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Simone Duarte: “Há um grande preconceito e uma grande ignorância em relação ao outro”

Simone Duarte, vive em Lisboa é jornalista e escritora. Lançamento do livro sobre o atentado terrorista de 11 de setembro 2011. Livro: O vento mudou de direção. Editora Fosforo. Foto: Fernando Donasci/Divulgação

“Em 2001, eu chefiava a redação da TV Globo, em Nova Iorque. Na manhã de 11 de setembro, logo depois de o segundo avião chocar contra a Torre Sul do World Trade Center, eu entrei no ar em direto, por telefone e, durante aproximadamente duas horas, narrei os acontecimentos para o público brasileiro, incluindo o ataque ao Pentágono e a queda da primeira torre. Durante 18 anos, não tive coragem de ouvir a transmissão. A proximidade do vigésimo aniversário dos atentados e uma viagem ao Paquistão acabaram por me mostrar a história que eu precisava de contar.”

Essa história é, no entanto, diferente daquela que estamos habituados a ouvir. Para a relatar a jornalista brasileira Simone Duarte lançou o livro O Vento Mudou de Direção – O 11 de setembro que ninguém viu. Na obra editada pela Oficina do Livro, Simone quis resgatar as histórias de seis pessoas do Afeganistão, Iraque e Paquistão cujas vidas foram irremediavelmente “estilhaçadas” pela Guerra ao Terror. Para isso faz um retrato não sequencial das vivências antes e depois da tragédia que fez o “vento mudar de direção”.

No livro, está relatada a história de Ahmer, um jovem que foi treinado para ser bombista suicida, do general Ehsan Ul-Haq, ex-espião-chefe do equivalente à CIA paquistanesa, da poeta iraquiana Faleeha Hassan, que se viu forçada a ir viver para os Estados Unidos da América, da jovem iraquiana Gena, que fugiu para a Síria para escapar à guerra e acabou a vivê-la de novo, de Rafi, um afegão que atravessou oito países para escapar aos talibãs, e de Gawhar, uma afegã que rumou à Europa para fugir da ocupação militar americana. Além das vidas destas personagens – que resultam de entrevistas e viagens realizadas ao longo de dois anos – Simone Duarte inclui ainda a história do jornalista um jordano de origem palestina Baker Atyani, a quem Osama Bin Laden concedeu uma entrevista antes do atentado às Torres Gémeas.

Em entrevista ao Gerador, a jornalista e ex-diretora-adjunta do jornal Público, explicou que é necessário compreender a cultura e “se pôr no lugar do outro” para ter uma visão real e concreta dos acontecimentos que sucederam antes e depois do 11 de setembro. Afinal, “Quem disse que a nossa cultura é a melhor cultura?”


Gerador (G.) - Nesta obra conta as histórias de seis pessoas do Afeganistão, Iraque e Paquistão, cujas vidas foram profundamente afetadas não apenas pelo 11 de Setembro, mas por toda a ocupação americana, durante a Guerra ao Terror. Na sua opinião acha importante mostrar ao Ocidente o outro lado desta narrativa?

Simone Duarte (S.D.) - Eu acho essencial e é a razão pela qual eu resolvi escrever essas histórias. Não só desses seis [personagens], como você falou - que são duas pessoas do Iraque, duas pessoas do Paquistão e duas pessoas do Afeganistão - como também a história do jornalista que vai entrevistar Osama bin Laden, que ele é jordano de origem palestiniana. Ele também faz parte dessa história.

E porquê? Porque ao longo desses 20 anos a gente olha pouco para esse outro lado. Por exemplo: vários livros que eu li ao longo desses anos, depois do 11 de Setembro, eram escritos por ingleses, eram escritos por americanos ou europeus. Era sempre uma visão europeia/americana/ocidental digamos assim, do que aconteceu ou das consequências. Mas a gente, praticamente, não lê realmente [sobre] os efeitos da Guerra ao Terror e os efeitos do que aconteceu no 11 de setembro, [e de que forma] tiveram - ainda têm - impactos nas vidas de milhões de pessoas. Na realidade, essas sete pessoas, representam milhões que até hoje - e a gente viu há pouco com o que aconteceu no Afeganistão - sofrem as consequências do que aconteceu naquele dia.

