Estamos em pleno Bairro Alto, em Lisboa. Por quem cá passa, à noitinha, sabe que há um som que ecoa pelas suas estreitas ruelas, cobertas por calçada portuguesa. O som do fado. É aqui que permanecem, desde os anos 80/90, algumas das incontornáveis casas de fado lisboetas. Casas essas, como a “Severa”, a “Adega Machado”, o “Café Luso” ou o “Faia”.

Aliás, desde há uns anos, tornou-se um hábito comum frequentar este tipo de casas com dois objetivos. O primeiro, e como diz a expressão popular, para “encher o bandulho” com o melhor da cozinha tradicional portuguesa. O segundo, para obter um outro deleite: o dos ouvidos. Isto porque, nestes locais, costumam apresentar-se fadistas.

Nas casas de fado não há amplificação de som. Canta-se ao natural. Aqui, o silêncio e a intensidade baixa da luz são os elementos-chave para a emoção e para a performance do fadista.  Para quem as visita sabe que há três elementos que definem a sua essência: o símbolo do xaile, uma viola, ou uma guitarra portuguesa, e uma voz. Normalmente, cada fadista canta três ou quatro canções, e fazem-se vários intervalos, durante a noite, para que as pessoas possam falar, e os clientes sejam servidos, sem que isso perturbe os artistas. Aqui, o silêncio é mesmo valioso. Aqui, o silêncio chega a valer ouro.

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Apesar de não haver uma definição pré-estabelecida, para este género musical, dizem que o fado é o fado, que vem de dentro da alma portuguesa. Mas terá mesmo 100% ADN português? Ora, vejamos…

Segundo [1]Vieira Nery (2004), “o primeiro aspeto a constatar na procura das raízes históricas do fado é o de que até ao final do século XVIII não conhecemos uma única fonte escrita portuguesa em que esta palavra seja utilizada com qualquer conotação musical”.

[2]Antes do início do século XIX, a palavra fado era unicamente utilizada com o significado da sua raiz latina fatum – o destino, a sina. Com este significado, chegou mesmo a aparecer em textos de poetas e escritores, como exemplo, o poema de Luís de Camões (1524-1580/ Camões, 1994, 123):

“Com que voz chorarei meu triste fado,

que em tão dura paixão me sepultou.

Que mor não seja a dor que me deixou o tempo,

de meu bem desenganado”

Todavia, e dos vários textos que circulam sobre esta arte, este é um tema que suscita grande controvérsia. A verdade é que não há um consenso sobre a sua origem. Há quem diga que se situa em África. Há quem diga que foi no mundo árabe. Ainda, há quem diga que foi no Brasil, ou mesmo nas comunidades litorais de Portugal continental.

As primeiras referências ao fado de Lisboa remontam às décadas de 1820 e 1830. Em 26 de julho de 1820, nasce Maria Severa Onofriana. A partir daí, o fado ganhara, então, a sua emblemática “figura fundacional”: a Severa.

Fotografia disponível via Brito (1994, 142)[3]

Já no ano de 2011, o fado enquanto canção urbana de Lisboa, símbolo identitário da cidade e do país, foi classificado pela UNESCO como Património da Humanidade.

Ainda assim, se tudo parecia a estar a correr bem, nos últimos anos, para o lado do fado, nos últimos meses viu-se de voltas trocadas. Lembram-se do silêncio de que falávamos há pouco? Se antes era valioso, agora, tornou-se num pesadelo.

Com a chegada da pandemia a Portugal, em março de 2020, também o setor das casas de fado foi um dos grandes afetados. Com os sucessivos confinamentos, as casas não resistiram e encerraram. Até à data, não há previsão de reabertura. As luzes apagaram-se. Os artistas deixaram de atuar. Para muitas, o fecho já foi, praticamente, há um ano.

Um destes exemplos é a casa de fados “A Severa”. Com 66 anos de serviço, é um dos estabelecimentos mais antigos da cidade lisboeta, que permanece na mesma família, contando, já, com três gerações diferentes. Maria Alexandrina é uma das donas, da última geração.

