É visto como um resistente, como o último produtor de teatro de revista em Portugal. Há 55 anos ligou-se ao Parque Mayer e desde aí que o teatro, em especial o género da revista, nunca mais o abandonou.

Atualmente, Hélder Freire Costa é o rosto por detrás do Teatro Maria Vitória e o responsável pela sobrevivência de um género teatral que o levou a cruzar-se com alguns dos maiores atores e atrizes dos últimos anos. Embora olhe com mágoa para o atual Parque Mayer, pela falta de revitalização dos espaços e de apoios, deseja, como empresário, continuar o seu legado e produzir mais espetáculos de revista.

Sendo alguém responsável por uma parte importante do passado da cidade de Lisboa, Hélder Freire Costa é também um homem do futuro. Em entrevista ao Gerador, o empresário realça que mantém a esperança nas novas gerações que tem ajudado a lançar. Só com eles é que o teatro, em especial a revista, pode continuar brilhar. "Essa gente jovem que anda aí passou quase toda pela minha mão, porque demos lugar para eles singrarem e aprenderem com as primeiras figuras para um dia virem a ser eles."

Gerador (G.) — Falando do teatro de revista, o Hélder é visto como um resistente desse universo. Como é que aqui vem parar?
Hélder Freire Costa (H. F. C.) — Eu vim parar ao teatro, primeiro no antigo Capitólio, quando se estava a preparar para uma revista. Era um jovem com 22/23 anos. Era uma vida que eu não conhecia, não estava dentro dela, mas havia algo que conhecia bem, que era a parte de expediente e escritório, que eles mais necessitavam naquela altura. Desde aí que o empresário Giuseppe Bastos, que era quem explorava o cineteatro Capitólio, começou a criar uma certa amizade comigo. Ele, sendo casado e não tendo filhos, começou a achar que eu seria o próximo. Tratava-me como um filho, e isso criou entre nós uma grande amizade e respeito. De qualquer forma, eu singrei como secretário dele e acompanhava toda a atividade teatral e daí a razão pela qual após o seu falecimento, a 11 de abril de 1975, a companhia, já aqui no Maria Vitória, me ter chamado e dizer: “Nós temos um sucesso, é a primeira revista livre do pós-25 de Abril, tu estás à altura, tens de tomar conta disto.” Portanto, costumo dizer que fui um empresário à força. Já ia gostando muito da atividade, de forma que procurei seguir do meu antigo patrão.

G. — O Parque Mayer, até pela sua história, acaba por estar intimamente ligado com o género de revista. O que é que lhe agrada na revista?
H. F. C. — Bem, o Parque Mayer produziu todas as formas de teatro, e eu como produtor já produzi revista, comédia, teatro sério, tudo. Mas aqui no Maria Vitória e, sobretudo, no espaço Parque Mayer, o que sempre teve sucesso foi o teatro de revista. Daí me ter dedicado tanto ao género, ao ponto de já ter produzido mais de 50 espetáculos de revista. E porque o público gosta e corresponde. Repare, talvez nem todos os teatros tenham essa oportunidade, mas o público vem em excursão à revista, do Minho ao Algarve. A revista é muito admirada pela sua essência, porque tem uma mensagem, porque fala daquilo que lhes é querido. Se virem a revista que temos em cena, veem que há uma crítica aos acontecimentos políticos dos últimos tempos, sem ofender ninguém, mas com uma certa inteligência. E isso vai ao encontro do desejo do povo, que antes do 25 de Abril vinha à revista para tomar conhecimentos de coisas que não passavam nos jornais devido à censura. Nos jornais, muita informação só vinha para a rua se a censura concordasse. Na revista, também só se apresentava o espetáculo depois da censura autorizar, mas depois vinham esporadicamente, e nós sabíamos. Aí os atores eram avisados e faziam as coisas de outra forma.

