A iniciativa Situação 21 abriu portas no dia 15 de abril e pretende unir seis das mais privilegiadas galerias de arte, da cidade do Porto: a Galeria Fernando Santos, a Galeria Presença, a Galeria Nuno Centeno, a Galeria Quadro Azul, a Galeria Pedro Oliveira e a Kubigallery.

Através da conjugação da exposição de obras de autores referenciais com autores mais novos, o objetivo passa por “levar a cabo uma iniciativa que pudesse dar visibilidade acrescida a um setor particularmente afetado pelos constrangimentos causados pela pandemia e subsequente encerramento dos espaços”, explica Miguel Pérez, curador do projeto.

O projeto vai manter-se em exibição até 5 de junho, nas seis galerias portuenses, de forma gratuita. Face a isto, o Gerador esteve à conversa com Miguel Pérez para perceber melhor esta iniciativa, e de que forma a pandemia afetou o setor, e consequentemente estas seis casas portuenses. Ao longo desta entrevista, o curador procurou refletir sobre o projeto, o trabalho curatorial, e sobre os apoios que as galerias de arte têm recebido.

Gerador (G.) – A iniciativa Situação 21 une seis galerias da cidade do Porto em exposições simultâneas sob o mote “Histórias com amanhã – uma cartografia solidária da relevância das galerias do Porto”. Como é que surgiu esta ideia? Porquê a escolha destas seis galerias?

Miguel Pérez (M.P.) – A ideia partiu das próprias galerias. O objetivo era o de levar a cabo uma iniciativa que pudesse dar visibilidade acrescida a um setor particularmente afetado pelos constrangimentos causados pela pandemia com o subsequente encerramento dos espaços. Assim, quando me convidaram a ajudar a pensar um modelo, eu propus que se articulasse um evento, em que mediante uma escolha minha cada galeria apresentasse um projeto com curadores convidados.

Fotografia disponível via facebook KUBIKGALLERY

G. – Dentro do tema as “Histórias com amanhã – uma cartografia solidária da relevância das galerias do Porto”, cada galeria possui ainda um subtema. Neste caso, a Galeria Fernando Santos com o subtema “Contemporâneos Extemporâneos”; a Galeria Presença, “Pontas Duplas/Split ends”; a Galeria Nuno Centeno, “Os Conviventes”; a Galeria Quadro Azul, “Ária do encanto – uma flor que talvez não distinga o céu e a terra”; a Galeria Pedro Oliveira com “We Want Electricity”, e, por fim, a Kubigallery com “Uteropias”. Podes explicar-nos sumariamente em que consiste cada um dos subtemas das exposições?

M.P. –Não se trata de um subtema, mas da resposta individual e curatorial ao desafio que lancei a cada um dos curadores convidados: trabalhar com o acervo material e imaterial de cada uma das galerias participantes e aproveitar o contexto para introduzir elementos “prospetivos”. Isto é, conjugar a exposição de obras de autores referenciais das galerias com autores mais novos com quem não trabalhassem habitualmente. Assim o evento passou de uma simples soma de exposições de acervos para um olhar crítico e profícuo sobre a atualidade desses mesmos acervos na sua ressonância positiva no trabalho de autores mais novos ou mais distanciados deste circuito. O que importa ressalvar desta edição da Situação é a exemplaridade do trabalho curatorial que foi produzido. Não podia estar mais contente com a resposta que a Aida Castro, a Andreia Garcia, a dupla Luís Pinto Nunes e Luís Albuquerque, o Pedro de Llano, o Samuel Silva e a Susana Lourenço Marques (os curadores que convidei) deram ao projeto. O que eles conseguiram foi injetar um sentido próprio a cada um dos momentos que as galerias agora propõem, com escolhas concetualmente articuladas e obras surpreendentes, quer na sua individualidade e qualidade, como nas diversas linhas discursivas que a sua vizinhança material consegue estabelecer.

