Passada a euforia da Web 2.0, o que resta? Nos escombros das promessas de democracia total, instantânea e sem lideranças, o que sobrou? Da ilusão de empoderamento partilhado e do fim das hierarquias e do elitismo, o que fica? Solidão, diz-nos Noreena Hertz. Solidão em rede não deixa de ser desolação. Em rede nos odiamos, nos fechamos e nos vigiamos. Em rede berramos, em espirais de fanatismo e vã retórica. Em rede apedrejamos, sem contemplações nem demoras. Tudo será aqui e agora, na gaiola internáutica, ou nada será.

Não acho sequer pertinente a metáfora da bolha cognitiva, pois a bolha é líquida, facilmente se desfaz ou entrelaça. O ciberespaço é hoje muralha, trincheira e ensimesmamento. Exílio e desespero, lembra Shoshana Zuboff. Espiam-nos e espiamos, em jogo voyeurista e distopia ubíqua. A força motriz do capitalismo já não é a velocidade, a volatilidade ou sequer a flexibilidade. É o estilhaçamento das pertenças sociais, a destruição do espaço público e o esmigalhamento da consciência. A autonomia e a autorregulação são hoje os principais obstáculos à acumulação capitalista, logo há que aniquilá-las. O contágio emocional febril das plataformas sociais desliga os sensores que habitualmente animam a reflexividade, isto é, a capacidade de encontrarmos um nexo entre ação e consciência, de procurarmos, dentro dos limites sociais, um rumo para a nossa vida e de termos conversas connosco próprios, em que nos distanciamos de nós mesmos e nos confrontamos com o que fazemos no mundo.

Não se confunda confundam as arenas das redes com o espaço público. Ninguém proclame ingenuamente o niilismo de que um like ou um arremesso verbal vale mais do que a obra completa de Fernando Pessoa. O laço público exige tempo, argumento, verificação e imaginação. Tempo para pensar, mastigar e exercitar o ciclo metabólico da crítica. Argumento para dialogar, acordar e discordar, disposto a vencer, mas aceitando ser derrotado, provisoriamente, pelo melhor argumento. Verificação para testar a adesão da retórica aos factos, pois o mundo da vida preexiste-nos e sobreviver-nos-á. Imaginação para romper o espartilho do fatalismo e ampliar o campo da perspetiva, isto é, do possível. Ora, a rede é instantânea, autorreferencial, opinativa e reprodutora. Tudo começa e acaba ali, como vórtice de dissolução. Ou és na rede ou não existes.

O capitalismo de vigilância é hoje o zénite de um enorme adormecimento e de uma solidão latente. Contactless parece ser o mote do funcionamento social: com o mínimo de interação, através das tecnologias, abdicando do esforço e do prazer da conversa fiada, da gentileza entre estranhos, das sonoridades e odores do bazar, do café, das festas. Um exílio permanente, fora de tudo, fora de nós mesmos. Já estávamos confinados e não sabíamos. Continuaremos confinados, quando a pandemia passar e de novo não daremos conta. Até quando?

-Sobre João Teixeira Lopes-

Licenciado em Sociologia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto (1992), é Mestre em ciências sociais pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade  de  Lisboa (1995) com a Dissertação Tristes Escolas – Um Estudo sobre Práticas Culturais Estudantis no Espaço Escolar Urbano (Porto, Edições Afrontamento,1997).  É também doutorado em Sociologia da Cultura e da Educação (1999) com a Dissertação (A Cidade e a Cultura – Um Estudo sobre Práticas Culturais Urbanas (Porto,Edições Afrontamento, 2000). Foi programador de Porto Capital Europeia da Cultura 2001, enquanto responsável pela área do envolvimento da população e membro da equipa inicial que redigiu o projeto de candidatura apresentado ao Conselho da Europa. Tem 23 livros publicados (sozinho ou em co-autoria) nos domínios da sociologia da cultura, cidade, juventude e educação, bem como museologia e estudos territoriais. Foi distinguido, a  29 de maio de 2014, com o galardão “Chevalier des Palmes Académiques” pelo Governo francês. Coordena, desde maio de 2020, o Instituto de Sociologia da Universidade do Porto.

Texto de João Teixeira Lopes