O nome “Selma” significa “aquela que está protegida pelos deuses”, talvez seja daí que vem a voz cantada em vários dialetos e influências que nos faz viajar de Portugal a Moçambique e energizar a alma, e depois o corpo – Selma Uamusse acredita que é a sua fé, e a sua missão neste mundo.

Com 14 anos, convenceu os pais de que Portugal seria o seu ninho de onde voaria, de vez em quando, até à sua terra natal e até outras partes do mundo, não fosse uma artista do mundo. Formou-se em Engenharia, mas foi no gospel que descobriu que também podia ser cantora, partilhando o palco com nomes como Rodrigo Leão, WrayGunn, Cacique’97 e Gospel Collective. Integrou projetos gospel, soul, afrobeat e jazz e homenageou Nina Simone cantando-a. Tudo aconteceu a par com a descoberta de uma voz que foi ganhando cada vez mais notoriedade para se afirmar em nome próprio e mostrar ao mundo um Moçambique das cores, dos cheiros, dos ritmos e daquilo que trouxe da sua infância. Mati – o seu primeiro disco – veio trazer a Portugal, em 2018, uma sonoridade até então desconhecida por muitos e abrir espaço para Liwoningo, em 2020.

Selma Uamusse soma, este ano, 40 anos de vida e 22 de carreira, com um percurso pontuado por momentos que jamais poderá esquecer, e com uma energia em disco, e em palco, que nos dá as boas-vindas a um mundo onde podemos realmente “transformar a sociedade à nossa volta”. Em entrevista ao Gerador, a artista falou-nos sobre estes 22 anos de certezas e um propósito, mas também sobre Deus, fé, música e futuro.

Gerador (G.) – Vieste muito nova de Moçambique, o que trazes da tua infância por lá?

Selma Uamusse (S. U.) Vim com 6 anos e desde então tenho vivido sempre cá, tive um período em que estive lá algum tempo, mas acho que há muitas coisas que me ficam das memórias de infância. As festas de família (tenho uma família muito grande do lado da minha mãe), em que era muito comum e normal as pessoas juntarem-se e começarem a dançar e cantar, é algo que sempre me foi muito familiar. Aliás, durante muito tempo eu nunca me imaginei a ser cantora porque para mim toda a gente à minha volta cantava e dançava, era algo natural. Depois há cheiros, há uma ligação quase que umbilical quando se ouvem determinados sons e se come determinada comida, mas acho que acima de tudo é esta questão da família, das reuniões grandes familiares, da proximidade com a dança e o canto. Essas são as principais referências de infância.

G. – Podemos afirmar que és uma ativista social. Foi no caminho que isso se formou ou sempre tiveste essa voz?

S. U. Acho que sempre estive muito exposta a estas preocupações sociais, muito por causa dos meus pais, que eram pessoas muito ligadas às artes, embora o meu pai fosse engenheiro e a minha mãe, historiadora, mas sempre estiveram ligados a movimentos artísticos e enquanto indivíduos passaram por aquele período de pós-25 de Abril em Moçambique em que ambos deram muito ao país. A minha mãe deu aulas de alfabetização e ambos trabalharam sempre para o Estado e tiveram muitas preocupações sociais. Aliás, a minha mãe continua a fazer muitas coisas e projetos ligados a solidariedade, desde trabalhar com crianças, ou mulheres com HIV, então acho que sempre estive muito exposta a esta preocupação externa, não apenas individual. De uma forma muito consciente, acho que só começou a acontecer, provavelmente, nos últimos dez anos, muito porque comecei a perceber que a pouca ou relativa visibilidade que eu tinha enquanto cantora podia ser muito facilmente canalizada para apoiar determinados projetos e dar voz, para participar de uma forma mais ativa. Acho que foi quando tomei a decisão de ser música a tempo inteiro, porque trabalhava também como engenheira, mas quando tomei essa decisão entendi que dificilmente conseguia trabalhar para ter uma carreira na música se não houvesse um sentido de missão, e esse sentido de missão no fundo é usar a minha voz, e essa voz para mim é a principal razão pela qual eu acordo todos os dias, neste sentido de, através de uma coisas que gosto muito de fazer, que é a música, através da arte, fazer com que não se encerre apenas em mim, e isso passou a ser uma forma de vida. As coisas que faço, faço-as não porque tenho assim algum objetivo de grande sucesso, mas porque é, no fundo, um motor da minha razão de viver, e acho que todos nós buscamos de alguma forma um propósito, e eu tenho encontrado nesta minha forma de viver um propósito.