Fotografia disponível via facebook Galeria Fernando Santos

G. – Em entrevista ao JornalismoPortoNet (JPN), afirmavas que esta é uma iniciativa que “se pretende afirmar como uma montra de visibilidade a uma das atividades que mais sofreu com o contexto pandémico”. Sentes que esta é uma das atividades mais desvalorizadas do setor da cultura? Se sim, por onde pode passar a solução?

M.P. – Não se trata tanto de ser uma atividade desvalorizada, antes uma atividade que sem público praticamente deixa de fazer sentido. Na verdade, a Internet não substitui de maneira alguma o contacto físico, emocional e intelectual que as obras de arte exigem ao espectador. A relação das obras com o espaço, com as energias criadas pela simples disposição entre elas, são elementos fulcrais numa receção que se quer valorizada na sua experiência única.

Fotografia disponível via facebook Galeria Presença

G. – Neste seguimento, sentes que as galerias de arte representam, atualmente, uma das formas de internacionalização do nosso país?

M.P. – As galerias (estas galerias do Porto, como outras no país) têm tido um papel fundamental na divulgação da arte portuguesa no estrangeiro. Isto acontece porque muitas participam há décadas em feiras internacionais que facilitam essa projeção e visibilidade . Todos conhecemos as limitações que as instituições museológicas nacionais têm demonstrado quando se trata de apresentar exposições de autores nacionais no contexto internacional (contam-se pelos dedos as que se realizaram). Deste modo, essa visibilidade, ainda que condicionada pelo espaço de uma feira de arte, pode representar um primeiro contacto de colecionadores, museus e instituições como bienais de arte, com estes artistas. Poderia apontar múltiplos exemplos que acompanhei ao longo destes mais de trinta anos de trabalho nesta área!

Fotografia disponível via facebook Pedro Oliveira

G. – A iniciativa Situação 21 abriu portas ao público na passada quinta-feira, 15 de abril. Até quando poderemos usufruir desta exposição? Tem algum custo associado?

M.P. – As exposições estarão patentes até ao dia 5 de junho e são de visita totalmente gratuita. Este é, aliás, um dos aspetos que importa sublinhar na atividade galerística: paralelamente à sua atividade comercial, as galerias são instituições com uma importância fundamental na cultura nacional, pois são produtoras e montras atuantes daquilo que os artistas têm para nos oferecer. E estas galerias têm tido um papel fundamental nessa área, tendo frequentemente apresentado artistas internacionais pela primeira vez no nosso território.

Fotografia disponível via facebook Galeria Fernando Santos

G. – A Situação 21 conta ainda com o apoio material e institucional da Câmara Municipal do Porto (CMP). De que forma o município vos tem vindo a ajudar, face à chegada da covid-19 a Portugal?

M.P. – Considero o apoio da CMP a este evento um sinal extremamente encorajador exatamente na medida em que demonstra atenção e solidariedade para com um setor que é nuclear na construção de uma cidade aberta à contemporaneidade. Este apoio vem, aliás, no seguimento de uma outra iniciativa que a câmara pôs em marcha nos últimos anos, que é também ele um sinal muito positivo: a compra anual de obras de arte nas galerias da cidade.

G. – Está nos vossos planos alargar esta experiência a outras galerias de arte a nível nacional?

M.P. – Creio que nesta altura não faz muito sentido pensar no projeto a um nível nacional, já que em Lisboa, por exemplo, as galerias têm um modelo de colaboração já estabelecido, ainda que diferente deste. Espero, isso sim, que o projeto possa vir a ter continuidade e, se tal se vier a provar benéfico, alargar a outros possíveis intervenientes e modos de atuação, que poderiam passar pelo convite dirigido a colecionadores internacionais, à organização de debates e outro tipo de manifestações que pudessem dar visibilidade acrescida ao trabalho realizado.

Texto de Isabel Marques
Fotografia disponível via facebook Galeria Fernando Santos