"A revista é muito admirada pela sua essência, porque tem uma mensagem, porque fala daquilo que lhes é querido"

G. — Contudo, a seguir ao 25 de Abril, a sociedade portuguesa polariza-se politicamente e o Vítor Pavão dos Santos escreve até que a “liberdade desorientou a revista”.
H. F. C. — Após o 25 de Abril, o país correu o risco de cair para a extrema-esquerda e houve, a certa altura, o perigo de haver uma intervenção. Na revista, certos autores ao irem um pouco contra essa tendência foram conotados como pessoas da direita, e não era bem assim.

G. — O 25 de Abril e as décadas posteriores contribuíram para a decadência do Parque Mayer?
H. F. C. — A partir do 25 de Abril como começou a existir uma luta partidária no país,os excessos acentuaram-se na revista porque era o teatro com mais poder na altura. Algo que aconteça numa revista, que é vista por milhares de pessoas, tem impacto e as pessoas começaram a saturar-se. Nesse tempo permitiu-se tudo, desde o palavrão à ordinarice, confundiu-se a liberdade, mas isso deu sucesso aos empresários. Só com o passar dos anos é que a revista reencontrou o seu caminho, de crítica política e social e hoje já ninguém a conota com a direita.

G. — Nos dias de hoje, considera que a revista poderá ter perdido a sua utilidade, enquanto género?
H. F. C. — Creio que não, continuamos a ter público. Esta revista que está em cena, levou o seu tempo para se impor, até porque, ao contrário do passado em que as pessoas vinham saber de coisas que ainda não sabiam, hoje vêm para se divertir. As notícias já eles sabem, vêm é ver como é são tratadas no teatro.

G. — Têm existido nos últimos anos tentativas de revitalizar o Parque Mayer e alguns dos seus espaços. Como é que olha para esse processo?
H. F. C. — Eu olho com mágoa, pela simples razão que a primeira coisa a ser tratada foi o Capitólio, que estava completamente degradado e, hoje, quando olho para aquilo é tudo menos um teatro. Primeiro, o edifício já não é aquele brilhante de outras épocas. Depois, porque aquilo não tem condições para fazer teatro. É uma sala de concertos. Isso é o que deviam ter dito e não disseram. Prometeram sempre que era teatro, fizeram a correção para uma sala de concertos. O Variedades está parado, mas segundo sei era para ter sido inaugurado no ano passado. Está prometido como um teatro. O Maria Vitória estava previsto ser deitado abaixo e dar lugar a um novo teatro com mais condições. Mas há uma garantia que eu posso dar é que eu daqui não saio sem ter um teatro para onde levar a companhia.

G. — Numa entrevista que deu falou da lei do mecenato, defendendo que esta deveria ser revista. Tem existido apoios para o teatro de revista?
H. F. C. — Nunca aconteceu nada, as empresas não apoiam o teatro de revista porque consideram que não é teatro verdadeiro. É um estigma. Mas curiosamente, no período da crise eu fui ter com o Dr. António Costa, que era presidente da Câmara de Lisboa, e foi concedido apoio. Quanto ao mecenato, já tive firmas que apoiaram os espetáculos mas com a crise o mecenato abandonou-nos porque não era possível. Havia uma firma importante que deixou de nos apoiar, havia um canal de televisão importante que deixou de nos apoiar e, hoje, eles não estão para aí virados. A lei do mecenato tem de ser bem feita para obrigar as pessoas, quer queiram, quer não, a contribuir com uma parte a favor da cultura, toda ela, sejam livros, cinema, teatro, etc. A cultura não é só teatro e muito menos só revista.

G. — Em conversa com o ator Flávio Gil e com a atriz Marina Mota, ambos acabaram por defender a ideia de que o teatro de revista devia ser valorizado por parte do Estado como património cultural num processo semelhante ao do fado. Concorda com isso?
H. F. C. — Absolutamente. Já dei várias entrevistas em que explico exatamente a razão. Basta a gente pensar um bocadinho: poucos países no mundo têm tradição teatral, depois desses países — que já não são muitos —, poucos têm teatro próprio, e Portugal tem, que é o Teatro Vicentina, que é o teatro de revista.