G. – Já deste aulas e costumas falar para diferentes públicos, o que tentas passar a esses teus alunos?

S. U. Falo muitas vezes para plateias jovens, de várias idades e formações, e acho que, acima de tudo, quando tenho sessões mais de empoderamento ou de passar o meu testemunho, é sempre no sentido de que cada um de nós tem um propósito, cada um de nós tem o seu valor enquanto pessoa, e principalmente enquanto cidadão do mundo. Por isso tento passar que cada um busque o seu propósito, porque quando encontramos o nosso propósito, tudo o resto se torna mais fácil. Eu, enquanto cantora, enquanto pessoa, como é natural tenho questões em que às vezes me sinto insegura ou que não sou capaz, mas o saber que a missão é mais importante que o missionário, por assim dizer, acaba por me fazer acordar todos os dias, e desejar continuar a fazer essa caminhada, mesmo com montanhas e vales, porque não estamos sempre em cima, passamos por períodos menos fáceis também. Para mim, a mensagem para os jovens é que podemos ser, de facto, agentes transformadores na sociedade, e a pessoa não tem de fazer uma viagem espiritual para a Índia ou trabalhar na Mauritânia, podemos ser no ambiente da nossa casa, na nossa vizinhança, no nosso prédio, porque, às vezes, o querermos alcançar grandes causas e muitas pessoas retira-nos aquele lado de maior proximidade. Pura e simplesmente podemos mudar o nosso meio familiar, e depois isso é contagioso, e para mim se há pandemia que deveria ser ultracontagiosa é esta capacidade de ouvirmos o outro, estarmos disponíveis, não com os nossos ouvidos que as vezes são preconceituosos, mas quando encontramos esse propósito, podemos e devemos abraçá-lo para podermos realmente transformar a sociedade à nossa volta.

G. – Li que um dia disseste aos teus pais que achavas que Deus estava a falar contigo. O que lhes querias dizer com isso?

S. U. Foi um momento muito pessoal, de sentir que alguém estava a falar comigo e a dizer, “olha estou aqui, usa-me e deixa-te ser usada”. Para mim, a relação com Deus é muito pouco religiosa, é muito direta, de relacionamento espiritual muito direto, e como é obvio a minha fé, também me faz mover e também me dá esse propósito, porque se eu prego um Deus de amor, de conciliação e paz, quero acreditar que cada um de nós tem essa capacidade. Eu não sou a eleita, todos nós podemos estar ou não disponíveis para cumprir esse propósito e para mim cumprir o propósito de ser um canal de Deus para outras pessoas, é poder trazer alegria aos ambientes onde estou, consciência, poder falar de temáticas mais sensíveis, mas de uma forma construtiva porque é assim que vejo Deus, como alguém que corrige, mas que corrige em amor, alguém alegre, espontâneo, alguém que ouve e fala. Procuro também cultivar todas estas características de bondade e temperança, não por obrigação, mas porque eu sinto que é algo que está em mim e que se não fizer não vou estar satisfeita e vou acordar sempre com a frustração de não saber para onde vou.

