Natural da província da Zambézia, em Moçambique, Simbraz Roberto era ainda uma criança, no 4.º ano, quando descobriu a sua verdadeira vocação: a arte da pintura. Na altura, ciente de que não possuía as condições financeiras necessárias para adquirir os materiais de pintura, ao contrário dos outros meninos, era através do auxílio do carvão e das pétalas das flores, que colhia, que executava a sua arte.

O tempo passou e a convicção de se tornar um pintor reconhecido permanecia. Assim sendo, no ano de 2013, decidiu partir até à cidade de Maputo em busca do seu sonho. Surpresa das surpresas, quis o destino que em 2020 conseguisse integrar o Núcleo de Artes, de Moçambique. No entanto, quando tudo parecia encaminhado algo haveria, novamente, de mudar o seu rumo: a chegada da covid-19 à região.

A verdade é que com a chegada da pandemia, o núcleo que integrara recentemente acabou por encerrar. Consciente de que tinha dois filhos e uma mulher para sustentar, restava-lhe encontrar uma solução.

Nos dias de hoje, essa alternativa passa por percorrer cerca de seis quilómetros diariamente a pé para conseguir vender a sua arte, já que não possui qualquer tipo de transporte pessoal. A ideia é assim sensibilizar os jovens moçambicanos, através dos seus quadros, e despertar o interesse de possíveis contactos.

Por intermédio de um computador de um amigo português, e após ter percorrido quilómetros a pé para o aceder, o Gerador esteve à conversa com Simbraz Roberto sobre a adaptação da venda ambulante face à chegada da pandemia. Ao longo da conversa, o artista procurou refletir acerca do seu percurso de vida e sobre a valorização da arte em Moçambique.

Gerador (G.) – O percurso pelas cores começa na província da Zambézia, onde nasceste, mas é a vontade de triunfar como profissional que te levou até Maputo em 2013. Recentemente, em 2020, juntaste-te ao Núcleo de Artes. Simbraz queres começar por contar como é que começou esta paixão pela arte da pintura?

Simbraz Roberto (S. R.) – A paixão começou desde pequeno. Comecei-me a aperceber dela na 1.ª classe, quando sabia mais desenhar do que qualquer outra disciplina. As professoras tentavam ensinar, mas eu só compreendia a arte do desenho. Depois, comecei a sentir que tinha alguma coisa a puxar-me para esse mundo quando comecei a usar carvão para pintar os cadernos que levava para a escola. Lembro-me bem da minha mãe ficar chateada porque eu chegava sempre com os cadernos sujos. Desde então eu nunca mais parei… Aliás, atrevo-me a dizer que por todas as escolas que passei no desenho à mão livre sempre fui o melhor.

Aqui, cheguei a ter uma disciplina que se chamava “ofícios” e lembro-me bem de precisar de algumas cores para pintar os desenhos, mas não as tinha. Não havia dinheiro. Então tentava arranjava flores de diferentes cores para as ter. Verdes, vermelhas, amarelas… A verdade é que levei muito tempo até chegar aqui, mas sempre soube que a arte me perseguia.

G. – Ainda assim, face à chegada da covid-19, o Núcleo de Artes acabou por encerrar. Desde aí que percorres diariamente seis quilómetros até uma das principais avenidas da capital moçambicana para conseguires vender os teus quadros. Porquê a adoção da estratégia de venda a pé?

S. R. –No período da manhã, os autocarros ficam muito lotados que não dá nem para uma pessoa com um bebé subir. Então, eu comecei a imaginar se fosse com os meus quadros e até já tentei ir, mas um dos meus quadros partiu logo. Tive um prejuízo enorme até porque o quadro já estava comprado. Para evitar esse tipo de situações, prefiro andar a pé já que não tenho transporte pessoal. Diariamente, percorro cerca de seis quilómetros, a pé, mas o meu objetivo nem é bem vender os quadros. Passa mais por expandir os meus quadros, as pessoas conhecerem-me pelo meu talento para conseguir contactos. O mundo da arte exige muitos contactos. As pessoas podem não ter dinheiro hoje, mas podem ter dinheiro no próximo ano, quem sabe. Num passo seguinte, a pessoa pode ligar e comprar.

G. – Como tem sido a receção das pessoas face a esta aposta?

S. R. –Tem sido positiva. Normalmente paro junto a uma estrada movimentada e nem sempre é fácil que as pessoas parem e apreciem. No mínimo, as pessoas reduzem a velocidade, abrem o vidro, e fazem-me um gesto com as mãos de perfeito. São poucas as pessoas que compram, mas eu sempre disse que um artista deve agradecer quando há um elogio. É muito mais importante que o dinheiro porque é com os elogios que o artista consegue ter a perceção se a obra está boa ou não. Depois, sim há alguns clientes que compram e consigo sobreviver assim.

