Mallu Magalhães e Marcos Zeballos, mais conhecido por Zeeba, são dois amigos de infância e artistas musicais de nacionalidade brasileira. Ainda assim, devido aos diferentes percursos de vida, acabaram por se afastar. Por ironia do destino, a música acabou por os unir novamente, este ano.

Este reencontro resultou num novo single intitulado de “Só pensando em você”. Nas palavras de Mallu Magalhães, este pretende recordar “como é poderoso o amor, que nos faz sentir bem apenas em lembrar de alguém de quem gostamos”.

Ainda assim, esta não é a única surpresa. Para a execução do videoclipe contaram, ainda, com uma terceira pessoa — fotógrafa e realizadora Joana Linda. O vídeo pretende levar até aos espectadores uma sensação de “doce melancolia”.

Em entrevista ao Gerador, este trio (Mallu, Zeeba e Joana) “doce melancolia”, ou “ZeMaJo”, falou acerca do processo de composição da música, do procedimento de gravação, em Lisboa, do videoclipe, numa altura de pandemia, e sobre as ambições futuras a nível profissional, de cada um.

Gerador (G.) – Recentemente lançaram um novo single intitulado de “Só Pensando em Você”. A ideia do duo já estava há muito tempo nos vossos planos? Já se conheciam anteriormente?

Marcos Zeballos (M.Z.) – Eu conheci a Mallu no colégio. A gente estudou na mesma sala de escola até aos 11 anos. Acompanhei o sucesso dela aqui no Brasil, com 15 anos. A gente se encontrava em situações. A minha carreira demorou mais tempo.

Eu fui fazer uma entrevista a Nova Iorque, e a repórter, que era brasileira, perguntou-me sobre artistas brasileiros, e, na altura, falei da Mallu. A repórter também a conhecia e fez a gente juntar de novo. A gente voltou a falar em 2017/2018. Foi nesse ano que escrevi a “Só Pensando em Você”, e pensei em fazer o feat. O nome da Mallu foi o que me veio logo à cabeça.

A música encaixava-se, em tudo, com ela. Depois, mandei para ela, e ela escreveu lá três versos maravilhosos… Foi tão difícil escolher! Mas chegámos a um consenso e deu o que deu. Eu sou mesmo muito fã da Mallu. Estou super contente com o duo.

Mallu Magalhães (M.M.) – Sim! Estudámos na mesma sala, na escola, durante alguns anos… Depois, perdemos contacto, mas quando o Zeeba começou a tocar, comecei a acompanhar o trabalho dele e retomamos a amizade. Sempre esteve nos planos trabalharmos juntos. Às vezes, trocávamos algumas linhas ou ideias, ou tentávamos gravar alguma coisa, mas só agora chegámos a um resultado mais sólido e que gostamos bastante. Foi uma alegria poder finalmente ter um trabalho em parceria.

Fotografia disponível via facebook Zeeba

(G.) – Zeeba que aspetos musicais achas que a Mallu possui, e que, consequentemente, acabaram por tornar este projeto ainda mais único?

(M.Z.) – Eu acho que ela tem um timbre que traz uma paz, que conversa muito com a música. Eu acho que tem tudo que ver comigo. Eu achei mesmo a música a cara dela. Ainda por cima, ela escreve bem.

Fotografia disponível via facebook Mallu Magalhães

(G.) – Face ao novo single, que temas vos foram mais prioritários de incluir?

(Z.M.) – Eu acho que a música começou com uma frase sobre o abraço. “Eu posso sentir o que um abraço faz”; “Fica mais forte quando você se vai”. Às vezes é mais forte a saudade do abraço, do que a abraço em si. A lembrança do abraço é mais forte. E eu acredito que as pessoas podem estar presentes mesmo sem o estarem fisicamente. Era esse assunto que a gente estava discutindo.

Ainda assim, a Mallu falou para mim que virou mais um negócio de romance, mas é engraçado como para mim teve outra interpretação. Eu acho que é sobre o amor. Sobre amigos que a gente ama. Pode ser para qualquer tipo de relação de amor.

Aliás, ainda mais sentido fez com a pandemia em que estamos todos à distância. Tem essa questão que acabou por calhar e ser a acertada.