G. – Fazes 40 anos e tens dois discos lançados, nunca sentiste aquela urgência de lançar um disco?

S. U. – Não, pelo contrário. Numa fase inicial tinha imenso medo de lançar, porque é uma forma de estarmos expostos também e, na verdade, nestes 22 anos eu comecei logo a fazer coisas muito especiais, comecei a cantar com um grupo de gospel e em 99/2000, ficou um bocado na moda os coros gospel, então fiz imensas coisas como televisão, muitos espetáculos de coliseus, coisas no pavilhão Atlântico, coisas muito grandes. Comecei a fazer parte dos WrayGunn, com uma turnê gigante em França, fui estudar jazz, trabalhei com malta do jazz, fiz imensas colaborações, trabalhei com o Rodrigo Leão e, de alguma forma, criou um peso de responsabilidade em mim e em “quem sou eu, perante todas essas pessoas com quem já colaborei e com quem trabalho, para fazer algo musical?”. O primeiro disco, o Mati, foi assim um parto de quatro gémeos com fórceps. Foi mesmo difícil, porque como tinha muitas influências musicais e muitas referências musicais do meu registo tímbrico, isto porque a forma como eu canto foi-se adaptando a vários projetos. Era como se tivesse várias vozes e de repente encontrar a minha voz era um exercício mesmo duro, doloroso. Mas agora sim, tenho vontade, nos últimos dois anos, e também calhou com a pandemia, fiz imensas canções com muita gente, escrevi letras, fiz melodias, porque tenho muito esta coisas de fazer colaborações, porque, para mim, é mais seguro fazer colaborações com outras pessoas. Quando comecei a encontrar-me a nível pessoal, comecei a perceber que mais importante do que lançar discos, mais importante do que os meus medos era fazer. Sou uma criativa para além desse grande chavão de missionária e gosto de escrever música, fazer canções, e, por vezes, a nossa cabeça e a pressão social de estarmos expostos retira-nos um pouco o prazer disso, mas a minha resposta no fundo acaba por sem “nim”. Sim, tenho muito desejo de fazer, mas é há pouco tempo que me sinto confortável para mostrar o que faço, mas depois quando tomo posse delas, já não as consigo largar. Com estes 22 anos de carreira, o que eu sinto, acima de tudo, é que, ponto número um, tenho de fazer, mas, ponto número dois, provavelmente nunca estarei satisfeita com o que fizer, e isso é bom, porque nos traz sempre mais desafios, o desejo de fazer melhor, e também reduz alguma humildade de saber que precisamos das outras pessoas, mas que também falhamos e fazemos coisas menos interessantes, e isso faz parte do nosso amadurecimento e crescimento é bom. Dá-me algum conforto saber que, neste momento, nada sei. É difícil para quem já trabalhou com muitas pessoas ou fizeram coros, e que sabem cantar, encontrar um caminho identitário musical, é realmente uma odisseia.

G. – Quando lançaste esse primeiro disco, Mati, em nome próprio foi logo em changana e chope. Não era comum ouvir nas rádios portuguesas dialetos como estes, e de repente está em todo o lado e até em festivais. Como dissesses, de uma forma muito vincada, que este era o teu caminho… foi uma responsabilidade?

