O nome é sinónimo de assertividade, coragem e inconformismo. Foi (e é) uma voz incómoda, uma personalidade forte, mas, e sobretudo, uma inspiração que toca gerações. É Simone de Oliveira.

Cantora, atriz, mãe, mulher. Foi tudo o que quis ser, quer isso fosse ou não aceite pela sociedade patriarcal. Viveu a vida de forma destemida, consciente das represálias que isso acarreta. Não se importa com isso. Importa-se com a integridade e valores que sabe que tem. Ainda hoje não é mulher de se deixar intimidar, embora sublinhe que “à vontade, não é à vontadinha”.

Sem nos conhecer, abriu-nos a porta de sua casa. Por entre cigarros, respondeu a tudo com a verdade que lhe é conhecida. A cada resposta, lançou uma memória que ilustra a opinião formada.

Foram dois dias de conversa sobre (des)igualdade de género, democracia e cultura, que, inevitavelmente, convergem na sua própria vida. Antes mesmo de aceitar receber-nos, Simone fez uma pergunta: “Mas vocês ainda acham que eu tenho alguma coisa interessante para dizer?”


Gerador (G.) – Espero que não se importe que comece por isto, mas sei que, no seu primeiro casamento…

Simone de Oliveira (S. O.) – … fui vítima de violência doméstica e, por isso, fugi de casa. Foram cerca de três meses, que estive casada.

G. – Alguma vez foi aconselhada em sentido contrário? A não o fazer?

S. O. – Não, meu amor. Lembre-se de que isso foi em 1957, ainda a sua mãe não era nascida. Portanto, nenhuma mulher fugia de casa por causa disso. Ficavam. Só que eu entendi que não era assim. Tive uns pais maravilhosos, uns avós maravilhosos… E eu entendi que estar casada não era isso. Então, fechei a porta e vim embora.

G. – Das pessoas que lhe eram próximas, alguma lhe disse que estava a tomar a decisão errada?

S. O. – Não, não, não. Tive o apoio total do meu pai, da minha mãe, da minha gente toda. Eu tive um pai espantoso e uma mãe espantosa. Eu tive filhos sem ser casada, como toda a gente sabe. Os meus filhos foram filhos de mãe incógnita durante 10 anos – que era uma coisa que só existia neste país – portanto… […]

Eu achei sempre que as coisas que não estavam certas eu podia dizer “eu não quero”, “eu não faço”… Mas foi sempre a minha maneira de ser. Não é por isto ou por aquilo, para ser bem ou por ser mais ativa ou menos ativa. É a minha forma de ser, até hoje.

G. – Nessa altura, sendo uma pessoa que tinha uma voz dissidente e assertiva, isso nunca a deixou na dúvida? Nunca pensou em evitar dizer alguma coisa para não ferir…

S. O. – Não, não…

G. – … Suscetibilidades?

S. O. …Não, não. Na vida, nunca. Nem pensar. Quando eu disse ao meu pai que não voltava para casa do dito senhor… o que é que ele pensou quando me bateu? “Ela casou pela Igreja, volta a casa, o pai e a mãe mandam-na embora.” Eu só disse ao meu pai: “Eu, para lá, não volto.” E ele disse: “Sim, senhora.” Eu disse: “Se o pai quer mandar-me para a rua, eu vou.” Claro que eu tinha para onde ir, que era a casa da minha tia, a irmã dele [risos]. Tinha cá atrás na minha nuca… Mas eu tive um pai e uma mãe que, realmente, me aceitaram com os meus erros, com a minha maneira de ser, com o meu feitio e com as minhas opções.

G. – Sei que, passado algum tempo, tentou batizar os seus filhos e teve grandes dificuldades…

S. O. – Sim, eu tenho grandes diferendos com a Igreja Católica…

G. – Qual é a sua posição em relação à Igreja atualmente?

S. O. Eu não aceito os padres pedófilos. Gosto muito deste papa. Gosto do que ele diz, gosto do que ele faz, gosto de como ele continua a ser aquela pessoa humilde, capaz de ir aos bairros e capaz de… isso foi muito importante, porque ele foi padre na Argentina portanto, isso vem de trás. [Mas] eu não tenho um grande relacionamento com a Igreja Católica. Não tenho.