G.- Porque motivo decidiu organizar as histórias desta forma alternada, em que vamos acompanhando vivências de todos eles, até chegarmos à atualidade?

S.D.- Porque eu acho que o grande desafio para mim não era fazer um livro linear, porque essas pessoas não têm vidas lineares. [A vida delas] é como se fosse um ricochete de bala, que vai e volta. Eu queria criar uma espécie de frenesim ou de vertigem no leitor, para que ele também sentisse isso, essa angústia ou essa emoção. E, ao mesmo tempo deixá-lo querendo saber mais e querendo se envolver mais com essas histórias. Então, nesse sentido, eu não queria fazer um livro linear.

Foi duro para mim. Teria sido, de uma certa maneira, mais fácil se eu tivesse pegado cada capítulo e colocado um personagem e feito linearmente, do início ao fim, de 2001 até 2020, 2021 [e relatado] o que é que tinha acontecido. Mas isso não era o que eu queria fazer, até porque não é a maneira que eu gosto de ler ou ver histórias. Eu acho que foi mais desafiante escrever assim, mas eu também acho que reflete a vida dessas pessoas e o sentimento que eu queria passar para os leitores.

Dependendo muito de que tipo de eleitor você é, talvez no início isso cause estranhamento, mas depois você se entranha. Pelas reações que eu tenho, no geral, as pessoas amam [este formato]. Algumas pessoas mais clássicas [perguntam] porque não foi linear, pois era mais fácil... mas isso foi muito pouca gente. Eu acho até que o sucesso do livro - no Brasil ele já vai para a primeira reimpressão, que seria o equivalente à segunda edição aqui - em tão pouco tempo, [tem a ver com isso]. O livro estreou no Brasil no dia 1 de setembro e no dia 1 de outubro a minha editora decidiu que ia fazer uma reimpressão, o que é extraordinário. Especialmente sendo o [meu] primeiro livro. Óbvio que teve o frenesim dos 20 anos do 11 de Setembro e o que aconteceu agora no Afeganistão, a partir de 15 de agosto, mas eu acho que essa maneira de contar as histórias também foi [um fator relevante].

Além de ser uma maneira que eu acho que é [como] o ricochete da vida dessas pessoas - ou seja, não é linear a vida de nenhuma delas - é também uma maneira de prender o leitor. Eu trabalhei muitos anos em televisão, também no jornal Público, mas trabalhei na área internacional e uma das frases que eu mais ouvia era que ninguém está interessado no [tema] internacional ou que ninguém quer saber dessas histórias. Eu acho que sempre foi para mim [uma incógnita]: porque é que ninguém quer saber dessas histórias? Talvez porque a gente não mostra a humanidade delas.

Eu acho que o principal objetivo do livro é criar empatia. A gente vive na era da não empatia. Principalmente nesse momento, [o objetivo] é criar empatia em relação ao outro, porque, no fundo, a gente não olha o outro. A gente não conhece o outro, é ignorante em relação ao outro e tem todos os preconceitos do mundo. E o que eu queria era mostrar um pouco a humanidade nisso tudo.

É porque eu uso hijabe, é porque nem todo o muçulmano... aliás, quase nenhum muçulmano é terrorista. Se você olhar essas histórias - que eu já disse que representam tantas outras - são as populações, são os habitantes, os moradores do Iraque, do Afeganistão e Paquistão os que mais sofrem com o terrorismo, não é o Ocidente. E a gente não tem esse olhar, não olha assim. Achamos que estamos nos protegendo, [mas] protegendo quem? Quem é que os americanos estão protegendo? Quem é que os ingleses estão protegendo? Quem é que os europeus estão protegendo? Porque os últimos ataques terroristas, [que aconteceram], até fora desses países, foram feitos por extremistas brancos e supremacistas brancos.