S. U. – É um marco, mas também uma enorme dificuldade. Há sempre uma certa resistência porque temos uma língua em comum, o português. No princípio estava um pouco em pânico a tentar perceber se as pessoas iam compreender as razões pelas quais eu estava a cantar nas línguas de Moçambique e havia em mim um sentido de urgência e de dar a conhecer Moçambique pelas melhores razões, o património cultural e musical moçambicano é muito grande, e eu senti este desejo de mostrar outras coisas, porque o facto de se estar a cantar numa determinada língua, traz outra musicalidade que é diferente, mas isso implicava sempre eu estar exposta. Por exemplo, para os moçambicanos que me ouvem, ouvem uma miúda a cantar changana com sotaque português, e para os portugueses que me ouvem sou uma miúda a cantar em changana, uma língua que não percebem, mas isso mais uma vez acabou por ser uma mais-valia, assim como o uso dos instrumentos tradicionais e as as capulanas. Eu tinha mesmo este desejo de mostrar um outro lado de Moçambique que não a guerra, a fome, as secas, o terrorismo, as coisas menos boas, e ao mesmo tempo assumir, sim, que canto changana com sotaque porque vivo em Portugal há muitos anos e não falo todos os dias em changana. Há uma musicalidade especial, há todo um povo, toda uma carga e conjunto de polirritmias e polifonias que são muito ricas e que as pessoas precisam de conhecer, por isso, sim, sinto-me um pouco a rasgar. Em Portugal, embora existam alguns músicos como o André Cabaço ou o Costa Neto, o que aconteceu comigo, foi que peguei nos elementos tradicionais e fundi-os com o meu lado mais urbano e ocidental, isso acaba por fazer chegar a minha música a outros quadrantes, e é uma grande responsabilidade. Quando lanço alguma coisa e sei que vão ouvir em Moçambique tenho sempre medo que digam que está tudo mal, e aqui que digam para catar em português, na verdade eu vou explicando e falando e percebo que a musica é uma língua – acho que é mesmo uma língua universal, não uma linguagem –, e quando escrevemos coisas que são pessoais e nas quais acreditamos, mesmo que as pessoas não entendam a letra, elas conseguem senti-la, e é o mesmo quando ouço musica do Mali, do Tibete ou da Finlândia, eu não sei quais são as palavras, mas entendo o sentimento e isso é uma coisa muito bonita e sentimental na musica.

G. – Ainda faz sentido colocar a música em caixas?

S. U. – Não e acho que uma coisa que aconteceu espetacular, é que deixou de haver a label da World Music, que tudo o que não é música ocidental, basicamente. Acho que no tempo em que estamos a viver, uma era superdigital, em que temos aceso um bocado a tudo, em que muitos de nós, e estou a falar de artistas desta geração, vamos buscar muitas coisas à nossa ancestralidade, mas estamos sempre ligados também àquilo que é a nossa urbanidade, e acho que se tem percebido cada vez mais a importância de se valorizar aquilo que está no passado, mas olhar para o futuro. Há uma mescla, uma mistura muito natural de géneros musicais, de fazer música tradicional e juntar eletrónica (por exemplo). Mas claro que haverá sempre determinadas características musicais que farão que uma música pop seja uma música pop e fado seja fado, no entanto, havendo essas categorias, acho que as subcategorias são mais do que as categorias, e acho que isso é muito especial, porque começamos a perceber que, se eu gosto de ouvir musica clássica, mas também jazz , gospel, rock, funk, se calhar, quando eu criar, todas estas influencias, estarão impressas na musica que eu faço. Ou seja, eu não digo que não faz sentido haver estas etiquetas, mas eu acho que as etiquetas vão começar a ficar obsoletas, porque estamos num caminho de fundir cada vez mais essas etiquetas todas e isso percebe-se muito bem na música feita em Portugal hoje em dia como, Pedro Mafama, Dino de Santiago, ou a Rita Vian, são exemplos muito práticos daquilo está a acontecer na transformação.

G. – Sei que és crente, e tens muita fé, como já falámos, é importante trazer fé para a música? Ou a música por si só, é fé?

S. U. – Há pessoas para quem a musica é fé, mas para mim a musica é só mais uma forma de Deus mostrar-se enquanto criativo, porque pode ser através da música, da arte, da natureza, mas, para mim a minha fé – fé cristã – é fundamental em todo o processo, não é a posteriori, nem quando vou para palco, o trabalho vem de antes, de um relacionamento que para mim é muito nutrido, muito cultivado, eu cultivo muito leitura, a oração, para mim é importante viver numa comunidade com a qual eu posso partilhar a minha fé, o meu estilo de vida. Isto tudo faz com que quando vou escrever uma canção, esta seja pela minha fé, quando falo em palco ou estou com alguém a dar entrevistas, são influenciados por esta fé. Então para muitas pessoas a música é o seu Deus, mas para mim é um processo, e por isso há pouco dizia que a missão é mais importante do que o missionário, e o que sinto é que, se não fosse cantora, ou tivesse de deixar de cantar, a minha missão continuaria a ser a mesma, e se calhar eu é que teria de mudar a minha carreira, mas o propósito que acho que Deus colocou em mim, pode ser concretizado através da música. No meu caso, a música não é a minha fé, mas a minha fé faz com que faça música.

