“Ao Vivo no São Luiz” é o primeiro disco de Sérgio Godinho gravado com a Orquestra Metropolitana de Lisboa, inserido nas celebrações dos 50 anos de carreira.  

O disco conta com a particularidade de ser 100% editado ao vivo, como uma forma de “participação mútua com o público”. Este será lançado no próximo dia 20 de novembro, dando uma nova vida às canções que têm acompanhado as últimas décadas do artista.

Em entrevista ao Gerador, Sérgio Godinho falou acerca do novo disco, do misto de emoções envolvidas no voltar a pisar o palco face à pandemia, e de projetos futuros.

Gerador (G.) – O teu novo álbum chama-se Ao Vivo no São Luiz. Trata-se de um conjunto de espetáculos, dados por ti, durante o ano de 2018, no São Luiz Teatro Municipal. O que é que esta sala tem de tão especial ao ponto que seja nela que ocorra esta nova edição?

Sérgio Godinho (S.G.) – É a sala onde atuei mais vezes, e em formatos diferentes também. Foi a primeira sala quando vim a seguir ao 25 de Abril, estive nove anos fora. Ao longo dos anos, tornou-se numa das salas mais queridas. É uma sala onde atuei montes de vezes, e que repito com a minha banda, com os assessores, e também com outras formações. A vertente principal deste disco é a Orquestra Metropolitana de Lisboa, ou seja, a minha interação com a orquestra, coisa que nunca tinha acontecido.

Fotografia disponível via facebook Sérgio Godinho

(G.) Porquê o lançamento numa altura de pandemia? Sentes que a nova edição pode ser de alguma forma uma fonte de esperança para a sociedade?

(S.G) – Eu acho que é positivo que os criadores estejam no ativo e mostrem o seu trabalho. Estes concertos foram gravados em julho de 2018, e estavam na gaveta desde então, esperando uma altura boa para os lançar. O que acontece é que, de facto, antes de começar esta pandemia ele ia ser publicado, mas depois começamos a pensar, como tinha feito concertos no final de agosto e início de setembro, no Teatro Maria Matos, na possibilidade de o lançar agora.

Eu acho que é sempre bom, acho que as pessoas compreendem e também tenho prazer nisso, que mesmo em situações precárias marcamos presença. Por exemplo, os concertos no Teatro Maria Matos começaram quando fiz 75 anos, no dia 31 de agosto, e foi o único que esgotou as salas, embora fosse meia sala. Estavam mesmo com vontade de nos ver ao vivo, apesar da seca de concertos. Mas, claro que é uma altura difícil, mas esperemos que as repercussões sejam positivas.

(G.)   Este álbum tem, ainda, a particularidade de ser 100% gravado ao vivo. Sentes que por ter esta particularidade as pessoas conseguem ter acesso a outras sensações do que se fosse gravado em estúdio? E identificas-te mais com este tipo de gravação?

(S.G) – Eu gosto muito das gravações ao vivo. Aliás, tenho vários discos gravados desta forma. Dá uma nova leitura, as cores sonoras são diferentes. Há sempre um lado de participação mútua com o público, e de risco. Um espetáculo ao vivo, para nós, é um espetáculo de risco. Nós temos de levar aquilo com brilho, energia, emoção até ao fim.

(G.) – O álbum possui 11 canções, muitas delas grandes sucessos teus. O que te levou a escolher essas 11 canções em particular?

(S.G) – Isso é sempre uma dor de cabeça, porque tenho de fazer um alinhamento, apesar de achar que aqui foi diferente. Embora ache que tudo possa ser traduzido para outras linguagens, as canções tinham de condizer com a orquestra, mas isto também é um desafio.

Há duas ou três que canto quase sempre, mas há outras que já há muito tempo não praticava, quase como o beijo da bela adormecida que estava ali adormecido, em que eu dei um beijo e a canção acordou. E eu gosto de pegar em canções que já deixaram de ser.

Para o ano faço 50 anos de carreira, de canções, o meu primeiro disco foi em 1971, e, portanto, imagina o reportório que não havia. Tive mesmo de ser seletivo.  

Fotografia disponível via facebook Sérgio Godinho

(G.) – Na canção “Fotos do fogo” ouve-se o seguinte: “Chega-te a mim/ Mais perto da lareira/ Vou-te contar/ A história verdadeira”. Ao escutar esta música deu-me a sensação de que falas sobre recordações tuas de mais novo com alguém. Podes falar um pouco mais sobre este tempo e sobre estas recordações?

(S.G.) – Isto é uma canção de um soldado que fala com um tipo mais novo, e mostra o seu álbum de fotos de guerra que lhe vai relatando. Quando se está numa guerra a conviver, na camaradagem entre soldados, há memórias que são agradáveis. Mas, como é evidente, ao longo desta canção vai-se destapando, ao fim de contas, onde esteve metido. Portanto, quando ele fecha o álbum de pessoas, no final, é como se já não fosse a mesma pessoa, viveu ali uma coisa traumática. Mas não são memórias minhas.

