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Seremos todos co-dependentes?

Numa situação em que conhecemos cada vez mais pessoas com perturbações e sinais evidentes de cansaço extremo, stress, até mesmo depressão, tendemos a esquecer os seus mais próximos, o agregado familiar que  também faz parte do processo, vivendo e sofrendo com ele.

Chama-se, geralmente, a quem vive ao lado de alguém que está psicologicamente afectado, “co-dependente”. Este não é um artigo para explicar o que é a co-dependência, mas para alertar que esta realidade afecta muito mais pessoas do que esperamos. Mesmo porque são elas que tentam ainda encontrar desculpas, explicações, narrativas para desculpar o comportamento mais complicado do seu familiar ou amigo.

Tal como quem sofre na pele um estado depressivo, e que depois de entendido, admitido, medicado, sabemos que está acompanhado, temos também de olhar pelos que lhe estão ao lado, quem lhes seja mais próximo, e esses podem ser filhos, maridos, pais, sócios, colegas ou amigos.

Também estes sofrem danos a longo prazo porque percebem o sofrimento de quem gostam e são próximos e, quando finalmente chegam à conclusão que não são a resposta ou o possível tratamento, vão-se abaixo.

O co-dependente é fácil de se deixar perceber pelos mais atentos, pois também alteram o seu comportamento, a forma como lidam com as coisas da vida, por vezes até mimetizam o estado pouco saudável da pessoa que lhes é, nesse momento, o centro do universo.

Se pensarmos que, ao lado de uma pessoa em dessintonia, estará outra ou outras a acompanhá-la diariamente, seja a viver sob o mesmo tecto ou a trabalhar no mesmo escritório, começamos a compreender o real drama de todo esse agregado. E, garanto-vos, é um ambiente hostil, tóxico e desolador.

Geralmente acaba mal, pois o desentendimento ou a falta de conhecimento desta realidade encaminha os relacionamentos para um poço sem fundo, enquanto as pessoas envolvidas deveriam estar também sob vigilância atenta e a ser ajudadas porque, aos poucos, também vão ficando, a cada dia, mais ansiosas, tristes e desesperadas.

Mas numa sociedade que só agora acorda para a Saúde Mental, e que ela é afinal parte da vida, é ainda difícil tentar compreender tudo o que lhe está associado. O estigma vai demorar a passar.

A co-dependência é algo que continua a ser menosprezado em todo o processo de quem está a sofrer consequências de uma má saúde mental, e sim, é algo que “se pega” aos poucos e que urge compreender para depois tratar.

Se olharmos à volta, com vontade de perceber e ajudar, depressa descobrimos pequenas transformações nas pessoas que nos estão mais próximas e que pensamos que a sua vida íntima está mais ou menos equilibrada. Se calhar não está. 

E talvez até a nossa própria vida esteja complicada porque o marido está depressivo, porque a mulher não consegue dormir nem descansar, porque o filho está dependente dos videojogos, porque a irmã está a beber mais do que habitualmente, porque um amigo pergunta onde pode comprar “calmantes” sem receita.

Estejam atentos porque podem ajudar. Ou identificar.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Ana Pinto Coelho-

É a directora e curadora do Festival Mental – Cinema, Artes e Informação, também conselheira e terapeuta em dependências químicas e comportamentais com diploma da Universidade de Oxford nessa área. Anteriormente, a sua vida foi dedicada à comunicação, assessoria de imprensa, e criação de vários projectos na área cultural e empresarial. Começou a trabalhar muito cedo enquanto estudava ao mesmo tempo, licenciou-se em Marketing e Publicidade no IADE após deixar o curso de Direito que frequentou durante dois anos. Foi autora e coordenadora de uma série infanto-juvenil para televisão. É editora de livros e pesquisadora.  Aposta em ajudar os seus pacientes e famílias num consultório em Lisboa, local a que chama Safe Place.

Texto de Ana Pinto Coelho
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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