemas familiares e afetivos;
  • jovens do sexo feminino entre os 18-35 ligam por ideação suicida;
  • mulheres entre os 46-55 anos procuram ajuda por motivos de violência.

Tendo em conta estas realidades, o diretor da associação partilha que, na maior parte das chamadas, independentemente da sua tipologia, verifica-se uma grande carga de ansiedade.

Focando-nos na importância dos eventos culturais para a saúde mental, Francisco afirma que a “cultura é um termo muito vasto e frequentar a sociedade recreativa da povoação é uma atividade cultural da maior importância, do mesmo modo que participar em atividades de formação e/ou tradicionais é também uma atividade cultural. Estas são outras hipóteses de se recrearem e dar vazão às emoções que ficaram condicionadas com esta nova realidade, tendo, sim, uma influência negativa na saúde mental das pessoas.”

A cultura revela-se assim uma forma de libertação de emoções e, segundo Francisco, permite ainda criar um escudo protetor tão necessário para a prevenção e manutenção de uma boa saúde mental. 

Ivo Canelas, no espetáculo Todas as coisas Maravilhosas, representa exatamente isso. O artista abraça o tema da saúde mental e a sua relação com o público por entre a sua (in)visibilidade.

“No mundo reinvertido, o verdadeiro é um momento do falso.”

Guy Debord, “La société du spectacle”,1967

Com uma temática muito específica, o distanciamento físico no seu espetáculo acaba por “criar uma poesia e empatia ainda maior”. A peça aborda questões como a saúde mental, depressão, suicídio, estratégias de sobrevivência, entre outras. Partindo desta realidade, o artista revela que, mais do que nunca, estas questões têm vindo a ser mais trabalhadas junto da sociedade.       

Ivo afirma que “anteriormente, fazíamos este espetáculo com uma enorme proximidade física e, agora, fazemos o mesmo com uma enorme distância física. A plateia não é a plateia normal. É uma passerelle entre o público. É muito bonito ver as pessoas que estão sentadas lado a lado. Por exemplo, os casais que vêm juntos e ficam com as mãos destacadas, de repente, não aproximam as cadeiras, ficam com as mãos penduradas a tentar cobrir aquela separação.”

Com caraterísticas muito imersivas, sem luz, efeitos de cena e contacto direto, o espetáculo abre janelas para um diálogo, criando um “falso monólogo”.

O artista explica que a necessidade em presenciar as artes, deslocar-se aos espaços para ver espetáculos é algo bastante particular: “Antigamente, aquilo que era uma fome de irmos para casa, ver Netflix, Cinema já não se revê com tanta intensidade. Agora, sinto que este público sente uma fome da imprevisibilidade da realidade, principalmente nesta questão de estarmos ao vivo uns com os outros, condicionados ou em risco de voltarmos para casa.”

O espetáculo é apoiado e desenvolvido em parceria com a SOS Voz Amiga. É importante recordar que o Todas as coisas Maravilhosas teve uma sessão especial, na qual o valor dos bilhetes reverteu na totalidade para a Associação SOS Voz Amiga e o Fundo de Solidariedade com a Cultura. Tendo em conta esta questão, Ivo explica que sempre existiu um contacto com a associação de forma a perceber a necessidade, ciência e pertinência na abordagem dos temas.

Revendo a sua peça no pensamento, escrita originalmente por Duncan MacMillan, Ivo fala-nos do reflexo que a pandemia tem proporcionado à mesma, “as pessoas têm mais vontade de vir ver. Revelam uma “fome” muito especial quase como uma carência de contacto com diversas emoções. É uma celebração de estarmos vivos.”

A sociedade espetáculo, numa visão que reúne quer o entretenimento quer o ceio artístico mais vocacionado para as artes, na perspetiva de Ivo, pode existir porque o ser humano precisa de ser entretido. O ator estabelece uma relação com a evolução gradual da sociedade e das artes, “numa sociedade a evoluir naturalmente, eu diria que daqui a uns cinco/dez anos existiria a oportunidade de, em vez de trabalharmos cinco dias, passarmos a trabalhar quatro e ter três dias para descansar. A partir daí, a sociedade do entretenimento e da cultura será maior e assim consequentemente.”       

É possível efetuar uma ponte entre as declarações do ator e a recolha de dados estatísticos do Barómetro Gerador Qmetrics, um estudo anual sobre a perceção da cultura em Portugal, presente na 31.ª edição da Revista Gerador. Verificou-se que mais de 70% dos portugueses afirma que a cultura está, pelo menos, presente de forma regular nas suas vidas.