(G.) – Outra delas foi a música “Só neste país”, em que se ouve o seguinte: “Nós somos os famosos anónimos/ Mesmo assim já cumprimos os mínimos/ Somos todos únicos”.  Isto leva-me a crer que falas sobre os pensamentos do povo português. Podes falar como vês, atualmente, esta canção?

(S.G.) – Esta canção existiu, primeiro, num musical que se chamava “Portugal uma comédia musical”. Na altura, havia muitas pessoas a queixar-se de que só neste país é que… De facto, há coisas que são comuns na crítica a outros países.

É uma canção muito dinâmica, em que a coisa dos “famosos anónimos” nessa peça era como uma frase que estou sempre a dizer: “é famoso por ser famoso”. Aquela fama que é fútil, e absolutamente sem conteúdo, que é daquelas pessoas que são famosas por serem famosas. É uma canção de que gosto e em que quis voltar a pegar.

(G.) – Se te pedisse agora para escolheres uma música desta nova edição qual escolherias? E porquê?

(S.G.) – São todas especiais de maneira diferente, até porque a minha paleta criativa tem muitas cores, e, portanto, eu gosto delas de maneira diferente, e por várias razões. É evidente que uma canção como o “Primeiro Dia” é sempre uma canção que marcou as pessoas, mas eu gosto de outras.

Gosto do “Velho Samurai” por ser uma canção em que já não pegava há muito tempo.  É uma canção que fala de um tipo a quem a vida não correu muito bem, mas que guardou sempre a dignidade.

Eu acho que é muito importante não perder a dignidade mesmo em circunstâncias adversas, e nós sabemos que neste momento estamos a viver circunstâncias muito adversas, não é? Não só economicamente, como a nível de saúde, portanto, estamos numa crise terrível, e é preciso guardar essa dignidade.

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(G.) – Enquanto músico, compositor e escritor sentes que tens algum tema que te seja mais especial escrever?

(S.G) – Eu gosto de falar dos vários aspetos da vida. Olho muito para as pessoas. Ouço as falas delas. Transcrevo coisas que parecem banais. Eu detesto ter etiquetas, não gosto de ser catalogado, porque as minhas canções são de todos os géneros. Há canções que têm um lado social, e até político, há canções que são interrogativas, de percurso, há canções de amor, há canções de desamor. Portanto, gosto mesmo de falar da vida e das pessoas, e das interrogações perante a vida e os seus mistérios.

(G.) – Em entrevista ao “Altamont” afirmavas o seguinte: “eu sempre tive, em qualquer altura, canções mais satíricas, que falam de coisas sérias e que denunciam certas coisas”. Consideras que, teres um tipo de escrita de denúncia, pode, por vezes, trazer-te algumas situações mais complicadas?

(S.G) – Eu vivo num país onde há liberdade de expressão e de criação, mas é preciso não ter medo. Tensões poderá haver, mas nem penso nisso. Eu tenho de poder dizer o que me apetece dizer.

(G.) – Durante a pandemia lançaste um novo single intitulado de “O novo normal” em que se ouve o seguinte: “Escolha bem as audácias/ Refreie essas ânsias/ De beijos e abraços/ Dadas as circunstâncias/ Respeite os espaços.” Isto leva-me a crer que estás a fazer um apelo à sociedade para uma maior consciencialização face ao vírus. Sentes que tens este papel de exemplo perante a sociedade?

(S.G) - Isto é uma reflexão. Eu não tenho um papel de evangelizador das pessoas, mas admito que, ao exprimir a minha opinião e nessa parte da canção do “Novo Normal”, há, sim, um apelo à consciência social. Mantenha as distâncias, respeite os espaços… Há um apelo para os outros, e para mim mesmo. Nós temos de ter todos uma consciência do momento em que vivemos, e não agir disparatadamente em relação a isso. Esta canção foi escrita na altura mais crítica do confinamento em que estávamos saturados do bombardeamento de notícias sobre essa situação. E, eu precisava de exprimir numa espécie de fresco breve destas situações.

(G.) – Depois de meses de ausência do palco, regressaste este ano em celebração dos 75 anos, no Maria Matos. Como foi voltar a pisar o palco face ao novo normal?

(S.G.) – É uma seca de espectáculos ao vivo para nós. No entanto, eu gosto muito do palco, e é ali que a canção cumpre a sua função máxima, a comunicação com o público. Portanto, houve este período todo em que não pudemos fazer concertos, mas no Maria Matos foi muito compensador. Foi mesmo muito bom de se viver.

Fotografia disponível via facebook Sérgio Godinho

(G.) Por fim, há algum projeto teu que ainda gostasses de destacar?

(S.G) – Eu quero continuar a trabalhar. Quero continuar a criar. Quero continuar a praticar os palcos. Estou também envolvido na ficção, e na poesia em que o próximo livro sairá para o ano, com imagens também minhas. Depois haverá provavelmente outro romance. Estou nestas várias frentes criativas. Agrada-me muito mudar de registo, agradava-me não ficar sempre na mesma coisa.

Texto de Isabel Marques
Fotografia disponível via facebook Sérgio Godinho