G. – Mas já teve, em tempos…?

S. O. Olhe, não sei. Eu fiz a comunhão solene, fiz a crisma, fiz isso tudo. Limpei igrejas, nos Olivais, fiz tudo. Agora… é muito discutível, sabe? Que existe um “para lá” existe, e eu acredito. O que é? Não sei. Eu, se tivesse de escolher algo... é muito mais espírita do que outra coisa.

G. – Se calhar também foi perdendo…

S. O. –Não, não. Eu costumo dizer que tenho fé à minha maneira, naturalmente. É como tudo na minha vida. Eu tenho uma fé à minha maneira. Quando estou muito aflita digo “oh, mãe acode-me”, “oh, pai acode-me”, rezo a Avé Maria, o Pai Nosso, mas rezo de coração. Alguém lá em cima, ou cá em baixo, ou ao lado… Buda, Alá, as pedras, o mar, as nuvens… Alguém que me dê uma mãozinha. O que é… [não sei].

Eu tenho sido uma mulher com muita sorte. Dentro da minha vida toda – que não foi fácil –, fui realmente uma mulher com sorte. Eu tenho a obrigação de ser uma mulher feliz. Tive uns pais maravilhosos e vivi 23 anos com um homem espantoso, que foi o Sr. Varela. Tenho uns filhos espantosos, que criei sozinha. O pai nunca deu nem uma fralda, nada. […]

Agora eles fazem tudo ao contrário. O que é que você quer? E eu só canto por acaso! Eu nunca pensei na minha vida nem cantar nem representar… Até porque, em 1957, as meninas da rádio eram todas pegas, não é?… e os bailarinos eram todos bichas…

G. – Era a esse assunto que eu queria chegar. Já tinha dito que, no início, ser artista era ser mulher da vida…

S. O. – Pois.

G. – Mas sentia…

S. O. – Eu não sentia coisa nenhuma! Vou explicar: essa história, de que eu senti não sei o quê, é mentira. Eu levei aquelas pancadarias e voltei para casa.

Eu gostava muito de ouvir um programa da antiga Emissora Nacional, que era à sexta-feira, do meio dia e vinte até à uma, no qual apareciam uns meninos e umas meninas a cantar, e a minha irmã dizia assim: “Olha, vai começar aquele programa que tu gostas muito.” E eu punha-me ali a ouvir. E, quando se passou aquela coisa toda, aquela tragédia [da violência doméstica], em que estive de cama, estive muito mal, [questionava-me] se a cabeça dava a volta, ou não dava a volta… “ela fica maluquinha”… não fiquei. Fiquei pior do que era [risos].

O meu pai não queria, de maneira nenhuma, mas a muito custo, a minha mãe disse: “Olha, vais lá com ela, ela passa três horas por dia […]. Pode ser que ela se entretenha, para ver se isto lhe passa.” Eu cheguei lá – com outra voz, não esta – e ficou tudo assim [de boca aberta]. O Mota Pereira, que era o professor, disse-me assim: “Sabe o que é um piano?” “Um piano sei, um microfone não sei.” Nunca tinha visto um microfone na vida. […]

G. … mas sentia aquela coisa, por ser artista…

S. O. – Não senti coisa nenhuma! Eu só percebi que podia ser um caminho no ano do “Sol de Inverno”, quando representei Portugal. Só aí é que eu… percebe? Eu tinha 25 anos e pensei assim: “Olha, por acaso isto até é uma coisa que eu gosto de fazer.” Mas não foi nada [pensado] “eu agora quero ser artista”… É mentira. […]

G. – Vi uma entrevista em que disse que gostava de ter nascido homem.

S. O. – Sim.

G. – Porquê?

S. O.Porque os homens podem fazer tudo e ninguém lhes diz nada. E as mulheres continuam atadas a um chouriço. E eu como não estive atada a um chouriço… Pronto.

G. – Concorda que atualmente ainda vivemos com essa diferença?

S. O. – Ainda [há] uma grande diferença. Não quer dizer que não tenha havido uma abertura para as mulheres… Felizmente já há mulheres presidentes da República, quase… mas levou muitos anos a chegar aí, e a mulher portuguesa foi muito, muito apertada. Primeiro que ela decidisse abanar um bocadinho a cabeça e dizer “espera lá…”.

G. – Como é que encara este percurso que tem vindo a ser feito?

S. O. Acho que melhorámos muito. Agora, uma coisa é à vontade, outra coisa é “à vontadinha”. “À vontadinha”, não aceito. Continuo a dizer “se faz favor”, “muito obrigada”, “com licença”, a dar passagem a uma pessoa mais velha do que eu.

