Em 2019, visitei a província de Cabo Delgado que fica no Norte de Moçambique e a visita aconteceu na sequência das cheias que ocorreram depois dos ciclones IDAI e Kenneth que devastaram aquela região, como muitos se devem recordar. Fui a convite da ONG HELPO, uma das organizações que recebeu parte dos donativos que foram recolhidos no evento solidário “Mão Dada a Moçambique”, que quis mostrar o trabalho que estava a ser feito no terreno na área da saúde, educação etc. antes e pós cheias. Durante a viagem, tive a oportunidade de estar também com outras organizações e tive o privilégio de passar algum tempo com uma grande missionária, a Heidi Baker, da organização Iris. Enquanto falávamos do trabalho de amor que a sua organização fazia em Cabo Delgado, da tragédia das cheias e dos ataques terroristas que já aconteciam na altura, eu estava muito angustiada com todos aqueles relatos de fome, necessidade, chacina e violência, e ela percebeu pelo meu semblante que eu me sentia impotente perante tanto para fazer e disse-me com um sorriso profético: Selma you can be the voice of the voiceless… Como poderia eu dar voz a tanta dor pela qual eu não tinha passado e sofrido?

Há relativamente pouco tempo, enquanto assistia a um dos poucos programas na televisão que vejo, os “Príncipes do Nada” – para quem não conhece, retrata a vida dos refugiados no mundo -, uma das voluntárias que dirigia uma casa com meninas refugiadas dizia à Catarina Furtado (mentora do programa e embaixadora da boa vontade do Fundo das Nações Unidas para a População) algo como: “Obrigada Catarina, pelo teu trabalho ao longo destes anos. Nós estamos aqui no terreno e vamos continuar a cuidar delas. Tu, por favor, continua a ser voz daqueles que não têm voz”.

Não estou de forma alguma a comparar-me à Catarina Furtado e ao seu indiscutível trabalho humanitário, estou antes a estender e, cada vez mais, a entender a importância desta missão que ela abraçou, de ser voz dos que não têm voz e que nos compete a todos, se assim o desejarmos, na área de influência que cada um de nós tem.

Numa entrevista esta semana sobre o novo álbum, um jornalista perguntava-me como me senti depois de ter estado em Moçambique na sequência da visita às zonas afectadas e que paralelismo fazia entre isso e o movimento Black Lives Matter/ as manifestações contra o racismo em Portugal . Não precisei de pensar muito e disse-lhe : “Em Cabo Delgado senti-me impotente, triste, senti que o que estava a fazer parecia insignificante, que eu jamais conseguiria sentir na pele aquilo pelo qual aquelas pessoas estavam a passar, mas rapidamente percebi que o meu papel ali era escutar, ajudar e acima de tudo dar voz ao sofrimento daquelas pessoas para encontrar soluções. Transpondo para a situação do racismo em Portugal, o caso era diferente por ser algo bem mais pessoal e por já ter passado por muitas situações que me fazem conseguir calçar muito bem o sapato de quem é alvo de racismo. Vejo muitos amigos indignados e a quererem fazer algo e poderia dizer-lhes – sejam a voz daqueles que não têm voz. Efectivamente, o racismo tem sido um assunto sem voz e muitas vezes silenciado, por estar estruturado e muitas pessoas não sentirem nem na pele, nem identificando alguns comportamentos e pensamentos como racistas: “o racismo conhece o potencial transformador da potente voz de grupos historicamente silenciados”.

Tem doído ouvir e ler muita coisa, como se a existência do racismo dependesse apenas de uma questão de moda, quando o sentimos há anos, ou fosse parte de uma agenda da esquerda, quando à esquerda e à direita vemos o racismo perpetuar, ou sentir a acusação de quem em tudo vê racismo e se autovitimiza… no entanto, alegra o meu coração ouvir e ver outros tantos a serem a voz de quem, como Bruno Candé, já não tem voz.

Enquanto crente, tenho perguntado a Deus o que é que ele quer com esta situação… acredito que como em qualquer família, num corpo, quando há um problema não basta ignorar. Há uma ferida e ela está exposta, precisa de ser sarada, mas para ser sarada, teremos de falar sobre ela e curá-la! Por isso, cito-me e uso aqui a minha voz : não, não vamos para a nossa terra, esta terra é também nossa, ficamos e ficamos em Amor.

Sejamos em Amor, Voz dos que não têm voz.

*Texto escrito de acordo com o antigo Acordo Ortográfico 

-Sobre Selma Uamusse- 

De origem e nacionalidade moçambicana, residente em Lisboa, formada em Engenheira do Território pelo Instituto Superior Técnico, ex-aluna da escola de Jazz do Hot Club, mãe, esposa, missionária e activista social,  Selma Uamusse é cantora desde 1999. Lançou a sua carreira a solo em 2014, através da sua música transversal a vários estilos mas que bebe muito das sonoridades, poli-ritmias e polifonias do seu país natal, tendo apresentado, em 2018, o seu primeiro álbum a solo, Mati.  A carreira de Selma Uamusse ficou, nos últimos anos, marcada pelas colaborações com os mais variados músicos e artistas portugueses, nomeadamente Rodrigo Leão,  Wraygunn, Throes+The Shine, Moullinex, Medeiros/Lucas, Samuel Úria, Joana Barra Vaz,  Octa Push etc. pisando também, os palcos do teatro e cinema.

Texto de Selma Uamusse
Fotografia de Rafael Berezinski
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