Identifica-se ainda que, apesar do encerramento dos espaços e das iniciativas culturais, 55% dos inquiridos têm a perceção de que estão a consumir o mesmo nível de cultura que anteriormente. Estes dados foram recolhidos numa amostra recolhida no pós-Covid19 que permite-nos estabelecer uma comparação com um realidade anterior ao vírus. Ainda assim, cerca de 25% da população considera que este período tem reduzido a hipótese de consumo cultural, mantendo-se este grau de resposta muito semelhante em todos os segmentos etários e regionais.

Ana Pinto Coelho, diretora e curadora do Festival Mental – Cinema, Artes e Informação, conselheira e terapeuta em dependências químicas e comportamentais, reconhece também que a cultura é essencial para a saúde mental ou, pelo menos, para a comunicação e promoção da mesma.

Essencialmente no Teatro, refere que “existem dois pontos de vista: o do espectador e o do artista. Ou seja, está a ser terapêutico para ele porque está a produzir e a expressar de forma criativa as suas emoções e não há outra senão a cultura para o fazer. Seja através das artes plásticas, da literatura, do cinema, do teatro. Tudo o que forem formas culturais envolvem necessariamente criatividade, que é um exercício de caráter da saúde mental. Por outro lado, quem está a ver, a ouvir ou a ler, também está a receber esses conteúdos e a senti-los cada um à sua maneira. Portanto, é uma terapia ambivalente, do público e do criador.”

Reconhece também que é no palco que se pode ser autêntico, algo visível também na dança, ainda que com a ausência da palavra.

Ainda com base no Barómetro foi possível perceber que, tendo em conta a questão da pandemia, os dados reunidos relativos à questão “a cultura pode desempenhar um papel mais ou menos importante nesta fase”, 49% da população analisada respondeu que sim, porque ajuda a pôr em contacto com os outros. Questionada sobre a possível evolução desta questão, Ana considera que pode acontecer e que é algo urgente que deve ser comunicado para que as pessoas se apercebam de uma coisa que já fazem e não têm consciência “porque nós temos dados e estatísticas. No entanto, as coisas que geralmente se comunicam têm pouco que ver com aquilo que realmente interessa e isso é algo que é importante saber. Uma coisa efetiva, real. Temos outro ponto de vista que podemos juntar aqui que é a Educação. É importante os pais também saberem como é essencial educarem na cultura e nas artes os seus filhos. Muitos pais ainda veem uma Educação inclusa na cultura como se fosse um hobbie.”

Já Ivo concorda também com o facto da sociedade necessitar de uma oferta cultural livre e diversificada, refletindo ainda que pode colocar em risco a própria democracia: “a cultura livre, independente do estado, com várias leituras e vários temas e propostas paradoxais é, de alguma forma, um simulacro social do que poderá ser o indivíduo.  Nós carregamos coisas paradoxais em nós, temos estímulos diferentes, entendemos melhor vários lados. Eu entendi coisas através de espetáculos que vi e livros que li que na escola talvez entendesse de forma linear. Portanto, sem dúvida alguma, a possibilidade de sair de casa e pensar ‘o que é que hoje vou ver? Uma ópera, vou ver uma comédia, uma tragédia, um espetáculo de marionetas, um filme, uma performance, uma dança?’ são tudo coisas que nos permitem estimular e pensar.”

Recorrendo ainda a exemplos relacionados com fases de crise em Portugal, o ator referencia o 25 de Abril e a liberdade em si escondida até o mesmo ser implementado: “partindo de exemplos básicos, a função da Revista (teatro) antes do 25 de Abril, por exemplo, era uma forma, imagino eu, das pessoas se libertarem um pouco e de gozarem com um sistema que não respeitavam, mas que também não conseguiam deitar abaixo. De ter menos medo, até ao ponto de o deixarem de ter. A Arte não só te ajuda na tua saúde mental, mas também no teu discernimento, tornando uma sociedade mais clara, mais límpida, mais honesta e livre.”

Por entre uma longa conversa, Guy Debord — ativista liberal, filósofo, escritor e cineasta – surgiu nas palavras. Repentinamente, fez-se uma relação sobre três coisas que acompanham o ser-humano desde os seus primórdios: o sistema, a cultura e a saúde mental. É assim que nos é possível compreender a necessidade desta procura social, cultural e representativa que, tal como Ivo refere é necessária para que “se deixe de ter medo.”

A teoria crítica do espetáculo não é verdadeira senão ao unificar-se à corrente prática da negação na sociedade, e esta negação, o retomar da luta de classe revolucionária, tornar-se-á consciente de si própria ao desenvolver a crítica do espetáculo, que é a teoria das suas condições reais, das condições práticas da opressão atual, e desvenda inversamente o segredo daquilo que ela pode ser.”

Guy Debord, “La société du spectacle”,1967

Pertencer a uma produtora e ser amante de eventos culturais, nomeadamente festivais de música, em tempos de pandemia não tem sido uma tarefa fácil para Rafael Moreira e Luís Carlos Ferreira.