Acho que, apesar de tudo, tem de haver uma certa educação. Dizer “se faz favor” ou “com licença”. Acho que isso não se deve perder…

Em casa dos meus filhos ninguém se senta à mesa sem se sentar a avó primeiro, mas, sabe, isso já vem de lá detrás. No tempo dos meus pais, ninguém se sentava sem o meu pai estar sentado. Eu entro em casa do meu filho e digo “com licença”, entro em casa da minha filha e digo “com licença”, [porque] eu vou entrar na casa deles. Mas isto sou eu, não faço isso por ser boazinha.

Eu nunca tive um problema com um músico, com um bailarino, com o homem que puxa as cordas, o contrarregra, com a senhora que me ia buscar o cafezinho… Nunca tive um problema com ninguém, absolutamente com ninguém.

G. – Nunca houve, durante o seu percurso profissional, alguém que lhe tenha faltado ao respeito por ser mulher ou desconsiderado o seu trabalho?

S. O. Não. Houve dois colegas meus difíceis – de que eu não vou falar –, mas difíceis de trato, não por eu ser mulher. Duas pessoas muito complicadas… mas houve pessoas espantosas: a Florbela era uma colega ótima, a Vera Mónica… o Nicolau era espantoso, o José Raposo estreou-se comigo, a Maria João – de quem eu tenho uma saudade infinita que nem quero, nem penso, nem quero pensar nisso.

Quer dizer, eu não tive nunca um diferendo com ninguém, nem mesmo com aquela bailarinazinha (que era bailarina por acaso, depois ia trabalhar para o Maxime à noite…). Eu dava sempre espaço para elas. Era incapaz de me pôr no meio para dizer [alguma coisa]. Não é o meu feitio. Não é para ser boazinha nem… Não é o meu feitio.

G. – Não gosta de tecer julgamentos?

S. O. – Não, não gosto. Se é que eu cheguei a algum sítio, devo aos poetas e aos músicos deste país. Exemplo: uma canção que eu canto, o “Apenas o meu povo”. Não devo a mais ninguém. Nunca estive na posição horizontal para conseguir o que quer que fosse, e tinha-me sido tão fácil… Porque eu sabia que era uma mulher muito bonita.

G. – E é ainda.

S. O. – Não… eu sou uma velha simpática [risos].

Era assim, minha querida: desde ministros, a secretários de Estado…

Um dia fugi para o [Teatro] Monumental, para o Vasco Morgado. [O perseguidor] era um senhor ministro que passava à porta dos meus pais e deu o número de telefone do gabinete dele aos meus pais. Andava um carro – daqueles carros pretos – [a rondar]. O meu pai disse “foge, vai para um lado qualquer”. E eu fui para o Monumental. Entrei, e disse “patrão, andam atrás de mim”, e subi, bum, bum, bum. Ele entrou, e [ele] disse-lhe: “A menina não está cá. Nem a vi sequer hoje.” [risos]

Isto para dizer que nunca tive [essas coisas].

Há uma cena muito engraçada: Eu tive um restaurante, era o Candelabro – que má memória, paguei dívidas até… sei lá.

G. – Era em Lisboa?

S. O. – Cá em Lisboa. Não se pode ser mais fasquiado, sabe? O restaurante tinha um bar muito bonito. Eu estava no escritório [e foram chamar-me]:

– Sra. Simone?

– Já sabe que eu não vou ao bar falar com ninguém.

– Sra. Simone, mas o Sr. é tão bom cliente…

… e lá vou eu. Aquele bar tinha uma espécie de uma batiramba, com luz. E esse senhor – que eu já não me lembro do nome – estava a ler o jornal. Eu começo a vê-lo – porque ele estava de frente para mim –, e eu… a dar-lhe de olhos.

– Olá, está boa? Olhe, eu sou casado, moro em Leiria, mas tenho uma casa na Avenida de Roma. Você vai para a Avenida de Roma… – e eu assim [silêncio]. – Você tem filhos?

– Tenho dois.

– Olhe, 15 contos para os pequenos? Quinze contos é pouco… 30? – e começo a ver o outro a deitar a mão ao cabo de uma garrafa de whisky. - Quer um carro? – ele tinha um 220SL branco, e eu tinha um Mini. – Chega ali e o carro é seu. Quer um casaco de peles?

