Acordo, naquele primeiro dia, em esforço. Ensaio a maior aparente calma. Sinto-me em risco e talvez isso me entusiasme. Toda a manhã se passa na companhia de imagens que não consigo evitar visualizar, projetadas já no que virá depois.

O melhor será levar uma roupa muito banal, que não acentue nenhuma parte da minha figura, mais fato de treino que roupa de rua. Se puder ficar mais desinteressante, menos apelativa ao olhar, será perfeito. Tenho medo do olhar deles, medo de agradar e de sofrer consequências. Tenho de me proteger. Pode ser que me ouçam e respeitem melhor assim. Levo estas calças e esta camisola e um casaco quente. E tudo resto vai ter de caber dentro dos bolsos. No caminho penso - se me quiserem fazer mal basta um segundo. Basta quererem.

Dou por mim já na entrada, cumprimento as minhas companheiras, sorrio, converso, tento agir naturalmente. Tudo a partir dali é como um sonho estranho, em slow motion, o que faço e o que digo sai de mim sem comandos meus, como se eu me visse a ser eu. Está escrito “Cadeia Central” em letras grandes, de pedra, esculpidas por cima do grande portão verde - podia agora a Dorothy à chegada da Cidade das Esmeraldas no Feiticeiro de Oz, batendo no imenso portão verde do palácio. Quem lhe abre a porta é o mesmo impostor que finge ser o grande feiticeiro, que afinal nunca existiu.

Lá dentro somos perscrutadas, interrogadas, pequenos problemas burocráticos se passam. Autoridade e regras a cumprir. Esvazio os bolsos, fica tudo dentro de um cacifo. Sou revistada e passo uma porta que dá para uma estranha sala de espera, digna de filme. Poderíamos estar em qualquer sítio do mundo. Flores de plástico em cima de uma mesa de apoio, a televisão ligada sem som. Abre-se outro portão. Do outro lado um enorme pátio interior - passar de um portão ao outro é como ser lançada para uma praça de touros, uma arena de chacina. O corpo deseja-se pequeno - imagino os olhares por detrás das mil janelas. Ver e deixar-se ver. Escondo-me dentro do meu casaco. Daqui não há volta a dar. Novo portão, nova espera. Algo se passou entre os prisioneiros x e y. Queria poder ter uma máquina fotográfica nas mãos. Abrem uma outra porta para um corredor, subimos uma escada - está frio, tudo muito escuro e degradado, baldes pelos degraus, chove dentro. No topo uma grande sala branca, com um grande pé, o chão gelado, um quadrado grande de linóleo improvisado no meio. Ao fundo um palco, ou um altar. Bancos corridos de madeira - uma igreja. Cortinas vermelhas - um teatro. Janelas rasgadas até ao tecto, entrecortadas por pequenos rectângulos de vidro para que um corpo por inteiro não possa passar - talvez caiba um braço que queira acenar, estender-se ao sol.

Eles chegam mais tarde, não chegam todos de uma vez, uns apresentam-se outros envergonham-se. Tento a grande velocidade ler as suas caras, decorá-las, procurar alguma coisa - o que esperava eu? É possível ver pela cara de uma pessoa alguma pista sobre se é inocente ou culpada? Reparo que só existe um homem branco no grupo. O que terão visto já os outros naquelas caras? A cor primeiro e a cor por fim. A cor como prova que baste.

Não vou contar aqui o que trabalhámos juntos mas posso contar dos olhos atentos, do respeito, da felicidade, da disponibilidade sem entraves. Posso contar também dos corpos juntos sem violência, da delicadeza e do colo, da curiosidade saudável, e do momento em que a sala deixou de ser numa prisão e eu deixei de ser uma mulher entre homens.

Lá fora, como num pesadelo Beckettiano ouvia-se com pouco tempo de intervalo uma voz  que dava indicações incessantemente a um megafone. Uma voz que falava para não nos deixar esquecer, para não deixar sonhar - ainda aqui estamos, parecia dizer ela. Pensei no que a Hanna Arendt dizia sobre tornar as pessoas inúteis nos campos - obrigá-las a fazer tarefas para o nada e deixá-las habitar no vazio sem saída.

