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Se as nossas mães tivessem abortado

Fotografia de Pedro Lopes

Os Estados Unidos da América deram recentemente um gigante passo atrás, daqueles que pisam em falso num fosso e preparam um tombo monumental. Reverter Roe v. Wade foi uma afronta aos direitos da mulher e um precedente para um sem números de recuos em matérias de direitos humanos. Este assunto é muito preocupante e potenciou naturalmente um debate aceso à volta do tema por estes lados, onde estamos, para já, seguras – mas sabe-se lá por quanto tempo.

Numa discussão gerada por uma afamada publicação de LinkedIn que aplaudia este recente retrocesso, uma senhora comentava que as mulheres ganhavam agora o “direito à responsabilidade de não engravidarem”. Acrescentava até que “em pleno século XXI, só com falta de responsabilidade é que se engravida”.

Parece-me existir na cabeça daqueles que se intitulam “pró-vida” um arquétipo da mulher que aborta: ela é promíscua, ela gosta de abortar e, aliás, usa o aborto como um método contraceptivo. Abundam pela Internet comentários como o desta senhora, cujo perfil daquela rede social indica ser enfermeira (eu sei, não faz sentido nenhum), cheios de juízos de valor e até de um certo nojo de mulheres que têm sexo. Têm-se dito coisas absurdas e cruéis, como: “Abriu as pernas? Pois bem feita! Agora que crie este filho”, ou até “Ficou infértil depois de abortar? É para aprender.” Mas onde é que andam essas mulheres que adoram abortar? Onde é que estas pessoas vão buscar as suas referências? Uma mulher não gosta de abortar. Querer acreditar nisso é perverso e completamente desfasado da realidade.

O que achei mais curioso foi o que a tal senhora do LinkedIn escreveu, de seguida: “alguns dos que são tão fervorosos no SIM ao aborto, pena as vossas mães não terem tido essa oportunidade na altura”. É irónico que tenha tentado tecer um insulto a quem defende a prática legal e segura da interrupção voluntária da gravidez (IVG). Se o desejamos para nós, porque é que não haveríamos de o desejar para as nossas mães? Carregamos muitas histórias que nos pesam: a da tia que não chegámos a conhecer, que morreu e que deixou o filho órfão; da avó e das suas amigas, que iam abortar no intervalo do trabalho na fábrica; da prima da mãe que era adolescente e ficou estéril para sempre. Uma foi vítima de violação; outra não tinha como sustentar os filhos que tinha; outra, ainda, quis apenas encerrar um ciclo de violência. Estas são histórias de ontem, mas que existem ainda hoje, com a diferença de que hoje uma IVG não é uma ameaça de morte. De resto, são inúmeras as circunstâncias em que uma mulher decide que o melhor para si é não avançar com a gravidez, e não o faz levianamente.

Por isso, é exactamente isso: quem nos dera que as gerações anteriores pudessem ter tido a oportunidade de fazer uma IVG com segurança, condições e apoio. Teria sido tudo diferente, e certamente para melhor. Se isso significa que não estaríamos aqui hoje, pois bem. Seria apenas justo.

-Sobre Catarina Maia-

Catarina Maia estudou Comunicação. Em 2017, descobriu que as dores menstruais que sempre tinha sentido se deviam a uma doença crónica chamada endometriose, que afecta 1 em cada 10 pessoas que nascem com vulva. Criou O Meu Útero e desenvolve desde então um trabalho de activismo e feminismo nas redes sociais para prestar apoio a quem, como ela, sofre de sintomas da doença. “Dores menstruais não são normais” é o seu mote e continua a consciencializar a população portuguesa para este problema de saúde pública.

Texto de Catarina Maia
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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