– Isso é uma estupidez – respondi. - O senhor está-me a oferecer tudo o que eu tenho: o [meu] carro está à frente do seu, casaco de peles já tenho. Nunca vou ter 15 contos ou 30 para os meus filhos, mas não preciso. Portanto…

– Que estupidez. Uma colega sua aproveitava!

Depois saiu. Eu chamei o António – ou lá como se chamava o rapaz que lá estava a trabalhar –, e ele disse [a bufar]:

– A Sra. desculpe-me… se eu quisesse fazer-lhe um agrado, oferecia-lhe… sei lá, uma caixinha de bombons! [risos]

Olhe, eu ri-me tanto, tanto, tanto… Portanto, olhe, não tive nunca nenhum diferendo com ninguém.

G. – Porque também não dava azo a que essas situações avançassem…

S. O. – Não. Os homens tiveram sempre muito medo de mim. Não era medo era um “oh, meu Deus, lá vem ela…”. Era eu.

É muito mau quando eu digo: “Boa tarde, meus senhores.” Uiiii [risos]. […]


G.- Possivelmente isto é uma pergunta à qual está farta de responder…

S. O. – A todas.

G. – … mas quando levou a “Desfolhada” ao Festival da Canção, tinha a noção de que iria ser tão criticada, durante tanto tempo [devido ao verso “Quem faz um filho fá-lo por gosto”]?

S. O.Não. Não só porque quem faz um filho fá-lo por gosto… Eu já tinha lido o texto pela simples razão que havia uma boate, na Avenida da Liberdade, onde hoje é a Pastelaria Marquês, que era a Galeria 48, e o Zé Mensurado – o homem que falou da primeira vez que o homem foi à Lua – à socapa, rouba a letra da “Desfolhada” e entra na Galeria e diz: “Tenho aqui um poema, daquele homem que é comunista, que escreve para a Amália!”, e começámos todos a ver.Corpo de linho/Lábios de mosto… Quem faz um filho, fá-lo por gosto”… e aquilo passou.

Quando o Zé Carlos Ary, escolhe a primeira, depois a segunda [intérprete]… a primeira foi a Madalena, que não quis dizer [os versos] – Deus a tenha num bom lugar, [tenho] o maior respeito, a maior amizade, a maior ternura –, a mulher do Jorge Machado, que também já morreu, a Irene Lisboa, que está na Casa do Artista com alzheimer infelizmente, também [negou]. Ninguém quis dizer. E ele pergunta assim: “Onde é que está aquela mulher muito grande, com uma voz muito grande?” Entrou num restaurante e foi aí que eu o conheci. [Perguntou] “Olhe lá, é capaz de dizer ‘quem faz um filho, fá-lo por gosto?’”, “Eu sou” [respondi]. E foi assim que eu cheguei ao festival. Fui a quarta escolha. Podem pensar “ai, coitadinha, canta muito bem…”, é mentira.

G. – Mas essa questão que trouxe, do sexo, da liberdade sexual, das mulheres poderem falar disso…

S. O.Não se pensava nisso nessa altura. Você não era nascida, mas, em 1969, ninguém pensava nisso [pausa longa].Não vale a pena fazer comparações nenhumas porque não há possibilidade de fazer comparações. […]

A tentativa que há de fazer alguma comparação entre o que se passa hoje, em 2020 ou 2021, e em 1957… Não existe. Não existe. Era outro mundo, outra vida. Quer dizer… as mulheres, se queriam sair, tinham de pedir licença aos maridos, tinham de ter um papel. Eu só não tinha como porque consegui a S.J.P.B…

G. – Separação Judicial de Pessoas e Bens.

S. O. – Era só por isso. Senão, não tinha saído mais do país.

G. – Mas acha que já se quebrou o tabu, em relação à sexualidade [das mulheres] e ao falar de sexo…

S. O. Eu acho que hoje até se fala demais. Demais e mal.

G. Em que sentido?

S. O. – Em todos. Fazem umas explicações que não existem. As raparigas aparecem grávidas sabe Deus porquê. Deitam-se às quatro da manhã a beber copos e onde é que está mãe e o pai? À vontade, “à vontadinha não”. Com filha minha não [acontecia], com certeza, que eu ia atrás dela. […]

Antes acontecia mais, agora nem tanto. Eu vou ao mesmo restaurante ao Bairro Alto, há 40 anos, [e vejo] muitas miúdas de treze e catorze anos no chão.