G. – Tens algum momento que te tenha marcado durante a tua carreira?

S. U. – Tenho muitos momentos. Já chorei muito em palco e fora de palco. Antes da covid, eu saia do palco e estava com as pessoas e, no outro dia, saí do palco e fui ter com as pessoas e foi um momento emotivo, de estar com elas, de olhar, porque acho que muitas vezes as pessoas sentem que são invisíveis e uma das coisas que procuro fazer nos concertos, através das mensagens e através do olhar e do toque, é torna-las visíveis e dizer que são amadas e especiais, e que são realmente muito importantes. Mas, se calhar, um do momentos que mais me marcou, e é mais atual, foi o 14 de agosto de 2020. Eu estava a ir para Ponte de Lima com o meu marido e as minhas filhas e parámos. Acho que numa bomba de gasolina, e fiquei com as minhas filhas no carro, e o meu manager ligou-me a dizer que o meu pai tinha morrido. Foi uma morte muito repentina, não esperávamos, e eu estava no carro com as minhas filhas, e elas foram amorosas e fizeram assim uma oração por mim para eu ficar mais calma, e eu tomei a decisão a de fazer o concerto. Eu, sendo uma pessoa muito emotiva, não chorei em palco, mas percebi que, independentemente das circunstâncias, o nosso lugar de privilégio , até de vulnerabilidade, ele é válido sempre, teria sido válido eu ter chorado naquele palco, como na altura partilhei com as pessoas, porque é um concerto normalmente com muita vida, muito alegre – e não deixou de ser –, e eu senti imenso calor e carinho, foi concerto cheio, esgotado, mas eu percebi que foi muito importante perceber que, realmente, eu tenho na música um enorme refúgio e eu senti-me muito consolada por ir cantar, por partilhar aquela notícia com outras pessoas, foi um momento realmente muito marcante, estava toda a agente um pouco preocupada comigo, eu estava grávida, ainda por cima, mas foi um momento muito marcante. Tive outros também como a primeira vez em que fui aos Estado Unidos cantar a solo, já tinha ido com o Rodrigo Leão e estado com o Zambujo e com a Celina, mas a primeira vez em que fui cantar em nome próprio ao Central Park, num festival que sempre tinha sonhado. Todo o meu percurso tem sido pontuado com momentos que jamais poderei esquecer, mas que acima de tudo foram proporcionados pelas pessoas que lá estão, por tentar tocá-las com estas mensagens de fé, esperança, alegria e de construção conjunta.

G. – És uma pessoa com muita energia e passas sempre muita positividade em tudo o que fazes, mas em algum momento pensaste, “não é por aqui”?