Há um grande preconceito e uma grande ignorância em relação ao outro, [em relação] a esse outro lado, digamos assim, que, no fundo, não é um outro lado. No fundo nós estamos todos juntos. São todos os lados de uma mesma história, só que a gente vê o outro como algo que nos repele. Na realidade, qualquer uma daquelas pessoas poderia ser qualquer um de nós. Não foi à toa que eu tentei escolher pessoas de classe média e não foi à toa que eu coloquei elementos muito básicos do dia a dia: a marca, a Coca-Cola, o Gabriel García Márquez... Ou seja, a gente olha para um árabe ou muçulmano e acha que eles não leem, que não bebem Coca-Cola, que a criança não brinca de barra... Enfim, mostrar às pessoas [que eles são] como nós.

G. - Até porque - e conforme também explica depois, no final do livro - o 11 de Setembro fez cerca de três mil mortes, mas a Guerra ao Terror fez muito acima disso. Centenas de milhares, senão mesmo milhões [de pessoas morreram] e nós continuamos a desvalorizar estes impactos..

S.D. - É horrível dizer isso mas... Eu estava no 11 de setembro, eu estava lá. Eu transmiti em direto para o Brasil. Eu não estou dizendo quem sofreu mais. Eu não estou competindo sofrimento. O livro não é uma competição de sofrimento. Morreram quase três mil pessoas (2997). A gente não sabe direito quantas pessoas morreram, porque até a contagem dos mortos [era difícil].

Essas pessoas [nesses países ocupados], ao longo dos últimos 20 anos, viveram o terror todos os dias: o terror de uma ocupação militar, o terror de uma reação a essa ocupação militar, as mentiras todas (porque o talibã nunca saiu de lá)... enfim. As pessoas foram prisioneiras. Tem uma personagem do livro que diz a determinado momento "os EUA fizeram lobby com as nossas vidas". E a gente vê isso agora acontecendo.

Logo no início do livro está escrito que eu o dedico às vítimas inocentes do 11 de Setembro e às vítimas inocentes da Guerra ao Terror. Esse não é um livro para desmerecer ou diminuir o sofrimento de quem morreu ou das famílias do 11 de Setembro, mas [serve] para que as pessoas olhem [e questionem o que] aconteceu, qual foi a reação a isso, o que isso provocou. A gente não olha para isso.

G. - Este livro também surge numa altura em que, não só passam 20 anos do 11 de setembro, como também acontece a retirada das tropas americanas do Afeganistão e o consequente regresso dos talibã ao poder. Na sua opinião, tendo vivido e acompanhado toda esta tragédia, achava provável que isto acontecesse desta forma, tão rápida?

S.D. - Eu não sei se foi tão rápido assim. Quer dizer, pode ter sido rápida a chegada a Cabul mas, na realidade, desde 2005, 2006...

O que é que os americanos fizeram: os americanos atacam num primeiro momento, [depois], em 2003, eles olham para o Iraque e abandonam. Na realidade, eles nunca se empenharam na tal da construção de uma nação, no nation building. E além disso, o talibã estava presente lá há muito tempo. O talibã não teve muitas perdas, nem baixas quando se retira. Aliás, os americanos e britânicos venceram a guerra pelo ar, e quem venceu a guerra no território, o corpo a corpo, foi a Aliança do Norte. E teve muito pouco corpo a corpo. Os talibãs se retiraram e se esconderam.

Mas, na realidade, os erros cometidos pela ocupação americana facilitaram muito essa chegada do talibã. Porque, até hoje, havia muitas cidades no Afeganistão, principalmente nas regiões mais rurais - que são a maioria do Afeganistão, não é Cabul nem Herat - em que as tropas da NATO (ou as americanas) estavam durante o dia, mas quem controlava a situação durante a noite eram os talibãs. Então o talibã estava presente lá há muito tempo.