G. — No qual se mistura a revista que vem da França, não é?
H. F. C. — Não é bem, porque nós temos vários sketches. É bem diferente. Nós aqui temos a Revista à Portuguesa, apesar de eu ter deixado de usar esse termo. Quando eu fui para o teatro utilizava-se esse termo porque vinham sempre com a Revue ou com a revista espanhola. A revista espanhola é um espetáculo à volta de uma vedeta, geralmente uma cantora ou uma pessoa escultural; em França, tem sketch, é certo, mas não como fazemos em Portugal. Dizem que as origens partem de lá, mas não sei se partem... A revista entrou em Portugal em 1851 e foi feita no sentido de ser “A Revista dos Acontecimentos do Ano”.

G. — Aliás, a primeira revista chamava-se Lisboa em 1850.
H. F. C. — E foi estreada em 1851. Foi a primeira revista em Portugal. Nunca teve nada a ver com a revue; nada. É uma forma de teatro com uma crítica essencialmente política e depois com os tempos acrescentou-se a parte social — que também é política, na verdade — , a parte cómica e por aí fora. Mas a revista foi criada exatamente como revista dos acontecimentos do ano anterior.

G. — Mas estávamos a falar da valorização como património...
H. F. C. — Sim, nós entendemos que a revista portuguesa, como uma forma teatral genuinamente portuguesa e admirada pelos portugueses (há uma minoria que não gosta) deve ser estimada pelo Estado e ser tornada de património cultural. Também há estrangeiros que vêm e não percebem nada, às vezes contactam connosco e explicamos, e eles aí entendem por que é que as pessoas se estavam a rir. Mas se fosse uma revista falada em várias línguas, seria património imaterial de certeza, mas é só em português. O fado é internacional porque cantado ou não em português, as pessoas percebem o sentimento e por isso foi tornado património imaterial. A revista baseia-se num texto que só é entendido cá. Mas há uma luta para se tornar a revista pelo menos património nacional.

"A lei do mecenato tem de ser bem feita para obrigar as pessoas, quer queiram, quer não, a contribuir com uma parte a favor da cultura"

G. — A revista tem passado por crises, tal como o restante teatro português, mas acha que se não houver uma forma de reinventar o próprio género pode ter os dias contados?
H. F. C. — Não! A revista é reinventada, nenhuma é igual à anterior. Nos tempos áureos da revista as pessoas vinham ao teatro e até diziam “mas a revista antes era assim e agora é assado?”, porque se repetia números, mas agora não. A revista é criada por inspiração dos que aqui estão, é uma equipa de quatro jovens que escrevem — e daí a minha admiração por eles, porque são de uma inteligência fantástica, cumprem tudo aquilo que eu gosto e que amo. Eu não gosto de um palavrão simples. Não quer dizer que não haja um palavrão, mas tem de haver uma razão. Porque até connosco isso pode acontecer por muito educados que sejamos, e não quer dizer que não haja um dia em que não o digamos. Mas evitar sempre que possível, ter respeito pelas pessoas que se critica e ter inteligência na escrita. Há números desta equipa em que as críticas estão lá, mas de uma forma tão sub-reptícia e inteligente. São um grupo jovem e têm uma forma diferente de pensar as coisas.