Não há comparação [com o antigamente]. […]

G. – Mas o percurso que foi feito é positivo, na sua opinião?

S. O. – Penso que sim. É evidente. Também… valha-me Deus… não podemos estar aqui a bater…

Somos todos jogadores de bancada. Sabemos de berlinde, da política, de escritores, do que se diz, do que se não diz. Nós somos todos jogadores de bancada. É o que eu acho. Alguém sabe mais do que qualquer pessoa acerca de tudo. É nosso, está no ADN.

[O dizer] “coitadinha, estava muito bem, como ela agora está”… é uma coisa muito nossa também. Sobretudo as mulheres, gostam de ver as outras mal.

G. Acha?

S. O. – Acho, então não acho?! Sobretudo a geração aí dos 60, dos 70… que dizem “veja lá como elas se vestem”… por isso é que eu nunca liguei. A primeira vez que eu pus calças foi no Porto, [disseram] “falta-te o cavalo!”.

G. – Mas sentiu isso na pele? Que as mulheres gostam de ver mal outras mulheres?

S. O. Em relação a mim? Tanto! Eu era uma mulher tão bonita… ahahahaha…

Mas não era bem inveja… era mais pelas minhas posturas e pelas minhas atitudes. Era para usar decotes, eu usava decotes. Era para pôr calças, eu punha calças. Era para fumar, eu fumava… Não era muito [esse] o hábito, na geração de 60.

G. – Engraçado ter falado na questão das calças… eu sei que foi jornalista durante um pequenino período de tempo…

S. O. – Sim, sim…

G. – … e que era a única que ia de calças e botas [para o trabalho].

S. O. – Sim. Foi uma cena…

G. – Mas fazia isso de uma forma…

S. O. – Não! Fazia porque eu gostava de usar calças, carago! [risos] E botas! Não era para dar nas vistas. […]

G. – Mas porque entrou nessa profissão?

S. O. – Sabiam que eu tinha uma certa jeiteira para escrever, que é uma coisa que eu mantenho até hoje. Só que este braço, que é do lado da mastectomia, já não escreve. [Perguntaram-me] se era capaz de escrever. E eu disse “está bem”. Comecei por assinar uma coisa com o nome da minha filha, Maria Eduarda. E um dia eu estava em casa, naquela fase de chorar muito e gritar porque não podia cantar, e toca o telefone. Era um senhor que era jornalista, Mário Silva. […]. [E ele perguntou-me]: “Simone, porque está a chorar?” [Respondi] “Estou a chorar porque não sei como hei de ganhar a vida.” “Eu tenho visto umas coisinhas… quer vir escrever para o jornal?” […]

E a primeira coisa que eu fiz foi entrar no gabinete do diretor e disse assim: “No dia em que o senhor me cortar uma coisa qualquer, esta merda vai toda para o chão!”– Eram os livros que ele tinha à frente. Ficou assim [de boca aberta] a olhar para mim. A primeira entrevista que ele mandou fazer foi à Simone de Oliveira.

G. – Mas essa situação de censura era algo que temia de antemão?

S. O. – Era, porque o jornal – chamava-se A Época – era iminentemente do Governo. Ainda não tinha havido o 25 de Abril… eu sabia que havia coisas que eu ia querer falar e que podiam ser cortadas.

G. – Que coisas eram essas?

S. O. – Por exemplo: eu fui ali ao infantário, à entrada do Bairro alto. Eu fui e escrevi o que era, o que eu tinha visto e muitas coisas me foram cortadas. E eu, como queria manter o lugar (porque eu precisava do dinheiro), tive de aceitar determinadas coisas contra a minha forma de pensar e a minha forma de ser. Mas… aquilo era o dinheiro para os [meus] rapazes e para as raparigas… ou então comiam erva-doce, o que não dava lá muito jeito… […]

G. – Apesar disso, nunca se sentiu intimidada para escrever? Com medo?

S. O. – Não. Eu nasci livre, minha querida, não há nada a fazer.

Isto continua a ser a mesma coisa que é: eu estar num café – não há muito tempo, há três ou quatro anos – e dizer assim: “Olhe, eu quero um café, vou fumar um cigarro e quero um JB num copo alto com três pedras de gelo”, e o homem fica a olhar para mim, pois perguntou-me [antes] se eu queria um chazinho, que é a coisa pior que me podem perguntar. Perguntem-me tudo, menos o chazinho! [risos]

