Num momento especialmente difícil para o circuito nacional de concertos, são muitas as iniciativas que têm tentado inverter a tendência, demonstrando que o ano foi também ele produtivo no que diz respeito ao surgimento de novos projetos musicais. É nesse âmbito que o ciclo ‘A Vida Continua’, programado pela Galeria Zé dos Bois (ZDB), em Lisboa, nos dá a conhecer, esta sexta-feira, dia 18 de dezembro, Maria Bentes aka Silly, jovem artista que se irá apresentar, pela primeira vez ao vivo, em formato de concerto.

A partir de influências que vão do hip hop, ao jazz, passando pela bossa nova, Silly terá a oportunidade de apresentar os seus primeiros singles, que são reflexo do desdobramento artístico que tem vindo a fazer ao longo dos últimos meses. A partir do seu próprio espaço íntimo de criação, a artista esteve à conversa com o Gerador sobre o processo de composição dos seus temas, onde cada vez mais a escrita ganha igual destaque face à produção musical onde tem vindo a investir.

Nesta sua “apresentação do rosto”, Silly fala-nos também de como viveu estes últimos meses, em que acabaria por ganhar confiança para lançar publicamente as suas canções e que, em última instância, lhe garantiram um concerto numa das salas mais icónicas da noite lisboeta. “Vai ser um showcase de 30 minutos e acho que vai ser muito especial. Espero que as pessoas não sintam que há palco e público, e que, pelo contrário, sintam que vamos estar todos ali na mesma comunhão”, sintetiza.

Gerador (G.) – Começo por te perguntar como é que surge este projeto, de nome Silly, e de que forma é que ele se confunde contigo, Maria Bentes?
Silly (S.) – Vou tentar explicar da maneira menos confusa, porque na verdade como, até agora, tudo tem acontecido de uma forma tão candente e orgânica para quem está de fora do processo, fica difícil perceber como é que isto aconteceu aqui e ali. Eu estudei música e há pouquíssimo tempo comecei também a escrever. Acho que foi a partir desse momento, em que eu comecei a associar letras às criações musicais, que nasce a Silly, ainda que o nome não tivesse sido muito pensado. Na verdade, foi mais um acaso, porque, na altura, quando partilhei um primeiro tema — numa cena super low fi, apenas no Soundcloud — partilhei no meu Instagram, cujo user name era e é @sillybentes. Ou seja, quando as pessoas se dirigiam a mim, normalmente utilizavam o Silly, algo que decidi passar também para a música. Fui quase que batizada nesse sentido. A partir daí continuei sempre a escrever e a compor em casa e fui tentando tornar as coisas um bocadinho mais sérias, sendo que é nisso que tenho estado a trabalhar. Mas claro, o ponto de partida inicial, como se fosse mesmo data de nascimento, foi em abril deste ano, quando lancei o meu primeiro single, "além".

G. – A música já estava presente antes disso?
S. – Sim. Eu, aos 12 anos — e isto é super clichê —, comecei a tocar guitarra, como quase todos começam. O meu pai tocava e, então, comecei a ter aulas, sendo que também tinha partes de formação musical. Mas depois quis dar o pulo à frente e comecei a estudar piano, que me permitia fazer um teste para entrar no Conservatório. Felizmente, consegui entrar no terceiro grau e tive lá três anos. Fiquei com o ciclo básico de piano na vertente clássica, mas que foi muito importante para mim em termos de técnica, à parte que em casa houve sempre muita música e muito trabalho de exploração. Entretanto, vim para Lisboa, deixei de estudar música, mas não deixei, continuei a criar.