G. — Reside aí o futuro da revista, em ter gente jovem?
H. F. C. — Isso foi sempre. Eu devo-lhe dizer que sou conhecido por isso; em toda a minha vida, dei oportunidades aos novos, mesmo quando se entendia que eles não faziam cá falta e eram só para entregar a mensagem. Eu e o Vasco Morgado apresentámos a revista que fez da Marina Mota, do Carlos Cunha, do José Raposo, da Maria João Abreu, do Fernando Mendes, etc., as primeiras figuras, e foi uma aventura naquela altura. O Henrique Santana estava doente, o Camilo estava doente, o outro estava doente, o outro morria, e eu pensava que um dia não havia gente para fazer teatro de revista, e há pessoas que são especialistas nesta área. Eu, na altura, disse: “Vamos lançar esta malta nova que tem andado connosco — já a Marina era atração, o Carlos fazia os terceiros papéis, o Fernando Mendes era um novato na revista — e vamos apostar neles.” A revista A Prova dos Novos foi a mais vista, um sucesso. Mas para fazer com que as pessoas fossem ao Teatro Variedades, fizemos um OVNI que custou uma fortuna! Aquilo vinha com uma grande parte da companhia lá do teatro e parava quase em cima da cabeça dos espectadores, dava um grito na sala, descia uma escada para o corredor e depois dali saía a companhia. Eles todos tiveram um sucesso enorme mas as pessoas vinham atraídas pelo OVNI. Nós tínhamos os mastros todos na avenida com publicidade à revista e conseguimos atrair muita gente. O texto era muito bom, ainda escrito pelos antigos, e esta gente jovem sobressaiu aí e passou logo a fazer coisas na televisão. O Fernando Mendes e o Nicolau Breyner foram logo para a televisão, o Nicholson também levou uma parte do elenco, o José Raposo igualmente, e todos se foram consagrando como vedetas.

 

G. — Essa era uma pergunta que lhe queria fazer também. A revista, e o Maria Vitória especialmente, acabou por ser uma escola daqueles que hoje são os grandes atores dos últimos 50 anos. Como é que era a relação com os atores?
H. F. C. A minha relação com os atores sempre foi boa. Eles tratavam-me como um jovem e sempre com respeito. Eu impus-me sem ter de ser brutamontes ou mostrar que era o patrão; adaptei-me ao sistema e fui com eles, e aprendi muito. Eu não tenho um ator ou atriz dos antigos que não tenha tido uma relação de amizade fantástica comigo. Eu vim para o teatro com 22/23 anos e cá me casei, cá tive filhos, cá vivi. São 55 anos de Parque Mayer. Mas, de facto, sempre apostei na malta nova, e isso deu fruto, porque quando os outros foram desaparecendo surgiu essa nova geração do teatro de revista. Essa gente jovem que anda aí passou quase toda pela minha mão, porque demos lugar para eles singrarem e aprenderem com as primeiras figuras para um dia virem a ser eles.

G. — O que é que espera fazer nos próximos anos?
H. F. C. — Já não sou jovem, mas continuarei a fazer teatro até perder as forças. O próximo ano ainda não está pensado, porque começamos a fechar a nova temporada em fevereiro. Sabe que isto depois também se torna muito difícil para os autores... Este grupo que está aqui agora fez uma revista que foi o Parque à Vista e havia uma razão, porque o Parque Mayer estava a entrar em obras. Houve um período negro que estava a acabar, e essa revista foi um sucesso, paguei muitas dívidas do período da crise. Depois fizeram Portugal em Revista, outro sucesso maior do que o anterior porque era uma revista que abrangia o país criticando humoristicamente tudo o que havia para criticar. Depois fizemos o ParqueMania. E agora esta também, que se chama Pare, Escute e… Ria. Eu gosto sempre de ter um “P” nos títulos, dá-me sorte. No passado, todas as revistas com um “P” fizeram sempre sucesso. Feito esse estudo, eu pedi aos autores para fazerem isso nas que têm escrito.

G. — É um homem cheio de projetos. O que é que gostava de fazer que ainda não tenha feito?
H. F. C. — Já não vou fazer. Aqui há uns anos, tive a oportunidade de fazer uma grande revista no Coliseu, como empresário. Sabe que no Coliseu fizeram-se as três grandes revistas da minha vida, antes de eu vir para o teatro, e talvez isso me tenha feito apaixonar pela revista. Gostava de ter feito isso e tive a possibilidade, mas depois acabei por não o fazer. Agora não consigo, porque o custo é muito alto. Aqui no Maria Vitória quero continuar a fazer revistas sempre diferentes umas das outras.

Esta entrevista integra-se na Semana da Teatro de Revista do Gerador, sobre a qual podes saber mais aqui, que parte da reportagem “Teatro de revista: o diálogo ainda vivo entre o passado e o presente do país” integrada na Revista Gerador 28.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografias de Diana Mendes

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