S. U. – Não necessariamente sobre o que estou a fazer, mas mais “quanto tempo é que isto vai durar”. E o mesmo se aplica a questão da energia, porque às vezes digo aos meus músicos que vamos fazer um concerto mais calminho e eles olham para mim e reviram os olhos porque depois vai-se a ver… já tive concertos lesionada em que tinha tido alguns problemas e intervenções e que eu dizia que ia ser calmo e que não conseguia e, de repente, algo sobe em mim, extravasa e eu não consigo controlar. É um fogo que entra em mim e que eu tenho de alguma forma, não liberto só porque sim, é mais como um transbordar de alguma coisa, e isso claro, faz-me pensar se quando tiver 50 anos vou estar toda elétrica – talvez sim ou talvez não –, mas, como disse “só sei que nada sei”, e isso é importante porque me dá alguma tranquilidade e menos ansiedade, porque sei que se tiver de fazer alguma outra coisa, faço – já houve uma altura em que pensei que ia voltar à engenharia, por questões financeiras por não saber se me ia sustentar no meio de uma pandemia – mas, de uma forma geral, vou-me sentido tranquila, e procuro viver um dia de cada vez. Obviamente sou uma pessoa de planear, tenho uma agenda, escrevo tudo na agenda, mas procuro muito aproveitar cada dia, não como se fosse o último, mas com a importância que ele tem, até as minhas filhas ficam assustadas porque às vezes digo que se morrer amanhã têm de ter a certeza que disseram à mamã que a amavam, e não é viver na urgência de pode acontecer alguma coisa, mas viver na urgência de que hoje pode ser um dia decisivo e podemos transformar a vida de alguém ou ser transformados. Então eu acho que esta minha forma de viver também me retira alguma ansiedade do “o que é que estou a fazer”, “o que vou fazer a seguir”. Também, quem é artista, tem este sofrimento constante, e este sentimento constante, e é aquilo que nos faz ser melhores artistas, toda essa sensibilidade faz sermos mais completos, nunca termos a certeza de que as coisas são garantidas.

G. – Enquanto mulher, ativista, artista, ser humano e tudo o que cabe nestes 40 anos… como imaginas a música daqui a 22 anos?

S. U. – Para já espero estar viva para pode testemunhar, mas eu acho que há duas coisas que já se começam a ver e vão acontecer. Por um lado, vai haver utilizadores ouvintes de música muito mais digitalizados, muito mais ligados à tecnologia. A tecnologia vai passar a ter ainda mais importância e relevância, por exemplo, no que diz respeito ao consumo musical, eu posso estar a fazer um concerto no Coliseu e ele esta a ser transmitido no outro lado do mundo. Acho que isso vai começar a acontecer cada vez mais, mas, por outro lado, acho que as pessoas vão valorizar cada vez mais o contacto direto e os acontecimentos de maior proximidade. Temos visto um crescimento gigante dos festivais, porque as pessoas gostam de estar juntas para ouvir música, tendencialmente e por um lado as pessoas querem ter estas experiências que todos estão a ter, por outro lado a experiência do ao vivo de uma forma muito intimista, também vai voltar a ser cada vez mais valorizada. De resto, acho que vamos continuar sempre a olhar para o passado e a ir buscar coisas e referências, porque é assim que tem sido feito. Eu nasci nos anos 80, sempre odiei música dos anos 80, e eu vejo a geração de hoje em dia a usar essas referências, assim como durante muito tempo fiz muitas coisas tendo como referência musica dos anos 60, então há sempre uma valorização daquilo que está para trás e uma tentativa de dar uma nova roupagem àquilo que os nossos antepassados – e não de uma forma muito longínqua –, também nos deixaram, e isso é bom, perceber que o que está feito para trás é o que nos vai levar a fazer coisas novas. Eu acho incrível como os acordes, as progressões harmónicas, sendo finitas, porque elas são finitas, ainda assim se podem criar melodias diferentes, com palavra diferentes e isso é muito uau (!), não há limites na música, é mais e menos infinito, e acho que essa infinitude vai continuar a acontecer, mas provavelmente vai começar a polarizar-se mais e menos infinito, com mais digitalização, mais pessoas a verem a consumirem, e ao mesmo tempo mais artistas a desejarem terem estes encontros de intimidade. Por exemplo, no concerto que a Adele fez só com amigos, pessoas que lhe são muito próximas, isso é tão bom, alguém que está habituado a encher as arenas todas ter este desejo de estar próximo das pessoas, é incrível.

Texto de Patrícia Nogueira
Fotografias de Rafael Berezinski

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