G. – A verdade é que hoje há uma maior facilidade em se fazer música a partir de casa, com relativamente poucas ferramentas. Vemos cada vez mais casos bem-sucedidos de músicos que começaram a criar nos seus quartos. Sentes que existe esta abertura e maior facilidade?
S. – Em parte sim, porque, como disse, tudo aquilo que está cá fora até agora são coisas que partem daqui do espaço onde estou. É algo intimista, feito com um computador, uma interface, um teclado, papel e caneta. Mas depois tenho outra parte de formação musical que também me ajudou imenso nisso. É verdade que há hoje imensos produtores que são brilhantes, nacionais e internacionais, mas que têm zero formação musical e esse cenário é incrível. Mas pronto, nessa parte tive mais facilidade, porque quando parto para um teclado sei que aquela tecla é um fá sustenido, isto é, há um corta-mato que é feito. Mas sim, sem dúvida, é algo que estamos a ver acontecer todos os dias, até pela quantidade de artistas que vão surgindo.

G. – Como já referiste, em abril lançaste o teu primeiro single, “além”. Como é que foi o processo de criação deste tema? A pandemia teve algum efeito na sua criação?
S. – Não e, por acaso, é uma história engraçada porque, na verdade, o "além" já estava escrito, gravado e trabalhado desde outubro de 2019. Desde aí que ia ouvindo, mas sempre com aquela sensação de "não sei se"... então o que acabou por suceder é que houve quase uma maturação da canção. Um processo em que, de outubro até abril, a canção esteve a crescer em mim, mas não lhe mexi. Durante a pandemia não fui muito criativa, ao contrário de muita gente, porque em fevereiro fui para Bruxelas trabalhar e estando lá foi mais complicado produzir ou gravar. Mas acho que foi uma das razões que me fez lançar o “além”, de pensar que o pessoal estava todo em casa e ninguém me ia apanhar na rua e dizer que o som estava incrivelmente bom ou mau. Portanto, foi numa de lançar sem expectativas. Percebi que a canção para mim já fazia sentido, logo lançá-lo seria só deixar que mais duas ou três, ou 40 ou 50 pessoas a ouvissem.

G. – Mas mais recentemente lançaste um outro tema, “intencionalmente”, que já surge neste período?
S. – Aí foi um processo completamente inverso, em que quase não houve maturação. Eu já toco há imenso tempo, mas na parte de produção estou a querer focar-me mais nisso para conseguir fazer e aperfeiçoar o processo do 0 ao 100. Foi nesse sentido que me aventurei a fazer alguns beats simples — quase em loop — que depois mandei a um amigo para que pudesse ter outro par de ouvidos. Na piada, ele disse-me que devia gravar a minha voz em cima da faixa, algo que nunca tinha pensado porque estava a fazer um instrumental só mesmo para treinar. Mas, dias antes, tínhamos estado a falar da dificuldade que sinto quando começo uma canção e acho que está a ir incrivelmente bem, mas depois há qualquer coisa que não me deixa acabá-la. Pode ser uma questão de gestão de tempo ou de prioridades ou de ficar superentusiasmada com uma coisa e, no momento seguinte, achar péssimo.... Estava a desabafar sobre isso e ele disse-me para lhe enviar no dia seguinte a canção com uma letra gravada. Deu-me um deadline, basicamente, que é algo que eu tenho de começar a fazer para mim própria. Então, sentei-me e comecei a escrever e à noite já lhe tinha enviado tudo gravado. 

G. – Numa foto que publicaste é possível ver, aliás, o poema onde cada letra da palavra, ‘intencionalmente’, serviram para o início de cada verso.
S. – Isso surgiu a partir do momento em que ele me deu o deadline e pensei — «calma, tenho de aprender a gerir o tempo; como é que agora vou escrever uma letra?». E depois comecei, já não me lembro exatamente como foi, a perceber que o início de cada frase estava a ir com um 'i' ou um 'n', daí ter começado a pensar naquilo que queria dizer com o início de cada letra da palavra. Isso também me ajudou, porque depois já tinha quase uma estrutura por onde me podia guiar.