Os quase mestres em Audiovisual e Multimédia sentem cada vez mais um vazio sórdido por o concerto do JP Cooper cair no devaneio assim como o Marés Vivas e o MIMO, festivais que não só cobriam, mas também os viviam.

 Foto de Luís Carlos, festival MIMO (2018)

Ambos ainda a estudar, sentiram mais do que nunca a falta do contacto físico num recinto que é, hoje, inexistente, assim como a partilha de sensações e opiniões num espaço em que a música se envolve e permite uma exteriorização.

Rafael começa por reconhecer a necessidade de participar nos eventos culturais, “colocando nesse mesmo grupo os festivais, as exposições e as festas, tudo isso é essencial. As relações interpessoais e comunicacionais que crias não são possíveis atrás de um ecrã. E, por mais que queiras fazer com que a cultura chegue através de diretos e exposições online, é uma sensibilidade que nunca consegues encontrar ou ter. A probabilidade de comentares com alguém desconhecido (online) algo sobre o concerto enquanto o vês é muito menor do que se tiveres alguém ao teu lado, presencialmente. No nosso caso, também ligados aos profissionais de audiovisual, tem sido uma missão praticamente impossível viver com estas realidades. Já para não falar na ausência de trabalhos, no próprio desemprego e na forma como isso vai impactar na nossa saúde mental”, afirma.

No caso de Luís, a interação com o público além da relação espontânea que se cria com o artista em palco é extremamente essencial. O jovem reconhece que “quando procuras ir a um festival, não vais apenas para ver o artista. O que te envolve, as multidões, o comportamento do público … tudo isso marca-te. Crias memórias, recordas aquela música, daquela forma. Lidar com isso, ou melhor, tentar lidar com isso, é cada vez mais complicado. Passaram nove meses e, por mais “liberdade” que surja dentro desta pandemia, é impossível sentires isso”.

Trabalhar num filme em tempo de pandemia foi um desafio para os jovens. O operador de câmara [Rafael] e o operador de som [Luís] pertencem à produtora Finalmente Azul e sentiram o peso do trabalho, quase impossível de contornar. “Foi complicado, tendo em conta que estávamos perto de entrar em confinamento. Passamos bastante tempo a trabalhar, mas foi uma experiência incrível, ainda que desgastante. Éramos das poucas produtoras que estavam a rodar em plena pandemia. Parecendo que não isso também trouxe algumas desvantagens.”    
Luís completa ainda que houve um trabalho de equipa exaustivo, “estamos a falar de dias em que trabalhávamos mais horas do que era suposto. Era difícil conseguir garantir tudo no prazo estipulado dada a realidade que vivemos e esta ausência de possibilidade de gravar em qualquer hora e lugar”.
Os jovens reconhecem que são imensos os fatores deste tipo de trabalho que influenciam na saúde mental.

De acordo com Ivo Canelas, Ana Pinto Coelho, Francisco Paulino, Rafael Moreira e Luís Ferreira ainda há um trabalho muito importante a ser feito perante a cultura e a saúde mental.
Ivo reconhece que “o nosso esforço individual vai-se refletindo de geração para geração, de maneira que seja possível aproximarmo-nos umas das outras em questões como: ‘até onde nós, como seres humanos podemos estar mais sensibilizados ou sensíveis às questões da saúde mental?’; ‘onde é que a saúde mental se cruza com a arte?’ e ‘como é que a sociedade funciona para que eu possa fazer arte abordando a saúde mental?’".       

No caso de Ana, fazer a promoção da divulgação para a prevenção da saúde mental é o que realmente falta e é preocupante, “não é só as coisas existirem. É necessário comunicá-las para que as pessoas percebam que elas existem. Existir só, sem perceção, sem comunicação e sem promoção não permite prevenção”, afirma.

Já Francisco Paulino reconhece que a saúde mental “continua a ser a parente pobre no âmbito geral da saúde no nosso país. Tem-se falado um pouco mais sobre o assunto, mas em termos de resposta junto da população com doenças mentais que apresenta números preocupantes, continua longe do ideal. Em 2006 foi criado o Plano Nacional de Saúde Mental para ser implementado entre 2007 e 2016 e até agora apenas foi dado o aval para a criação de uma dezena de Equipas Locais de Saúde Mental, num projeto piloto. Já dizia o Professor Miguel Xavier, atual responsável pelo Plano, numa entrevista ao Diário de Notícias, em outubro de 2018, a propósito do Dia Mundial da Saúde Mental: ″A saúde mental não pode andar ao sabor dos ciclos políticos″.

Texto de Patrícia Silva
Fotografia via unsplash e de Luís Carlos

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