(M.M.) – Quando eu recebi a canção o tema já estava lá, e achei bastante bonito. A ideia de que só através do pensamento acedemos ao vínculo e ao amor que temos nos nossos laços, seja em romance, amor ou família. Acredito muito na força dos nossos laços e acho que, nestas alturas de confinamento, especialmente, ficou ainda mais evidente como somos feitos e como fazemos as nossas bases nas relações e histórias que construímos e vivemos.

Fotografia disponível via Pexels

(G.) – Explorando, agora, um pouco mais a letra da música do “Só Pensando em Você”. Ao longo desta, ouvimos: “Eu posso sentir o que um abraço faz”; “Fica mais forte quando você se vai”; “Só pensando em você”. Esta é uma mensagem que nos chega num tempo em que nos vimos forçados a manter o distanciamento, e que nos recorda o valor da relação com os outros. O lançamento da música foi realmente pensado para esta altura, de pandemia, por uma questão de nostalgia, para nos recordar o quão bom é termos alguém?

(Z.M.) – Sim! Foi super natural falar sobre isso, porque toda a gente está a viver isso. Não foi propriamente pela pandemia… Foi mais sobre o viver mesmo.

(M.M.) – Sim, com certeza… A letra diz como é bom podermos estar pessoalmente e fisicamente com quem amamos, que deixa saudade. Mas também aponta um caminho para vivermos e atingirmos esses laços, através do pensamento. Achei bonito e me identifiquei com esse ponto, como é poderoso o amor, que nos faz sentir bem apenas em lembrar de alguém de quem gostamos.

(G.) – Refletindo, agora, sobre o futuro… O que gostavam ainda de alcançar profissionalmente e pessoalmente? Um novo duo está nos vossos planos?

(Z.M.) – Com certeza! Eu acho que as nossas vozes super que combinaram! Eu ainda não tenho uma [música] nova, mas tenho de mandar outra para ela. Eu estou fazendo um álbum, tenho parcerias aí por vir. O próximo lançamento é em abril, sendo que já estou a fazer reuniões para se tornar uma coisa bonita.

Agora, claro que a pandemia deu uma pausa na carreira. A gente não tem show, mas uma pessoa vai pensando em novos lançamentos. E, apesar de tudo, este ano acaba por ser uma realização pessoal. Eu sempre quis ter um álbum assim! Então estou a fazê-lo com calma… Até porque, antes da pandemia, tínhamos de fazer tudo com pressa. Agora, é um novo projeto que tem a minha identidade. Estou ansioso com o lançamento.

(M.M.) – Por mim, sim! Adoro trabalhar com o Zeeba e espero que este seja o primeiro de muitos!

Fotografia disponível via facebook Zeeba

(G.) – Ainda assim, esta não é a única surpresa… O videoclipe tem, ainda, a particularidade de ser realizado pela Joana Linda. Face à pandemia, que invadiu o nosso país, quais os principais desafios que sentiste para a realização do videoclipe?

Joana Linda (J.L.) – Eu fiz este vídeo com o Zeeba antes de começarmos este novo confinamento. Para mim, particularmente, é muito difícil trabalhar nesta altura da covid. O meu trabalho tem que ver com as pessoas, e a proximidade com as pessoas, então eu fico meia bloqueada quando tenho de pensar em ideias.

Neste caso, acabou por ser fácil porque nós fomos todos testados antes, o que deu alguma sensação de segurança. Apesar de sabermos que os testes têm um prazo. Depois, éramos uma equipa pequena, para reduzir o número que estaria numa rodagem e para reduzir o risco de infeção.

Na verdade, a equipa do Zeeba já tinha uma ideia, no geral, do que queriam para o vídeo. Portanto, acabou por ser um processo fácil e harmonioso.

(Z.M.) – Eu adorei todo o processo! Mas é muito chato o que estamos a passar e ainda bem que deu tempo para fazer as coisas todas antes deste novo lockdown. Quase que não conseguia voltar para o Brasil. Acho que a gente se planejou bem, antecipadamente.

(J.L.) – Para além da covid, na semana em que filmamos o vídeo, tivemos uma frente fria. E nós tínhamos planeado filmar na praia e queríamos um efeito específico que aquela praia tem, que acabou por não ser possível. Mas ficou super bonito e resultou bem.

Claro que isto da covid também tem outra questão… Por exemplo, no caso da Mallu nem tanto porque já trabalhei com ela e conheço-a, mas, no caso do Zeeba, eu não o conhecia. E claro que isso interfere um pouco na vida social. Há todo um lado de uma pessoa que vem para cá, de um país estrangeiro, e tu não consegues ser um bom anfitrião. Por exemplo, de o levar a jantar fora, a conhecer Lisboa, etc.