G. – Estes primeiros temas realçam algumas influências sonoras, que vão do jazz ao hip hop. Tens algumas influências que gostasses de destacar?
S. – Fico sempre na dúvida com a pergunta das influências musicais porque, honestamente, é muito difícil dizer o que é que me influencia, até porque acho que, se calhar, há imensas coisas que me influenciam e que eu não sei. Não é um processo consciente, de gostar muito de um artista e querer seguir aquela linha ou seguir partes do seu trabalho. Mas sim, sem dúvida que gosto muito de hip hop alternativo, nem que seja pela forma como escrevo mais em rima e em verso, numa coisa que é mais falada do que cantada. Sem dúvida o jazz, bossa nova, R&B também. Ouço imensa música popular brasileira, acho que me influencia nalguma sonoridade que tenho. Há uma artista que eu gosto imenso de Chicago, que é a Noname. Ela influencia-me não só porque a oiço muito, mas também pela maneira como ela se exprime.

G. – Recentemente, participaste também na última edição da revista FOmE, com um poema teu inspirado numa série fotográfica da Ana Isa Férias. Como é que encaraste este desafio?
S. – Para mim, foi muito especial receber este convite e também foi a primeira vez que me propuseram algo assim. Foi um exercício importante para mim em termos de escrita, mas também facilitado, porque as fotografias da Ana são maravilhosas.  Ultimamente, tenho-me encontrado na palavra e nalguma verdade que as palavras também carregam. Por isso, tem sido fácil exprimir-me através de versos, da poesia, da prosa poética, do que seja. E claro, se eu já tinha essa paixão com a música, começar a escrever acho que veio dar uma nova vida ou quase sublinhar aquilo que a música me dizia ou que eu gostaria de transmitir. Claro que eu estou a começar e isto é apenas um princípio, mas acho que uma das coisas que eu vou sempre assinar nas minhas criações artísticas será o peso da palavra. E o escrever em português que, para mim, é importante. Às vezes, é um desafio, mas que me tem mostrado e revelado coisas que eu, se calhar, não conhecia em mim. Isto para dizer que nas minhas canções, o destaque que der à música também vou querer dar à palavra.

G. – É natural que este processo de criação possa desaguar num trabalho discográfico?
S. – Gostava de responder que sim. Um álbum parece-me demasiado ambicioso para já, mas um EP, sim, talvez no próximo ano, sem grandes promessas. Quero muito que isso aconteça e vou começar assim que possível a trabalhar nisso.

G. – Entretanto, esta sexta-feira, dia 18, vais atuar na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa. Como é que surgiu esta oportunidade?
S. – Tinha começado a entrevista a dizer que é tudo uma cadência de acontecimentos improváveis e orgânicos no sentido em que têm acontecido de uma forma natural. O convite da Galeria Zé dos Bois foi outra feliz coincidência... talvez por um artigo que saiu no Rimas e Batidas e que tenha sido a plataforma para alguém da ZDB ouvir. O convite surgiu e eu fiquei com a responsabilidade de aceitar ou não, mas também o medo ou a ansiedade que eu tenho para sexta-feira, tenho na mesma quantidade em vontade de subir ao palco e de me apresentar. Portanto é um mix entre medo e vontade.

G. – E o que se pode esperar desta primeira apresentação ao vivo?
S. – Este é um ciclo de concertos intimistas que a ZDB está a organizar, a que chamaram ‘A Vida Continua’, com apenas 20 lugares de público, sendo que neste meu projeto vai fazer imenso sentido, por ser um espaço mais acolhedor e com pouca gente e também porque ainda estou no início, sendo mais fácil expressar-me dessa forma. No concerto, sem dúvida que vou tocar essas duas músicas e vou fazer também uma versão acústica do “além” só em piano. Vai ser um showcase de 30 minutos e acho que vai ser muito especial. Espero que as pessoas não sintam que há palco e público, e que, pelo contrário, sintam que vamos estar todos ali na mesma comunhão.

G. – Acaba por ser um feliz acaso com todas as restrições que os concertos enfrentam que este seja, necessariamente, mais intimista?
S. – Sim. Obviamente que no início do ano nunca pensei que esta semana estaria a dar um concerto, nem há um mês. Mas que a ser, que seja assim e é incrível que as coisas estejam a surgir desta forma. Foi um acaso feliz, que haja menos pessoas, mas espero que haja também uma maior conexão entre todos e espero estar à altura do desafio.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografia da cortesia de Silly

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