“O amor é o que o amor faz.”, bell hooks

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Podia ser sobre amor ou sobre o que o amor é;

Podia ser sobre o amor que é amar, mas é sobre viver que escrevo.

É sobre o sobreviver que acontece através do amor e por/para amar.

É sobre viver para além do tempo que temos nos anos desta vida.

É sobre e para homenagear bell hooks.

bell hooks em 2018. Fonte: The Guardian

bell hooks (escrito em letras minúsculas em forma de homenagem à sua bisavó Bell Blair Hooks, a escritora revela que as suas ideias são mais importantes que o seu nome/identidade) escreveu ALL ABOUT LOVE no ano 2000, o ano em que o mundo ia acabar e não acabou apresentando o amor não apenas como um sentimento, mas como algo que se faz. Algo que vem de/com gestos, de/com responsabilidade, de/com ações. Fala sobre viver para além deste tempo e das normas impostas por ele. De estar mais do que pensar, mais em ação do que em teoria.

Ao longo da sua carreira, bell hooks escreveu mais de 40 obras e, por todo o seu contributo a este mundo, hoje falo dela e lembro a frase da autora com que este artigo começa, para que a vida seja mais sobre o que o amor faz.

Na sua definição de queer que num outro contexto qualquer quer dizer estranho, bell hooks diz que ”queer não é sobre com quem alguém faz sexo (que pode ser uma dimensão do mesmo); mas queer é ser com o desafio em relação a tudo à sua volta e que por isso tem de se (re)inventar, criar e encontrar um lugar de fala para prosperar e viver” (tradução livre).

Gloria Jean Watkins, que nasceu a 25 de Setembro de 1952 em Hopkinsville, Kentuckye, nos Estados Unidos da América, e faleceu na passada quarta-feira, 15 de Dezembro de 2021 com 69 anos de idade, no seu trabalho, aborda temas como amor, feminismo, anti-racismo, educação. Transgressora, podia ser pensada como alguém fora do seu tempo, mas diria que é alguém que estava no tempo certo, contribuindo para pensarmos no nosso tempo como algo diferente do que o que achamos que o tempo é, através de ferramentas anti-coloniais, sendo que o amor é uma delas.

Amar como forma de subverter a opressão que nos objetifica e desumaniza porque como a autora diz “sistemas de dominação são mais eficazes quando alteram a nossa habilidade de querer e amar.” Amar como forma e ferramenta de se pronunciar à partida e não à chegada sobre a necessidade de pensar em desigualdades e opressões, de ser e estar em plenitude para que a vida não seja um conjunto de formas de sobrevivência, mas sim de prosperidade.

bell hooks apresenta-nos o viver num tempo que é de outra temporalidade, em que é no amor que quebramos radicalmente com o que os dias de hoje nos dizem que é o dia-a-dia, ajudando-nos a olhar para a história, para o estar, o ser, o amar com olhos novos, de coração inteiro, para além de nós e com outras pessoas.

Escrevo hoje sobre viver porque a vida são tantas coisas que muitas vezes nos esquecemos do essencial. Amar.

-Sobre Alexa Santos-

Alexa Santos é formada em Serviço Social pela Universidade Católica de Lisboa, em Portugal, e Mestre em Género, Sexualidade e Teoria Queer pela Universidade de Leeds no Reino Unido. Trabalha em Serviço Social há mais de dez anos e é ativista pelos direitos de pessoas LGBTQIA+ e feminista anti-racista fazendo parte da direção do Instituto da Mulher Negra em Portugal e da associação pelos direitos das lésbicas, Clube Safo. Mais recentemente, integrou o projeto de investigação no Centro de Estudos da Universidade de Coimbra, Diversity and Childhood: transformar atitudes face à diversidade de género na infância no contexto europeu coordenado por Ana Cristina Santos e Mafalda Esteves.

Texto de Alexa Santos
Fotografia de Lisboeta Italiano
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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