Começa por recordar o processo do fecho do estabelecimento. “Isto foi uma coisa tão rápida. Na primeira semana de março começámos a notar uma quebra, na segunda ainda mais… Isto foi uma coisa de 15 dias em que, de dia para dia, foi mais e mais. Na véspera da gente fechar não tivemos um único cliente. Foi o fecho. Foi uma noite sem ninguém. Foi a última noite que estivemos abertos em março. E, atenção, a única vez que tínhamos encerrado assim foi por motivo de obras, e só foi por durante seis meses.”

Fotografia disponível via facebook "A Severa"

Acrescenta, ainda, que houve uma tentativa de reabertura, nos meses de verão, e inícios de outono, nomeadamente em agosto, setembro e outubro. Ainda assim, mais uma vez, a casa acabou por não resistir. “As despesas são muito altas com a casa aberta e não havia clientes”, declara.

Maria admite que percebe a decisão de quem já não frequentava a sua casa, com a chegada da pandemia. “Fisicamente, as nossas casas são muito fechadas. Nós não temos porta aberta para a rua. Via-se que as pessoas preferiam restaurantes, esplanadas. Além disso, o nosso cliente não vinha e, muito menos, com os hotéis fechados. Foi um conjunto de fatores que originou isto.”

Quando questionada sobre os apoios, refere que  “A Severa” apenas arrecada os “apoios gerais, que toda a gente recebe, porque nós não temos apoio só para as casas de fado.”

Para esta, a lei deveria ser revista. “Não está claro, na lei, o nosso estatuto. O fado é património imaterial da humanidade, mas, na prática, depois não se fez muito mais. Falta legislação, falta sermos protegidos porque para termos assim uma casa aberta temos muitos impostos a pagar. Temos de pagar a licença de autor, recinto de espetáculo, pagar a artistas… E existem muitos estabelecimentos parecidos ao nosso que não pagam nada disto. A lei não é clara. Temos uma concorrência muito desleal. A gente não teme pela concorrência, queremos é que os outros estejam no mesmo patamar.”

Ademais, exemplifica, “o nosso restaurante enquanto atividade continua a ser um restaurante típico. Não existe uma denominação para os nossos estabelecimentos. Nós não somos um restaurante. Nós somos uma casa de espetáculos em que o nosso principal objetivo é vender o fado, e, em complemento, vendemos a refeição. Mas o objetivo das pessoas que vão lá, de facto, é o fado. Mas na lei não estamos protegidos nesse sentido. Falta-nos uma legislação que complemente essas exigências.”

Completa, ainda, que já estão a ser tomadas medidas nesse sentido. “Entretanto, formámos uma associação com as casas de fado de Lisboa. Somos cerca de 15 casas de fado, em que nos unimos para ver se conseguimos todos juntos melhorar esta parte da legislação. Se o fado continua a existir foi graças e através das nossas casas. Ele agora tem fama, mas o fado sempre existiu. Muitos dos artistas, se são hoje conhecidos, foi graças a nós.”

Um artista assíduo desta casa é Natalino de Jesus. Fadista há 35 anos, a nível profissional, trabalha n’“A Severa” há, pelo menos, 25 anos. Confessa que está parado, praticamente, desde o ano passado. “Houve uma tentativa de abertura no verão, três dias por semana, mas realmente com a situação tivemos de fechar. À semelhança de todas as casas de fado, o drama tem várias vertentes. Uma delas é a parte monetária, muito embora a Severa não nos tenha deixado sem condições, mas há uma parte principal que é o deixar de cantar com o público. As palmas. É o ouvir das guitarras. É tudo isso que nos falta. Eu nunca pensei estar a passar por isto.”

Ainda assim, revela que nem tudo foi negativo, com a chegada do confinamento. “Isto levou-me a valorizar mais as pequenas coisas. O contacto com as pessoas, a conversa, o abraço, o ambiente, tudo o que envolve o fado. Agora, claro que é uma situação muito ingrata para os donos das casas de fado, para os proprietários, como para os artistas. Não há nem uma coisa nem outra. Eu agora tenho-me ocupado a tratar do meu disco para não me sentir paralisado. Mas faz-me falta a música. Faz-me falta o fado. Espero que isto volte rápido. Depois dos três meses, quando houve a reabertura, mal entrei, fiquei comovido, tinha vontade de chorar.”