O que aconteceu foi uma sucessão de erros dessa ocupação: os drones que matam civis, a ajuda e a reconstrução que nunca aconteceu, a corrupção - e essa corrupção vai me dizer que era do governo afegão, mas quem colocou essas pessoas lá [no poder]? Os americanos. Quem apoiava essas pessoas? Como é que era a distribuição do dinheiro, da ajuda financeira? O que é que os americanos, os britânicos ou a Europa fez? "Vamos dar dinheiro a quem é inimigo do talibã", que eram os senhores da guerra que, antes do talibã chegar, em 1996, estavam fazer a guerra civil, em que cada grupo controlava um trecho do Afeganistão. Havia estupros, criminalidade...

Por exemplo, as pessoas tinham que eu passar numa estrada e tinham que pagar portagem para vários grupos diferentes. O talibã, na verdade, quando chega em 96, é recebido praticamente de braços abertos. Porquê? Porque a maior parte da população está sofrendo anos de guerra civil. O que é que o talibã diz: não vai ter mais crimes, não vou deixar ninguém extorquir vocês... Então, num primeiro momento o talibã é recebido, [mas depois] ele vem com essa visão distorcida do Islão e com essa violência que, aliás, - e não é defender o talibã, porque as pessoas às vezes não entendem isso, o olhar o lado também com uma certa perspetiva - os outros grupos eram tão violentos como o talibã.

Ou seja, [Abdul Rashid] Dostum que virou vice-presidente do Afeganistão e depois virou marechal (que é o cargo mais alto na hierarquia militar) ele fez crimes contra a humanidade e durante anos ninguém fez nada [quanto a isso]. Ele colocou dois mil prisioneiros talibã sufocados dentro de containers, estuprava mulher... tem uma série de crimes. Ou seja, quando você dá o dinheiro ao outro lado, mas que era o lado que [segue a lógica] “é inimigo do meu inimigo, então é meu amigo” - que aliás é a história americana nessa região do mundo - isso tem uma consequência.

Por exemplo, você vivia numa cidade ou numa aldeia em que prometiam "vamos reconstruir as casas" e esse dinheiro nunca chegava. Porque contratavam uma empresa em Genebra, que subcontratava uma outra empresa, que ficava com 20%, que depois subcontratava outra empresa... esse dinheiro não chegava.

Eu vi uma entrevista muito interessante que só confirma tudo isso. É bom às vezes a gente ouvir as pessoas de lá (foi esse o meu objetivo). Um senhor afegão, que era jovem quando os americanos chegaram. Vira intérprete, tradutor e depois acaba virando militar. Incentivado pelos americanos, ele acaba tendo posto dentro do governo afegão, de vice-ministro da pasta de segurança, depois de passar pela polícia e ele deu uma entrevista para o New York Times, um podcast interessantíssimo, em que ele diz: "Nós chegávamos às pequenas aldeias e eu prometia para eles: olha vai vir água, vai vir construção, vai vir estrada. Na próxima vez que eu chegava, um ano depois, seis meses depois, eles recebiam-me à bala porque não tinha saldado [essa promessa]. Era tudo em vão, tudo promessas que nunca aconteceram. Então você imagina... Isso não aconteceu só numa aldeia, isso aconteceu em todo o Afeganistão. Então o nível de frustração das pessoas era imenso. Cercados pela violência, entre a ocupação americana, entre os militares americanos e da NATO e de todos os aliados, do talibã e de outros grupos.

O talibã nunca foi um grupo terrorista atacando alvos americanos. O talibã é uma coisa interna. Ele vira alvo dos Estados Unidos, porque abrigou Osama bin Laden, abrigou a Al-Qaeda. E, na realidade, na cultura afegã e paquistanesa, você nunca entrega um hóspede. O Osama Bin Laden é um hóspede, quer você goste quer você não goste, ele é um hóspede, que treinou os militares contra não sei quem.

