Pardon my English” no título da crónica de hoje (sendo a segunda vez que o faço), mas a minha rádio-cabeça, como diria a minha amiga Luanda Cozzetti, tem-me torturado com este refrão de 2017 do Kendrick que nos exige humildade debaixo de um raio luz e de uma série de exemplos bem comuns de soberba.

Aconteceu no Verão de 2018, o Moullinex reuniu um par um amigos para um set muito especial no festival Super Bock Super Rock de comemoração da música do Prince. Além da enorme alegria de dividir o palco com grandes amigos musicais a celebrar o senhor “Purple Rain”, a nossa presença no festival dava acesso ao backstage e foi por aí que entrámos no Pavilhão Atlântico (é assim que ainda se chama?) para receber a cereja no topo do bolo dessa noite. Entrámos frenéticos e subimos para o lado direito do gigante palco para ouvir uma sala cheia, ao barrote, a respirar em conjunto e literalmente a gritar todas as palavras que o Kendrick Lamar dizia. É bem reconhecido o poder do hip hop no circuito musical, mas é sempre arrepiante presenciar o fenómeno ao vivo e a cores. Não sei quantos milhares é que éramos, mas acho que nunca mais me irei esquecer da sensação que foi ouvir todos a cantar com as mãos no ar, “Sit down, be humble” (senta-te, sê humilde). O efeito hipnotizante, catalisador e poderoso fez-me acreditar que sairíamos dali todos mais humildes. Mas será que queríamos? A palavra humildade nem sempre tem uma conotação muito glamorosa e talvez a chave de a praticar resida aí, no esquecimento e rejeição de todo o glamour nas várias formas que tem.

Vi há pouco tempo um documentário sobre a vida e obra do Álvaro Siza Vieira e achei graça que durante muito tempo o genial arquitecto fez questão de reforçar o quão ignorante e medíocre era quando se começou a aventurar a desenhar e em momento nenhum identifiquei uma falsa modéstia, pareceu-me que ele acreditava mesmo nisso apesar de ter começado a desenhar muito cedo. Aliás, o que senti foi que essa arma – a falta de conhecimento técnico, humildade, “ignorância e mediocridade” misturada com muita curiosidade – terá sido a ferramenta essencial para que aprendesse e apreendesse tanto de todos os mestres que foi estudando e pessoas com quem foi convivendo. Seguiu-se ainda um comovente momento em que a entrevistadora fala com o Siza sobre a mãe dos seus filhos, o amor da sua vida que cedo partiu e o seu olhar comove-se tornando-o tão simples, tão puro, tão comum mortal… tirando a obra do senhor, nada lhe conheço mas consigo acreditar que pelo menos naqueles momentos da narrativa lhe reconheci a imensa humildade de quem se vê e sente igual ou até inferior a qualquer um, apesar da grandiosidade da sua obra e da honra que lhe temos.

Nos meus exercícios de auto reflexão tenho concluído que alguns dos piores episódios da minha vida pessoal aconteceram na sequência de orgulho ou por vaidade disfarçada, convicção de um sentido de razão do qual não me conseguia desprender, teimosia e falta de honra para com alguém. A soberba, por vezes, leva-nos a melhor, queremos ter razão, sabemos que temos razão é importante termos razão e a razão torna-nos soberbos, altivos donos de tudo e donos de nada… Mesmo por isso, na minha singela caminhada de crente aprendi uma série de coisas à volta da definição da palavra humildade à qual torci muitas vezes o nariz até engolir o meu orgulho. Mais do que a humildade significar que todos os meus dons ou sucessos não me pertenciam, que humildade implicava um exercício de reconhecer os outros como superiores a mim e que à humildade antecedia a honra, aos outros e a que nos é concedida… reconhecer os outros como superiores a mim??? Sim, é a única forma de não me considerar superior a ninguém, e poderia começar aqui a falar de igualdade, mas a nossa individualidade parece-me tão preciosa que não quero misturar alhos com bugalhos. Considerar os outros superiores a nós mesmos não significa que não tenha voz ou vez, mas que não tenho em mim mesma um conceito mais elevado do que devo ter, parece-me uma boa fórmula de sermos todos importantes, sem ninguém agir como mais importante. Que enorme “totozice”, mas que maravilhosa forma de encontrar paz e de ter os pés na terra. Vejo-me ou vejo-nos enquanto sociedade muitas vezes sentados numa espécie de trono da razão, expeditos na arte de criticar, céleres para apontar o dedo, esquecendo muitas vezes de virar um dos dedos para nós mesmos, talvez por isso no conturbado tempo que estamos a viver não pare de ouvir este refrão na minha rádio-cabeça.

Citando Filipenses 2:3 “nada façam por ambição egoísta ou por vaidade, mas humildemente considerem os outros superiores a vocês mesmos”. Se trocasse este versículo por miúdos diria, sai da tua cadeira da razão e do teu ponto de vista irredutível, senta-te e sê humilde, totós são os que não sabem ouvir e honrar os outros… SIT DOWN! BE HUMBLE! Listen, listen, listen : Sit down , be Humble!

*Texto escrito de acordo com o antigo Acordo Ortográfico 

-Sobre Selma Uamusse- 

De origem e nacionalidade moçambicana, residente em Lisboa, formada em Engenheira do Território pelo Instituto Superior Técnico, ex-aluna da escola de Jazz do Hot Club, mãe, esposa, missionária e activista social,  Selma Uamusse é cantora desde 1999. Lançou a sua carreira a solo em 2014, através da sua música transversal a vários estilos mas que bebe muito das sonoridades, poli-ritmias e polifonias do seu país natal, tendo apresentado, em 2018, o seu primeiro álbum a solo, Mati.  A carreira de Selma Uamusse ficou, nos últimos anos, marcada pelas colaborações com os mais variados músicos e artistas portugueses, nomeadamente Rodrigo Leão,  Wraygunn, Throes+The Shine, Moullinex, Medeiros/Lucas, Samuel Úria, Joana Barra Vaz,  Octa Push etc. pisando também, os palcos do teatro e cinema.

Texto de Selma Uamusse
Fotografia de Rafael Berizinski
gerador-selma-uamusse-gargantas-soltas