Acontece-me mais vezes do que gostaria: volta e meia lá estou eu a remexer a mala em busca do passe, do cartão do cidadão, das chaves de casa, ou, nesta fase do ano, do gorro e cachecol que, num momento de interioridade ou aceleração de movimentos, acho por bem desagasalhar do corpo.

Na maioria das vezes a angústia de mais uma perda potencial dura um par de minutos – porque lá acabo por encontrar o que procuro –, mas não me faltam histórias em que o desespero se arrasta até à aceitação do desaparecimento (que pode durar todo um filme de terror).

Neste 2021, por exemplo, vi escapar uma gola preta que me aquecia a estação Outono-Inverno há quase uma década. Ainda não a consegui substituir, por isso o horror da perda continua a assombrar-me, mesmo estando perfeitamente consciente de que se trata apenas de uma peça de vestuário.

2021 também foi o ano em que me convenci de que tinha perdido o passe, e cheguei mesmo a carregar um cartão com 10€, valor que continua imaculado porque o passe reapareceu numa qualquer mala antes mal escrutinada.

Infelizmente não tive a mesma sorte com o cartão do cidadão, substituído depois de dias e dias em busca de um milagre.

Servem os exemplos para terem algum contexto sobre as minhas múltiplas distracções que – já mo disseram vozes amigas – não encaixam na imagem de pessoa despachada e organizada que têm de mim.

Imagine-se, então, o que dirão pessoas que nunca me viram na vida quando, e que já depois de me servirem ao balcão ou à mesa, me vêem aflita a vasculhar a mala.

Aconteceu no início de Dezembro na estação de comboios da Moita. Como não foi uma estreia, assim que percebi que a carteira ficou esquecida no bolso de um casaco (tenho muita prática a reconstituir os passos anteriores a desaparições), preparei-me para acionar o plano MB Way: levantar dinheiro sem cartão é uma bênção para seres da minha espécie.

Parecia estar tudo controlado, não fosse a ausência de uma caixa multibanco na estação, ou ao alcance da minha vista.

Sem alternativa possível, lá partilhei o drama com o senhor do café, que me indicou o caminho para o supermercado ali ao lado, enquanto acabava de tirar o galão. Perguntei se podia beber primeiro, antes de arrefecer, mas o olhar de reprovação congelou-me imediatamente os ânimos.

Ainda propus deixar a mala ali, expliquei que até trazia uns livros porque tinha um compromisso numa biblioteca municipal e, quando já me preparava para dar meia-volta, o único outro cliente presente decidiu oferecer-me o galão.

Agradeci com algum constrangimento à mistura e disponibilizei-me prontamente para ir mesmo levantar dinheiro – teria de o fazer de qualquer das formas – e pagar a dívida, mas o gesto era mesmo irrevogável.

Voltei a agradecer, bebi o galão – o constrangimento não passou –, fui ao multibanco, e dali em diante o dia que já estava a correr bem ainda melhorou.

Espalhar pequenos pedaços do bem

Como teria sido sem aquela intervenção?

Não me faltam episódios de comparação. O mais recente envolveu uma manhã fria e de chuva intensa, um autocarro errado em direcção a Loures – daqueles que quase não fazem paragens –, e um motorista completamente insensível ao meu engano de percurso. Naquela situação, bastaria abrir a porta na paragem em que me apercebi da aselhice e deixar-me sair. Em vez disso, o dono do volante seguiu mais uns bons 25 minutos de estrada – em ritmo pára-arranca próprio de manhãs bem molhadas – até chegarmos à paragem ‘autorizada’. Saí furiosa, apanhei uma molha descomunal (saí de Lisboa com um sol esplendoroso), e ainda desperdicei uma boa hora a maldizer o motorista antes de me recuperar.

Relato isto para ilustrar como todos nós, a cada dia e a cada momento, temos a possibilidade de melhorar o mundo à nossa volta.

À letra do que nos legou o recém-falecido arcebispo emérito sul-africano Desmond Tutu, devemos “fazer pequenas coisas boas onde quer que estejamos”, porque “são esses pequenos pedaços do bem que inundam o mundo”.

Parece simplório – e talvez seja –, mas comprovo-o diariamente nas minhas acções e interacções: os pedaços do bem espalham amor.

Desejo que em 2022 sejamos capazes de os multiplicar, vivendo segundo os ensinamentos de Desmond Tutu. A começar pela consciência de que "toda a nossa humanidade depende do reconhecimento da humanidade dos outros".

*Texto escrito com o antigo acordo ortográfico

-Sobre a Paula Cardoso-

Fundadora da comunidade digital “Afrolink”, que visibiliza profissionais africanos e afrodescendentes residentes em Portugal ou com ligações ao país, é também autora da série de livros infantis “Força Africana”, projetos desenvolvidos para promover uma maior representatividade negra na sociedade portuguesa. Com o mesmo propósito, faz parte da equipa do talk-show online “O Lado Negro da Força”, e apresenta a segunda temporada do “Black Excellence Talk Series”, formato transmitido na RTP África. Integra ainda o Fórum dos Cidadãos, que visa contribuir para revigorar a democracia portuguesa, bem como o programa de mentoria HeforShe Lisboa. É natural de Moçambique, licenciou-se em Relações Internacionais e trabalhou como jornalista durante 17 anos, percurso iniciado na revista Visão. Assina a crónica “Mutuacção” no Setenta e Quatro, projecto digital de jornalismo de investigação, e pertence à equipa de produção de conteúdos do programa de televisão Jantar Indiscreto.

Texto de Paula Cardoso
Fotografia de Aline Macedo
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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