Em cada casa afegã ou paquistanesa você sempre tem um quarto dedicado a hóspede. E nessas áreas tribais, como a gente chama, que são na fronteira entre Afeganistão e Paquistão, é normal, é o costume, é a tradição que as pessoas abriguem mesmo desconhecidos, criminosos. Não importa. Abrigam-nos nas suas casas como hóspedes, e o hóspede é um rei. Ele é recebido assim nas casas mais ricas como nas casas mais pobres. Isso é uma coisa cultural, o que também é um outro problema dessa ocupação ao longo desses 20 anos: nunca entender a cultura desse lugar, não falar a língua e não perguntar o que as pessoas queriam. 

Por exemplo, eu tenho um grande amigo que é jornalista e que trabalhou comigo na TV Globo. Eu era a chefe da delegação em Nova Iorque, então chefiava aproximadamente 15 pessoas. Ele chefiava a delegação de Londres e acabou cobrindo a maior parte das guerras, da Guerra ao Terror. Ele foi muito ao Iraque, ao Paquistão e ao Afeganistão. Então ele me contou uma história do interior do Afeganistão: uma ONG [Organização Não-Governamental] resolve fazer dois poços de água para as mulheres e elas destroem os poços. A ONG pergunta porque fizeram isso, [ao que elas respondem] "Alguém perguntou para a gente? Esse era o momento que a gente socializava. O nosso momento de ficar em paz, era quando a gente ia buscar água no riacho”. Então, essa falta de olhar o outro...

Tudo, no fundo, é impor uma cultura que não é sua. Essa ilusão da democracia no Afeganistão... O Afeganistão é um país de tribos. Então como é que - voltando ao talibã - como é que ele volta ao poder agora? O que ele ia fazendo? Ele ia conquistando as diferentes tribos. Ia dizendo para o ancião, líder da tribo: "Olha você fica com os americanos mas os americanos estão fazendo isso, porque essas populações estão aqui em tiroteios. Eles matam os inocentes...". 

Esse último ataque de drone, que houve logo depois do que o Estado Islâmico ataca o aeroporto... A gente fala das mortes dos americanos mas não fala das mortes dos afegãos, que é um outro ponto. Porque é que as mortes dos 13 ou 14 militares americanos tem mais media [cobertura mediática] do que a morte de 150 pessoas afegãs?

Então não foi muito complicado entender como é que o Talibã foi convencendo as populações locais. As populações locais estão entre a violência o tempo todo. O que mais elas querem é paz. Elas querem água, elas querem que o filho possa ir à escola... Elas estão ali já há 43 anos em guerra! Porque, se você somar a Invasão Soviética, a guerra civil... são 43 anos de guerra. Estas pessoas nunca viram nada, só viram guerra.

[...]

As pessoas querem paz e eu acho que é isso que a gente tem que entender. Se é um americano, se é um cara que não compreende a cultura dele, era expectável que o exército afegão desmoronasse. Porque não há, no Afeganistão, uma noção de nação, há uma noção de tribos, de pequenas tribos de etnias diferentes. Essa noção de democracia, de Estado nacional, de exército [não existe].

Capa do livro O Vento Mudou de Direção
G. – Acha importante contar estas histórias até como forma de consciencialização relativamente à crise migratória que enfrentamos há anos, mas vemos estar a agravar-se cada vez mais? É uma forma de mostrar o outro lado [de quem foge à guerra]?