G. – Como disse há pouco, teve uma altura em que perdeu a voz. Foi difícil?

S. O. Poça! Eu tinha uma filha com 10 anos e um filho com 8 e ver os pés pela cabeça…

G. – Pergunto isto não só porque ficou sem cantar, mas porque não podia exprimir-se da mesma forma…

S. O.Não era exprimir-me, era ganhar o dinheiro para criar os filhos! [risos]. Eu falar falava, não tinha era voz para cantar. Aos poucochinhos, aos poucochinhos [fui recuperando]. [Nessa altura] tive um espetáculo na Figueira da Foz, onde eu fui locutora de continuidade durante um mês. Aprendi de todos os meus colegas, até da Sra. D. Amália [Rodrigues], a quem devo coisas muito bonitas.

O Carlos do Carmo, estávamos no camarim, diz assim ao guitarrista – que agora não me lembro como se chamava – “toca aí o do “Chiado”, três sons abaixo”. E começámos os dois a cantar […]. Depois ele deixou-me a cantar sozinha, mas eu consegui. [Depois] começou a aparecer o Zip Zip, começam a vir as baladas, o Tordo, o Paulo, a forma como se respirava, como se cantava… outra coisa já diferente. E foi aí que eu disse: “Talvez eu consiga.” E acho que sim, até hoje.

G. – E conseguiu.

S. O. – Consegui. Felizmente. […]

G. – Há mais um episódio do qual eu também gostava que me falasse um pouco. Em janeiro de 1962, foi a África, atuar para as tropas destacadas na Guerra Colonial. Numa entrevista que deu há algum tempo, referia que, além de ter sentido algum medo, combinou com as mulheres que também estavam lá que, se alguma coisa se passasse…

S. O. – Ninguém abria a boca. Senão eles eram encostados à parede e fuzilados.

G. – Mas o que temia que se passasse?

Nós falámos com rapazes que estavam há anos sem ver uma mulher. Ou mais. Portanto combinámos as quatro: aconteça o que acontecer, a gente não abre a boca, porque [caso contrário] eles eram encostados à parede e fuzilados. Nunca aconteceu nada. Nem isto [a ponta do dedo]. Nem de um soldado, de um… nada! Não há nada que dizer. E olhe que foi muito duro. […]

Só não morremos porque eles não quiseram. Em nome da pátria, claro. Com guias soldados.

Ganhámos dez contos. Agora divida dez contos por 99 espetáculos. Eu deixei cinco contos à minha mãe, por causa dos meus filhos. É a vida…

E depois um dia, chego cá anos depois e a senhora Supico Pinto acusa-me de traição à pátria. Ahhhhh… Fui ao Movimento Nacional Feminino, dei dois murros na mesa…

G. Por que motivo ela a acusou de traição à pátria?

S. O. – Porque, na volta para Portugal, o avião da TAP estava em Luanda, depois daquela volta toda, [por] Angola, Moçambique e não sei quê, e tive um pedido para ir cantar ao hospital de Luanda. E eu disse: “Eu vou, se o avião da TAP atrasar. Isto é um avião da TAP, a gente tem cá um harém de soldados, o ministro, eu não posso dizer adeus e até logo…” E não podia. Chego e sou acusada de traição à pátria, por não ter ido ao hospital. Pffffff…

Eu já fui [apelidada de] comunista, eu já fui [acusada de ser] da PIDE [risos]. Bom, tenho o meu nome na PIDE, isso tenho… por causa do “quem faz um filho, fá-lo por gosto”…

G. – A Revolução e a democracia trouxeram alguma mudança à sua carreira?

S. O. – Não…

No dia da Revolução [risos], telefona-me o Varela. “Olha vai para casa do teu pai, há uma revolução!” Eu perguntei onde. “Mas onde???” [risos]. Sei lá… podia ser no Campo Grande, Saldanha, Cascais… E meti-me no carro. Passei pelo Campo Grande – estava um dia lindo, azul – não vi ninguém. Mas onde é que está a revolução? [perguntava]. Depois, quando eu estava a chegar a casa, estava o meu pai a aparecer para me ir buscar (à Costa da Caparica, onde eu vivia, claro).

G. Na sua opinião, as promessas feitas na Revolução foram cumpridas?

S. O. – Eu acho que muita coisa foi cumprida, meu amor, senão você não estava aqui a falar comigo assim. Outras coisas não terão sido… mas nada é perfeito. Nós somos todos muito críticos, mas pergunto sempre [se] iriam lá fazer melhor.

