Nascido em Lisboa, com ascendência em Guimarães, Trás-os-Montes, Coimbra, Viseu e Lourenço Marques, o Príncipe é português e composto por um elemento, Sebastião Macedo, que compõe, interpreta e produz música e letra.

Com formação musical clássica desde os cinco anos, aos oito, já se tinha iniciado em flauta transversal, saxofone e piano. Aos doze anos, despertou interesse por percussão e iniciou formação com especialização em marimba, o que gerou uma mudança considerável na sua perceção musical. Desta rutura, derivou circunstancialmente a atenção para bateria, guitarra clássica, guitarra elétrica, guitarra portuguesa e baixo.

Com uma queda para poesia alimentada desde pequeno, Príncipe surge publicamente em 2013 quando é gravada a primeira canção, “Dois Terços do Que Sei”, que integrou a coletânea Novos Talentos Fnac desse mesmo ano. Em 2016, foi editado o EP homónimo em formato digital e em dezembro do ano seguinte é lançado o disco de estreia A Chama e o Carvão.

Já, em 2021, a 18 de junho, é divulgado o novo álbum Lugares de Memória. Gravado nos estúdios Bela Flor, o álbum tem a produção de João Pimenta Gomes e conta com a participação de Bernardo Couto na guitarra portuguesa. Este tem ainda o apoio da Fundação GDA.

Embalados na sonoridade da guitarra portuguesa, o Gerador esteve à conversa com Sebastião Macedo, Príncipe, sobre este novo projeto Lugares de Memória. Ao longo da conversa, o artista procurou, ainda, refletir sobre o seu trajeto musical e sobre a importância da genuinidade artística.

Gerador (G.) – Antes de embarcarmos para uma viagem até ao teu novo projeto, gostava que me começasses por contar como é que nasceu esta tua relação bonita com a música? Já agora a partir de que fase surgiu a nomenclatura de Príncipe?

Sebastião Macedo (S. M.) – A música surgiu muito no início da minha vida. Fui desde cedo exposto a esta arte, não por minha culpa, mas por vontade dos meus pais. A verdade é que desde aí surgiu o gosto por várias sonoridades. Lembro-me de ser pequenino, tinha 4 ou 5 anos, e de ver um ensaio da Orquestra Metropolitana de Lisboa, quando andava lá, e vi pela primeira vez aqueles instrumentos todos e ataquei logo os de sopro. Lembro-me de estar ao colo de um gajo e de estar com uma tuba, que é um daqueles instrumentos de sopro muito grandes… Acabei por começar com a flauta transversal, mas depois a minha professora faltava muito. Então, aproveitei essa deixa e comecei a experimentar saxofone e arranjamos um emprestado, mas como não o podia ter para sempre e como era um preço muito acima do razoável, para investir num miúdo de 5 anos acabei por o largar. Então, nesse ano, ainda, saltei para piano, depois voltei para flauta com outro professor. Entretanto, ingressei no Conservatório Nacional de Música com flauta, mas um dia fui buscar um gajo mais novo à percussão, e de repente chego a uma sala cheia de instrumentos diferentes e apercebi-me de que podia estar num instrumento e tocar vários simultaneamente. Isto tudo entre os sete e os 12 anos.

Dos 14 aos 15 anos, estive lá em percussão e, depois, como estava limitado, saí. Acabei ainda por ir para a bateria, aí comecei a entrar mais no mundo das bandas do pop-rock, punk, e comecei a aprender todas as outras coisas que naturalmente surgem por espontaneidade como a guitarra, o baixo, etc. Basicamente, comecei a ter várias bandas e às tantas já começava a fazer algumas músicas e alguns instrumentais. Depois comecei a escrever letras. Eventualmente, com as bandas começou a haver a necessidade de compor e comecei-me a aperceber de que era possível, mas, ainda, não tinha bem certeza que era possível fazer isto sozinho. De repente, ouvi um tipo que fazia umas músicas e comecei a pensar que também era capaz. Experimentei e a partir daí começaram a surgir as coisas deste primeiro projeto do Príncipe que até comecei por mostrar a uma pessoa só cinco músicas. Na altura, três mortas e duas mais animadas. Qual foi o meu espanto quando a pessoa gostou da música mais pacata... A partir daí, comecei-me a aperceber de que havia um caminho a percorrer mais pela honestidade e não necessariamente pela vontade de afirmar ou de mostrar. Então, comecei por aí e foi aí, sim, que comecei a arriscar.

O Príncipe.... Estava com um amigo meu que me estava a ajudar a escolher umas músicas e sugeriu Príncipe sueco porque nos meus amigos e na família não há muita gente com este aspeto. Na altura, como tinha muita curiosidade por simbologia, cultura e história acabou por vir da etimologia de Príncipe como princípio, promessa. Era aí que gostava de estar.

Fotografia de Margarida Meneses

G. – Falavas-me, agora, da questão da genuinidade. Sentes que nos dias de hoje quem quer ser artista tem de ser genuíno para singrar na música?

