O ano de 2013 deu início ao trajeto profissional de Sequin, com o lançamento do single Beijing. O ano seguinte ditou a apresentação do primeiro álbum da artista – Penelope foi produzido por Moullinex e lançado em abril desse ano. Sequin, que nasceu a partir de Ana Miró, é descrito pela artista como “projeto a solo de música eletrónica”. Ana é natural de Évora, mas abraçou a capital há cerca de uma década. Estudou Teatro e Canto e passou pelos Recursos Humanos em duas empresas como funcionária.

Entretanto, Sequin percorreu vários palcos pelo país, foi nomeada para o prémio Artista Revelação 2014 e recebeu o prémio Artista Revelação Europeia 2014. Pelo caminho, houve tempo para dar a conhecer mais trabalhos musicais e, mais recentemente, tornou público o videoclipe de Borderline, tema incluído no seu último disco, Born Backwards. No próximo dia 15 de fevereiro, o Centro Cultural Olga Cadaval recebe a artista para um concerto, em Sintra.

Gerador (G.) – Começaste com o teatro, rendeste-te à música e escreves poesia. Como é que entraste no mundo das artes?

Sequin (S.) Entrar no mundo das artes é simples, basta criar alguma coisa e não ter medo de a expor a um público, foi assim que eu me iniciei. Primeiro em casa a cantar para os pais, irmão, amigos e vizinhos, depois na escola e, mais tarde, profissionalmente. Fui sempre criando, quer fosse música, poesia, vídeo... É algo que sinto que é inato a todos, mas para mim sempre soube que teria de ser uma constante importante na minha vida, para me sentir bem comigo própria e ser feliz.

G. – A Ana e a Sequin são pessoas completamente diferentes?

S. A Ana Miró é uma pessoa. Sequin não é uma pessoa, não é um alter ego ou personagem, é só um nome que dou ao projeto em si, para o qual componho, toco e canto música eletrónica. Quando tive de arranjar um nome para o projeto, ponderei usar o meu nome próprio, mas depois pensei que seria bastante limitador, caso decidisse que queria enveredar por outro estilo musical. Então escolhi Sequin, para me distanciar de mim, para não me definir apenas por este projeto e para deixar as possibilidades em aberto.

G. – Em 2016, lançaste o EP Eden, um trabalho “mais intimista e melancólico”, segundo a tua página do Facebook. As tuas músicas costumam ser pessoais?

S. Acho que toda a arte é pessoal e as minhas músicas não são exceção. Eu uso a música como veículo para expurgar o que sinto cá dentro, para fechar ciclos pessoais. Naturalmente, abordo tópicos que são comuns a todas as pessoas, o que faz com que a música e arte sejam tão relacionáveis e acabem por se tornar algo específico para o público, para além daquilo que significam para o artista.

G. – Iniciaste a tua carreira em 2013. As coisas mudaram muito no mundo da música. Quais são as principais dificuldades do mercado?

S. As coisas estão sempre a mudar e ainda bem! A Internet ajudou bastante a que mais e mais pessoas tivessem oportunidades no mundo da música sem terem obrigatoriamente de ser descobertos pelas grandes editoras/promotoras. Isso liberalizou mais o mercado e está a ser, sem dúvida, muito positivo.

Por outro lado, acho que as dificuldades existentes no mercado da música se devem ainda de uma certa resistência dos grandes monopólios e até de algumas pessoas (artistas, agentes, produtores) de aceitarem as mudanças e se adaptarem às novas regras ou novas possibilidades que foram surgindo.

Enquanto artista independente, sinto que a maior dificuldade está em valorizar monetariamente o meu trabalho. A ideia de que quem faz música o faz apenas por puro prazer ainda é algo muito vincado na mente das pessoas.

G. – Foste nomeada para o prémio Artista Revelação em 2014 e recebeste o prémio Artista Revelação Europeia também em 2014. O que é que estes prémios representam para um artista nos dias de hoje?

S. Esse tipo de prémios é ótimo para divulgar a música e fazer conhecer os novos nomes emergentes. Senti-me muito lisonjeada pelas nomeações, senti o meu trabalho reconhecido, e isso deu-me força para continuar a fazer música.

G. – Caracterizas-te por cantar em inglês. Essa escolha tem como objetivo chegar a mais pessoas ou é difícil para ti, enquanto artista, interpretares a tua língua?

S. Sempre fui muito fluente no inglês, sempre adorei a língua inglesa. Quando comecei a escrever para Sequin, o que me soou mais natural foi cantar em inglês, mas anteriormente com outros projetos escrevi em português, francês, inglês e espanhol, ou até mesmo quando colaborei com o Óscar Silva em Jiboia cantei numa língua inventada por mim, que fui buscar ao meu subconsciente. Acho que a língua em que cantamos não deve ser fonte de constrangimento, pelo contrário, deve auxiliar de forma simples e natural àquilo que queremos transmitir. Para mim, a música é uma linguagem por si só, universal e completa. Acho que a essência do que o artista quer transmitir passa sempre, mesmo que as pessoas não entendam o que está a ser dito, é isso que dá à música uma dimensão expansiva e mágica.

G. – Joan Miró partilha o mesmo apelido contigo e foi um artista espanhol surrealista. O surrealismo é uma característica que revês nas tuas músicas?

S. Sem dúvida, para mim a música é algo quase transcendental, muito ligado às nossas emoções primitivas, ao nosso inconsciente e subconsciente, é um meio pelo qual nos conectamos connosco próprios e com o mundo. A minha música bebe, sem dúvida, do surrealismo, mas apenas a música. Ao contrário do Joan Miró, eu não tenho grande talento para as artes plásticas.

G. – O que é que os portugueses ainda têm de perceber em relação à música?

S. Que a música vale a pena, que apoiar os artistas nacionais vale a pena, que o estado da música e da cultura de um país reflete a capacidade ou incapacidade de este se reinventar e evoluir. Através da música podemos aceder a novas ideias, ser confrontados com novos sentimentos, novas maneiras de estar, e isso faz-nos crescer enquanto indivíduos. E quando alguém cresce, crescemos todos.

G. – Consideras que ainda existe estereótipos ou preconceitos em ser-se artista?

S. Claro que sim, ainda há pouco falava da questão da dificuldade de fazer valer financeiramente o meu trabalho. Há muito esse preconceito, velho e retrógrado, de que os artistas são todos loucos e despreocupados, que não zelam pelo profissionalismo. Essa ideia é muito errada, a maior parte dos artistas e amigos que conheço são pessoas muito trabalhadoras, que superam muitas dificuldades.

Mas também há que perceber que os artistas não são máquinas, que a criatividade é algo muito denso e pessoal e que não deve estar a cargo de pressões externas, ou estudos de marketing. Há uma grande pressão para que a criação seja feita ao sabor do mercado e não da interioridade do artista, e depois temos muitos artistas que caem em depressões, ou em dependências variadas. Gostaria num futuro próximo que isto pudesse mudar, que houvesse espaço para a experimentação, que se abrissem horizontes e que houvesse mais compreensão e compaixão.

G. – Quem elegerias como o artista musical português do ano de 2019?

S. Sem dúvida, o artista musical português do ano de 2019 foi o Conan Osíris.

Entrevista por Gabriel Ribeiro
Fotografia cedida pela artista

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