G. O que pensa acerca dos movimentos que têm surgido?

S. O. – Negacionistas?

G. Negacionistas, extremistas…

S. O. – Punha-os todos no Alentejo a cavar, ao sol. E pronto. Acabava-se essa merda. […]

G. E o que diria aos saudosistas de Salazar, que por vezes aparecem?

S. O. – Que estão parvos. Punha-os a fazer o que a PIDE fazia. Punha-os na prisão. Vão para Caxias, um mês ou dois, [fiquem] ali com o mar a dar, sem comer nem nada, que é para saberem o que é.

Não tenho paciência. Não entendo. Eu gostava de entender os negacionistas. Não entendo, em relação a nada. Contra as vacinas? Porra! Vou já levá-las amanhã, todas. Não entendo… Olhe, não tenho idade, nem habilitações literárias para responder a essas coisas [risos].

Se se dissesse [que a covid-19] foi uma coisa que aconteceu em Portugal… mas está no mundo todo! Negacionistas? Como? Onde? A que horas? Porquê?  […]


G. E quanto à cultura, em Portugal?

S. O. – Olhe, nós nunca tivemos um ministro da Cultura como deve ser. Andamos a dizer isto desde que eu me lembro.

G. – Bom, nem foi preciso eu chegar a perguntar sobre a ministra…

S. O. – Por acaso, eu já falei com ela. Ela tem noção do que está a fazer, mas não tem dinheiro para fazer mais.

G. Acha, então, que o problema não é a ministra?

S. O. – É um conjunto de circunstâncias. Eu digo-lhe uma coisa: eu não desejava a ninguém, nestes últimos dois anos, nenhum lugar na política neste país. A ninguém! Quando se fala da ministra da Saúde e da Graça [Freitas]…, eu acho que elas não dormiam de noite. Porque foi uma coisa que era: esta semana é assim, na semana seguinte já é outra coisa, depois na outra semana já outra coisa… é um problema, o de adivinhar o que é que pode vir mais.

[O vírus] não se vê, não se cheira, não se ouve, não tem cor e a gente não sente. E? Temos de adivinhar através dos corpos opacos. Como?

Esta crítica pateta… atiram-se à senhora… ela tem feito o que pode e o que não pode. Não desejo a nenhum político estes últimos dois anos deste país. Haverá coisas erradas, com certeza…

Eu sei muito pouco de política – digo já – como sei muito pouco de futebol… sei mais de livros, e de poesia e de música e dessas coisas… mas entendo que esta gente tem feito o que pode, o que é possível fazer dentro das possibilidades que têm. Há erros? Todos nós erramos, caraças!

G. – Mas em relação à cultura, no Orçamento de Estado [que foi chumbado] estava previsto que apenas 0,25 % das verbas fossem destinadas à cultura…

S. O. – Eu sei… quer dizer, não sei porque é que não há mais. Não sei de política, não sei. Não posso fazer comentários de coisas que não sei. Eu não falo de coisas que não sei. Não sei o que é que se passa, se [o problema] é mais para cima ou mais para baixo…

Eu acho que a cultura neste país sempre foi muito maltratada, por toda a gente. Não é de agora. É uma coisa que vem lá detrás. Talvez tivéssemos tido um [governante] – que não era ministro da Culturamais dentro disso, que foi o Santana Lopes. O que esteve mais perto de perceber…

Alguma vez alguém foi perceber o que se passa com a gente do circo? Com os roaders? Com os homens que fecham as portas? Com os fadistas? Ninguém tem contratos. Ganha tudo ao dia. […]

G. – O nosso país valoriza os artistas? Ou tende a vetá-los ao esquecimento?

S. O.Não [valoriza]. Só se lembram de nós quando precisam de borlas.

G. – Em que sentido?

S. O. Imagine que um partido qualquer precisa que eu vá cantar. Acha que não tem de me pagar. Aliás, não vou cantar para os partidos e, se fosse, tinham de me pagar muito bem. Primeiro tinha de ser um partido em que eu acreditasse, e como eu [não acredito]… Só estou à espera de que amanhã [dia da votação do Orçamento de Estado] não haja uma crise muito grande porque senão é uma merda… Jesus Maria


Entrevista por Sofia Craveiro
Fotografias de Jenniffer Lima Pais

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