A pandemia tirou-nos muito, mas também nos deu alguma coisa. Quem não gostava de cozinhar, aprendeu a fazer pão no forno, no micro-ondas e na banheira. Quem não gostava de fazer exercício físico, experimentou o jejum intermitente, mandou vir pela net um tapete de yoga e um pack de produtos sem glúten da Prozis, ricos em proteína, fibra e auto-estima. Quem não gostava de séries, descobriu a Netflix e papou, de enfiada, todas as temporadas de La Casa de Papel.

Já os actores e actrizes, impossibilitados de ir ao encontro de directores de casting e realizadores, aprenderam a fazer self tapes.

Aquilo que era uma prática rara em Portugal, passou a ser essencial na aproximação entre artistas de teatro, cinema, televisão, e os seus potenciais empregadores.

Recebe-se um e-mail com informações sobre o projeto em questão (um filme, um anúncio de publicidade, uma série, uma telenovela, etc), um excerto do guião ou uma cena que se deve memorizar e interpretar para uma câmara, e algumas indicações a ter em conta sobre as personagens e as situações em que estão inseridas. Fora alguns requisitos técnicos, está tudo a postos para deixar o talento fluir. Ou não.

O processo é relativamente simples: na maioria dos casos, basta montar uma câmara – o telemóvel também serve, desde que grave vídeos com alguma qualidade – num local bem iluminado, com luz natural, de preferência. Depois basta usar roupa de cores neutras, escolher um ponto onde fixar o olhar – é importante nunca olhar directamente para a câmara – e interpretar a cena. Se for um diálogo, é sempre bom ter alguém do outro lado da câmara a dar as deixas e, eventualmente, a fazer alguns reparos quanto a erros de texto ou à tensão acumulada nos músculos da testa.

Mas se não houver ninguém disponível para testemunhar o nosso brilhantismo, há sempre um prego desocupado na parede à nossa frente, pronto a ser cortejado, ameaçado, ou abordado com indiferença.

Noutras self tapes são-nos pedidos monólogos que não implicam contracena, às vezes introspectivos e com pouco movimento, às vezes com sequências de acções quotidianas simples, como esfaquear uma almofada enquanto a acusamos de nos ter destruído a família, surfar em cima do sofá, dançar ao som de uma música sensual imaginária, ou abraçar um candeeiro de chão como abraçaríamos a nossa filha de nove anos. Tudo coisas que a maioria dos actores está habituada a fazer à frente dos directores de casting, uma ou duas vezes, no máximo, para depois pegar nas coisas e sair, desejando sorte a quem ainda estiver na sala de espera, prestes a passar pela mesma experiência provedora de memórias felizes e muita, muita humildade.

A vantagem das self tapes é que não há limite de tentativas. Ou melhor, há, mas é o actor ou a actriz que decide quando parar, o que também pode ser um problema.

Quando preparo uma self tape, tenho de lidar com a angústia de não saber quando atingi o número suficiente de takes (repetições da cena). Com cenas que durem mais de dois minutos, sou capaz de levar um dia inteiro até me sentir minimamente satisfeito. Porquê? Não faço ideia. Talvez goste mesmo de coisas inacabadas, feitas à primeira, com erros de concordância e hesitações, que acontecem em noventa e nove por cento das audições presenciais. Talvez o acto de falar sozinho para uma parede se torne ainda mais angustiante por saber que alguém terá acesso às imagens desse momento íntimo e vulnerável. Quando é presencial, o embaraço começa e acaba ali: “Está feito. Se gostaram, gostaram. Se não gostaram, azar o deles.” E sigo em frente. Já com as self tapes, vivo o embaraço de jogar à mímica sem que ninguém esteja a ver, a redundância de ter de avaliar a minha própria performance e o terror de imaginar quem vê aquelas imagens a rebolar no chão, rindo-se da minha figura, coisa que não faria na minha presença, por bom senso, por compaixão, ou por mero cansaço.

Ainda assim, divirto-me muito a fazer self tapes. Afinal de contas, é mais uma oportunidade de fazer aquilo que gosto, com a falsa garantia de que ninguém me está a ver.

Além de poder repetir as cenas as vezes que bem entender, posso fazer com que a câmara só apanhe o que eu quiser. Posso esconder o caos de uma vida do outro lado: um monte de loiça por lavar, o tapete de yoga encharcado de suor, o objecto instável sobre o qual apoio o telemóvel, rezando para que não caia no momento em que me sinto o ator mais merecedor do papel, ou uma crónica por escrever. Choro, grito, gesticulo, canto, falo, repito e, idealmente, a cada repetição, vou aceitando a minha voz, a minha cara, o meu corpo, os meus defeitos, os meus tiques, os meus medos, sabendo que todo esse caos, o que mostro e o que escolho não mostrar, será depois descarregado em formato mp4, visto, avaliado e, eventualmente, esquecido. Ou, se tudo correr bem, será tornado público numa hipotética retrospectiva de carreira ou numa página de Instagram cujo conteúdo se faz de vídeos embaraçosos, embora carregados de inspiração, de artistas em topo de forma.

-Sobre Marco Mendonça-

Marco Mendonça nasceu em Moçambique, em 1995. É licenciado em Teatro pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Estreou-se nos The Lisbon Players. Em 2014, começou a trabalhar com a companhia Os Possessos. Estagiou, entre 2015 e 2016, no Teatro Nacional D. Maria II, onde participou em espectáculos de Tiago Rodrigues, João Pedro Vaz, Miguel Fragata e Inês Barahona, entre outros. Em 2017, trabalhou numa criação de Tonan Quito e fez o seu primeiro espectáculo com a companhia Mala Voadora.  Em 2019, estreou-se como autor e co-criador em “Parlamento Elefante”, projeto vencedor da primeira edição da Bolsa Amélia Rey Colaço. Atualmente, integra o elenco de “Sopro” e “Catarina e a beleza de matar fascistas”, de Tiago Rodrigues.

Texto de Marco Mendonça
Fotografia de Joana Correia
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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