Fotografia disponível via facebook Joana Linda

(G.) – Que sensações pretendeste transmitir com este videoclipe aos espectadores?

(J.L.) – Então, a música é calma, melancólica, mas não chega a ser triste. É assim uma espécie de saudade que sabe bem. E então a ideia era criar uma coisa universal neste sentimento de melancolia. De sentir saudades de alguém, mas também de não ser um drama total. É uma doce melancolia que a música tem, e que o vídeo tinha de acompanhar. Era fazer uma coisa que comunicasse rapidamente com um largo espectro de pessoas e de relações afetivas, que não tinham de ser necessariamente casais. Era um sentimento doce, bom, melancólico. Não sei bem definir, mas acho que é mesmo este doce melancólico.

(Z.M.) –  Acho mesmo que é a reflexão. Ao mesmo tempo, passa um conforto, e uma paz. Eu gosto muito desta visão da Joana, que passa movimentos mais lentos, quase como se fosse uma fotografia.

(J.L.) – É uma relação bonita.

Zeeba feat Mallu Magalhães - Só Pensando Em Você

(G.) – Joana, como é que começou esta relação bonita com a fotografia e o vídeo? Quando é que eles entraram na tua vida? Perspetivando já um pouco o futuro o que gostavas, ainda, de alcançar?

(J.L.) – Eu, na verdade, estudei uma espécie de curadoria. E, na altura, estava em teoria e história da arte, e no meio desse caminho, na verdade, queria fazer cinema. Mas depois escolhi outro percurso.

No meio decidi que não queria cinema, mas sim fotografia. Depois, a minha passagem para o vídeo, e para o cinema, também foi uma coisa natural. Teve muito que ver com a transição para o digital. Eu até costumo contar esta história… Há uma cantora norte-americana, que, na altura, tinha alguma visibilidade, e estava a pedir, no MySpace, videoartists, e eu fiz um vídeo para ela sem perceber nada de vídeo. E, de repente, tinha a agência dela a ligar-me porque queriam estrear o vídeo. Portanto, foi assim uma entrada triunfante.

A partir daí, fiquei sempre aqui, a trabalhar na imagem e no vídeo. Sempre fui muito ligada à música também. Depois, foi sempre Lisboa… Portugal é muito pequeno e vais sempre conhecendo novas pessoas.

Olha, quanto ao futuro não tenho assim nenhum plano. Mas gostava de, nos próximos anos, me dedicar mais ao trabalho pessoal, e também ser mais seletiva no trabalho que faço.

Fotografia disponível via Joana Linda

(G.) – Numa situação hipotética, imaginem que agora formavam uma equipa. Se vos pedisse para dar um nome a este trio como se chamariam?

(Z.M.) – Podia ser ZeMaJo.

(J.L.) – Olha pode ficar os Doce Melancolia!

(M.M.) – Talvez alguma coisa que unisse o nosso trabalho em português e em inglês.

(G.) – Gostavam de acrescentar mais alguma coisa em relação a este projeto?

(J.L.) – Olha vem aí mais coisas… Uma outra versão da música. Foi realmente uma boa experiência, apesar de ter sido meio inesperado. Mas gostei mesmo muito de trabalhar com eles. Fiquei contente com o resultado. Nem sempre ficas com uma boa sensação dos trabalhos, e deste fiquei. Até porque, às vezes, é difícil conciliar os gostos e as personalidades. Aqui conseguimos encontrar um denominador para os três. E, claro, espero que a música faça sucesso em Portugal.

(Z.M.) – Esta fase nova é para mostrar este meu lado de cantor, porque as pessoas tendem sempre a achar que sou Dj, por este meu lado eletrónico… Estou focado neste lado do violão, do cantor.

(M.M.) – Gravámos a minha parte, o vídeo e também um conteúdo extra em Lisboa. Foi uma alegria poder trabalhar com a Joana Linda. Foi um tanto desafiador o frio da praia em janeiro, mas valeu a pena, o resultado ficou lindo.

Zeeba Feat Mallu Magalhães - Só Pensando em Você [Ao Vivo]

Texto de Isabel Marques
Fotografia disponível via facebook Zeeba