A imaginação, a fruição, os gestos partilhados são tudo. Quando se discute o valor da arte está a discutir-se o essencial. A diferença entre sobreviver passando pela vida e poder habitar por inteiro nela. Cortar isso de qualquer pessoa é o verdadeiro crime de raíz.

“Sonhei que havia um terramoto e que o edifício da prisão rachava-se e todos começavam a fugir e eu ficava parado. Não sabia se seria pior ficar ou fugir.” “Sonhei que fugia de tiros e tentava salvar a minha mãe. E depois o racismo acabava e nós fazíamos aos brancos o que eles nos tinha feito a nós porque assim de certeza que ficava tudo bem. Todos tinham sentido o mesmo. Mas no fim afinal voltava tudo ao mesmo e voltava a haver escravatura.”

Visto o meu casaco, despedimo-nos, desço as escadas, passo a porta, passo o portão e agora o pátio já não é arena mas qualquer coisa que não foi pensada para existir. De costas ouço um “adeus Sara!” e quando olho para trás lá estão alguns deles, com o corpo escondido pelas frestas das janelas e pelas barras de ferro, a acenar na despedida. Não sei o que fazer. “Adeus!”. Eu a dar-lhes as costas. Mais dois portões de distância para o mundo.

Pensei muitas vezes escrever-lhes cartas mas não saberia o que dizer. Talvez esta seja a carta possível, meus caros…

Abrantes
Novembro, 2021

-Sobre Sara Carinhas-

Nasceu em Lisboa, em 1987. Estuda com a Professora Polina Klimovitskaya, desde 2009, entre Lisboa, Nova Iorque e Paris. É licenciada em Estudos Artísticos pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Estreando-se como actriz em 2003 trabalhou em Teatro com Adriano Luz, Ana Tamen, Beatriz Batarda, Cristina Carvalhal, Fernanda Lapa, Isabel Medina, João Mota, Luís Castro, Marco Martins, Nuno Cardoso, Nuno M. Cardoso, Nuno Carinhas, Olga Roriz, Ricardo Aibéo, e Ricardo Pais. Em 2015 é premiada pela Sociedade Portuguesa de Autores de melhor actriz de teatro, recebe a Menção Honrosa da Associação Portuguesa de Críticos de teatro e o Globo de Ouro de melhor actriz pela sua interpretação em A farsa de Luís Castro (2015). Em cinema trabalhou com os realizados Alberto Seixas Santos, Manoel de Oliveira, Pedro Marques, Rui Simões, Tiago Guedes e Frederico Serra, Valeria Sarmiento, Manuel Mozos, Patrícia Sequeira, João Mário Grilo, entre outros. Foi responsável pela dramaturgia, direcção de casting e direcção de actores do filme Snu de Patrícia Sequeira. Foi distinguida com o prémio Jovem Talento L’Oreal Paris, do Estoril Film Festival, pela sua interpretação no filme Coisa Ruim (2008). Em televisão participou em séries como Mulheres AssimMadre Paula e 3 Mulheres, tendo sido directora de actores, junto com Cristina Carvalhal, de Terapia, realizada por Patrícia Sequeira. Como encenadora destaca “As Ondas” (2013) a partir da obra homónima de Virginia Woolf, autora a que regressa em “Orlando” (2015), uma co-criação com Victor Hugo Pontes. Em 2019 estreia “Limbo” com sua encenação, espectáculo ainda em digressão pelo país, tendo sido recentemente apresentado em Londres. Assina pela segunda vez o “Ciclo de Leituras Encenadas” no Jardim de Inverno do São Luiz Teatro Municipal.

Texto de Sara Carinhas
Fotografia de João Silveira Ramos
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
gerador-gargantas-soltas-sara-carinhas