G. – Então, neste momento dedicaste exclusivamente à arte da pintura?

S. R. –Sim! Eu, quando saí da Zambézia para cá, sempre tive o sonho de ser artista plástico e de ser conhecido no mundo das artes em Moçambique, assim como no resto do mundo. Para isso, tive de trabalhar, inicialmente como segurança num supermercado, durante três anos, e juntei algum dinheiro para adquirir alguns materiais para a pintura como pincéis, tintas acrílicas, telas, etc. E consegui, mas não foi totalmente sozinho. Tive aqui amigos meus que me ajudaram, a minha família, etc. Se sou artista plástico foi graças a eles… Há algumas partes que se eu fosse a contar chorava. Foi mesmo graças a Deus que consegui.

Hoje vivo da arte, não tenho mais nenhum emprego. Tenho uma mulher e dois filhos que são dependentes de mim e não é fácil, principalmente, cá em Moçambique, mas é possível. Esta é a razão pela qual caminho estas distâncias para conseguir o meu pão.

G. – Numa entrevista à Lusa, referias que através da tua pintura contas “histórias educativas com cores” e denuncias “febres” que afetam a sociedade moçambicana”. Há alguma dessas histórias que te tenha marcado de uma forma particular?

S. R. –Sim. Eu sou órfão desde pequeno e se não me tivesse sabido encaminhar, possivelmente, era ladrão, assaltante ou bandido. Para isso não acontecer, estudei até ao 12.º ano. Não foi de todo fácil, do 5.º ao 12.º anos, porque não tinha o meu pai por perto e a minha mãe já tinha falecido. Eu conheci o meu pai quando já tinha 12 anos. No meu percurso, já perdi imensos amigos para outra vida, porque escolheram o percurso errado.

Estou-te a contar isto porque nos meus quadros eu tento transmitir que é possível ser alguma coisa, uma pessoa certa que transmite confiança sem roubar. A maioria dos quadros recaem sobre temas educativos para sensibilizar a maioria dos jovens daqui.

G. – Sentes que arte da pintura é valorizada em Moçambique?

S. R. –Sinto que sim! A pintura é valorizada, mas esta é a minha opinião. Eu acho que a pintura é valorizada, mas quando falo em valorização não falo sobre dinheiro. Mais uma vez, falo sim sobre a pessoa olhar para a obra e sentir algo. Para mim, é esta a valorização que precisamos que as pessoas olhem para a obra e a valorizem.

Vou contar-te uma história pequena… Um certo dia, quando estava a caminhar com os meus quadros passou uma pessoa, uma vendedora de amendoim dourado, que parou. Eu estava a fazer uma exposição de dois quadros. Um, sobre a covid-19 e, outro, sobre Cabo Delgado, e ela disse-me que conseguia ver os elementos daquele quadro os militares, o helicóptero, uma mãe de máscara, e no final referiu-me que se tivesse dinheiro que me tinha comprado o quadro. Aquilo tocou-me mesmo muito. Para mim, isto é valorização.

G. – Por curiosidade, o que gostavas de alcançar no futuro a nível profissional?

S. R. –Tanta coisa… Eu gostava que realmente a pintura fosse valorizada e que as minhas obras fossem reconhecidas pelo estrangeiro, que as pessoas soubessem através das minhas obras o que estamos a viver, já que de uma forma indireta eu transmito nelas o que sinto e o que vivi com os meus avós. Por exemplo, há pessoas aqui na cidade de Maputo que nunca viveram o que eu vivi, mas através das minhas obras conseguem ver que aquilo foi real. Também gostava muito de ser motivo de estudo em alguns livros para as crianças, por exemplo.

Ainda assim, há muita gente que ainda, nos dias de hoje, me pergunta o que faço da vida e quando respondo que sou artista plástico me questiona sobre outro emprego. E, não. Eu sou artista plástico. Gostava que este pensamento desaparecesse e que se valorizasse a arte.

G. – Há algo que gostasses de acrescentar?

S. R. – Muita gente acha que basta sonhar e acreditar que as coisas aparecem realizadas, mas não. É preciso ir à guerra, há momentos em que é preciso acordar e procurar mesmo que se leve um não.

Por exemplo, hoje estou a falar contigo, mas havia uma altura em que não sabia que isto ia acontecer, não pensava em chegar lá. Quer dizer pensar, pensava, mas pensei que não ia ter visibilidade pela zona onde habito. Eu venho de muito longe e lá as coisas estão muito mal. Para mim, isto é uma bênção. Sempre digo que primeiro o trabalho, que o dinheiro há de vir depois.

Texto de Isabel Marques
Fotografias da cortesia de Simbraz Roberto