Fotografia disponível via facebook Natalino de Jesus

Neste seguimento, não esconde o desejo de voltar à sua atividade normal. “Eu sou um otimista. Sou muito sentimental. Comovo-me com muita facilidade. Eu creio que vamos retomar. É impensável para mim pensar, sequer, que não vamos voltar à normalidade. As casas de fado vão voltar a encher. Os estrangeiros vêm a Lisboa para ver a nossa arte e nós temos essa responsabilidade de levar a nossa identidade que, por sinal, é boa e forte.”

Em igual situação está a casa de fados o “Faia”. Com as portas abertas desde 1947, Pedro Ramos, atual proprietário desta casa típica, começa por contar a realidade “diferente” que a pandemia lhes proporcionou.

“Nós, no primeiro período, fechámos quatro meses, de 16 de março a 16 de julho. Entretanto, abrimos no verão e ainda houve um mês interessante que foi o mês de agosto, principalmente, com os emigrantes que acabaram por ser os clientes principais. Mas agora com o aumento dos números, percebemos que não era possível continuarmos abertos. E assim foi. Da primeira semana à segunda de novembro decidimos encerrar.”

Para este, a questão do encerramento em nada se relaciona com o medo dos clientes em visitar a sua casa. Mas, sim, com a perda do poder de compra destes. “As pessoas sentiam-se seguras, sentiam que estávamos a cumprir as normas, e não tivemos nenhum episódio em que as pessoas não se sentissem seguras. São tempos complicados porque as pessoas perderam poder de compra, e não ir a uma casa de fado acaba por ser uma decisão. Apesar da cultura ser segura, os restaurantes serem seguros, o que é facto é que não sentimos esta confiança ao nível da economia, por se retrair muito. Portanto, a conjugação das duas coisas acaba por ser dramática para quem tem negócios abertos.”

Explora, ainda, a realidade do online a que muitos dos setores da cultura se conseguiram readaptar. “Ao contrário de vários espaços, não tivemos essa tendência. O ambiente que se vive numa casa de fado é muito difícil de se passar por outros meios, que não sejam a presença. Eu acho que é mesmo na intensidade do ao vivo que nós conseguimos ganhar clientes, ganhar gente nova.”

Fotografia disponível via facebook o "Faia"

“Há imensos casos de jovens que vão pela primeira vez a uma casa de fado e ficam fãs pela energia que cá se vive. Essa energia não passa nem na televisão, nem nos CDs, nem nos discos, nem no online. Portanto, isto é uma grande dificuldade acrescida que nós temos”, acrescenta.

Tal como Maria Alexandrina, apenas recebe os apoios gerais da restauração para uma estrutura que conta com 25 pessoas.

Uma destas pessoas é António Rocha. Fadista profissional há 63 anos, carateriza-se como uma pessoa que “canta como respira”. Começou há “20 e picos anos” na casa de fados o “Faia”, e, até agora, nunca tinha tido parado de exercer esta arte.

Fotografia disponível via facebook o "Faia"

Aos 82 anos, António revela que as expetativas que tem são as do dia a dia. Admite que percebeu a decisão de encerrar as portas, uma vez que “são casas que dão despesas muito grandes e, se não há clientes, mais vale fechar. A casa sem turistas é muito difícil aguentar-se.”  Ainda assim, sonha com o dia em que esta casa possa voltar a reabrir, “para que continue a lá atuar, até ter voz, para defender a nossa canção.”

Maria Alexandrina, Natalino de Jesus, Pedro Ramos, e António Rocha são apenas quatro exemplos, face ao panorama geral, para quem o futuro não passa de uma grande incógnita. Até à reabertura das casas de fado resta, sim, como refere Maria Alexandrina, “ajudarmo-nos” e aguardar que o dia de amanhã seja diferente.

“O que interessa é sentir o fado. Porque o fado não se canta, acontece. O fado sente-se, não se compreende, nem se explica.”

Amália Rodrigues


[1] Nery, Rui Vieira. 2004. Para uma História do Fado. Lisboa: Público

[2] Rosal, Cristina. (2018), p.285. Silêncio que se vai cantar o fado…

[3] Brito, Joaquim Pais de (ed.). 1994. Fado: Vozes e Sombras. Lisboa: Museu Nacional de Etnologia.


Texto de Isabel Marques
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