S.D. - Eu acho que sim, porque também, digamos, contradiz um pouco a nossa noção de que eles devem estar superagradecidos porque estão aqui e saíram daqueles países “miseráveis”. Quando você lê o livro, você percebe o quanto eles são marginalizados. Podem estar nos Estados Unidos, que é o sonho de muita gente, ou na Áustria, em Viena, na cidade que tem a melhor qualidade de vida do mundo... como a personagem do Afeganistão a Gawhar, que é uma personagem que não usa o hijabe, que é superintegrada, que fala alemão perfeito, que mora num dos bairros mais trendy de Viena e mesmo assim sente o preconceito todos os dias. E nós achamos que eles estão aqui estão felicíssimos e deviam dar graças a Deus. Na realidade, se eles pudessem, a maioria voltaria para seu país. Eu acho que isso é bem representado pela poeta iraquiana que mora nos Estados Unidos [Faleeha] e que tem essa contradição com a outra personagem iraquiana [Gena] que vive na Síria e que mergulhou numa outra guerra lá. Quer dizer, foge do Iraque, mergulha numa outra guerra na Síria e tem a ilusão de que se for para os Estados Unidos ela vai ter uma vida maravilhosa, que ninguém vai ter preconceito. Enquanto que a outra senhora poeta, que é mais velha, está nos Estados Unidos -  que foi o país que ela não escolheu para ir, calhou - e vive um pesadelo. Então essas nossas noções também, de que nós não temos preconceito ou que eles têm que ter ser muito agradecidos, porque estão vivendo nos nosso países, na nossa cultura... Quem disse que a nossa cultura é a melhor cultura?

É uma frase muito interessante da Faleeha, que é a poeta iraquiana... Imagina uma poeta, que a língua dela é o árabe e que de repente ela não pode nem escrever na própria língua. Quer dor maior do que essa, para uma poeta? Não poder escrever na sua língua, ter de aprender uma outra língua, que, na realidade é a língua do invasor, para poder comunicar e para poder fazer o que você mais gosta de fazer, que é escrever? Isso é de uma violência...

G. - E nós continuamos a achar que...

S.D. - ...ela é que tem que dar graças a Deus por viver no subúrbio de Nova Jersey, de classe média baixa, [onde] todas as pessoas têm preconceito contra ela, [onde] ela não consegue fazer amigos. Ela não consegue nem ligar para uma pessoa para jantar, porque as culturas são completamente diferentes. Ela manda um e-mail às 18h30 da tarde para saber se a pessoa ainda está acordada, enquanto na cultura dela, no Iraque, ela chegava na casa das pessoas e as pessoas chegavam na casa dela a qualquer hora do dia.

Eu acho que não é o choque da cultura [que está em causa]. É de novo a questão do outro. Você estar aberto ao outro, e tentar olhar sob o ponto de vista da outra pessoa, e não sobre o seu ponto de vista. Isso é um exercício de não etnocentrismo, mas que a gente esqueceu, e que piorou muito ao longo desses 20 anos, quando a islamofobia subiu a níveis brutais. Quando se olha a mídia [vê-se] que a gente continua fazendo a mesma coisa. Ela [Faleeha] diz: "eu vou ver um filme sobre o meu país e nem o árabe que eles estão falando é o árabe que a gente fala, porque eles acham que todos os árabes falam o mesmo árabe, e não é [assim]. A roupa que os personagens usam, a gente não usa, [é roupa] que usávamos na década de 50...

Todo muçulmano nos filmes agora é [retratado como] mau, é o criminoso, é o traficante. Ela diz "é só um muçulmano, é só o árabe que é traficante? Que é criminoso? Que estupra?” Aliás, na cultura árabe, no Islão, o estupro é uma coisa condenada. Então, a gente diz que tá incluindo essas pessoas [nos nosso países] mas não está. 

G-. É muito interessante essa questão. No caso de Ahmer, um rapazinho que é recrutado para ser bombista-suicida, percebe-se o quanto é fácil aliciar estes jovens. Nós olhamos para eles e vemo-los como uma espécie de demónios, mas a verdade é que eles são facilmente conquistados, tendo em conta o contexto em que estão inseridos...