S. M. – Boa pergunta! Acho que há aqui dois mundos que se cruzam, mas que são muito distintos. Um é o de criar, na minha opinião não se cruza com o do consumo de música. No momento em que se cria só se mete no caminho da fluidez e da transparência que se aborda o quer que seja que esteja a surgir. Depois, inevitavelmente, ganha uma outra vida no momento que é partilhada, mas diria que são coisas muito distintas. Acho que o triunfo numa criação não é propriamente o triunfo no alcance que essa criação pode ser. O ideal seria as duas triunfarem, mas se se triunfar numa criação já é bom. É melhor do que fazer uma coisa para alcançar mais pessoas e depois nem uma, nem outra.

G. – Depois do álbum de estreia A Chama e o Carvão, em 2017, lançaste agora o teu novo projeto Lugares de Memória. Este segundo álbum é composto por nove canções originais escritas e interpretadas por ti. Queres nos explicar um pouco o conceito deste segundo projeto?

S. M. – O conceito começa pequeno, mas acaba por ter muitas camadas. O conceito base era criar uma coisa que conseguisse ter todas as dimensões, que nós não reparamos à primeira vista, ou seja, olhamos para uma parede e vemos a cor, depois vemos a textura, depois vemos o material, do material vemos de onde vem... Todas estas dimensões somos capazes de apreender durante um segundo e nem sequer nos apercebemos do resto. Era um bocado o representar de um espaço com todas as dimensões.

Os ouvidos são um sentido muito sensível. Toda a gente que tem audição é muito difícil ignorar sons, então acaba por ser um desafio mais interessante. É tentar deixar-nos envolver sem estarmos conscientes de tudo. A pessoa está dentro, mas não se pode agarrar a nada, mas, ao mesmo tempo, é embalado. As músicas partem todas de um contexto geral, mas depois vão mais para um conceito específico.

G. – A teu ver em que aspetos é que este novo projeto se distingue do anterior?

S. M. – São diferentes... Eu nunca quero repetir nada. Custa-me mesmo repetir o quer que seja. No meu primeiro tinha uma ideia muito específica do que queria passar e tinha mais que ver com uma certa força na vulnerabilidade que encontrava. Há momentos de sensações, de força, que são genuínas, a maioria das vezes, porque ninguém as quer lá. Naturalmente, elas surgem e é uma beleza nisso, na naturalidade e autonomia que elas têm e que pode ser convertida em algo bom. Era um bocado isso que estava a tentar transpor através das sensações. Como tinha uma ideia específica, em termos de emoção, tive de me conter muito em milhares de ideias que tinha. Há uma ligação, mas não há uma tentativa de prisão entre ambos.

No primeiro estava à procura de uma fórmula, no segundo queria desconstruí-la o máximo possível. No fundo, a gramática não difere assim tanto só que estão a ser usados de uma maneira diferente.

Fotografia de Frederico Mira Godinho

G. – O álbum Lugares de Memória conta com a participação de Bernardo Couto na guitarra portuguesa e de João Pimenta Gomes nas modulações e na produção. Sabendo que a guitarra portuguesa transporta consigo a alma portuguesa, a escolha deste instrumento foi propositada para nos remeter às nossas origens?

S. M. – Sim, também! A guitarra portuguesa foi um pouco para manter a textura. Não vi muito pela componente tradicional, mas é engraçado estares a dizer isso. Quando surgiu o nome foi mesmo com a ideia de que nós não conseguimos fugir ao nosso passado. Às vezes parece que é mais real as coisas que já passaram, temos mais consciência delas, do que as que estamos a viver. Nesse sentido, sempre tive interesse em pegar em coisas com muito peso, de experiência e utilidade, para tentar usá-las de uma forma que, ainda, não foi feito. O único instrumento que me veio à cabeça foi a guitarra portuguesa. É partir do que preciso e tentar perceber de que gramática preciso. Eu tinha um amigo que tinha a guitarra portuguesa, pedi-lhe emprestada, mas depois conheci o João que me ajudou a fazer a produzir, a montar, que fez toda a parte eletrónica de modelação, que me arranjou o Bernardo e foi a pessoa perfeita. Para além da guitarra portuguesa, é preciso haver uma alma que encaixe, minimamente, naquilo que se está a fazer. Por muito que seja um instrumento pode soar de maneiras diferentes. A guitarra é alma portuguesa, como disseste, mas como qualquer alma são todas muito diferentes. Era preciso alguém que tivesse umas caraterísticas específicas e o João achou que o Bernardo tinha e foram únicos.

G. – Apesar do álbum só ter sido lançado a 18 de junho já há alguma música com que te identifiques mais, tendo em conta o teu estado de espírito atual?

S. M. – Das músicas que levo até ao fim não consigo escolher nenhuma porque são todas muito específicas, mas é isso cada uma encaixa num estado de espírito diferente.

G. – Caso as pessoas queiram ouvir o novo álbum por onde o podem encontrar nas plataformas digitais?

S. M. – No Spotify, no YouTube... Está em todas as plataformas digitais.

G. – Neste seguimento, caso as pessoas queiram ir além e ouvir o teu novo projeto ao vivo por onde te vão poder encontrar?

S. M. – Se tiverem atentas ao Spotify e ao Instagram encontram sempre lá as datas. Por enquanto, tenho um concerto agendado para 22 de julho, no mercado TimeOut.

Texto de Isabel Marques
Fotografia da cortesia da organização