S.D. - Se você pensar, o Ahmer tem dúvidas. Nesse projeto que eu acompanhei de desradicalização desses jovens, a coordenadora me disse uma vez "olha a gente ouve na televisão falar sempre do bombista que explodiu, mas há muitos que desistiram". Essas histórias a gente não houve. Outra coisa também muito interessante é quando ele dá as primeiras entrevistas [é descrito como] o extremista Ahmer. Será que uma criança de 13 anos, que passou três meses com o talibã, que [planeia] se explodir numa mesquita e que desiste é um extremista? A gente pode chamá-lo de extremista? Ou ele é alguém que foi cooptado pelo extremismo? Eu não acho que ele seja um extremista. Acho que ele é uma vítima do extremismo. É uma vítima inocente disso tudo e, é óbvio que ele vai ter que conviver para o resto da vida com facto de que matou.

A gente também tem que ter a noção que eles eram levados para essas escolas religiosas e eles decoravam o Alcorão, que é em árabe, uma língua que eles não dominam, que não é a língua deles. A língua deles é o pashtun. Então eles eram ensinados a matar [e era-lhes dito] "você vai p’rò céu, para o paraíso e isso está escrito aqui”. Eles não tinham noção do bem e do mal.

Uma das primeiras lições que eles têm que ter, ao longo de todo o processo de desradicalização, é entender o bem, o mal e as zonas cinza, entre o preto e o branco, porque eles não têm essa noção. Depois, a maior parte dessas crianças, vem de famílias de 8, 9, 10, 16 filhos, em que as próprias mulheres fizeram parte [do processo]. São crianças que têm problemas neurológicos, ou que tiveram doenças de crianças, que tiveram alimentação [deficiente] que não tiveram [cuidado] pré-natal, são crianças que têm dificuldade de aprendizado... então é por isso que a taxa de abandono de escolar é muito alta, é uma região muito pobre. Tudo isso tem que ser levado em consideração. Ele é um extremista? Ele teve dúvidas. Ele conseguiu sair, dez anos depois, com 23 anos. Então quando alguém me diz “o extremista Ahmer”, eu fico [indignada].

Eu tive cuidado com a linguagem que eu usei. Por exemplo: fundamentalista. Se você pensar friamente, o fundamentalismo é voltar aos fundamentos da religião. Nenhuma religião tem nos seus fundamentos a morte. Então, mesmo as palavras que a gente utiliza, são palavras com uma conotação, com uma carga [negativa]. Aliás um dos personagens fala isso, o Ahmer. Porque é que quando um branco entra numa mesquita e mata todo mundo ele é doente? E quando é um muçulmano [a fazê-lo] ele é um extremista islâmico? A linguagem que a gente ouve na mídia, que massacra... Mesmo agora nos 20 anos de 11 de setembro, que eu fui à televisão e ouvi muito programa de televisão, a linguagem é sempre... sabe, são os maus, os bons. E há muita linha cinza nesse meio. Eu quis mostrar as subtilezas disso tudo. Não tem o preto no branco.

[...]

Simone Duarte com Baker Atyani, jornalista que entrevistou Osama Bin Laden
G. – Que mensagem gostaria de deixar para quem ainda não leu este livro ou ainda não está familiarizado com estas questões?

S.D. - Eu acho que é essa mensagem de tentar olhar o outro, não como um inimigo mas o outro como uma pessoa, como nós. É mesmo trazer a humanidade e olhar o outro como uma pessoa, não como um estereótipo e algo criado pela mídia, porque a maior parte das pessoas não são extremistas. A maior parte das pessoas só quer viver uma vida como qualquer outra. Quer ir ao cinema, quer estar com a sua família, quer amar, quer ver seus filhos ir para a escola, enfim... É tudo o que nós também queremos. E também perceber que nem sempre o nosso ponto de vista é o ponto de vista, digamos, que tem que vencer, que existem vários pontos de vista. Existem várias maneiras de ver e que nem sempre a nossa cultura tem que ser a maneira de ver que a gente tem que impor aos outros. Olhar o outro. Ouvir o outro e isso nas nossas sociedades europeias ou em qualquer lugar. Quando tem um imigrante ou um refugiado, tenta olhar o outro, não como inimigo, mas como uma pessoa que quer viver uma vida normal.

Texto de Sofia Craveiro
Fotografias cedidas por Simone Duarte

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